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07/09/2018

 

 

 

Pesquisadores espíritas se reúnem em Belo Horizonte - Correio Fraterno entrevistou o pesquisador Jáder dos Reis Sampaio, coordenador-geral do ENLIHPE 2018

 

Realizado em 25 e 26 de agosto, em Belo Horizonte, na sede federativa da União Espírita Mineira, o 14º Encontro Nacional da Liga de Pesquisadores do Espiritismo (2018) reuniu participantes de várias regiões do País, que apresentaram trabalhos de pesquisa com relação ao tema "Sobrevivência da alma em foco".

Para um balanço-geral do evento, o Correio Fraterno, um dos apoiadores, entrevistou o pesquisador Jáder dos Reis Sampaio, coordenador-geral do encontro, que também lançou seu novo livro Conversando com os espíritos, um toque de humanismo (Ed. Lachâtre)

 


Jáder dos Reis Sampaio

 

Qual a importância desses encontros?

Os encontros "materializam" a LIHPE – Liga de Pesquisadores do Espiritismo. Criada por Eduardo Carvalho Monteiro (1950-2005) no final da década de 1980 como um canal virtual para troca de informações, a Liga não possui diretoria, estatutos, sede, quadro de sócios e nem recolhe contribuições, possuindo apenas um cadastro de espíritas dedicados à historiografia e pesquisas em diversas áreas, e que se relacionam entre si, trocam conhecimentos, fazem parcerias e se ajudam no desenvolvimento de trabalhos. Uma coisa é conversar via internet, outra são esses encontros anuais presenciais que possibilitam mobilizar pesquisadores para trabalhar concretamente por um objetivo comum.

O que você destacaria no evento deste ano?

Conhecer a revisão já feita e as propostas de trabalho do Núcleo de Pesquisas em Saúde e Espiritualidade, uma instituição acadêmica da Universidade Federal de Juiz de Fora, congregando professores-pesquisadores de diversas áreas, em torno do tema da sobrevivência da alma foi um bom momento. Foi também de grande satisfação conhecer pessoalmente o Prof. Humberto Schubert Coelho, também da UFJF, que atendeu ao nosso convite e veio falar da fundamentação metafísica das pesquisas e autografar seus livros Genealogia do espírito e A filosofia perene. Outro ponto importante foi a publicação do livro A sobrevivência da alma em foco, com os trabalhos sobre o tema central do evento, simultaneamente ao encontro. Foram muitos encontros e conversas com pesquisadores de diversos estados brasileiros num clima fraterno e de muita alegria; momentos de descontração e interação, com lanches com muito pão de queijo e "romeu e julieta" (queijo com goiabada). Muito agradável também foi estar entre amigos na visita que realizamos a Pedro Leopoldo, com o objetivo de ver de perto alguns lugares em que Chico Xavier viveu e trabalhou. Particularmente, fiquei muito emocionado com a homenagem a Alfred Russel Wallace, tão esquecido pelos espíritas. Conhecer detalhes de sua vida privada e ver cenas da época e lugares em que viveu, valorizam muito a contribuição que ele deu em vida ao pensamento e ao movimento espiritualista inglês e norte-americano.


O tema de 2018 foi "Sobrevivência da alma". Acredita que esse assunto ainda requer muitas pesquisas?

Qualquer tema científico, não interessa a área, é sempre revisitado. Os temas de base sólida, não sofrem grandes transformações, mas às vezes se encontra o que alguns autores da filosofia denominam "rupturas epistemológicas", ou seja, o surgimento de conhecimentos novos e bem fundamentados em um campo já estabelecido.

No caso da "sobrevivência da alma", o tema é visto pela maioria das pessoas como pertencendo ao domínio das religiões e teologias. Muita gente desconhece, e muitos acham impossível, o estudo empírico de um objeto que é considerado sobrenatural.

Então, há muito ainda que se pesquisar, publicar e transformar em domínio público nesse tema, se queremos que as pessoas percebam que não se trata de crenças de grupos sociais, mas de uma teoria explicativa para um conjunto de fenômenos.

