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20/06/2009

 

As ideias revolucionárias do naturalista inglês, que nasceu há 200 anos, são os pilares da biologia e da genética e estão presentes em muitas áreas da ciência moderna. O mistério é por que tanta gente ainda reluta em aceitar que o homem é o resultado da evolução

 

Por Gabriela Carelli
Reportagem da revista Veja
http://veja.abril.com.br/110209/p_072.shtml

 

Charles Darwin é um paradoxo moderno. Não sob a ótica da ciência, área em que seu trabalho é plenamente aceito e celebrado como ponto de partida para um grau de conhecimento sem precedentes sobre os seres vivos. Sem a teoria da evolução, a moderna biologia, incluindo a medicina e a biotecnologia, simplesmente não faria sentido. O enigma reside na relutância, quase um mal-estar, que suas ideias causam entre um vasto contingente de pessoas, algumas delas fervorosamente religiosas, outras nem tanto. Veja o que ocorre nos Estados Unidos. O país dispõe das melhores universidades do mundo, detém metade dos cientistas premiados com o Nobel e registra mais patentes do que todos os seus concorrentes diretos somados. Ainda assim, só um em cada dois americanos acredita que o homem possa ser produto de milhões de anos de evolução. O outro considera razoável que nós, e todas as coisas que nos cercam, estejamos aqui por dádiva da criação divina. Mesmo na Inglaterra, país natal de Darwin, o fato de ele ser festejado como herói nacional não impede que um em cada quatro ingleses duvide de suas ideias ou as veja como pura enganação. Na semana em que se comemora o bicentenário de nascimento de Darwin e, por coincidência, no ano do sesquicentenário da publicação de seu livro mais célebre, A Origem das Espécies, como explicar a persistente má vontade para com suas teorias em países campeões na produção científica?

Para investigar a razão pela qual as ideias de Darwin ainda são vistas como perigosas, é preciso recuar no passado. Quando o naturalista inglês pela primeira vez propôs suas teses sobre a evolução pela seleção natural, a maioria dos cientistas acreditava que a Terra não tivesse mais de 6.000 anos de existência, que as maravilhas da natureza fossem uma manifestação da sabedoria divina. A hipótese mais aceita sobre os fósseis de dinossauros era que se tratava de criaturas que perderam o embarque na Arca de Noé e foram extintas pelo dilúvio bíblico. A publicação de A Origem das Espécies teve o efeito de um tsunami na Inglaterra vitoriana. Os biólogos se viram desmentidos em sua certeza de que as espécies são imutáveis. A Igreja ficou perplexa por alguém desafiar o dogma segundo o qual Deus criou o homem à sua semelhança e os animais da forma como os conhecemos. A sociedade se chocou com a tese de que o homem não é um ser especial na natureza e, ainda por cima, tem parentesco com os macacos. Havia, naquele momento, compreensível contestação científica às novas ideias. Darwin havia reunido uma quantidade impressionante de provas empíricas – mas ainda restavam muitas questões sem resposta.

O primeiro exemplar a sair da gráfica foi enviado a sir John Herschel, um dos mais famosos cientistas ingleses vivos em 1859. Darwin tinha tanta admiração por ele que o citou no primeiro parágrafo de A Origem das Espécies. Herschel não gostou do que leu. Ele não podia acreditar, sem provas científicas tangíveis, que as espécies podiam surgir de variações ao acaso. Pressionado, Darwin disse que, se alguém lhe apontasse um único ser vivo que não tivesse um ascendente, sua teoria poderia ser jogada no lixo. O que se encontrou em profusão foram evidências da correção do pensamento de Darwin em seus pontos essenciais. Hoje, para entender a história da evolução, sua narrativa e mecanismo, os modernos darwinistas não precisam conjeturar sobre o funcionamento da hereditariedade. Eles simplesmente consultam as estruturas genéticas. As evidências que sustentam o darwinismo são agora de grande magnitude – mas, estranhamente, a ansiedade permanece.

