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Morreu em SP, aos 67, sociólogo Flávio Pierucci

 

 


22/06/2012

Morreu em SP, aos 67, sociólogo Flávio Pierucci

Professor da USP estudou mudanças no cenário religioso do país, com ascensão das denominações neopentecostais

- Autor de livros como 'O Desencantamento do Mundo', pesquisador ajudou a criar método do Datafolha nos anos 1980


O sociólogo Flávio Pierucci durante entrevista no Cebrap, em SP
Jorge Araújo 31.ago.2001/Folhapress

 

O professor da USP e sociólogo Antônio Flávio Pierucci morreu ontem pela manhã, em São Paulo, aos 67 anos, em decorrência de um infarto fulminante.

O acadêmico tinha diabetes leve e pressão alta, ambas controladas com medicação. Por volta das 10h de ontem, uma equipe do Samu chegou à residência do pesquisador, na Vila Mariana (zona sul), para tentar reanimá-lo, mas não obteve sucesso.

O corpo de Pierucci será enterrado hoje, no Cemitério Municipal de Altinópolis, cidade do Norte paulista (a cerca de 330 km da capital) em que ele nasceu. O professor não deixa filhos.

Três objetos de estudo se destacaram na trajetória do sociólogo: a produção teórica do alemão Max Weber (1864-1920), o perfil do voto conservador em SP e o enfraquecimento do catolicismo, este último coincidindo com a ascensão das denominações neopentecostais.

No âmbito da pesquisa weberiana, publicou em 2003 "O Desencantamento do Mundo - Todos os Passos do Conceito de Max Weber" (editora 34), volume originado de sua tese de livre-docência na USP.

Na obra, Pierucci esmiúça a noção do título, segundo a qual a história do Ocidente testemunhou um lento processo de afastamento da religião de práticas e rituais místicos, mágicos.

No ano seguinte, o sociólogo, que integrou os quadros do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e foi secretário-geral da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), cuidaria da edição de "A Ética Protestante e o 'Espírito' do Capitalismo" (Cia. das Letras), obra-chave de Weber.

Segundo Reginaldo Prandi, professor de sociologia da USP e orientador da tese de doutorado de Pierucci, ele concluíra há pouco a revisão técnica de mais dois títulos weberianos, sobre as religiões da China e da Índia.

IMAGEM EVANGÉLICA

No campo da sociologia da religião, explica Prandi, o sociólogo vinha se dedicando à análise das estratégias dos evangélicos pentecostais para ingressar na mídia e mudar a imagem de suas denominações. Ele também se debruçava sobre as manifestações musicais desses grupos.

Além de "O Desencantamento do Mundo", o acadêmico publicou a coletânea de ensaios "Ciladas da Diferença" (editora 34; 1999) e o livro "A Magia" (Publifolha; 2001).

No começo dos anos 1980, ao lado de Prandi e Antonio Manuel Teixeira Mendes, atual superintendente da Folha, Pierucci desenvolveu uma metodologia para o Datafolha (o então recém-criado instituto de pesquisas do Grupo Folha) que cruzava dados geográficos, de renda e sociais.

"Ele ajudou a entender os mecanismos que regem a decisão do eleitor, em um momento em que ainda havia poucos estudos a esse respeito. Radiografou o malufismo em São Paulo, por exemplo", diz Mendes.

Em mensagem enviada por e-mail, o sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso lamentou a morte do colega. "Convivi extensamente com ele no Cebrap. Destacou-se sempre como pesquisador competente e intérprete refinado."

Livros / Antônio F. Pierucci


Igreja: contradições e acomodação
1978. Editora Brasiliense
Um estudo das concepções do clero católico sobre a reprodução humana e o problema do aborto

São Paulo: trabalhar e viver
Com Vinicius Caldeira Brant
1989. Editoria Brasiliense
Analisa o desenvolvimento econômico e as condições de trabalho, moradia, saúde, a criminalidade e as lutas urbanas na cidade de SP

A realidade social das religiões no Brasil
Com Reginaldo Prandi.
1996. Editora Hucitec
Uma discussão das relações entre as religiões e as transformações da sociedade, sobretudo na esfera política

Ciladas da diferença
1999. Editora 34
Sete ensaios sobre a questão da diferença. Analisa o eleitorado de direita e as classes populares em São Paulo, os movimentos feministas e o fundamentalismo islâmico

A magia
2001. Publifolha
Ensaio sobre o tema a partir dos principais teóricos que estudaram o problema (Frazer, Hubert, Mauss, Durkheim, Malinowski, Leach)

O desencantamento do mundo
2005. Editora 34
Análise de um dos conceitos centrais do pensamento do sociólogo alemão Max Weber

 

Especialista em Weber, reforçou a identidade cristã do brasileiro

LUIZ FELIPE PONDÉ
COLUNISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO

Antônio Flavio Pierucci foi um ícone dos estudos científicos da religião entre nós.

Estudos esses que ainda carecem de tradição num país que costuma confundir o mundo do "sagrado" com o mundo secular.

Nos seus termos, "sociólogos da religião sem coração" é o que nos falta. Com sua morte ontem, esta falta será ainda maior.

Pierucci era um grande especialista, dentre outros feitos, no crescimento do cristianismo pentecostal brasileiro e na obra do sociólogo Max Weber (1864-1920).

NAÇÃO CRISTÃ

Entre suas inúmeras contribuições, podemos apontar sua análise do crescimento estatístico do pentecostalismo brasileiro, visto pelo sociólogo como "mais do mesmo", na medida em que reforça a identidade cristã do Brasil, ao contrário daqueles que gostam de dizer que somos uma nação de diversidade religiosa.

Mas, se por um lado, permanecemos cristãos como sociedade, no âmbito das denominações cristãs e suas "competências de gestão", este crescimento era visto pelo sociólogo como indicativo da maior competência do clero pentecostal na gestão do mercado da fé cristã do que seu concorrente católico.

Para Pierucci, este fato impunha uma demanda mercadológica à Igreja Católica, antes acostumada à ineficiência pré-capitalista.

MAGIA E RELIGIÃO

No campo de seus estudos weberianos acerca da "desmagificação", mais conhecida como "desencantamento", Pierucci aprofundou o entendimento das diferenças entre as ideias de magia e de religião, que para ele não eram a mesma coisa.

A primeira seria concreta, pragmática e amoral, a segunda, abstrata, metafísica e moralista.

Fonte: jornal FOLHA DE SÃO PAULO

 

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