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A psicóloga clínica Cláudia Aparecida Mandato Gelernter fala sobre culpa, arrependimento e remorso, à luz da psicologia e dos ensinamentos espíritas

 

 

 

06/09/2014


A psicóloga clínica e espírita atuante Cláudia Aparecida Mandato Gelernter, em entrevista para o portal "O Consolador", fala sobre culpa, arrependimento e remorso, à luz da psicologia e dos ensinamentos espíritas

Cláudia Aparecida Mandato Gelernter (foto) é espírita desde os 19 anos. Natural da capital de São Paulo, reside em Vinhedo, no interior paulista, há 30 anos. Psicóloga clínica e vinculada ao Centro Espírita Allan Kardec da cidade onde reside, atua na aplicação de passes, é palestrante, médium e educadora. Dedicada ao estudo da culpa, até por força da profissão, suas respostas apresentam lúcido esclarecimento para esse grande flagelo individual.

por Orson Peter Carrara
Portal "O Consolador" - Ano 8 - N° 376 - 17 de Agosto de 2014


O que é exatamente a culpa?
Embora muitos pensem o contrário, costumo explicar que a culpa, em sua gênese, não é algo ruim, mas importante, pois se trata da tomada de consciência do erro cometido. Sem ela, impossível a evolução do Ser. Entretanto, após essa tomada de consciência, urge uma decisão positiva: a reparação. Outro ponto importante é que só sente culpa aquele que possui capacidade egoica para tal, o que consegue sentir vibrar, dentro de si, a campainha da consciência. Psicopatas, por exemplo, não possuem esta capacidade que, em resumo, parte de uma postura empática. É o sentimento que nos coloca em xeque, fazendo surgir uma cobrança íntima, através de uma pergunta direta: “O que fizeste da lição áurea ensinada pelos Mestres, que nos pede para amarmos ao próximo como a nós mesmos?”.

Como lidar com ela sob o ponto de vista do terapeuta?
Primeiramente é preciso tomar consciência de que ela faz parte da nossa constituição psíquica, encarando-a como ela é: uma ferramenta de mudança. Após este primeiro momento [muita vez angustiante], pode-se decidir sobre ela, desviando-nos do remorso, este, sim, problemático. Embora, como disse antes, a culpa seja a tomada de consciência de um ato negativo, nem sempre ela está em nosso campo consciente. Já atendi pessoas que amargavam sérios desajustes psíquicos sem se terem dado conta de que guardavam culpa por algum mal cometido. Dependendo da gravidade da situação [e se esta é angustiante demais para nosso ego], podemos recalcar a informação no nosso inconsciente a fim de evitarmos a loucura. O mais importante é auxiliar o paciente a tornar conscientes determinados conteúdos e entender que a culpa não deve caminhar para o remorso, sob risco de criar-se maior sofrimento que o necessário, sem crescimento algum. Além disso, devemos ajudá-lo a perceber que o erro é algo essencialmente humano, necessário para aprendermos muitas das lições da vida.

E sob o ponto de vista de quem experimenta tal sentimento?
Não é fácil. A dor, quando bate em nossa porta, não pede licença e nem diz exatamente quando irá se retirar. Mas se nos traz angústia, por outro lado tem uma função belíssima na pedagogia divina: é a mestra que nos ensina a escolher outros caminhos, muito melhores para nós e para o mundo. Precisamos aprender a ouvir o que a dor tem a nos dizer. A culpa dói, por certo. Se pudéssemos voltar no tempo, faríamos muitas coisas de forma diferente! O bonito nisso é que, se assim pensamos, é porque já entendemos o que ela veio para nos dizer e não iremos repetir a dose. Ou seja, a culpa já cumpriu o seu papel. Agora é batalhar no caminho da reparação, que pode ser direta ou indireta, conforme as possibilidades. Deus nos quer felizes e em paz, por certo. Então, se entendemos que não faríamos mais as coisas da mesma forma, Ele, que é misericórdia infinita, Pai amoroso e Educador Perfeito, nos enviará experiências diferentes, a fim de testarmos novas possibilidades e situações. Devemos virar a página!

