Espirituialidades e Sociedade



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>      Madame kardec, a história que o tempo quase apagou - entrevista com o pesquisador Adriano Calsone


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16/12/2016

 

por Eliana Haddad e Izabel Vitusso
Correio Fraterno

 

O pesquisador Adriano Calsone mergulhou na história de Kardec e Amélie Boudet na França do século 19.
Pesquisou a história do espiritismo pós-Kardec e lançou em 2015 o livro Em nome de Kardec. Ampliando suas pesquisas, resgata agora a grande personalidade que foi Amélie Boudet, em Madame Kardec (Vivaluz).

Calsone relata a grandeza do trabalho de Amélie e como ela foi à luta para preservar a originalidade das obras fundamentais do espiritismo.

 

Por que você resolveu pesquisar a vida de Amélie Boudet?
Trabalho com pintura mediúnica há mais de uma década. Sempre ouvi falar que ela foi artista e tinha alguns livros sobre belas artes, poesias, contos. Daí, pensei: "Não é possível que os espíritas não tenham mais dados biográficos sobre essa mulher!" O que temos de registros brasileiros sobre ela, desde o início do século 20, são dados pífios, replicados. Encontrei muita dificuldade de localizar novas informações. Repensei: "O caminho é a França e a Revista Espírita, a partir de 1869".

Como você conseguiu resgatar esses dados?
Por obras espíritas e não espíritas, pela internet, por meio da Biblioteca Nacional da França, e tenho também um amigo francês espírita que muito me ajudou nas pesquisas. Ao contrário do que imaginávamos, existiam muitas menções sobre as contribuições de Amélie no meio espírita francês da época. Depois da morte de Kardec, ela continuou a Revista Espírita com Pierre-Gaëtan Leymarie. Ele, mais intensamente, mas ela também permaneceu ativa, trabalhando com discrição nos bastidores, até desencarnar em janeiro de 1883. Como foi morar na Villa Ségur, ficava reservada e longe do escritório da Revista, mas elegeu Leymarie como mandatário para representá-la na livraria espírita e na Revista. E aí vem a grande questão: Ele não era só espírita... Acreditava, incentivava e financiava outras crenças místicas como o roustainguismo, a teosofia, a pneumatologia universal, que se tratava de mais uma doutrina secreta.

O livro conta todas essas passagens?
Sim. Ele (Leymarie) estava passando por dificuldades financeiras por causa da Comuna de Paris. Tinha filhos pequenos e pais doentes, e foi pedir ajuda à Amélie, que socorreu toda a família, inclusive cedendo-lhes morada gratuita em uma de suas casas de aluguel. Amélie, aliás, não era filha única, como dizem. Quando seu pai morreu, herdou uma extensa lista de patrimônios junto ao irmão. Uma matéria que saiu num jornal jurídico, na década de 1830, explica um calote que Rivail tomou em função de um empréstimo que fez para Julien François Boudet, irmão de Amélie.

O que você descobriu de mais interessante?
O que me chocou bastante foi a questão do assédio moral que Amélie sofreu depois da morte do marido. Há depoimentos da época publicados no formato de denúncias veladas, feitas por espíritas que conviviam no círculo parisiense do escritório da Revista Espírita. Havia grande resistência do grupo dos espíritas sincretistas, em torno de Leymarie, em aceitar suas opiniões por ela ser mulher, empreendedora, artista e também uma espírita já de idade.

Mas ninguém a defendia?
Em 1884, um ano depois da morte dela, uma amiga do casal chamada Berthe Fropo deixou um documento publicado, um verdadeiro desabafo, uma brochura, Beacoup de Lumiére (Muita Luz). Impressionou-me, também, o fato de Amélie ter deixado muitas realizações espíritas. Fundou a respeitável Sociedade Anônima e, anos mais tarde, inaugurou outra Sociedade para a continuação das obras espíritas de Allan Kardec. Pode-se afirmar, sem receios, que ela foi pioneira na organização e valorização do que hoje conhecemos por Comunicação Social Espírita. Era muito inteligente, lúcida e ativa.