Com relação ao meio espírita, o tema é ainda mais relevante, porque se uma pessoa se diz espírita, e acredita nos espíritos apenas por uma fé que Kardec chamava de cega (sem o uso da razão) e desconhece as evidências que a fundamentam, desenvolve-se uma mentalidade mística, e se transformam convicções bem fundamentadas em grupos de apoio a crenças difundidas individualmente por médiuns, sem critério do que é realmente o mundo dos espíritos e o que é fruto de fantasias individuais.


O que se apresentou de novo sobre o tema pelos pesquisadores neste Enlihpe?

Uma boa comunicação feita no evento, que entrelaça recuperação da memória com a comunicação do que se está pesquisando hoje, foi a apresentação do trabalho do Grupo de Pesquisa Lampejo, de Vitória, ES.

Nesse trabalho eles se dispuseram a verificar se informações obtidas por médiuns em reuniões mediúnicas seriam confirmadas ou não por pessoas que conhecessem os espíritos em questão. E obtiveram resultados muito interessantes, com médiuns sem nenhuma faculdade extraordinária. Apesar do pequeno número de casos descritos (13), vê-se o início de uma pesquisa experimental conduzida com crítica e disposição, realizado no meio espírita com pesquisadores que tiveram formação em universidades.

Outro trabalho de pesquisa, novo, mas não inédito, foi o apresentado pelo Dr. Alexandre Caroli Rocha. Ele e outros pesquisadores do NUPES-UFJF fizeram uma análise de conteúdo quali-quantitativa de cartas psicografadas por um mesmo espírito, através do médium Francisco Cândido Xavier. Novamente, conseguiram um "alto nível de exatidão e concordância". Esse trabalho foi aceito e publicado em inglês em periódico revisto por pares, ou seja, revista científica.

Um trabalho publicado, mas não apresentado, que não deixa de ter sido divulgado pelo 14º Enlihpe, foi a comparação das narrativas de Os miseráveis com a de Párias em redenção, ambas por Victor Hugo, sendo a segunda psicografada por Divaldo Pereira Franco. O texto foi escrito por J. Mário N. Sáenz, bacharel em literatura e linguística pela Universidade de Cartagena, na Colômbia. Ele usou um instrumento teórico novo, a análise sociocrítica, e comparou os romances nas dimensões literária, semiótica e social. O trabalho de Mário Sáenz nos faz recordar outro mais substancial, O avesso de um Balzac contemporâneo, escrito por Osmar Ramos Filhos, desencarnado recentemente, mas pouco lido e comentado pelos espíritas no Brasil, talvez por sua densidade.

Além do novo, o Enlihpe se preocupa em resgatar o "esquecido", como foi o excelente trabalho do médico Leandro Franco sobre a pesquisa de Alan Gauld nos arquivos da Society for Psychical Research acerca da mediunidade. Fiquei sabendo que o livro traduzido para o português se encontra esgotado, então não conseguimos obtê-lo para disponibilizar para o público.


Houve algum trabalho sobre o que não comprova a existência da alma?

Sim. O Dr. Alexandre Fonseca apresentou um argumento de que a auto-organização dos seres vivos não necessariamente precisa da hipótese espiritual para ser explicada, apresentando o trabalho de Ilya Prigogine que concebe os seres como sistemas abertos, advindos a partir de energia, matéria e organização do meio ambiente. Ele também tratou do misticismo quântico, a tentativa de associação entre a consciência humana (ou a espiritualidade) e os fenômenos quânticos. Após muitas citações de autores, fundamentando seus argumentos e informes, mostrou que "esse caminho, além de tortuoso, pode resultar exatamente no contrário: o de materializar o conceito de alma."

Fonseca retoma um tema que tem desenvolvido nos Enlihpes: o emprego de um discurso aparentemente científico, sem o domínio dos conceitos, que dão uma aparência científica para um discurso equivocado. É uma espécie de impostura intelectual que tem influenciado o meio espírita.


A estrutura do Enlihpe tem arregimentado muitos jovens pesquisadores sobre o espiritismo. É essa a principal proposta desses encontros?

