Espirituialidades e Sociedade



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Haroldo Dutra concedeu entrevista para o Correio Fraterno

 

 


09/07/2012

por
Entrevista por Eliana Haddad e Izabel Vitusso

Ele nasceu em Belo Horizonte, é juiz de Direito, e especializou-se nas línguas hebraica, aramaico, francesa, grega clássica, e também em paleontografia, crítica textual e tradição judaica. Haroldo Dutra Dias prepara agora a segunda edição da tradução do Novo Testamento diretamente dos manuscritos gregos. Seu jeito simples engana. Bastam alguns minutos de conversa para perceber a profundidade de seu conhecimento e seu interesse em resgatar a mensagem renovadora de Jesus na sua origem. Por onde passa, tem lotado seminários e impressionado a plateia, pela precisão de conceitos e clareza de raciocínio. Para ele, porém, o conhecimento não basta.

É preciso desenvolver a sensibilidade dessa visão cósmica e espiritual da vida, fruto do estudo da doutrina espírita, na sua feição de cristianismo redivivo”.


Haroldo Dutra :
“É preciso desenvolver a sensibilidade dessa visão cósmica e espiritual da vida, fruto do estudo da doutrina espírita, na sua feição de cristianismo redivivo”.

 

Estas e outras ideias você lê na entrevista que se segue:


O que levou você a se interessar pelo estudo mais aprofundado da linguagem do Evangelho?
Eu tinha 15 anos de idade quando li o livro Nosso Lar. Tive com a obra uma identificação total. Senti como se eu tivesse chegado a um porto seguro, uma área conhecida. Fui parar numa mocidade espírita, com tradição de estudo da obra de Emmanuel sobre o Evangelho. Poucos meses depois passei a frequentar o Grupo Emmanuel, de onde participaram os pioneiros: Dona Neném, Martins Peralva, Manuel Alves, Honório Abreu, Mário Sampaio, Damasceno Sobral. Um grupo que tinha uma tradição pouco comum de estudar a Bíblia à luz da doutrina espírita. Um dia, ao ler no O evangelho segundo o espiritismo, o capítulo “Moral estranha”, percebi que havia uma nota de fim de página [Nota de M. Pezzani]. Era um amigo de Allan Kardec, que conhecia grego e hebraico, esclarecendo que as traduções não eram felizes naquele ponto, porque não consideravam os elementos daquelas línguas. Que amar e odiar era uma expressão literária que significava amar mais e amar menos. Percebi que o estudo da língua era uma chave para penetrar mais profundamente nas questões do Evangelho.

Você conseguiu discutir, estudar esse conteúdo na casa espírita?
Procurei esses estudos no meio espírita e me surpreendi. Não obstante a riqueza de material sobre o Evangelho, a começar pelo monumental O evangelho segundo o espiritismo, não havia tradição no estudo bíblico, ao contrário dos movimentos católico e protestante, em que há escolas, formação de pessoas, cursos em que aprendem as línguas bíblicas. À medida que eu fazia o curso de Direito, comecei a fazer grego. E ao se ler o Novo Testamento em grego, um mundo novo se descortina. Acabei por entrar em contato com a obra de dois grandes espíritas: Canuto de Abreu – O evangelho por fora – e a obra de Pastorino, que não é propriamente uma obra espírita, no sentido doutrinário, mas com grande conteúdo histórico e linguístico. Ao me formar em grego, as outras línguas do Velho Testamento vieram como necessidades.

O que você descobriu de diferente?
Confirmei na prática uma afirmação de Ka
rdec, que está na introdução histórica do O evangelho segundo o espiritismo: é impossível compreender o Evangelho sem que a pessoa estude a cultura e a sociedade judaica da época de Jesus. Sem o conhecimento da língua, da literatura de um povo, não o entendemos. É impossível uma compreensão profunda de certos elementos do novo testamento e da Bíblia de um modo geral sem o conhecimento da cultura greco-romana da época. E a maioria dos equívocos de interpretação bíblica, dos fundamentalismos, dos fanatismos, das leituras literais, decorrem disso.

