Espiritualidade e Sociedade



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>   Debate apontou que atuação em associação e nível local são boas alternativas para um desenvolvimento sustentado a pequenos grupos econômicos


26/06/2009

por Juliana Rocha Barroso

 

"Num mundo sustentável, a produção local, por meio de pequenas e médias empresas, tem importância central para promover inclusão social, equilíbrio regional e negócios duradouros. Que critérios e conceitos tornam sustentáveis arranjos produtivos e cooperativas? Qual é o estágio dessas organizações atualmente? Como torná-las protagonistas de fato de um novo modelo de sustentabilidade?”, essas indagações fizeram lotar, na tarde de 17/6/2009, a sala em que aconteceu o painel 5 da Conferência Internacional Ethos 2009.

A moderadora Ana Letícia Silva, coordenadora de projetos na área de Responsabilidade Social e Combate à Pobreza do Instituto Ethos, iniciou o debate falando da dificuldade em se definir o Arranjo Produtivo Local (APL), tipo de sistema de cooperação entre atores econômicos, políticos e sociais localizados em um mesmo território, e tema do painel. “O conceito nasceu inspirado nos distritos industriais italianos, mas no Brasil não acontece da mesma forma. A característica comum aos APLs é a cooperação, então, como eles podem contribuir com as grandes empresas? E elas com eles?”

Ana Letícia passou a palavra a Ladislau Dowbor, professor titular no departamento de pós-graduação da PUC-SP, a quem pediu que falasse sobre a Política Nacional de Apoio ao Desenvolvimento Local e sua proposta para os APLs. Iniciada em 2005 por meio de uma pesquisa realizada no quadro do Instituto Cidadania, com participação de cerca de 60 instituições ligadas ao desenvolvimento local e apoio do Sebrae, Fundação Banco do Brasil e outras instituições, a proposta tem seu resumo publicado no site de Dowbor, na seção “Artigos Online” (clique aqui para acessar). Para ele, o grande destaque é “a revolução chamada conectividade” e seu impacto no mundo. Deu alguns exemplos, como o dos catadores de castanha no Pará e Amapá, que antes vendiam seus produtos a atravessadores e hoje, depois de se estabelecerem como grupo e firmarem parceria com a Universidade de Macapá, vendem diretamente para produtores de perfumes na França. “Imagina o valor agregado disso para o local!”

O professor citou dados como o do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), de 2006, que aponta que 51% dos trabalhadores brasileiros são informais. Para ele, isso significa que mais da metade dos trabalhadores brasileiros estão se virando. “Não temos sistema capilar de financiamento, nem de disseminação de tecnologias para as pequenas e médias empresas. Três bilhões de pessoas no planeta não têm acesso ao crédito. Mas estão surgindo organizações não-governamentais de intermediação financeira e vinte municípios já possuem moedas próprias. Também estão sendo criadas Agências Locais de Desenvolvimento pelo País. As pessoas cansaram de esperar pelo tal desenvolvimento e estão fazendo as coisas acontecerem.”

Para ele, é necessário criar sistemas articulados, integrados e descentralizados de comunicação. “Dos 5.564 municípios brasileiros, cerca de cinco mil tem até 50.000 habitantes. Não faltam informações, mas, sim, que todos tenham acesso a elas.”

Talia Aharoni, fundadora e presidente da Maala – Negócios para a Responsabilidade Social, em Israel, falou sobre as cooperativas de seu país. O tradicional kibutz – do hebreu, “reunião” ou “juntos” –, uma forma de colectividade comunitária fundada pela necessidade de uma vida comunal e inspirada pela ideologia socialista, que teve papel essencial na criação do Estado de Israel.

Talia mencionou algumas iniciativas atuais de cooperativas localizadas em kibutzim (kibutz no plural, em hebraico), que podem ser considerados cooperativas em si, na região sul de Israel. Essas ações estão sob a orientação de um programa de treinamento da Maala, organização sem fins lucrativos fundada em 1998 com inspiração na estadunidense Business for Social Responsibility (BSR) e numa crescente rede de organizações de lideranças empresariais em todo o mundo, da qual é integrante. Maala atua como consultora, educadora e facilitadora, incentivando empresas a identificarem oportunidades para a participação da comunidade, promovendo boas práticas ambientais, responsabilidade social e de comunicação. Tem como missão: contribuir para o sucesso das empresas e para o enriquecimento da sociedade israelita.

Comparou as formas de cooperativismo. “Hoje as pessoas que as integram são aquelas que estão à margem da economia. A cooperativa atual é um instrumento para se atingir objetivos e necessidades de seus membros. Já os kibutzim tinham idealismo, eram a imagem da recém-criada elite da sociedade israelense e apoiadas pelo Estado.”

O professor de economia valorizou os exemplos, mas os considera ainda muito recentes para serem avaliados sob a perspectiva de sua sustentabilidade. “Não quero ser pessimista, mas a maioria não dura mais que cinco anos. Mas elas têm seu valor ao possibilitar a capacitação das pessoas. Acredito que as que conseguirem manter o equilíbrio entre o ideal de país e os objetivos econômicos terão sua sustentabilidade.”

A gerente sênior de relacionamentos em rede do Global Reporting Initiative (GRI), Leontien Plugge, trouxe a experiência da instituição multi-stakeholder, que atua no estabelecimento de padrões globais de relatórios de sustentabilidade, criando condições para o intercâmbio transparente e confiável de informações. “Há três anos trabalho para a GRI em projetos com pequenas e médias empresas. Elas são responsáveis por 50 a 60% dos empregos formais, trazem competitividade à economia. O impacto de uma PME na economia pode não ser grande, mas a comunidade de PMEs é muito grande. Elas também precisam entender os efeitos de elementos globais em seus negócios e como refletem em sua atuação, pois podem ser catalisadoras de mudanças, sinalizar às grandes como podem mudar, buscar sustentabilidade.”

Leontien sugeriu algumas maneiras de integrá-las às questões da sustentabilidade: formação de clusters, ou grupos, por campo de negócio ou por região. “Muitas delas entram para agregarem valor ao negócio, fazendo marketing sobre sua atuação local atenta a essas questões. O importante é que, ao se juntarem, elas facilitam seu acesso ao processo, o que seria bem mais complicado se realizado com cada uma separadamente. Dessa forma elas também reduzem riscos para aqueles que querem investir em seu desenvolvimento e formação.”

A palestrante apontou também aspectos que acredita assustam e afastam as PMEs. “A grande quantidade de normas, controle e pressão de suas cadeias de suprimento podem fazer com que elas não sintam que isso é parte de seus negócios, elas não se identificam, podem não gostar desse enfoque se vier de cima para baixo.”

Ela defendeu que a percepção do resultado sustenta a manutenção das PMEs no processo. “Constatamos isso em nossos projetos. Todas declararam que continuaram a trabalhar com os relatórios de sustentabilidade. A motivação veio das próprias cadeias de suprimento, da transparência em seus projetos. Quando entenderam que conseguem compartilhar e criar processos juntos, se animaram, apesar de continuarem pequenos”, concluiu Leontien, que apontou também a existência de outras formas de associação, com menos processos, como a configuração jurídica de entidade social.

Respondendo a questionamentos finais do público, Dowbor ressaltou: “O problema não é a produção, mas os apoios para que o negócio aconteça. O pequeno é extremamente produtivo quando conectado. Por isso, é necessário pensar um sistema integrado e descentralizado de apoio e não em apoios pontuais.”

Serviço:

Conferência Internacional Ethos 2009
www.ethos.org.br/Ci2009


http://www.setor3.com.br

 


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