Outros pilares da ciência moderna, como a teoria da relatividade, de Albert Einstein, não suscitam tanta desconfiança e hostilidade. Raros são aqueles que se sentem incomodados diante da impossibilidade de viajar mais rápido que a luz ou saem à rua em protesto contra a afirmação de que a gravidade deforma o espaço-tempo. Evidentemente, o núcleo incandescente da irritação causada por Darwin tem conotação religiosa. A descoberta dos mecanismos da evolução enfraqueceu o único bom argumento disponível para a existência de Deus. Se Ele não é responsável por todas essas maravilhas da natureza, sua presença só poderia ser realmente sentida na fé de cada indivíduo. Mas isso não explica tudo. Em 1920, ao escrever sobre o impacto da divulgação das ideias darwinistas, Sigmund Freud deu seu palpite: "Ao longo do tempo, a humanidade teve de suportar dois grandes golpes em sua autoestima. O primeiro foi constatar que a Terra não é o centro do universo. O segundo ocorreu quando a biologia desmentiu a natureza especial do homem e o relegou à posição de mero descendente do mundo animal". Pelo raciocínio do pai da psicanálise, a rejeição à teoria da evolução seria uma forma de compensar o "rebaixamento" da espécie humana contido nas ideias de Copérnico e Darwin.

O biólogo americano Stephen Jay Gould, um dos grandes teóricos do evolucionismo no século XX, morto em 2002, dizia que as teorias de Dar-win são tão mal compreendidas não porque sejam complexas, mas porque muita gente evita compreendê-las. Concordar com Darwin significa aceitar que a existência de todos os seres vivos é regida pelo acaso e que não há nenhum propósito elevado no caminho do homem na Terra. Disse a VEJA o biólogo americano David Sloan Wilson, da Universidade Binghamton: "As grandes ideias e teorias são aceitas ou rejeitadas popularmente por suas consequências, não pelo seu valor intrínseco. Infelizmente, a evolução é percebida por muitos como uma arma projetada para destruir a religião, a moral e o potencial dos seres humanos". Uma pesquisa publicada pela revista New Scientist sobre a aceitação do darwinismo ao redor do mundo mostra que os mais ardentes defensores da evolução estão na Islândia, Dinamarca e Suécia. De modo geral, a crença na evolução é inversamente proporcional à crença em Deus. Mas a pesquisa encontrou outra configuração interessante: os habitantes dos países ricos acreditam menos em Deus que aqueles que vivem em países inseguros. Isso pode significar que a crença em Deus e a rejeição do evolucionismo são mais intensas nas sociedades sujeitas às pressões darwinistas, como escreveu a revista Economist.


O medo do inferno
Muito religiosa, Emma, a mulher de Darwin, temia que o marido fosse para o inferno. Ela dava por certo que iria para o céu e sofria com a ideia de ficarem separados pela eternidade. À direita, a casa da família, nos arredores de Londres: nela, Darwin viveu e trabalhou por quarenta anos - Fotos Latinstock e David Ball/Corbis/Latinstock

A teoria da evolução causa mal-estar em muita gente – mas só algumas confissões evangélicas converteram o darwinismo em um inimigo a ser combatido a todo custo. Como essas reli-giões são poderosas nos Estados Unidos, é lá que se trava o mais renhido combate dessa guerra santa. Ciência e religião já andaram de mãos dadas pela maior parte da história da humanidade. Mas esse nó se desatou há dois séculos e Darwin foi um dos responsáveis por esse divórcio amigável, com nítidas vantagens para ambos os lados.

Desde o ano passado, o bordão entre os criacionistas americanos é "liberdade acadêmica". A ideia que tentam passar é que o darwinismo é apenas uma teoria, não um fato, e ainda por cima está cheio de lacunas e é carente de provas conclusivas. Sendo assim, não há por que Darwin merecer maior destaque que o criacionismo. O argumento é de evidente má-fé. Em seu significado comum, teoria é sinônimo de hipótese, de achismo. A teoria da evolução de Darwin usa o termo em sua conotação científica. Nesse caso, a teoria é uma síntese de um vasto campo de conhecimentos formado por hipóteses que foram testadas e comprovadas por leis e fatos científicos. Ou seja, uma linha de raciocínio confirmada por evidências e experimentos. Por isso, quando é ensinado numa aula de religião, o gênesis está em local apropriado. Colocado em qualquer outro contexto, só serve para confundir os estudantes sobre a natureza da ciência.