Os encontros e a LIHPE em si visam aproximar pesquisadores e estudiosos interessados na temática espírita, jovens ou não. Há muitas pessoas com bom conhecimento espírita e formação acadêmica fazendo trabalhos voluntariamente e de forma isolada. Há pesquisadores nas universidades trabalhando com temática espírita com espaço limitado para divulgação e publicação, sem linha de pesquisa estabelecida e sem diálogo com pares, por não os conhecer. Desde que os interesses não sejam muito especializados, queremos aproximar essas pessoas entre si.


Qual a importância do reconhecimento de pesquisas acadêmicas sobre a temática espírita?

Para o espírita, a importância da pesquisa é a transcendência da fé. Com o conhecimento das pesquisas, o espírita não apenas acredita em ideias como reencarnação, mediunidade e sobrevivência da alma, ele sabe de evidências que sustentam aquilo em que ele acredita. Ele também vai ter acesso ao contraditório, que possibilita um amadurecimento de suas ideias à luz da crítica. Esta é uma atitude que Allan Kardec utilizava em seus estudos. Isso se pode constatar no livro Catálogo racional das obras para se fundar uma biblioteca espírita, escrito pelo fundador do espiritismo pouco antes de sua desencarnação. Pessoalmente, não sei como alguém pode falar em fé raciocinada sem acesso ao contraditório.

Para as pessoas da comunidade científica que não conhecem o espiritismo, as pesquisas bem desenhadas, realizadas com conhecimento técnico e metodológico, são uma contribuição para a modificação de um "materialismo a priori" que encontramos em muitas faculdades e centros de pesquisa.

Quando se fala em ciência, não se fala apenas em método, mas também em comunidade científica. E não há como discutir e aprofundar os temas considerados metafísicos no ambiente científico se não houver contribuição sistemática de pesquisadores mostrando que tal empreitada é possível e dá frutos. Hoje já se começa a perceber que ciência é distinta de materialismo, e recentemente se publicou um manifesto em defesa de uma "ciência pós-materialista", ou seja, que considera hipóteses explicativas e analisa fenômenos que sugerem que o ser humano é algo além de um corpo físico.


A programação do evento reservou também um espaço para a análise das alterações no livro A gênese (Allan Kardec), pesquisadas recentemente pela diplomata brasileira Simoni Privato. Chegou-se a alguma conclusão?

Preferimos apresentar um diálogo entre os pesquisadores Samuel Magalhães e Marco Milani para se discutir sobre qual edição francesa do livro A gênese, de Kardec, deve ser utilizada.

Samuel entende que não houve modificações significativas no texto do livro da codificação e que estas podem ter sido realizadas por Kardec. Marco apresentou as teses de Simoni Privato, expostas no livro O legado de Allan Kardec, que mostram evidências e razões para se crer que Allan Kardec pode não ter sido o autor dessas mudanças. Simoni fez uma extensa pesquisa na Europa, especialmente na Biblioteca Nacional da França. Como as quatro primeiras edições seriam, na verdade, reimpressões (não houve mudança alguma no texto), Simoni conclui que se deveria estudar o texto sem as mudanças da quinta edição, seguramente escrito por Kardec.

A mesa foi amistosa, e ambos debatedores concordam que são necessários estudos comparativos entre os textos das duas edições.

Seguiu-se um rico diálogo entre a mesa e os participantes do encontro. Uma enquete informal no local do evento, quando a maioria dos participantes afirmou já ter lido todo o texto de A gênese.


Por favor, suas considerações finais

Gostaria de recomendar ao público interessado a leitura dos trabalhos dos Encontros Nacionais, que foram publicados na Série Pesquisas Brasileiras sobre o Espiritismo, e fazer um convite para participar do 15º Encontro Nacional da Liga de Pesquisadores do Espiritismo – Enlihpe, que acontecerá nos dias 24 e 25 de agosto de 2019 em Fortaleza, CE, sob os cuidados de Samuel Magalhães.

 


Jáder autogrando no ENLIHPE 2018

 

Fonte: http://www.correiofraterno.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2101:pesquisadores-espiritas-se-reunem-em-belo-horizonte&catid=13:atualidades&Itemid=2

 

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