Espirituialidades e Sociedade



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Viés religioso marca espiritismo no Brasil

 

 

 

09/03/2014

 
Viés religioso marca espiritismo no Brasil

por Valéria Dias

Uma pesquisa realizada na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP investigou como o espiritismo chegou ao Brasil e a formação dos primeiros grupos brasileiros que estudaram a doutrina. O estudo de mestrado Afinal, espiritismo é religião? A doutrina espírita na formação da diversidade religiosa brasileira, da socióloga Célia da Graça Arribas, foi publicado em livro pela Editora Alameda, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).


Edição: Alameda (11 3012-2400)
Preço: R$ 40 (302 páginas)
ISBN: 978-85-7939- 034-0


Segundo Célia, entre os primeiros adeptos do espiritismo existia uma discussão se a doutrina espírita era uma religião, uma filosofia ou uma ciência. De acordo com a pesquisadora, o médico e político cearense Adolfo Bezerra de Menezes (1831-1900) foi um dos grandes responsáveis pela divulgação do espiritismo no Brasil a partir do caráter religioso da crença. Outros nomes também ajudaram a difundir o espiritismo religioso: o advogado Antonio Luiz Sayão e o jornalista e literato Bittencourt Sampaio.

“Por meio dos trabalhos intelectuais de Bezerra de Menezes e de seu grupo o espiritismo passou a ter argumentos teológicos de validação e de explicação da existência social e espiritual, tendo seus próprios dogmas e crenças. Esse lado religioso, cujo preceito ‘fora da caridade não há salvação’, foi e ainda é o mais destacado em relação ao aspecto científico da crença”, esclarece.

Do ponto de vista da Sociologia, segundo Célia, o espiritismo pode ser considerado, atualmente, uma religião, pois apresenta características que o definem como tal:

“as instituições espíritas buscam ressaltar preceitos morais da crença e incentivam a prática da caridade, além de explicar as condições (sociais e espirituais) de vida das pessoas com um viés religioso”, destaca.


Codificação

Célia explica que no início da década de 1860 chegava ao Brasil O Livro dos Espíritos (publicado na França em 1857), o primeiro livro da chamada “codificação espírita”, formada por mais quatro obras: O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868). A codificação foi organizada pelo pedagogo francês Hippolyte Leon Denizad Rivail, sob o pseudônimo de Allan Kardec. Esses livros reúnem informações de caráter religioso, científico e filosófico.


Aspecto religioso da doutrina espírita predominou no Brasil

Célia cita que na França, no final do século 19, ocorriam alguns episódios considerados como “sobrenaturais” e que reuniam em eventos sociais um grande número de pessoas: mesas giravam no ar, sozinhas, sem interferência de nada nem ninguém. Também podiam ser ouvidos barulhos estranhos, sem motivo aparente. Kardec decidiu investigar estes fenômenos a partir da premissa de que “o sobrenatural não existe”. E foi por meio dessa investigação que o pedagogo manteve os primeiros contatos com o mundo espiritual e com as informações fornecidas pelos espíritos. Esses dados foram “codificados” e reunidos em livros.

“A elite brasileira, formada por médicos, intelectuais, jornalistas e políticos, mantinha muito contato com a produção intelectual da França e foi por meio deles que o espiritismo chegou ao País, em 1860, com o Livro dos Espíritos”, conta. Neste primeiro contato com o espiritismo, foram formados grupos, cada um deles dando ênfase a um dos aspectos da doutrina.

O grupo dos científicos, também chamado de Espiritismo Científico, tinha sua atenção voltada para os “fenômenos” espíritas, como as aparições e manifestações de espíritos e seus efeitos (materialização, sonambulismo, hipnotismo).

“Ao espiritismo assim concebido cabia, portanto, explicar tais acontecimentos por meio do método científico da observação e das experimentações, tendo como objeto não somente a matéria, mas também o espírito”, explica.

O grupo dos espíritas puros, ou Espiritismo Filosófico, conta Célia,

“entendia-o na sua dimensão metafísica, isto é, como um conjunto de especulações teóricas que compartilham, com a religião, a busca das verdades primeiras e incondicionadas, tais como as relativas à natureza de Deus, da alma e do universo, divergindo, entretanto, da fé por utilizar procedimentos argumentativos, lógicos e dedutivos”, esclarece.

O grupo dos religiosos era o mais numeroso e estava mais preocupado com o lado religioso do espiritismo, atendo-se à moral e aos preceitos cristãos.


Espiritismo religioso

Segundo Célia, por volta de 1880, Bezerra de Menezes teve o primeiro contato com o Livro dos Espíritos, se identificando com o conteúdo da obra. “Ele era muito influente na sociedade e tinha reconhecimento público. Isso ajudou a difundir a doutrina”, diz. Na época, o espiritismo era considerado por muitos como uma coisa “demoníaca” e de “loucos e doentes mentais”. Mas quando Bezerra de Menezes se assume publicamente como espírita, ajuda a romper essa barreira.

Outro ponto destacado por Célia é que a partir da Proclamação da República, em 1889, o Estado brasileiro passa a ser totalmente laico (separado da Igreja).

“Isso facilitou a difundir o espiritismo como uma religião, pois até então, o catolicismo era a única crença aceitável e os cultos de outras religiões eram proibidos”, aponta.

A pesquisa teve como base a análise de alguns documentos, entre eles material encontrado no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, como a coleção completa do periódico O Reformador, publicado pela Federação Espírita Brasileira (FEB), além de outras publicações do meio espírita da época, e dos artigos de jornal escritos por Bezerra de Menezes. A socióloga também passou um período de seis meses na França, onde acompanhou algumas reuniões espíritas e pesquisou material em arquivos locais.

A pesquisa teve orientação do professor Antonio Flavio de Oliveira Pierucci.

A pesquisa completa pode ser consultada neste link - clique aqui


Fonte:

http://www.usp.br/agen/?p=21247

 

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