Espiritualidade e Sociedade



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Marcelo Henrique Pereira - entrevista



21
/09/2010

 

Marcelo Henrique Pereira (foto), gestor administrativo da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo – ABRADE e presidente da ADE-SC, nos relata sua trajetória e analisa o momento atual de divulgação do Espiritismo. Fala-nos da estrutura e projetos da ABRADE, bem como esta pode auxiliar as Casas Espíritas a melhor executarem a comunicação social espírita.

 

O Consolador: Marcelo Henrique, como se tornou espírita?

Em 1981, ao não ter respostas satisfatórias do padre da igreja de Santo Antônio, que frequentava e onde colaborava, acerca de perguntas sobre a imortalidade, a santíssima trindade, a virgindade de Maria e a mediunidade.

O Consolador: Desde quando e em quais atividades atua no Centro Espírita?

Desde 1981, quando iniciei a frequência ao Centro Espírita Tereza de Jesus, em São José (SC), logo me vinculando às atividades de estudo doutrinário (ESDE) e de juventude espírita, além de proferir minha primeira palestra em 1983, aos treze anos de idade.

O Consolador: Quais as características que procura imprimir em suas exposições doutrinárias?

A atuação do expositor deve distanciar-se, ao máximo, da condição de “dono da verdade” ou de “único e maior especialista da matéria”. Não estamos em púlpitos ou cátedras para “ensinar” aos outros o que eles desconhecem. Muito pelo contrário. Escolho, muitas vezes, assuntos tidos como polêmicos, mas que precisam da adequada contextualização conforme os princípios e noções espíritas. Costumo dizer que toda e qualquer matéria tem condição de ser analisada sob o viés espírita, não no sentido de que “o Espiritismo tenha todas as respostas para as dúvidas humanas”, mas como indicativo para que o indivíduo, no desabrochar de suas potencialidades, encontre seu caminho, pela via do raciocínio lógico, da interpretação conforme suas vivências e aprendizados.

O Consolador: Com sua longa experiência em diversas entidades espíritas, há alguma vivência que gostaria de relatar-nos?

As melhores experiências que tive no passado – trabalho como educador espírita durante mais de duas décadas, com adolescentes e jovens – foram gratificantes no sentido de fornecer a eles os fundamentos lógico-racionais da doutrina espírita, sem imposições, sem dogmas, sem verdades pré-estabelecidas. Vivenciamos um momento importante, desde meados da década de 80, quando o mundo vivia a paulatina abertura, a democratização das sociedades, a quebra de tabus e a possibilidade de debates responsáveis sobre questões até então encaradas como impossíveis de serem abordadas com maturidade, equilíbrio e bom senso, como aquelas afetas aos relacionamentos humanos e à sexualidade. Depois, veio o engajamento dos espíritas nos movimentos sociais, já no final da década de 90 e por toda a primeira década deste século, com a maturação dos ideais de participação dos espíritas e suas instituições na definição das políticas públicas e no debate sério, no campo das ideologias, sobre assuntos de interesse coletivo, nas áreas da saúde, educação, assistência e promoção social, política e direitos humanos. Somos muito felizes por termos participado destes momentos e, de certo modo, termos colaborado com iniciativas que hoje vicejam. No presente, embora não mais vinculado a atividades com adolescentes e jovens (educação espírita), acompanhamos com certa apreensão a redução destes movimentos e a (praticamente) evasão dos jovens que têm procurado movimentos mais “liberais”, fora do cenário “taciturno” e “circunspecto” dos centros espíritas, que, ainda hoje, dão pouco espaço para os potenciais criativos e dinâmicos da juventude, afastando estes seres do convívio com as atividades espíritas, infelizmente. No campo da comunicação, devo relatar a riqueza de experiências na edição de um periódico espírita impresso, a Revista Espírita HARMONIA, que se iniciou em junho de 1987 e que, portanto, está completando 23 anos de existência, sendo o periódico mais antigo em circulação permanente no Estado de Santa Catarina.

O Consolador: Fale-nos da sua motivação para ter se envolvido com a divulgação espírita.

Motivação completa, total e diuturna. Entendo que a divulgação espírita agiganta-se quando convertida em comunicação social espírita, permitindo a interação, por meio de diferentes mídias e espaços, com pessoas e coletividades. Na comunicação, não há o intuito proselitista de angariar adeptos ou convencer os outros acerca de “nossas verdades”, mas o espaço importante para a interação, o aprendizado recíproco, a perspectiva do crescimento individual a partir da análise das ideias, argumentos e vivências externadas pelo nosso interlocutor.

O Consolador: O que é, quais os objetivos e a forma de atuação da ABRADE?