O que fez Amélie tão logo Kardec desencarnou?
Já no primeiro semestre de 1869, colocou em prática a Constituição Transitória do Espiritismo, sugerida por Kardec como medida expressa, principalmente para derrubar qualquer ideia de um "chefe do espiritismo". Ela tinha uma visão inovadora das Sociedades que fundou, administrava mais de 30 imóveis próprios, herdados do pai, não só em Paris. Percebeu também que os livros espíritas do marido podiam ser muito mais acessíveis, baratos. Há passagens na Revista Espírita que demostram que ela viveu muitas situações de privação, repensando os rumos do trabalho deixado por Kardec, preservando com grande cuidado a literatura espírita nascente.

Em sua análise, por que o espiritismo não conseguiu ter a continuidade como Kardec queria, através da Amélie?
Em 1868, Kardec já vinha pressentindo vários cismas entre os fundadores da Sociedade. Ele queria prezar os ensinamentos espíritas pela exemplificação da moral, mas muitos acreditavam que o caminho deveria ser o fenomenológico, defendendo que a Sociedade deveria ser aberta não apenas para os societários, mas para que outras pessoas pudessem frequentá-la à constatação das experiências de efeitos físicos. Kardec não concordava com isso e chegou a pedir o seu afastamento da presidência, inclusive, por sondar os rumos sincréticos que a linha editorial da Revista Espírita poderia tomar. E foi o que, infelizmente, acabou acontecendo, após sua morte. A viúva fez de tudo para evitar essa incorporação obscura, orquestrada pelos próprios "amigos espíritas" do casal, de um espiritismo esotérico na França. Uma das provas desse desdém está numa declaração de 1884: "Eu parei de ir às reuniões do Comitê de leitura da Revista Espírita porque os senhores Leymarie e Vautier não tinham respeito por mim. Sempre que eu queria colocar as minhas opiniões, eles me faziam dura oposição, por isso eu tive que me retirar."

 

Por que Amélie permitiu na época que isso acontecesse?
Distante, ela confiou muito em Leymarie e, quando Berthe Fropo percebeu que a Doutrina estava em perigo, a Sociedade já perdia seus rumos espíritas. Madame Fropo veio do círculo dos Kardec, conheceu o codificador e sabia muito bem da existência de ações corruptíveis que ocorriam nos bastidores do espiritismo francês. Ela documenta que Amélie não queria destruir a própria Sociedade que ela ajudou a fundar com o marido. Décadas depois, a espírita Sociedade Anônima virou a sincrética Sociedade Científica do Espiritismo. Amélie muito se entristeceu com isso, ficou recuada, doente e acabrunhada, mas a amiga Berthe sempre a incentivava a não desistir da coerência doutrinária. Inclusive, aconteceram muitas reuniões na Villa Ségur, conforme narrado na brochura Beacoup de lumiére, nas quais o suposto espírito Kardec se comunicava para dar-lhe orientações. Ela era muito discreta e tomou atitudes importantes contra o sincretismo na Doutrina, incentivando, por exemplo, a fundação da União Espírita Francesa (1882) e participando das refutações ao lado da família Delanne.

Como era a relação de Amélie com a família Delane?
Foi ela quem chamou às pressas Gabriel Delanne e sua esposa, quando as mensagens do suposto espírito Allan Kardec começaram a chegar, alertando-os que, se nada de emergencial fosse feito, a Doutrina seria engolida por um misticismo praticado pelos "espíritas da primeira hora". Foi assim que juntamente com Madame Fropo e a família Delanne fundou a União Espírita Francesa. Delanne inaugurou o periódico Le spiritisme (O espiritismo), como meio de divulgação dos ideais espíritas de Kardec, bem como para as refutações da Revista Espírita que, no início da década de 1880, já estava totalmente fora do seu propósito espírita inicial, veiculando artigos da Teosofia de Blavatsky, d'Os quatro evangelhos de Roustaing, da Sociedade da Pneumatologia Universal, etc.

