Espiritualidade e Sociedade



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Jaci Regis - "depois dele, o Espiritismo nunca mais será o mesmo"



30/01/2011

 

Depois dele, o espiritismo nunca mais será o mesmo

-> reportagem do jornal do CCEPA Opinião -

Alguns dados biográficos

Em 13.12.2010, aos 78 anos de idade, desencarnou, na cidade de Santos/SP, Jaci Regis, um dos mais fecundos e polêmicos pensadores da história do espiritismo no Brasil e no mundo.

Nascido em Florianópolis, SC, em 30/10/1932, Jaci Regis viveu na cidade de Santos/SP, desde 1947. Economista, jornalista e psicólogo, trabalhou por 30 anos, até aposentar-se, na Petrobrás. No movimento espírita, desde a década de 40, integrou-se ao segmento jovem, liderando a Mocidade Espírita Estudantes da Verdade – MEEV - ainda hoje existente - do Centro Espírita Allan Kardec (CEAK), de Santos.

Aliando, com igual denodo e combatividade, sua condição de pensador e estudioso do espiritismo com a de batalhador das causas sociais, assumiu, ainda na década de 60, a direção da Comunidade Assistencial Espírita Lar Veneranda, modelar instituição que atende crianças e mães e que foi por ele presidida por 32 anos.

Jaci Regis foi um dos fundadores da União Municipal Espírita de Santos e, nessa condição, dirigiu, por 23 anos, o jornal “Espiritismo e Unificação”. Na década de 80, liderou históricas divergências com o segmento evangélico do espiritismo e intensificou seu trabalho em prol do que chamou de “espiritização”, em confronto com o que o movimento espírita habitualmente denomina de “evangelização”. O jornal “Abertura”, por ele fundado em 1987 e do qual foi diretor e editor até seu falecimento, tornou-se o mais importante porta-voz do segmento livre-pensador, progressista e não-religioso do espiritismo. Criou, em 1989, o Simpósio Nacional do Pensamento Espírita, depois chamado de Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita, realizado de dois em dois anos. Em 1999 funda o ICKS-Instituto Cultural Kardecista de Santos."

Escritor fecundo, publicou dezenas de obras, entre as quais “Amor, Casamento e Família”, “A Mulher na Dimensão Espírita”, “Uma Nova Visão de Homem e de Mundo” e “Introdução à Doutrina Kardecista”.

Casado com Palmyra Regis, havia mais de 50 anos, deixou 6 filhos, muitos netos e uma bisneta. A maioria de seus familiares está intimamente vinculada ao espiritismo, seguindo-lhe as ideias e contribuindo com suas iniciativas.


Uma personalidade marcante

Em biografia publicada no site “Espiritnet”, há alguns anos, Ademar Arthur Chioro dos Reis, vice-presidente da CEPA, qualifica-o como “uma das personalidades mais marcantes do Espiritismo, um homem que conseguiu questionar e abalar as estruturas do movimento espírita oficial, introduzindo a crítica fundamentada numa obra profunda, contundente, consistente, contra-hegemônica e, portanto, profundamente polêmica”.

Na página final deste periódico, publicamos os trechos principais do último discurso por ele pronunciado em evento da CEPABrasil, em Bento Gonçalves/RS. Ali, Jaci sintetiza o pensamento que sustentou nos últimos anos de sua vida: a necessidade de desvincular o espiritismo das estruturas cristãs, dando lugar ao “Espiritismo pós-cristão” que inaugura a “Ciência da Alma”.


O Paradoxo Jaci


A frase que dá título à reportagem ao lado foi tomada de empréstimo de artigo escrito por Eugenio Lara, logo após o desencarne de Jaci Regis e publicado no site www.viasantos.com/pense. Não é nenhum exagero dizer-se que o espiritismo, depois de Jaci, nunca mais será o mesmo. Ainda que jamais citado pelos amplos setores evangélicos do espiritismo hegemônico, de onde sua palavra, seus livros e seus pensamentos foram banidos, Jaci é o grande artífice do maior processo de renovação do espiritismo brasileiro.

Há algo de paradoxal no fenômeno Jaci Regis: embora seu discurso e sua atuação sejam genuinamente espíritas, sua vida e sua obra foram marcadas pela incompreensão no meio espírita. Depois de décadas buscando a renovação e o progresso das ideias, características por ele tidas como essenciais ao espiritismo, Jaci encerrou sua trajetória propondo a estruturação de novo movimento. Neste, por sua proposição inicial, o próprio termo “espiritismo” seria substituído por “doutrina kardecista”. Ultimamente, propunha um “espiritismo pós-cristão” voltado, precipuamente, à comprovação da imortalidade do espírito, inaugurando a Ciência da Alma.

