Espiritualidade e Sociedade



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Espiritismo: filosofia, moral, ciência ou religião? Entrevista com Sandra Stoll



16
/12/2010

 

Sandra Stoll defende que Chico Xavier representa o ethos católico do espiritismo, que deu identidade à doutrina no Brasil

Por: Graziela Wolfart

- Entrevista realizada pela Revista do Instituto Humanitas Unisinos
http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3621&secao=349


Ao refletir sobre o sucesso das obras de Chico Xavier, a pesquisadora Sandra Stoll entende que a literatura mediúnica dele inaugura “uma nova forma abordagem de questões existenciais, propiciando, por meio do recurso da identificação emocional, a possibilidade de elaboração de experiências do cotidiano, em especial aquelas de caráter dramático, como a morte”. Na entrevista que concedeu à IHU On-Line por e-mail, ela explica que o campo religioso brasileiro já era, no século XIX, rico e diversificado e que “o espiritismo se insere no Brasil num contexto em que já havia uma grande difusão das práticas mediúnicas através das religiões afro-brasileiras e onde a comunicação com os mortos não constituía novidade”.

Sandra Stoll é professora no Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná e pesquisadora-associada do Núcleo de Antropologia Urbana – NAU da Universidade de São Paulo. É autora de Espiritismo à brasileira (São Paulo: Edusp, 2003).


Confira a entrevista.


IHU On-Line
- Como definir o ethos religioso do espiritismo?

Sandra Stoll - O ethos de uma doutrina pode ser variável no tempo e no espaço. Depende das condições de apropriação social, ou seja, das condições de inserção ou desenvolvimento de uma dada doutrina num dado contexto histórico, cultural e social. O espiritismo, por exemplo, tal como formulado por Allan Kardec , seu idealizador, não se pretendia uma religião. Essa característica se torna a face dominante da doutrina a partir de sua reinterpretação no Brasil, processo que se deu em meio e como decorrência de inúmeras disputas políticas, com a religião dominante, de um lado, e instituições do Estado, como a Justiça e a polícia, cujas práticas persecutórias às atividades mediúnicas, em especial aquelas voltadas à cura, tinham o respaldo de três artigos incluídos no Código Penal de 1890 (que vigorou até 1940). Nesse contexto, é que o espiritismo assume no Brasil um ethos religioso de tipo católico. Chico Xavier , o mais famoso médium espírita do país, foi o responsável por sua consolidação na medida em que associou sua imagem pública a um modelo de santidade fundado nos principais cânones da vida monástica católica: obediência, pobreza e castidade. O mesmo vale com relação à prática da caridade, incorporada à sua imagem pública como exercício exemplar de santidade: o amor ao próximo é realizado como doação de si.

IHU On-Line - Como entender o sucesso de venda dos livros de Chico Xavier?

Sandra Stoll - A literatura mediúnica de Chico Xavier se popularizou a partir dos anos 1930, quando tem início a fase de produção de romances. Estas obras divulgam temas fundamentais da doutrina, em especial a tese da imortalidade da alma, a reencarnação e a evolução espiritual, porém, ao contrário dos livros de Allan Kardec, onde estes temas são abordados de forma impessoal, nos romances é na trama das relações interpessoais, vista da perspectiva subjetiva, que estes temas afloram. É isso que faz com que os temas doutrinários sejam reconhecidos pelo público como algo que lhe diz respeito. A série “André Luiz”, inaugurada com Nosso Lar (recém-adaptado para o cinema), ganha o público na medida em que aproxima o leitor da experiência da vida após a morte, por meio de relatos de experiências também pessoais, como é o caso de “André Luiz”, pseudônimo de um médico famoso do Rio do Janeiro do início do século passado (dizem alguns que ele teria sido Carlos Chagas ). A literatura mediúnica de Chico Xavier inaugura, portanto, uma nova forma abordagem de questões existenciais, propiciando por meio do recurso da identificação emocional, a possibilidade de elaboração de experiências do cotidiano, em especial aquelas de caráter dramático, como a morte.

IHU On-Line – Quais as características da sociologia e da cultura brasileira que explicam o sucesso da crença espírita no país?

Sandra Stoll - O campo religioso brasileiro já era, no século XIX, rico e diversificado. O espiritismo se insere no Brasil num contexto em que já havia uma grande difusão das práticas mediúnicas através das religiões afro-brasileiras e onde a comunicação com os mortos não constituía novidade. È preciso também lembrar que, na França, a prática mediúnica se restringia com Kardec à investigação “de cunho científico”, enquanto no Brasil, rapidamente o espiritismo se insere no universo das práticas curativas de cunho religioso, primeiramente por meio da prática receitista, desenvolvendo-se mais tarde as chamadas “cirurgias espirituais” que tornaram famosos médiuns como Arigó , e “espíritos médicos-curadores” como Dr. Fritz, Dr. Leocádio, Dr. Bezerra de Meneses , dentre outros. Outro fator que contribuiu para a popularização do espiritismo no Brasil foi o fenômeno da produção de “cartas espirituais”, também chamadas “consoladoras”, fenômeno que fez de Uberaba-MG um centro de peregrinação, atraindo milhares de pessoas em busca de informações sobre seus familiares falecidos. Chico Xavier foi o inaugurador dessa prática no Brasil, cuja continuidade se encontra em mãos de inúmeros outros médiuns espalhados pelo país.

IHU On-Line - Que relação a senhora estabelece entre Chico Xavier e Luiz Antonio Gaspareto em relação ao espiritismo? Que vertentes da doutrina espírita cada um deles incorpora?

Sandra Stoll - Em minha tese de doutorado, publicada sob o título Espiritismo à brasileira, essas duas personagens, Chico Xavier e Luiz Antonio Gasparetto , são tomadas como modelos paradigmáticos de interpretação da doutrina no país. Chico Xavier, como dito anteriormente, representa o ethos católico que deu identidade à doutrina no país. Embora esta seja ainda a corrente hegemônica no campo espírita, nas últimas décadas esse modelo vem sendo fortemente criticado, de um lado, pelos grupos alinhados à vertente cientificista; de outro, por correntes que, sob a influência da chamada “nova era”, buscam renovar ideias e práticas rituais do espiritismo. Nesse contexto é que a corrente liderada por Luiz Antonio Gasparetto ganha visibilidade social. Crítico de Chico Xavier e de certas “práticas tradicionais” do espiritismo, Luiz Gasparetto investiu numa redefinição ética do espiritismo. Envolvido em práticas de “autoajuda”, agenciadas sob a forma de cursos, palestras e workshops, ele propaga a ética da prosperidade, que, em contraste com o “modelo de virtudes” católico, absorve o ideário da sociedade de consumo.

IHU On-Line - Como o espiritismo se coloca entre o cientificismo da doutrina de Kardec e o catolicismo com seu "discurso das virtudes" e da noção de santidade cristã?

Sandra Stoll - A doutrina espírita, originalmente, foi definida por seu idealizador, Alan Kardec, como sendo, ao mesmo tempo, filosofia, moral e ciência. Apropriada socialmente, a doutrina polarizou-se em torno de duas vertentes: na França, a prática de Kardec privilegiou o cientificismo, enquanto no Brasil, principal foco de sua difusão internacional, assumiu características religiosas.

IHU On-Line - Que consequências as religiões neopentecostais têm provocado para o espiritismo?

Sandra Stoll - Os neopentecostais disputam clientela com as religiões afro-brasileiras, não com os espíritas kardecistas. Portanto, as práticas de intolerância pentecostal têm tido pouco impacto no campo espírita.


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