Nos casos de terapia em consultório, o que mais sobressai como efeito direto da culpa?
Infelizmente, o remorso e, a partir dele, problemas mais sérios, tais como: dificuldade nas decisões do cotidiano, baixa autoestima, tristeza constante, distúrbios do sono, distúrbios alimentares, anedonia, podendo desaguar em depressões leves ou mesmo mais graves.

E sob o ponto de vista espírita?
O Espiritismo nasce com um propósito claro: o de auxiliar o Ser em sua autoeducação. Apresenta conceitos maravilhosos e exatos, sem margem para interpretações equivocadas àqueles que estudam com afinco suas páginas esclarecedoras. Lembra-nos, por exemplo, o que nos ensinou o apóstolo Pedro quando disse que “O amor cobre uma multidão de pecados” (1Pd 4,8). Ora, a Lei não é a de Talião, já o sabemos, mas é essencialmente Amor, como nos ensinou Jesus! Aliás, existe uma passagem de Emmanuel que ilustra bem esse conceito. Disse ele que “Toda vez que a Justiça Divina nos procura para acerto de contas, se nos encontra trabalhando em benefício dos outros, manda a Misericórdia Divina que a cobrança seja suspensa por tempo indeterminado”.

Como perdoar-se?
Esta tarefa é preciosa, urgente e difícil para nós, seres em evolução. O que acontece é que, sem o autoperdão, não conseguiremos amar nem nosso próximo nem a nós mesmos. É preciso compreender que somos experimentadores em um mundo repleto de ignorâncias. Somos muito influenciados pelo meio, muita vez sendo impulsionados a determinadas atitudes equivocadas. Ninguém neste mundo consegue acertar todas as vezes. E até que a virtude seja interiorizada, podemos errar até mais de uma vez na mesma questão. O importante é não desistir, jamais! Lamentaremos a ação, refletiremos sobre ela e partiremos para novas ações, de forma diferente, sem carregarmos na alma o peso de amarguras que não ajudam em nada. Guardemos da experiência apenas o necessário: a aprendizagem.

Que caso marcante gostaria de transmitir aos leitores?
Certa vez, uma avó me procurou, sofrendo a perda de sua netinha, que desencarnou na piscina de sua casa, então com dois anos de idade. O caso já era grave por si só, mas ainda mais complexo porque foi ela quem esqueceu o portão da grade de proteção da área da piscina aberto. Como aliviar aquela dor? Palavras raramente fazem algum sentido nesses casos; então foi preciso permitir que a dor viesse com toda a sua intensidade a fim de aliviar o represamento da angústia daquela pobre senhora. Depois, sentindo-se amparada, acolhida, pôde falar sobre seu remorso, sobre a vontade de se autopunir pelo erro cometido. Já não conseguia mais dormir, não queria se alimentar e pensava em suicídio, constantemente. Fizemos diversos testes de realidade, a fim de demonstrarmos, em conjunto, que o ato não fora intencional, mas que aconteceu por esquecimento. Outro teste servia para resgatarmos a questão de sua vontade, pois autopunir-se não traria a neta de volta ao convívio familiar. Depois de alguns meses, já melhor em seus sintomas, surgiu um presente que jamais esquecerei. Uma daquelas dádivas que Deus nos permite experimentar, a fim de mostrar sua Misericórdia infinita para conosco. Ela conseguiu receber uma mensagem psicografada em Uberaba, com 47 páginas, na qual a menina contava que ela não tivera culpa alguma nesse caso, pois estava previsto o desencarne e que a neta nada sentira ao cair na água, pois sua alma “saltou” para o colo de Maria Dolores, enquanto que o corpo se jogara na piscina, já sem vida. Recordo-me de que a carta continha dados confiáveis, que só ela e poucos parentes conheciam, como, por exemplo, o nome de uma tia que desencarnou muitos anos antes e que estava ajudando a cuidar dela, no Mundo Espiritual. Surgiu, então, uma nova vida para aquela senhora, com um novo sol a brilhar, mais forte e iluminado ainda: estava provada para ela tanto a questão da imortalidade da alma como a possibilidade de um reencontro, no tempo certo.