A ABRADE não é uma entidade que congrega indivíduos (pessoas físicas) como associados, como é o modelo tradicional das instituições espíritas. Encampa instituições, isto é, pessoas jurídicas, na forma de associações de divulgadores (municipais, regionais ou estaduais), chamadas ADEs, e entidades congêneres, que tenham dentro do rol de seus objetivos e atividades as prerrogativas de divulgar e/ou comunicar o Espiritismo. Contudo, na execução de suas ações cotidianas, vale-se, sim, de pessoas, colaboradores que se encontram nos mais diferentes Estados brasileiros, a grande maioria vinculada às entidades filiadas à ABRADE, mas, também, pessoas que não guardam qualquer relação com as ADEs ou congêneres. Referidos companheiros se vinculam a projetos que a ABRADE desenvolve, sempre no sentido de dar ampla publicidade e propiciar o acesso de todos os interessados às iniciativas e atividades capitaneadas pela nossa Associação. A principal ferramenta para referidos projetos e ações é a internet, seja por meio da página (www.abrade.com.br) – que chamamos de “Portal da Comunicação Social Espírita”, quanto pelas inúmeras listas de discussão e disseminação da informação que a ABRADE mantém nas plataformas dos Grupos (www.grupos.com.br) e Yahoo (www.yahoogrupos.com.br), atualmente em número de quinze, conforme a natureza, objetivo e alcance das mesmas.

O Consolador: Como surgiu a ABRADE e como ela está estruturada?

A ABRADE é uma associação civil, espírita, de caráter cultural, sem fins lucrativos. Guarda afinidade de propósitos com a antiga Associação Brasileira de Jornalistas e Escritores Espíritas (ABRAJEE), fundada em 1976, e que congregou até o final da década de 80 inúmeros jornalistas e escritores espíritas, destacando-se os saudosos Deolindo Amorim e José Herculano Pires, entre muitos outros expoentes. Temos como missão "promover e aprimorar a comunicação social espírita, fazendo interagir as ideias espíritas na sociedade de forma ética, fraterna e parceira, contribuindo para a transformação moral da humanidade, a promoção da felicidade do ser humano e o equilíbrio da natureza". Sua estrutura é enxuta e moderna, adotando, ao invés do modelo presidencialista centralizador, uma concepção de Colegiado, com cinco membros efetivos, dos quais três têm funções executivas (assessoria administrativa, assessoria financeira e coordenação do colegiado), sendo suas decisões tomadas por maioria simples, de modo horizontal. Além disso, existe um órgão superior, de caráter orientativo e deliberativo, cognominado de Conselho Nacional de Divulgadores do Espiritismo (CNDE), que congrega os representantes de cada uma das filiadas e que disciplina diretrizes e orientações gerais, bem como homologa as atividades desenvolvidas pelo Colegiado.

O Consolador: Como a ABRADE pode auxiliar as instituições espíritas na sua qualificação para melhor executarem a comunicação social espírita?

No mais amplo espectro possível, uma vez que nossa entidade congrega companheiros que são especialistas em diferentes mídias e atividades voltadas à comunicação social espírita. No entanto, a ABRADE só pode atuar quando efetivamente solicitada, cabendo ao interessado nos contatar expondo suas necessidades e objetivos e/ou problemas e dificuldades, para que possamos colocá-lo em contato direto com um de nossos colaboradores-especialistas, para que os resultados positivos e efetivos possam ser alcançados no menor lapso de tempo possível.

O Consolador: Como avalia o interesse crescente pela temática espírita, em especial no cinema e na televisão?

Como uma decorrência natural do processo evolutivo das consciências individuais e do conjunto de seres que ora estagiam no Plano Terrestre. A (re) encarnação de criaturas mais comprometidas com ideais espirituais e com planos específicos de reajustamento e construção espiritual no planeta endereça-as à busca de informações mais precisas sobre a vida espiritual, já que, estando sob a condição física, as noções espirituais das existências sucessivas não se encontram no consciente do ser. Como o interesse é a mola propulsora ou, no dizer de Kardec, o móvel das ações humanas, é natural que as indústrias cinematográfica e de entretenimento (televisão e outras mídias) produzam material que tem mercado e consumidores interessados e ávidos pelas “novidades”.

