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>    Mulheres atuantes na área social - Confira a trajetória de Elza Santiago, da Bordadeiras da Coroa, do Rio de Janeiro

 


20/03/2010

 

Bordadeira conta sua história de luta na construção de uma cooperativa composta por mulheres

Susana Sarmiento

 

Entre retalhos, linhas e o colorido da costura, Elza Santiago conseguiu se firmar como bordadeira, sustentar sua família e se sentir mais segura. Nascida no interior da Paraíba, em Lagoa Grande, chegou ao Rio de Janeiro aos 19 anos para trabalhar e tentar uma nova vida. Hoje é uma das fundadoras da cooperativa Bordadeiras da Coroa, uma iniciativa criada por um grupo de mães solteiras e viúvas que costuram em uma pequena casa no bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro.

No final de outubro do ano passado, esse grupo de mulheres ficou conhecido por ter desenvolvido um vestido arrematado em leilão beneficente do Oi Fashion Rocks, no Hotel Copacabana Palace. Elaborado pelas bordadeiras Marinalva Alves dos Santos e Elza, o vestido foi vendido por R$ 163 mil para o empresário Eike Batista. A verba irá colaborar na melhoria da atual casa da cooperativa locada na comunidade Morro da Coroa. “Aceitamos esse desafio e bordamos o vestido. Estávamos com receio, porque era uma peça muito delicada. O vestido foi criado pelas estilistas Maria do Rosário e Amanda Haegler, donas da grife Q-Guai. Pensávamos que a peça seria vendida em torno de sete mil reais. Superou todas as expectativas. Esse vestido deu manchete internacional”, explica.

Há cinco anos Elza ficou viúva, sem trabalho, com dois filhos e não tinha perspectiva de trabalho formal. Já fazia uma capacitação da prefeitura chamada Mulheres em Ação, uma formação com aulas de cidadania, justiça, meio ambiente, direitos humanos, entre outros assuntos. “A gente recebia uma bolsa de cem reais. Isso me ajudava muito, principalmente depois da morte de meu marido. Depois que acabou o curso, fiquei quase maluca, porque precisava de alguma coisa para ocupar minha mente e conseguir dinheiro para sustentar minha família. Mas consegui graças ao bordado. Ou a gente montava esse grupo, ou eu ficava louca. Não sei pedir nada a ninguém. Tinha que trabalhar. E quem ia me dar uma oportunidade? Quem daria emprego formal para uma negra, pobre, com mais de 40 anos e sem faculdade?”

As mulheres da cooperativa produzem bolsas, vestidos, colchas e brindes para empresas. “A ideia de unir forças e talentos surgiu após esse curso desenvolvido pela prefeitura”, reforça. A coordenadora da iniciativa Mulheres em Ação ajudou o grupo de mulheres ex-alunas da formação para desenvolver um projeto de cooperativa para pedir ao Fundo de Investimento Elas, em 2006. O grupo recebeu quatro mil reais e oficinas sobre elaboração de projetos, administração de recursos, comunicação e marketing e direitos humanos a mulheres.

Elza revela que esse dinheiro ajudou as mulheres a terem um espaço para o trabalho da cooperativa e oferecer aulas de bordado para outras meninas da comunidade. “Já distribuímos camisinhas, material escolar para crianças, entre outras ações. A nossa proposta não é só pensar na gente. Tentamos ver onde podemos ajudar. Queremos continuar transformando vidas. Não fazíamos mais essa atividade por falta de recursos. Agora com o dinheiro do vestido vamos retomar as aulas de costura e bordado para as meninas da comunidade”, anima-se Elza.

A bordadeira conta que aprendeu a arte da costura quando criança no Nordeste. Também pinta, só que hoje em dia com menos frequência. Ela participava do Arte de Portas Abertas, um evento de abertura sincronizada dos ateliês que acontece desde 1996 no bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro. “Aprendi a pintar sozinha, minhas obras serviram até para tese de dissertação de mestrado em que o estudante falava de artistas que não aparecem”, afirma Elza.

Não foi apenas a costura e o bordado que ajudaram Elza a superar a morte do marido. Em 2006, conseguiu uma bolsa do Programa Universidade Para Todos para cursar técnico em recursos humanos na Universidade Estácio de Sá. “Nessa época, recebi muita ajuda dos amigos. Eles sabiam da minha luta para sustentar a casa. Eles me ajudaram demais, com fotocópias de textos, trabalhos e até passagem de ônibus. Nem sei como consegui passar em todas as matérias, porque trabalhava até de madrugada com os bordados e sempre nos dias de prova e entrega de trabalho coincidiam com alguma discussão com um dos meus filhos, ou alguma entrega grande da casa. Era um turbilhão de coisas, mas consegui passar com notas regulares”, recorda-se.

Elza não pretende parar ainda. Quer fazer uma pós em responsabilidade social e estudar inglês para recepcionar melhor os estrangeiros que costumam visitar a casa das Bordadeiras. Hoje Elza e outras integrantes do grupo participam de fóruns, seminários e eventos que discutem os direitos das mulheres e atividades de economia solidária. A cooperativa Bordadeiras da Coroa integra a Articulação de Mulheres Brasileiras. E o que Elza e as outras bordadeiras pretendem em 2010? Reformar e oferecer mais atividades na casa das Bordadeiras. “Fomos persistentes, porque ouvimos críticas da família e da comunidade e não desistimos da nossa luta. Foram muitos que falaram que era besteira esse negócio do bordado, que não daria futuro, era melhor ficarmos em casa. E olha só no que deu. Descobrimos mais nossos talentos e nossas habilidades e somos conhecidas em todo mundo com nossa arte. Tem coisa melhor que trabalhar com amor?”


Hoje Elza participa de eventos sobre direitos das mulheres
Crédito: Arquivo pessoal


Grupo é formado por mães solteiras e viúvas da comunidade Morro da Coroa
Crédito: Enrique Sans


Bordado fortaleceu autoestima e serviu como fonte de renda para a paraibana
Crédito: Enrique Sans

Fonte: http://www.setor3.com.br

 


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