Qual o destino do material conservado por Amélie?
Em 1871, ela promoveu uma organização em sua casa, selecionando textos, extratos, manuscritos, cartas de Kardec, etc. Reuniu-se com o pessoal da Sociedade Anônima e pediu a Leymarie que os guardasse. Ele resguardou os originais kardecianos, publicando-os na Revista Espírita, como notas e artigos, até 1874. Por fim, em 1890, ele publicou parte do volumoso material na coletânea Obras Póstumas. Bom lembrar que na semana que Amélie morreu (janeiro de 1883), os senhores Leymarie e Valtier, esse último diretor da Revista, promoveram uma "seleção" daquilo que consideravam interessante deixar para a história do espiritismo. Romperam os lacres da casa da falecida viúva e separaram o joio do trigo, apagando Amélie da historiografia espírita. Segundo Berthe Fropo "não houve nem inventário, nem escritura pública, salvo as coisas fora de serviço que eles venderam aos sucateiros. (...)Mas o que me fez tremer de indignação foi assistir a um verdadeiro auto-de-fé. O senhor Vautier caminhava no jardim entre pilhas de papéis e cartas. Quantas comunicações interessantes, quantas anotações deixadas pelo mestre. Tudo foi destruído".

Você descobriu algo mais pontual sobre a influência que teve Amélie na vinda do espiritismo?
Ela financiou a primeira edição d'O livro dos espíritos (1857) e o primeiro fascículo da Revista Espírita (1858) com sua renda de professora e das casas alugadas. Mas o seu maior legado talvez seja a vigilância e o cuidado que teve na preservação das obras espíritas, além de muito zelar pela memória de Allan Kardec. Foi dela também a iniciativa de se criar o monumento druida no cemitério Père-Lachaise, onde os despojos mortais de Kardec foram enterrados. Outra descoberta interessante foi a de que Amélie permaneceu de luto pelo menos até 1874. De seus dois retratos existentes nos Anais do Espiritismo, notam-se seus típicos trajes de luto. Mas, ao contrário de uma postura de recrudescimento, enfrentou a dor e foi à luta.

Que lição fica para o movimento espírita hoje, da atuação da Amélie?
Primeiro que ela, em nenhum momento, deixou de cuidar do legado espírita do marido. Autorizou os seus assistentes da Sociedade Anônima a ir às tipografias insalubres para resgatar os clichês das obras fundamentais – que estavam quase se perdendo, seja por desgaste natural, seja por descuido mesmo. Madame Fropo afirma que ela gastou em torno de 10 mil francos, uma pequena fortuna à época, para recuperar os clichês das cinco obras fundamentais.

Escrevendo o livro, sentiu alguma presença espiritual mais marcante?
Sim. Já vinha sentindo a intuição de resgatar esses fatos, inicialmente pelo viés artístico de Amélie. Depois, fui sentindo muito envolvimento espiritual com algumas coisas que escrevia, resultados das pesquisas realizadas. Senti muito a vibração espiritual delas, sempre ajudando, incentivando-me e trazendo forças para que eu continuasse o trabalho.

Tudo o que você relatou nesse livro é verídico?
Sim. A obra não é literatura de ficção. Citamos todas as fontes primárias e secundárias pesquisadas, além da bibliografia. Interessante observar que o próprio Canuto Abreu teceu algumas curiosas passagens sobre Amélie e hoje sabemos da existência de cartas trocadas entre ela e Rivail. Ela morava com o pai na comuna de Thiais, a 19 quilômetros de Paris, numa mansão, para onde Kardec remetia suas cartas, uma delas com pedido de consentimento do casamento ao senhor Boudet, o pai de Amélie. (Leia em Baú de Memórias)

Como você analisa o espiritismo hoje, em função desse processo histórico que pesquisou?
Fiquei impressionado por constatar que toda a ruidosa história desse sincretismo espírita francês do século 19, de certa forma reaparece viva aqui no nosso espiritismo contemporâneo. Se tivermos a consciência coletiva de que a literatura espírita é o nosso maior legado, fácil será compreender que precisamos dar mais valor ao livro genuinamente espírita, ler primeiro as obras de Kardec, utilizar sempre o bom-senso e a fé raciocinada. Somos os atuais responsáveis por esse patrimônio. Vamos cuidar desse bem precioso, como bem fez Amélie!



Fonte:
http://www.correiofraterno.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1884:madame-kardec-a-historia-que-o-tempo-quase-apagou&catid=14:entrevista&Itemid=2

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