Você poderia citar algum exemplo da mensagem de Jesus que foi mal interpretada?
Sim. Há o exemplo clássico do: “Quem odiar pai e mãe não será digno do reino dos céus”. Na língua hebraica, os opostos são feitos em forma poética. E nesse contraste passa-se a ideia de gradação: “Os últimos serão os primeiros, os primeiros serão os últimos”, por exemplo, e uma série de frases de Jesus está na poesia hebraica. Ele usa esses expedientes. Se você não conhece a literatura, faz afirmações absurdas sobre esses ensinos. Segundo exemplo: quando Jesus está na cruz e diz: Eli, Eli, lemá sabachthani (“Deus, meu Deus, por que me desamparaste? Por que me abandonaste?) e lemos rios de tinta que dizem que Jesus fraquejou, sentiu medo. Escrevem coisas que não têm o menor sentido por não entenderem que na verdade ele está recitando o Salmo 22. São mais de 30 salmos recitados por Jesus, desde o momento da sua prisão até o da crucificação. Fazendo-se um estudo desses salmos, da sua importância na literatura judaica, entende-se por que Jesus está citando cada um e qual a lição.

Além dos salmos que enriquecem a compreensão, ainda há a dificuldade com relação às traduções do Novo Testamento. Como devemos estudá-lo?
Há uma pesquisa que estamos fazendo, um campo inexplorado, que é a retradução dos textos bíblicos. Todos os textos do Velho Testamento estão em grego e sabemos que Jesus falava aramaico. A sociedade daquela região falava aramaico e hebraico. Quando fazemos isso, há uma surpresa: tudo está em forma de poesia, 98 por cento da fala de Jesus obedecem a um padrão de poesia, com rima e ritmo. Um francês chegou a levantar essa hipótese, mas agora precisa-se explorar mais isso. A poesia de Jesus possui quatro ritmos – de dois, três, quatro e cinco acentos, que são as sílabas tônicas. E a pesquisa agora está confirmando que quando ele quer consolar ele usa um tipo de acento; quando quer chamar atenção, usa outro tipo de acentuação. Tudo é poética e quando Jesus muda esse ritmo, a mensagem que está querendo veicular é diferente. Jesus deixa de ser uma figura puramente religiosa e passa a ser aquilo que o espiritismo sempre o apresentou – o governador espiritual do orbe, o espírito de suprema hierarquia que já pisou na Terra, mestre dos mestres, cujo ensino contém poesia e musicalidade, conteúdo, espiritualidade. É como se Jesus ressuscitasse – no sentido metafórico – diante dos nossos olhos.

Já que tudo isso tem a ver com a difusão dos ensinos de Jesus, gostaríamos que fizesse um paralelo entre a era da divulgação da doutrina hoje, com vocês desenvolvendo programa em rádio web, por exemplo, com a anterior, fortemente marcada por palestras, conferências, com oradores de grande público como Divaldo Franco.
Entendo que são projetos complementares e não excludentes. A seara de Jesus é muito ampla e o Divaldo representa aquele trator que desbravou, abriu os caminhos, deixando o campo pavimentado para a divulgação do espiritismo. Divaldo tem com seu estilo o objetivo de atrair o grande público, através da poesia da sua fala, da história contada com certa encenação e que produz uma mobilização interior em quem o está ouvindo, para conhecer a doutrina. E aí começa o nosso trabalho, que é um trabalho mais dialógico, mais de conversa. É um segundo momento. A pessoa chegou, ouviu, aprendeu e agora sente sede de diálogo.

Fale um pouco de como nasceu o programa de podcast, o PodSER?
O PodSER nasceu quando tivemos uma intuição de que se colocássemos um microfone, reuníssemos pessoas em torno de uma pauta de assuntos a serem estudados, debatidos, iriam querer ouvir a nossa conversa. Gravamos o programa entremeado de um café, um pão de queijo, tudo muito natural, porque o mais importante é a reflexão sobre o conteúdo doutrinário. Há uma sede por diálogos, porque a casa espírita e o movimento federativo se prepararam e muito bem para quem está iniciando, mas o movimento espírita está muito carente para os veteranos que não encontram espaço. Tínhamos vontade de conversar! Encontrava pessoas com 30 anos de espiritismo e elas queriam debater questões sobre O livro dos espíritos, questões do Evangelho... O podcast foi uma surpresa muito grata.