A ciência não tem respostas para todas as perguntas. Não sabe, por exemplo, o que existia antes do Big Bang, que deu origem ao universo há 13,7 bilhões de anos. Nosso conhecimento só começa três minutos depois do evento, quando as leis da física passaram a existir. Os cientistas também não são capazes de recriar a vida a partir de uma poça de água e alguns elementos químicos – o que se acredita ter acontecido 4,5 bilhões de anos atrás. A mão de Deus teria contribuído para que esses eventos primordiais tenham ocorrido? Não cabe à ciência responder enquanto não houver provas científicas do que aconteceu. O fato é que a luta dos criacionistas contra Darwin nada tem de científica. Em sua profissão de fé, eles têm o pleno direito de acreditar que Deus criou o mundo e tudo o que existe nele. Coisa bem diferente é querer impingir essa maneira de enxergar a natureza às crianças em idade escolar, renegando fatos comprovados pela ciência. Essa atitude nega às crianças os fundamentos da razão, substituindo-os pelo pensamento sobrenatural.

Manda o bom senso que não se misturem ciência e religião. A primeira perscruta os mistérios do mundo físico; a segunda, os do mundo espiritual. Elas não necessariamente se eliminam. Há cientistas eminentes que cr
eem em Deus e não veem nisso nenhuma contradição com o darwinismo. O mais conhecido deles é o biólogo americano Francis Collins, um dos responsáveis pelo mapeamento do DNA humano. Diz ele: "Usar as ferramentas da ciência para discutir religião é uma atitude imprópria e equivocada. A Bíblia não é um livro científico. Não deve ser levado ao pé da letra". A Igreja Católica aceitou há bastante tempo que sua atribuição é cuidar da alma de seu 1 bilhão de fiéis e que o mundo físico é mais bem explicado pela ciência. O Vaticano até organizará em março o simpósio "Evolução biológica: fatos e teorias – Uma avaliação crítica 150 anos depois de A Origem das Espécies".

Em A Origem das Espécies, num raciocínio que cabe em poucas linhas mas expressa ideias de alcance gigantesco, Darwin produziu uma revolução que alteraria para sempre os rumos da ciência. Ele mostrou que todas as espécies descendem de um ancestral comum, uma forma de vida simples e primitiva. Darwin demonstrou também que, pelo processo que batizou de seleção natural, as espécies evoluem ao longo das eras, sofrendo mutações aleatórias que são transmitidas a seus descendentes. Essas mutações podem determinar a permanência da espécie na Terra ou sua extinção – dependendo da capacidade de adaptação ao ambiente. Uma década depois da publicação de seu livro seminal, o impacto das ideias de Darwin se multiplicaria por mil com o lançamento de A Descendência do Homem, obra em que mostra que o ser humano e os macacos divergiram de um mesmo ancestral, há 4 milhões de anos.

O embate entre evolucionistas e criacionistas teria causado um desgosto profundo a Darwin, que era religioso e chegou a se preparar para ser pastor da Igreja Anglicana. Esse plano foi interrompido pela fantástica aventura que protagonizou entre 1831 e 1836, em viagem a bordo do Beagle, um pequeno navio de exploração científica, numa das passagens mais conhecidas da história da ciência. Aos 22 anos, Darwin embarcou no Beagle para servir de acompanhante ao capitão do barco, o aristocrata inglês Robert Fitzroy. Durante a viagem, que se estendeu por quatro continentes, Darwin deu vazão à curiosidade sobre o mundo natural que o acompanhava desde a infância. Até a volta à Inglaterra, havia recolhido 1 529 espécies em frascos com álcool e 3 907 espécimes preservados. Darwin escreveu um diário de 770 páginas, no qual relata suas experiências nos lugares por onde passou. No Brasil, visitou o Rio de Janeiro e a Bahia, extasiando-se com a biodiversidade da Mata Atlântica – mas ficou horrorizado com a escravidão e com a maneira como os escravos eram tratados.


