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20/05/2019

 

 

Filme sobre Allan Kardec conta como um cético se tornou pai do espiritismo

Cinebiografia com temática espírita promete levar multidão de fiéis aos cinemas

 

por Anna Virginia Balloussier
Folha/UOL

 

 

Tinha que ser no Brasil. Pergunte na França sobre Allan Kardec e pouquíssimos franceses vão saber dizer quem foi o conterrâneo que criou, no século 19, uma doutrina que até hoje move paixões — e cifras — no outro canto do mundo.

Nosso país é o mais espírita do planeta, com 3,8 milhões de pessoas que declararam seguir a religião, fora os simpatizantes — é aquela história do sujeito que vai à missa ou culto para tentar falar com a finada mãezinha por meio de um médium.

A cinebiografia “Kardec - A História por Trás do Nome”, por isso, tinha mesmo que ser do Brasil, onde filmes com temática espírita levam milhões aos cinemas.

A produção de Wagner de Assis não é sobre um homem de fé. Não a princípio. Definitivamente não era assim que Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869) se via. Ele era o cético que tentava explicar fenômenos paranormais pela ciência e virou Allan Kardec, autor de “O Livro dos Espíritos”, de 1857. Na tela, é interpretado por Leonardo Medeiros.

Há uma linhagem de médiuns importantes na sua família, diz o ator. Seu tio-avô, por exemplo, Eurípedes Barsanulfo, era médium mineiro tido como tão poderoso que Chico Xavier batizou um filho seu com o nome dele. “Só que tenho questionamentos pessoais”, diz. Precisa ver para crer.

Assim como Kardec. “Me sinto muito confortável, pois me sinto parecido com ele, que não era médium, não psicografava. Mas, diante de um fenômeno natural que começou a testemunhar, percebeu coerências e aplicou o método científico”, afirma Medeiros. A história está em “Kardec - A Biografia” (2013), livro de Marcel Souto Maior que embasou o filme.

Há cerca de 150 anos, o professor foi atrás do espetáculo das mesas girantes que tanto agitava a França. Objetos que pareciam dominados por forças ocultas e que eram ironizados pelos jornais à época.

“Só se ouve falar, por toda parte, da mesa que gira: o próprio Galileu fez menos ruído no dia em que provou-se realmente a Terra que girava em torno do Sol”, publicou o L’Illustration em 1853.

De assombração a delírio coletivo, pululavam explicações para o fenômeno. A Igreja achava que era obra do Diabo. Kardec usou as ferramentas científicas do momento para palpitar: podia ser a eletricidade —essa grande novidade— dos corpos reunidos numa sala, a força magnética deles, que fazia as mesas darem seus duplos twists carpados. Havia até quem apostasse na recém-inventada telefonia como um canal para o além.

Kardec não se contentou com seu palpite. Quem optar pela ciência, dizia, “não mais crerá em fantasmas, não mais tomará fogos-fátuos por espíritos”.

Havia embustes, claro, que se assemelhavam a traquitanas que Kardec viu num teatro no qual trabalhou —como charlatães que exibiram o suposto esqueleto de uma sereia num museu, à época. Mas, depois de tudo o que presenciou, convenceu-se: espíritos eram muito reais.

Com ajuda de médiuns que diziam se comunicar com eles, escreveu seu best-seller, um compilado de 501 diálogos entre vivos e mortos. No último capítulo, incluiu entre os colaboradores do além de João Evangelista, apóstolo de Cristo, a Samuel Hahnemann, pai da homeopatia.

O autor escolheu um pseudônimo, afirma Souto Maior, por antever a luta contra a Igreja, o ataque da imprensa e a descrença dos companheiros da ciência. De pouco adiantou, pois foi descoberto e penou com tudo isso.

Mas de onde veio esse nome? Uma entidade chamada Zéfiro que sugeriu, segundo o biógrafo. O espírito brincalhão e o compenetrado professor teriam trabalhado juntos como druidas, na época do imperador Júlio César. Naquela encarnação, ele atenderia por Allan Kardec.



Há detalhes na trajetória do autor que não estão no filme de Assis, que já roteirizou longas da Xuxa e o blockbuster “Nosso Lar”. Como traços de racismo em “A Gênese” (1868), no qual Kardec escreveu que não era “uniforme o progresso em toda a espécie humana”, até porque seria “impossível atribuir-se a mesma ancianidade de criação aos selvagens, que mal se distinguem do macaco, e aos chineses, nem, ainda menos, aos europeus civilizados”.

“Nesse trecho polêmico, ele acabou ecoando preconceitos de sua época. Como dizia Chico Xavier, somos todos falíveis”, afirma Souto Maior.

No Brasil, os primeiros abolicionistas foram kardecistas baianos, diz a historiadora Mary del Priore, autora de “Do Outro Lado - A História do Sobrenatural e do Espiritismo”. Eram advogados e médicos que recebiam espíritos de escravos romanos e foram detonadores do movimento.

Não por acaso o espiritismo floresceu no Brasil, onde chegou no século 19 de “mãos dadas com a moda do francesismo nas classes mais altas e médias”, diz a historiadora. Acabou germinando em todas as esferas sociais num país que “sempre foi encruzilhada de religiões, e com um culto aos mortos muito presente”.

Bem diferente da França, que pode ter se empolgado com as mesas girantes por um tempo, mas tem “tradição desde a Revolução Francesa de combate às religiões”.

O diretor do filme afirma que “torce o nariz docemente” para a catalogação de sua obra como um filme espírita. Seria uma produção para crentes e não crentes, diz, por tratar de aspectos contemporâneos, como a intolerância religiosa. O diretor, que é espírita, conta ter se impressionado quando, numa locação carioca que simulava a casa de Kardec, deparou-se com uma oração colada dentro da caixa de luz.

