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>    Em Nova York, igreja protestante busca novos fiéis entre céticos


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18/05/2016

 

POR SAMUEL G. FREEDMAN

 


 

Craig Ellis estava de pé no meio de um salão acarpetado na Igreja Presbiteriana do Redentor, no bairro do Upper West Side, em Manhattan.

“Este é um espaço para os que se consideram não cristãos e estão chegando de fora”, disse ele à plateia sentada ao seu redor.

Ellis, 39, comanda sessões semanais, sob a rubrica WS Café, que são parte de uma nova fronteira do evangelismo, buscando novos adeptos dentro do aguerrido e cada vez mais numeroso público ateu.

Essas reuniões começaram em setembro, por iniciativa do pastor desta igreja presbiteriana, o reverendo Tim Keller, autor de livros como “A Fé na Era do Ceticismo: Como a Razão Explica Deus”.

Isso ocorre num momento raro da história do cristianismo e dos EUA. Na origem da religião cristã, os apóstolos tentavam converter seguidores de outros credos, como o judaísmo e o paganismo romano. Ao longo dos últimos séculos, missionários percorreram a China, a África e as Américas para encontrar adeptos de outras crenças fossem eles budistas, iorubas ou astecas. Sempre, no entanto, esses evangelistas cristãos lidavam com ouvintes que pelo menos aceitavam a existência de um ente divino.

No entanto, um levantamento sobre religiões feito em 2015 pelo Centro de Pesquisas Pew concluiu que 23% dos entrevistados se identificavam com a opção “nenhum”, o que abrange ateus, agnósticos e pessoas sem afiliação religiosa.

Remando contra a maré demográfica atual, o evangelismo à moda antiga precisa se adaptar.

“As comunidades de fé cristãs continuarão sendo vitalmente importantes para atingir os ‘nenhuns’, assim como serão importantes os padrões de formação para a fé”, disse Bryan Stone, professor da Universidade de Boston especializado em evangelismo.

Numa terça-feira recente, Ellis compartilhava o púlpito com o reverendo Bijan Mirtolooi, pastor-assistente da igreja. Em torno deles estavam sentadas pessoas como Frank Ying, 33, que trabalha numa start-up tecnológica. Criado na região de Dallas por pais imigrantes que haviam por sua vez crescido no ambiente oficialmente ateu da China, Ying tentou explorar o cristianismo com seus colegas no colégio, chegando inclusive a acompanhá-los a megatemplos, mas se sentia desestimulado pelo fundamentalismo deles.

“A gente tem um monte de perguntas”, relembrou, “e tem conversas intermináveis — ‘No que você acredita? Até que ponto a Bíblia deve ser tomada ao pé da letra?’. E essa gente só falta dizer: ‘Você simplesmente precisa ter fé’. Mas sempre fui pragmático, então isso não bastava”.

Ying tomou conhecimento da Igreja Presbiteriana do Redentor por intermédio de conhecidos, após se mudar para Manhattan. Então ele assistiu a um vídeo do YouTube no qual Keller conversava com um jornalista e um historiador, representantes do mundo laico. Atualmente, Ying é um frequentador habitual do WS Café, não porque crê, mas porque lá suas dúvidas são ouvidas.

Cada sessão tem um tema central, e naquela terça-feira discutia-se por que Jesus precisava ser crucificado. Uma das citações usadas para contextualizar o tema incluía a seguinte frase de Hitchens:

“Acho repugnante a ideia da redenção vicária”.

Ellis e Mirtolooi citaram obras da cultura popular (filmes como “O Regresso” e “Divertida Mente”) e exemplos da vida real (a forma como os pais sacrificam seu tempo livre para criar os filhos), com a intenção de tornar palpável o conceito de que o sofrimento leva à remissão do pecado. De forma muito deliberada, não se ampararam demasiadamente nas Escrituras.

“A diferença no Café é o que você usa como autoridade”, disse Ellis depois.

“Geralmente, numa aula cristã, a Bíblia é a sua autenticidade. Para este grupo, a Bíblia é só um livro a mais. Você pode usá-la, mas ela é apenas uma peça do quebra-cabeça. Você se baseia naqueles a quem os seus ouvintes consideram confiáveis — cientistas, filósofos, escritores — e mostra como o cristianismo faz sentido.”

Pelo menos na teoria é desse jeito.

“Não funciona para mim”, disse uma mulher, recém-formada na faculdade, a Ellis e Mirtolooi. “Deus nos criou e aí vem e diz: ‘Não, vocês pecaram e eu preciso puni-los’? Vocês estão transformando isso numa transação. Mas não é uma transação se você se lembrar da dor.”

Ela fez uma pausa e acrescentou:

“Sinto muito”.

Mirtolooi respondeu:

“Você está fazendo a pergunta certa. Há um equilíbrio entre a soberania de Deus e o papel da ação humana. Você precisa ter ambos em mente”.

O objetivo desse diálogo não era tanto conquistar uma alma imediatamente, mas manter uma mente aberta para essa eventual possibilidade.

“Atualmente me sinto muito confortável por ir à igreja num domingo e escutar os sermões”, disse Ying.

“Posso explorar mais e não tenho gente religiosa batendo o pé e dizendo: ‘É assim que é’.”

 

Fonte: http://nyt.audiencemedia.com//folha/content/view/full/40294?url=/folha/content/view/full/39799/#/folha/content/view/full/39799

 

 

 

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