O pescoço da girafa
Anterior a Darwin, o naturalista francês Lamarck elaborou a primeira teoria da evolução. Para ele, o pescoço da girafa teria esticado para colher folhas e frutos no alto das árvores. A seleção natural de Darwin explica melhor: em grandes períodos de seca, só os animais de pescoço mais longo conseguiam se alimentar, o que favoreceu a reprodução dos pescoçudos - Frans Lanting/Corbis/Latinstock

Durante a viagem, Darwin fez as principais observações que o levariam a formular a teoria da evolução pela seleção natural. Grande parte delas teve como cenário as Ilhas Galápagos, no Oceano Pacífico. Lá, reparou que muitas das espécies eram semelhantes às que existiam no continente, mas apresentavam pequenas diferenças de uma ilha para outra. Chamaram sua atenção, principalmente, os tentilhões, pássaros cujo bico apresentava um formato em cada ilha, de acordo com o tipo de alimentação disponível. A única explicação para isso seria que as primeiras espécies de animais chegaram às ilhas vindas do continente. Depois, desenvolveram características diferentes, de acordo com as condições do ambiente de cada ilha. Era a prova da evolução. Mais recentemente, ao estudarem os mesmos tentilhões das Ilhas Galápagos, grupos de biólogos observaram a evolução ocorrer em tempo real. Os pássaros evoluíam de um ano para outro, de acordo com as mudanças nas condições climáticas da ilha. Darwin, que definiu a evolução como um processo invariavelmente longo, através das eras, ficaria espantado com as novas descobertas em seu parque de diversões científico.

Ao retornar à Inglaterra, após a viagem do Beagle, Darwin foi amadurecendo a teoria da evolução e começou a escrever A Origem das Espécies dois anos depois, em 1838. Só publicou o volume, no entanto, após 21 anos. Ele sabia do potencial explosivo de suas ideias na ultraconservadora Inglaterra do século XIX – da qual, ele próprio, era um legítimo representante. Elaborar uma teoria que ia contra os dogmas da Bíblia era, para Darwin, motivo de enorme angústia. Não colaboravam em nada os temores de sua mulher, Emma, de que, por causa de suas ideias, Darwin fosse para o inferno após a morte, enquanto ela iria para o céu – com isso, eles estariam condenados a viver separados na vida eterna. Darwin nunca declarou que a Bíblia estava errada. Manteve a fé religiosa até os últimos anos de vida, quando se declarou agnóstico – segundo seus biógrafos, sob o impacto da morte da filha Annie, aos 10 anos de idade.

Após o lançamento de A Origem das Espécies, um best-seller que esgotou rapidamente cinco edições, os cientistas não demoraram a aceitar a proposta de que as plantas e os animais evoluem e se modificam ao longo das eras. Na verdade, essa ideia chegou a ser formulada por outros cientistas, inclusive pelo avô de Darwin, o filósofo Erasmus Darwin. A noção de que a evolução das espécies se dá pela seleção natural, no entanto, é original de Charles Darwin, e só foi aceita integralmente depois da descoberta da estrutura do DNA, em 1953. Darwin atribuiu a transmissão de características entre as gerações a células chamadas gêmulas, que se desprenderiam dos tecidos e viajariam pelo corpo até os órgãos sexuais. Lá chegando, seriam copiadas e passadas às gerações seguintes. Os estudos feitos com ervilhas pelo monge austríaco Gregor Mendel na segunda metade do século XIX, mas aos quais a comunidade científica só deu importância no início do século XX, estabeleceram a ideia básica da genética moderna, a de que as características de cada indivíduo são transmitidas de pais para filhos pelo que ele chamou de "fatores", e hoje se conhece como genes. Com as ervilhas de Mendel, o processo concebido por Darwin teve comprovação científica. A descoberta da dupla hélice do DNA, pelos cientistas James Watson e Francis Crick, em 1953, finalmente esclareceu o mecanismo por meio do qual a informação genética é transmitida através das sucessivas gerações. Hoje, os biólogos se dedicam a responder a questões ainda em aberto no evolucionismo, como quais são exatamente as mudanças genéticas que provocam as adaptações produzidas pela seleção natural. É espantoso que, enquanto continuam a desbravar territórios na ciência, as ideias de Darwin ainda despertem tanto temor.