Mas um número significativo das pessoas que procuram pelas informações espirituais – atraídos, em grande parte, pelas películas e novelas espiritualistas ou com relatos de fatos ou temas genuinamente espíritas – permanece interessado e acaba se vinculando a atividades e instituições espíritas, fazendo progredir estudos e aprendizados neste diapasão. Cabe aos dirigentes espíritas aproveitar o “momento” em que a Doutrina Espírita é divulgada (ainda que, sob o aspecto técnico ou formal, se percebam, aqui e ali, algumas, digamos, “impropriedades” doutrinárias), para explicar a dinâmica das Leis Espirituais, os fundamentos e princípios da Doutrina Espírita e, principalmente, através de eventos específicos (sugerimos, principalmente, a exibição por meio de DVD dos filmes ou capítulos de novelas e o sequencial debate com estudiosos pré-selecionados, com a recomendada participação do público na forma de questionamentos ou observações, para que se possa aproveitar o rico material que, cada vez mais, está ao dispor de todos, por meios mais acessíveis e em diferentes mídias, para a adequação do discurso “artístico” (filmes/novelas) ao pensamento genuinamente kardeciano.

O Consolador: Quais os desafios e as oportunidades dos novos paradigmas da sociedade atual como a facilitação das relações virtuais?

Muitos desafios. A dinâmica da vida atual exige estudo e dedicação, empenho e amplitude para compreender melhor os momentos pelos quais estamos passando. É certo que uma gama de Espíritos interessados em progredir mais rapidamente tem retornado à Terra, facilitando a disseminação de conceitos e elementos de espiritualidade, embora, nesta verdadeira “salada de frutas” dos dias atuais, com toda a gama de diversidade de entendimentos, seja necessário algum filtro. Nós temos o nosso, que é o edifício kardeciano, o conjunto de princípios/fundamentos legados pelo mestre lionês, num trabalho hercúleo e praticamente solitário (sob o viés físico), contando, é claro, com médiuns intermediários e inteligências desencarnadas que propiciaram o descortino de diversas informações, até então inacessíveis. Quando se menciona a “facilitação das relações virtuais” devemos atentar para dois contextos: um, o da aproximação entre os seres, em face da facilidade dos (novos) meios e instrumentos de comunicação, reduzindo as distâncias entre as pessoas; outro, o da artificialização das relações, quando as pessoas se ocultam por detrás dos e-mails ou “nicks”, com praticamente nenhum contato físico ou presencial. No primeiro espectro, vemos como importantíssima a interação propiciada por meio das ferramentas virtuais, possibilitando a realização de tarefas e/ou a celeridade dos resultados, antes impossíveis ou inimagináveis. No segundo, vemos com preocupação a substituição dos afetos e das convivências por experiências ou contextos virtuais, que distanciam as pessoas do mundo real e, em muitas vezes, provocam o aparecimento de dificuldades ou enfermidades, peculiares aos novos tempos.

O Consolador: Como a internet tem auxiliado na divulgação espírita? O que ainda pode ser explorado?

Os especialistas da ABRADE nesta área são praticamente unânimes em apontar uma relativa timidez dos espíritas no uso da internet. Exceto em função do e-mail enquanto ferramenta de divulgação de ações, iniciativas ou eventos espíritas, sobretudo no sentido de que as pessoas possam saber do que está acontecendo e, assim, programar-se para participar, circunstância que tem gerado bons resultados e diminuído os custos de veiculação das atividades, as instituições espíritas ainda concebem os sites (webpages) como se fossem meros endereços de consulta, principalmente para a coleta/uso de mensagens ou textos de caráter doutrinário. Por isto a ABRADE tem procurado disseminar o conceito de “Portal da Comunicação Social Espírita” expresso em seu site e nos demais, pertencentes a entidades espíritas, para que eles sejam, em verdade, portas de entrada em que o indivíduo possa interagir, dinamicamente, recebendo respostas rápidas e dialogando, constantemente, com os responsáveis/colaboradores para o atendimento de suas necessidades. Também pretendemos que nosso endereço seja um dinâmico banco de dados, com projetos e iniciativas que possam ser copiados pelas instituições, desenvolvendo-se ações espíritas nos mais diversos cantos de nosso país, aproveitando as experiências bem-sucedidas e as orientações que esperamos estejam disponíveis para acesso público, a partir, é claro, da própria disponibilização, por parte dos divulgadores/comunicadores, que cedem à ABRADE seus materiais e textos para download.

O Consolador: Suas palavras finais.

Agradecemos a inigualável oportunidade de O Consolador para a difusão das ideias comunicativas e divulgacionais de nossa ABRADE, tendo em vista a respeitabilidade deste meio midiático em nosso meio/movimento espírita e o seu alcance no Brasil e no exterior. Esperamos, ainda, que as ideias expostas nestes diálogos possam atrair novos interessados na difusão do conhecimento espírita, para que possamos formalizar parcerias ou desenvolvermos atividades/projetos conjuntos, os quais têm como destinatário o ser, o Espírito que retorna ao vaso físico com o objetivo de ser feliz, de melhorar-se e, com isso, aprimorar o mundo em que vive.

 


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