Mesmo que nem todos aceitemos o caminho da ruptura radical e do recomeço, é inegável que o “espiritismo real”, antes disso, rompeu com as propostas originais de Kardec. Jaci nunca se conformou com isso e nos deixa uma inquietante pergunta: ainda é possível mudar ou será mesmo necessário recomeçar?
(A Redação)


O último discurso


Em setembro de 2010, três meses antes de desencarnar, Jaci Regis compareceu como painelista ao II Encontro Nacional da CEPABrasil, em Bento Gonçalves/RS. Diferentemente do que costumava fazer, leu um discurso previamente escrito. Sua proposta: levar o espiritismo para uma nova fase, a do “Espiritismo pós-cristão”, consubstanciada na “Ciência da Alma”.




A seguir, o histórico pronunciamento de Jaci:


A Identidade do Espiritismo no Século 21
Escreve: Jaci Regis
Em: Dezembro de 2010

Allan Kardec elaborou o Espiritismo dentro da cultura cristã.

Formatou a doutrina dentro de três parâmetros, compatíveis com o modelo cristão:
1. O mundo é de provas e expiações;
2. Os habitantes são espíritos imperfeitos que expiam suas faltas no processo de vidas sucessivas;
3. Deus se manifestou em três grandes momentos para a salvação moral humanidade: nos dez mandamentos de Moisés, nas palavras de Jesus Cristo e, finalmente, pela manifestação dos espíritos.

São as três revelações da Lei de Deus.

Dentro desses parâmetros, aceitou que Jesus Cristo trouxe a verdade possível e que o Espiritismo completaria a verdade atual.

A trajetória de Kardec é sinuosa.

Queria que o Espiritismo fosse uma ciência. Mas criou uma religião, sem querer que fosse religião.

Na verdade, agiu como equilibrista da razão e da fé.

Todavia, aceitou que o motivo central do Espiritismo era restaurar o cristianismo e implantar no mundo o Reino de Deus, utopia evangélica que está na base das aspirações místicas e irreais da humanidade ocidental, cristã.

Isso levou à afirmação do Espiritismo como o Consolador Prometido, representava também tacitamente a certeza de que Jesus Cristo era a verdade e toda a verdade teria vertido pela sua boca. Esse Consolador simbolizaria a vinda do Senhor ao mundo, completaria todas as verdades e ficaria conosco para sempre. Era a expressão da ilusão de que, brevemente, por obra divina, haveria modificações espetaculares na face da Terra.

Surgiria um reino de paz, de alegria e de fraternidade.

Era a implantação do Reino de Deus no mundo. Que mundo?

Sem qualquer demérito para as lições inigualáveis do Nazareno, estamos num tempo em que as exclusividades e as verdades absolutas não têm lugar.

N’O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec afirmou que o Espiritismo não vinha destruir a lei cristã, como o Cristo não teria destruído a lei mosaica. Essa sequência teológica provinha do sentimento de uma intervenção direta de Deus ou Jesus no encaminhamento das soluções e no desenvolvimento moral das civilizações.

O céu comandando a Terra.

Jesus Cristo, o rei, governando o mundo.

Mas o tempo da era cristã, no seu aspecto institucional, político e religioso estava no fim.

Desenvolver a ideia espírita dentro do caldo de cultura cristã foi um paradoxo. Pois o Espiritismo na sua estrutura básica é a negação do cristianismo. Consequentemente, tornou o Espiritismo prisioneiro da promessa da vinda do reino. Kardec, então, elaborou seu pensamento tentando encontrar justificativas e argumentos para as afirmações teológicas dos profetas e messias.

Seria diminuir seu gênio reduzir sua obra a essa análise simples.

Pois sua obra é capaz de superar os entraves contextuais e projetar-se para o futuro, porque teve a sabedoria de abrir o caminho para o progresso, para a renovação. De tal forma que o Espiritismo seria capaz de reciclar-se, aceitando as novas ideias, e de mudar o que fosse necessário para não imobilizar-se o que seria — disse — o suicídio da Doutrina.

É baseado nessa extraordinária abertura para a evolução e progresso das ideias que creio ser válido propor uma definição dinâmica para o Espiritismo nos dias atuais.

A DEFINIÇÃO DO ESPIRITISMO

O século 21 desponta como uma incógnita sob a liderança inconteste das ciências duras, coadjuvadas pelas ciências humanas.

Como definir, compreender e projetar o Espiritismo neste século 21?

