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>    Monges budistas unem religiosidade e ciência


14/08/2009

Por Amy Yee

 

DHARAMSALA, Índia

- Monges e monjas tibetanos passam suas vidas estudando o mundo interior da mente, e não o mundo físico da matéria. Mas, recentemente, um grupo de 91 deles se dedicou ao estudo do reino corpóreo da ciência.

Em lugar de mergulhar em textos budistas sobre carma e vazio, eles aprenderam sobre a lei de movimento acelerado de Galileu, cromossomos, neurônios e o Big Bang, entre outros tópicos.

Muitos integrantes do grupo, cujas idades variavam de 20 a 40 e poucos anos, nunca tinham estudado ciências ou matemática na vida. O currículo ensinado nos mosteiros budistas tibetanos permanece o mesmo há séculos.

Para intensificar o desafio, alguns dos monges têm pouco domínio do inglês e tiveram que depender de tradutores tibetanos para acompanhar o cursinho intensivo de quatro semanas sobre física, biologia, neurociência, matemática e lógica dado por professores da Universidade Emory, de Atlanta, nos EUA.

Mas os monges assistiram às aulas desde a manhã até a noite. Numa faculdade budista em Dharamsala, no norte da Índia, onde o dalai-lama vive no exílio, monges e monjas trajando vestes vermelhas fizeram experimentos com pêndulos, colheram plantas nos contrafortes do Himalaia, para constatar a seleção natural, e debruçaram-se sobre microscópios para enxergar um mundo até então nunca visto.

Os monges tibetanos podem passar até 12 horas diárias estudando filosofia e lógica budistas, recitando orações e debatendo as sagradas escrituras. Mas a ciência ganhou um apoio especial do dalai-lama, que há muito tempo defende a adoção do ensino moderno nos mosteiros e escolas tibetanos no exílio, lado a lado com as tradições tibetanas. A Índia abriga pelo menos 120 mil tibetanos -a maior população tibetana fora do Tibete.

É possível imaginar que a ciência bata de frente com os rituais religiosos tibetanos. As reencarnações dos monges tibetanos de mais alto nível são identificadas por meio de de sonhos e sinais auspiciosos. O dalai-lama afirma que o oráculo do Estado o ajudou a tomar a decisão de deixar o Tibete em 1959, no momento em que as tropas chinesas avançavam.

Mas o líder espiritual tibetano enxerga a ciência e o budismo como "abordagens investigativas complementares que têm a mesma meta maior: a busca da verdade", como escreveu em seu livro "O Universo em um Átomo". Ele destaca que a ciência é especialmente importante para os monges, que estudam a natureza da mente e a relação entre mente e cérebro.

A resistência de alguns monges seniores e o medo de diluição dos estudos tradicionais nos mosteiros vêm diminuindo gradualmente. Agora, o dalai-lama espera que, com a ajuda do programa da Emory e outros, a ciência se torne parte de um novo currículo, com livros didáticos em tibetano e tradutores especializados ajudando, levando ao surgimento de uma geração de líderes monásticos dotados de conhecimentos científicos.

Existem outras razões para integrar a ciência com o budismo. Este ano os tibetanos lembraram o 50? aniversário de seu exílio, e a perspectiva de retorno a sua terra permanece improvável. Com o envelhecimento do dalai-lama, que tem 73 anos, torna-se cada vez urgente manter a identidade cultural tibetana viva, mas também moderna e relevante.

"Quem se mantém isolado, desaparece", disse Lhakdor, diretor da Biblioteca de Obras e Arquivos Tibetanos em Dharamsala.

Lhakdor, que só tem um nome, vê mais semelhanças que contradições entre a ciência e o budismo. Como o budismo, observou, "a abordagem da ciência geralmente parte de constatações imparciais feitas pela observação, seguindo à análise e à busca da verdade".

Outros falam com mais franqueza sobre a necessidade de aprender ciências. "O século 21 está aqui. Todo o mundo é influenciado pela ciência. Queremos saber o que ela é", disse a monja Tenzin Lhadron, 34.

Mas, embora a ciência possa estar muito mais avançada no Ocidente, existe um vazio moral ali, disse Bryce Johnson, engenheiro ambiental que coordena o programa Ciência para Monges. "Isso é algo que se perdeu no Ocidente", disse ele. O encontro entre ciência e budismo, opinou, "é um intercâmbio saudável que beneficia igualmente os cientistas".

Fonte: Folha de São Paulo/The New York Times



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