Com reportagem de Leandro Narloch, Paula Neiva e Renata Moraes

Fonte : http://veja.abril.com.br/110209/p_072.shtml


Evolução - Por que Darwin ainda tem a chave da vida

170 anos depois da viagem na qual revolucionou a ciência, o naturalista e suas teses continuam atuais

Por Thereza Venturoli e Okky de Souza

O Museu Americano de História Natural, em Nova York, inaugurou há uma semana a mais completa exposição já realizada sobre a vida e a obra do naturalista inglês Charles Darwin, o criador da teoria da evolução das espécies. A mostra reúne manuscritos originais, fósseis que ilustram suas teorias e uma coleção de plantas, insetos, lagartos e tartarugas gigantes sobre as quais ele se debruçou em pesquisas até sua morte, em 1882. Depois viajará por outras cidades americanas e pelo Canadá até aportar na Inglaterra, em 2009, quando se comemorarão os 200 anos de nascimento de Darwin. O significado simbólico da exposição é grande. Entre os importantes pensadores que ajudaram a moldar a civilização nos últimos 150 anos, Darwin é aquele cujas idéias exercem a mais consistente influência na formação do pensamento moderno. A psicanálise de Sigmund Freud foi colocada em xeque pelas correntes atuais da psicologia. As teorias econômicas de Karl Marx naufragaram junto com a experiência comunista. A relatividade de Albert Einstein permanece como uma idéia de ponta na física, mas pouca gente entende o significado de suas equações. Darwin transformou radicalmente a concepção humana da natureza e da vida. Sem suas teorias, a biologia não teria chegado às células-tronco e aos alimentos transgênicos e estaríamos longe de decifrar o genoma humano.

O deslumbramento diante da natureza sempre provocou no homem a indagação crucial: como surgiu isso tudo? Até meados do século XIX, a essa pergunta cabia apenas uma resposta aceita pelo senso comum. Todas as maravilhas da natureza, inclusive o homem, foram criadas por Deus. A explicação prevaleceu até que, em 1859, Darwin publicou A Origem das Espécies, o livro que provocou uma revolução na biologia ao apresentar evidências de que os seres vivos não surgiram prontos, na forma em que os conhecemos, como diz a Bíblia. Eles evoluem através dos tempos, sempre se modificando, e em muitos casos se extinguem. O livro de Darwin afirmava ainda que todas as espécies teriam se originado de uma única forma básica de vida que existiu há bilhões de anos. Para completar, em seu trabalho seguinte, A Origem do Homem, lançado doze anos depois, o naturalista desnudou a idéia do ser humano como uma obra especial da natureza. Nele, explicava que os homens têm um ancestral em comum com os macacos. No comentário do próprio Darwin, na Inglaterra conservadora da era vitoriana defender teorias desse quilate era como "confessar um assassinato".

Na época em que Darwin lançou suas teorias, os naturalistas já desconfiavam que as espécies não permaneciam imutáveis eternamente mas não conseguiam formular uma tese satisfatória para explicar como as variações ocorriam. Darwin solucionou a charada ao elaborar a teoria da evolução pela seleção natural das espécies. Ele raciocinou da seguinte forma. Os animais vivem numa luta contínua pela sobrevivência e pela reprodução. Aqueles com características que os tornem mais bem adaptados ao ambiente em que vivem têm maiores chances de vencer essa luta, fugindo dos predadores, encontrando alimentos com maior facilidade e sobrepujando os rivais na disputa pelo parceiro sexual. Os vencedores transmitem essas características a seus descendentes, que por sua vez as passam para as gerações seguintes. A cada vez que essas características são transmitidas, ocorrem pequenas mudanças. A acumulação dessas alterações, ao longo do tempo, pode produzir uma nova espécie, desde que elas estejam de acordo com as regras da biologia e sejam adequadas ao meio ambiente.