Como podemos ajudar alguém em gradativo processo de autopunição por remorsos ou sentimento de culpa?
Escutando a dor do nosso próximo, amorosamente, sem julgamentos nem distrações. Doando nosso tempo, nossa alma, nossas preces em seu favor. E, acima de tudo, demonstrando que estar no mundo engloba erros e acertos, dores e alegrias, tropeços e reerguimentos. Se desejamos mudar o que fizemos, é imperioso saber que não o conseguiremos pelas vias do remorso, mas através do amor que passarmos a irradiar no mundo. Agora, nem sempre as pessoas possuem as ferramentas necessárias para darem conta dessa difícil demanda. Recordemos que muitos pais inculcam em seus filhos o remorso como estratégia [equivocada] de educação. Entendamos as diferenças entre todos e sigamos apoiando os que sofrem, em qualquer situação, inclusive aqueles que se encontram presos nas difíceis redes da autopunição.

Qual a principal diferença entre remorso e culpa?
Chamo de “culpa saudável” aquela que nos leva ao arrependimento sincero e que, embora revestida de dor, impulsiona o Ser à reparação. Na origem da palavra, arrependimento quer dizer mudança de atitude, ou seja, atitude contrária, ou oposta, àquela tomada anteriormente. Ela origina-se do grego metanoia (meta=mudança, noia=mente). Arrependimento quer dizer, portanto, mudança de mentalidade. Aqueles que sentem a “culpa saudável” conseguem tomar consciência do erro, sem maiores agravos. Diagnosticado o erro, não deseja mais praticá-lo. Contudo, não poderá ficar apenas na luta pela não repetição do mal cometido, sentindo a dor da expiação [a dor sentida pela dor causada]. Irá além: no terceiro [e imprescindível] passo, seguirá em direção à reparação.

Na culpa patológica é que surge o remorso: um sentimento extremamente angustiante, que faz com que a pessoa se prenda em um pensamento em circuito fechado, no qual acredita [erroneamente] que, ao sentir a dor repetida, está pagando pelo mal cometido e resgatando seus débitos. Este autoflagelo por certo não irá ajudá-la, ao contrário, a engessará na dor, sabotando suas possibilidades evolutivas. Trata-se aqui de uma trava psicológica que leva a sérias patologias da mente e do corpo se não percebidas e alteradas em pouco tempo.

No remorso o sujeito enclausura-se em sua dor, lamentando-se, acreditando não ser merecedor de nada bom, desistindo de lutar, de reparar para libertar-se. Não consegue perceber a função do erro e da dor na evolução de si próprio, estagnando em águas tormentosas, num contínuo sofrer sem sentido. O remorso o faz sofrer, mas não o liberta. A pessoa fica acomodada na queixa e na lamentação. Mais amadurecida psicologicamente, avançará pelo caminho do autoperdão e seguirá em direção à reparação.

Algo mais que gostaria de acrescentar?
Estamos no meio de uma longa caminhada, pela estrada da evolução. Nosso orgulho muitas vezes nos impede de vermos as pedras que colocamos no próprio caminho, pois nos achamos maiores e melhores do que verdadeiramente somos. O remorso surge principalmente do nosso “orgulho ferido”. Para muitos é difícil aceitar o erro, então preferem a desistência em vez da reparação. Quando nos percebemos como realmente somos – seres falíveis, aprendizes na escola da vida, devedores uns dos outros, porém cheios de potencialidades para o bem –, conseguimos nos perdoar, entendendo que Deus não usa de castigos ou recompensas, mas de experiências importantes para nos ensinar a exercitarmos o amor em todas as situações, com todos os seres, em todos os lugares, a qualquer momento. É isso.

Fonte:
http://www.oconsolador.com.br/ano8/376/entrevista.html

 

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