Neste século, o Espiritismo terá, pelo menos, duas expressões:

1. O Espiritismo Cristão
Com duas versões:

a. Religião Espírita
Atualmente, de modo geral e majoritariamente, o Espiritismo é uma religião cristã, cujos programas e o entendimento remetem-se aos textos evangélicos e aos enunciados do século 19, repetindo as palavras de Allan Kardec, sem atentar para o contexto em que foram ditas.
Os espíritas cristãos são, basicamente, católicos mediúnicos.

b. Espiritismo Laico-Cristão
Substituiu-se o tríplice aspecto de Ciência Filosofia e Religião, por Ciência, Filosofia e Moral, isto é, a moral cristã. Ambos os movimentos não fazem ciência e não filosofam.

2. Espiritismo Pós-Cristão
A única saída para que o Espiritismo alcance sua originalidade e ofereça uma contribuição genuína para a sociedade é escoimá-lo do enfoque teológico da Igreja. Isto é, ser um Espiritismo Pós-Cristão.
Esse Espiritismo Pós-Cristão não apenas abandonará a retórica e a teologia católica, como se organizará sugestivamente como uma ciência humana.


A CIÊNCIA DA ALMA

Como consequência, o Espiritismo Pós-Cristão se estruturará como a Ciência da Alma, à maneira de uma ciência humana, específica e “sui generis”.

Como Ciência da Alma, o Espiritismo abandona a ilusão de ser uma revelação divina, para ombrear-se, de forma muito especial, com o esforço das ciências humanas que surgiram para entender o ser humano, suas limitações, problemas e futuro, fora dos limites das ciências duras, físicas.

Isto é, uma ciência humana cujo objetivo é explicar o ser humano como uma alma, sua estrutura, sua atuação e sua evolução.

Com isso pode desenvolver um espírito crítico e explorar a realidade essencial do ser humano dentro da lei natural, da naturalidade dos processos evolutivos, através da reencarnação, como uma alma atemporal, imortal e em crescimento, seja no campo intimo seja no campo social.

Como Ciência da Alma, o Espiritismo abandona sua pretensão autárquica de abranger todos os problemas da humanidade, mas apoia-se nos esforços das demais ciências humanas que compõem o leque das realidades e comportamentos das pessoas.

O objetivo maior será introduzir na cultura o sentido sério, basicamente defensável aos postulados puros do Espiritismo.

Terá que dispor de recursos e meios para provar, insofismavelmente, a imortalidade. O que implicará na renovação do exercício e objetivos da mediunidade, superando a fase meramente moralista e religiosa em que se situa atualmente.

Só a prova da imortalidade será a base de renovação social, humana e do pensamento humano e sustentará as teses da reencarnação e da evolução do Espírito. Numa estrutura compatível com a evolução do conhecimento humano. Como Ciência da Alma, introduzirá a noção de espiritualidade como uma busca natural, imprescindível para o equilíbrio pessoal e social, propondo positivamente o desenvolvimento ético na sociedade em mudança que vivemos.

Ou seja, a Ciência da Alma tentará, por todos os modos, oferecer um tipo de entendimento do ser humano que sempre foi o objeto do Espiritismo, de forma atualizada, dentro de um aspecto que integrará o rigor cientifico, expressão da sensibilidade e do sentimento na análise da realidade da alma humana.

Muitos podem questionar se um Espiritismo Pós-Cristão, a estruturação da Ciência da Alma, pode ser kardecista, dada a crítica e a reelaboração que se faz necessária do trabalho de Allan Kardec, conforme temos provado.

É kardecista na medida em que se apoiará nos alicerces básicos, puros, do pensamento doutrinário, desprezando os acessórios das interpretações e extensões contextualizadas no inicio e no tempo decorrente.

O caráter da Ciência da Alma, como qualquer ciência humana, será essencialmente progressivo, jamais se imobilizando no presente, apoiada somente no que for provado. Assimilará as ideias reconhecidamente justas, de qualquer ordem que sejam, físicas ou metafísicas. Pois não quer ser jamais ultrapassada, constituindo isso uma das principais garantias de credibilidade.

Fonte: Discurso proferido no II Encontro da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA-Brasil), realizado de 3 a 6 de setembro de 2010 em Bento Gonçalves-RS.

Jaci Regis (1932-2010), psicólogo, jornalista, economista e escritor espírita, foi o fundador e presidente do Instituto Cultural Kardecista de Santos (ICKS), idealizador do Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (SBPE), fundador e editor do jornal de cultura espírita “Abertura” e autor dos livros “Amor, Casamento & Família”, “Comportamento Espírita”, “Uma Nova Visão do Homem e do Mundo”, “A Delicada Questão do Sexo e do Amor”, “Novo Pensar - Deus, Homem e Mundo”, dentre outros.


- http://www.viasantos.com/pense/arquivo/1304.html -


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