Estamos vivendo um momento novo, de menos isolamento?
Estamos todos com muita vontade de compartilhar conhecimento. Acredito que estamos num novo paradigma. Depois da internet, o paradigma hoje se chama compartilhamento, construção coletiva do conhecimento. A gente não comparece a essa conversa [PodSER] como quem detém o conhecimento, mas como alguém que tem peças do quebra-cabeças e está interessado em montá-lo junto. É um processo de ajuste para a construção do conhecimento. Depois de ter feito isso tudo, ter iniciado o podcast, eu decidi reler a Revista Espírita. E quando abri o primeiro mês da primeira revista espírita percebi que quem inaugurou isso foi Allan Kardec. Ele diz: “Essa será uma tribuna livre – discutiremos, mas não deputaremos. Porque disputa é orgulho.” É do que estamos sentindo falta hoje – de dialogar. E será através do debate que vamos aprender coisas do espiritismo que estão adormecidas, participando do avanço do espiritismo rumo ao futuro. Ultimamente estou vivendo essa experiência. Tenho 25 anos de movimento espírita e resolvi reler toda a obra de Kardec na cronologia. Peguei a primeira edição do O livro dos espíritos, em francês, o primeiro fascículo da Revista e aí na sequência... Cheguei à conclusão: “Não conheço Kardec!”. Estou assombrado, lendo coisas que digo “não é possível que eu tenha passado por isso, não acredito que eu já tenha lido isso”. Tenho sempre convidado amigos a lerem também. E todos ficam surpresos...

Outro ponto: como você está organizando esse arquivo de documentações originais. Pretende montar algum acervo ou museu?
Temos a ideia, mais para frente, de um projeto grandioso, que possa abarcar todos esses projetos. Ainda estamos numa fase de gestação da ideia e temos um ponto intermediário, através da FEB, um convite para coordenarmos um núcleo de pesquisa e estudo do Evangelho, do Novo Testamento, um programa em nível nacional. A ideia é fazer algo compartilhado. Ter pessoas de vários estados, como uma rede, para que possamos dialogar. Eu fiquei muito feliz, porque é a primeira vez que a Federação Espírita Brasileira abraça um programa de estudo do Novo Testamento à luz do espiritismo.

Nós do Correio Fraterno ficamos felizes e vibramos muita luz para esse seu trabalho. Parabéns por sua inquietude!
Eu é que agradeço com carinho a emoção que me proporcionam. Quando começamos a falar de Jesus à luz da doutrina espírita, entramos em sintonia com esses grandes espíritas do passado que tinham esse ideal. Como se nós elevássemos a nossa vibração e entrássemos na esfera de atuação deles e aí a gente sente aquela emoção mesmo. Profunda. Porque é como se nó voltássemos para as nossas raízes – Kardec, Bezerra, Eurípedes, Cairbar, Ivonne... Aquele espiritismo que você se emocionava, que fazia o coração bater acelerado. É isso!

Sobre o podcast, veja mais no www.portalser.org.


Leia o texto do livro O evangelho segundo o espiritismo, de Allan Kardec, que chamou a atenção do pesquisador Haroldo Dutra, incentivando-o a vasculhar as traduções do Novo Testamento para melhor compreender as palavras de Jesus.


Aborrecer Pai e Mãe


1 – E muita gente ia com ele; e voltando Jesus para todos, lhes disse: Se alguém vem a mim, e não aborrece a seu pai e sua mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e ainda a sua mesma vida, não pode ser meu discípulo. E o que não leva a sua cruz, e vem em meu seguimento, não pode ser meu discípulo. – Assim, pois, qualquer de vós que não dá de mão a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo. (Lucas, XIV: 25-27, 33).

2 – O que ama o pai ou a mãe, mais do que a mim, não é digno de mim; e o que ama o filho ou a filha, mais do que a mim, não é digno de mim. (Mateus, X: 37).

3 – Certas palavras, aliás muito raras, contrastam de maneira tão estranha com a linguagem do Cristo, que instintivamente repelimos o seu sentido literal, e a sublimidade da sua doutrina nada sofre com isso. Escritas depois da sua morte, desde que nenhum evangelho foi escrito durante a sua vida, podemos supor que, nesses casos, o fundo do seu pensamento não foi bem traduzido, ou ainda, o que não é menos provável, que o sentido primitivo tenha sofrido alguma alteração, ao passar de uma língua para outra. Basta que um erro tenha sido cometido uma vez, para que os copistas o reproduzissem, como se vê com frequência nos fatos históricos.