Lembra Mary Del Priore: “Santo Agostinho dizia que, para quem não acredita, nenhuma palavra basta, e, para quem acredita, nenhuma palavra é necessária”.

 

PERGUNTAS E RESPOSTAS

O que é ‘O Livro dos Espíritos’?
Com ajuda de vários médiuns, o professor organizou 501 diálogos com perguntas que fazia, tipo ‘como criou Deus o Universo?’, e que os mortos respondiam: ‘Para me servir de uma expressão corrente, direi: pela Sua vontade. Nada caracteriza melhor essa vontade onipotente do que estas belas palavras de Gênesis —Deus disse: faça-se a luz e a luz foi feita’.

Quem o escreveu?
As questões foram lançadas por Kardec, mas ele creditava as respostas, que lhe vinham por meio de médiuns, a vários espíritos, alguns deles célebres, como o apóstolo João Evangelista, Santo Agostinho e os filósofos Platão e Sócrates.

Por que a doutrina pegou no Brasil?
O kardecismo chegou ao país no século 19, como moda francesa, e ficou pop nas classes mais altas. Logo se espalhou pela pirâmide social. O Brasil, afinal, é uma "encruzilhada de religiões" que têm culto aos mortos, "africanas, indígenas, mesmo a católica", diz a historiadora Mary Del Priore.

A ideia da reencarnação é contestada pelo aumento populacional?
Os espíritos, segundo o kardecismo, são sempre mais numerosos que a população encarnada. Assim, não seria preciso ‘criar’ novos espíritos conforme o mundo cresce. Há, inclusive, trânsito espiritual entre planetas, segundo ‘O Livro dos Espíritos’, que diz sobre o tema: ‘O homem terreno está bem longe de ser, como acredita, o primeiro em inteligência, bondade e perfeição’.

 

 

 

 

 

 

 

 

trailer do filme:

 

 

 

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/05/filme-sobre-allan-kardec-conta-como-um-cetico-escreveu-o-livro-dos-espiritos.shtml

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Filme sobre Allan Kardec atrai apenas os iniciados no espiritismo

Com tom panfletário, longa opta por um volume muito grande de coisas a relatar

 

por Thales de Menezes

 

"Kardec" provavelmente será sucesso de bilheteria. E essa aprovação do público deve nascer de um dos problemas do filme: o tom panfletário na narrativa de vida do educador francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, que passou à história como Allan Kardec. Os seguidores de sua doutrina serão atraídos ao cinema.

O longa de Wagner de Assis apela direto a quem tem contato com o espiritismo ou pelo menos está de cabeça aberta para uma aproximação. O tom de panfleto, no caso, vem de um roteiro preocupado em listar conclusões que sustentem a proposta de normatizar o contato com os mortos.

A missão é ingrata porque o arco de acontecimentos é extenso. O foco vai da maturidade do professor, quando se mostra cético às mesas de contato espírita que proliferam na Paris do século 19, até sua aceitação de que tal contato é possível e o desenvolvimento de um método científico para comprová-lo.

O enredo se estende também à publicação de "O Livro dos Espíritos", sua condição de best-seller e às perseguições da igreja e da comunidade científica.

Com tudo isso, é um volume muito grande de coisas a relatar. O que se vê na tela é uma certa simplificação desses episódios. O roteiro torna-se fragmentado, mas cada momento de tensão se resolve rapidamente, não há tempo para um ritmo narrativo mais envolvente.

Em alguns aspectos, é uma produção primorosa. Os cenários de interiores têm muita qualidade. A fotografia se apresenta como o grande destaque técnico. A Paris antiga renasce de um tratamento de luz e cor dado às imagens dos prédios seculares da cidade, num resultado muito bonito e que imprime ao filme uma assinatura visual única.

Quanto ao elenco, não há qualquer reparo possível a Leonardo Medeiros e Sandra Corveloni, que interpretam Kardec e sua mulher, Amélie-Gabrielle Boudet. Mas a dupla, que tem talento de sobra para garantir uma química na tela, está presa a um roteiro que obriga o elenco a uma atuação um tanto pomposa, impessoal.

O problema reside nos diálogos. Com a já citada decupagem impiedosamente rápida do roteiro, algumas falas têm a função de sintetizar a importância daqueles momentos escolhidos para recriar a trajetória de Kardec.

Quase nenhuma conversa carrega um tom natural. Cada personagem parece estar ali para defender alguma afirmação essencial para a compreensão da construção do método de Kardec. Todas as falas soam como declarações destinadas a ficar na história.

E, mesmo com essa preocupação didática, falta espaço para explicar melhor a metodologia que o educador empregou no trabalho. Entre as investigações iniciais dos fenômenos até a construção de uma doutrina espírita, os fatos transcorrem muito rapidamente, passa a sensação de assistir ao resumo de uma história muito maior. Assim, o filme deve ser muito melhor apreciado por quem já é iniciado no tema.

O louvável em "Kardec" é ampliar o cinema brasileiro dedicado à questão do espiritismo, um caminho que o diretor Wagner de Assis já percorreu em "Nosso Lar" (2010), baseado em livro de Chico Xavier.

Falta abandonar o tratamento doutrinário dos enredos, para inserir o espiritismo em narrativas mais atraentes. Caso contrário, continuará um cinema para um gueto de seguidores.

 

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/05/filme-sobre-allan-kardec-atrai-apenas-os-iniciados-no-espiritismo.shtml

 

 

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