A palavra odiar, nesta frase de Lucas: “Se alguém vem a mim, e não odeia a seu pai e sua mãe”, está nesse caso. Ninguém teria a idéia de atribuí-la a Jesus. Seria, pois, inútil discuti-la ou tentar justificá-la. Primeiro, seria necessário saber se ele a pronunciou, e, em caso afirmativo, se na língua em que ele se exprimia essa palavra tinha o mesmo sentido que na nossa. Nesta passagem de João: “Aquele que odeia a sua vida neste mundo a conserva para a vida eterna”, é evidente que ela não exprime a idéia que lhe atribuímos.(1) .

A língua hebraica não era rica, e muitas das suas palavras tinham diversos significados. É o que acontece, por exemplo, com aquela que, no Gênese, designa as frases da criação e servia ao mesmo tempo para exprimir um período de tempo qualquer e o período diurno. Disso resultou, mais tarde, a sua tradução pela palavra dia, e a crença de que o mundo fora feito em seis dias. O mesmo acontece com a palavra que designa um camelo e um cabo, porque os cabos eram feitos de pelos de camelo, e que foi traduzida por camelo, na alegoria da agulha. (Ver cap. XVI, nº 2)(2)

É necessário ainda considerar os costumes e as características dos povos que influem na natureza particular das línguas. Sem esse conhecimento, o sentido verdadeiro de certas palavras nos escapa. De uma língua para outra, a mesma palavra tem um sentido mais enérgico ou menos enérgico. Pode ser, numa língua, uma injúria ou uma blasfêmia, e nada significar, nesse sentido, em outra, conforme a idéia que exprima. Numa mesma língua as palavras mudam de significação com o passar dos séculos. É por isso que uma tradução rigorosamente literal nem sempre exprime perfeitamente o pensamento, e, para ser exata, faz-se por vezes necessário empregar, não os termos correspondentes, mas outras equivalentes ou circunlóquios explicativos.

Estas observações aplicam-se especialmente à interpretação das santas Escrituras, e em particular aos Evangelhos. Se não levarmos em conta o meio em que Jesus vivia, ficamos sujeitos a enganos sobre o sentido de certas expressões e de certos fatos, em virtude do hábito de interpretarmos os outros de acordo com as nossas próprias condições. Assim, pois, é necessário não dar à palavra odiar (ou aborrecer) a acepção moderna, que é contrária ao espírito do ensinamento de Jesus. (Ver também o cap. XVI, nº 5 e segs.).

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(1) No original francês, o verbo empregado é odiar, motivo porque o mantivemos no teto de Kardec. O texto evangélico acima reproduzido não é tradução do francês, mas da nossa tradução clássica da Bíblia, de Figueiredo, que emprega o verbo aborrecer. (Nota do Tradutor).

(2) Non odit, em latim; Kai ou misei, em grego, não quer dizer odiar, mas amar menos. O que o verbo grego misein exprime, o verbo hebreu, que Jesus deve ter empregado, o exprime ainda melhor, pois não significa apenas odiar, mas também amar menos, não amar igual a outro. No dialeto siríaco, que dizem ter sido o mais usado por Jesus, essa significação é ainda mais acentuada. É nesse sentido que ele é empregado no Gênese(XXIX: 30-31). “E Jacó amou também a Raquel, mais que a Lia, e Jeová, vendo que Lia era odiada…” É evidente que o verdadeiro sentido neste passo é: menos amada, e é assim que se deve traduzir. Em muitas outras passagens hebraicas, e sobretudo siríacas, o mesmo Raquel, mais que a Lia, e Jeová, vendo que Lia era odiada…” É evidente que o verdadeiro sentido neste passo é: menos amada, e é assim que se deve traduzir. Em muitas outras passagens hebraicas, e sobretudo siríacas, o mesmo verbo é empregado no sentido de : não amar tanto quanto a outro, e seria um contra-sensotraduzi-lo por odiar,que tem outra acepção bem determinada. O texto de São Mateus resolve, aliás, toda a dificuldade.

Fonte: http://www.correiofraterno.com.br/nossas-secoes/14-entrevista/975-um-mergulho-no-novo-testamento