Ao longo dos últimos 150 anos, os avanços da ciência confirmaram a teoria de Darwin e mostraram como ela se manteve atual. A descoberta de novos fósseis reconstituiu a evolução da vida na Terra. O desenvolvimento da genética mostrou como funciona a transmissão de características hereditárias previstas na teoria de Darwin: por meio dos genes que se combinam toda vez que um ser vivo é gerado. Darwin escreveu que o acaso representa um papel determinante no processo de seleção natural, ou seja, as transformações ocorrem nos seres vivos, através das gerações, de forma aleatória. Sabe-se hoje que as variações genéticas são realmente acidentes de percurso que resultam em mutações. Os biólogos concordam que a seleção natural continua imprescindível para explicar a vida no planeta. "A conquista de Darwin é universal, atemporal e deve valer em qualquer lugar do cosmo onde porventura exista vida", diz o zoólogo britânico Richard Dawkins, da Universidade de Oxford.

Ao separar Deus da ciência, Darwin abriu caminho para explicar todos os fenômenos biológicos no contexto da própria natureza. A principal conseqüência disso é que hoje a ciência busca sempre as causas primeiras de todos os fenômenos que analisa. Suas idéias sempre foram combatidas pelos chamados criacionistas, que crêem na criação do mundo descrita no Gênesis. O mais recente round dessa briga ocorre atualmente nas escolas públicas americanas. Muitas delas passaram a apresentar a teoria de Darwin apenas como uma das explicações possíveis para a história da vida na Terra. A principal alternativa oferecida aos alunos é a teoria chamada de "design inteligente". Segundo seus adeptos, alguns elementos da natureza, como as células e o olho humano, são construções tão perfeitas e as diversas partes que as compõem se encaixam de forma tão engenhosa que elas só podem ter sido criadas por um projetista, ou seja, uma inteligência superior. Vários estados americanos já adotaram o ensino do design inteligente, gerando uma interminável briga nos tribunais com grupos de pais de alunos que discordam de que a teoria seja ensinada a seus filhos. Os cientistas consideram o design inteligente uma aberração. "Todo biólogo sabe que a evolução tem conseqüências importantes na definição de políticas ambientais, energéticas e de saúde", disse a VEJA o filósofo Daniel Dennett.

As principais pesquisas de Darwin foram feitas durante uma aventura que daria um filme. Em dezembro de 1831, então com 22 anos, o naturalista, filho de um influente médico inglês, embarcou no navio Beagle para uma viagem em volta do mundo. Ao chegar ao Arquipélago de Galápagos, no Oceano Pacífico, a 1.000 quilômetros da costa do Equador, Darwin começou a delinear sua teoria da evolução. As cinco semanas passadas em meio a tartarugas gigantes, aves e lagartos exóticos chamaram sua atenção para o fato de que muitas das espécies eram semelhantes às que existiam no continente, mas apresentavam pequenas diferenças de uma ilha para outra. A explicação só podia ser esta: as primeiras espécies de animais chegaram às ilhas vindas do continente. Depois, desenvolveram diferentes características, de acordo com as condições do ambiente de cada ilha. Ou seja, a evolução seguiu caminhos variados. A descoberta era fantástica e perturbadora – tão perturbadora que Darwin, que era religioso e chegou a estudar teologia para ser sacerdote, levou 21 anos para ter coragem de publicar suas conclusões. De volta à Inglaterra, ele casou-se com uma prima, Emma, e teve dez filhos. Segundo seus biógrafos, o golpe final em suas crenças religiosas foi a morte da filha mais velha, Annie, aos 10 anos. Darwin morreu dizendo-se agnóstico. Para quem crê na mão de Deus por trás da criação da natureza, ele continua a ser uma pedra no sapato. Para a ciência, permanece como um libertador das amarras do sobrenatural.


ÁRVORE DA VIDA
Rabiscos no caderno de Darwin: todas as espécies se relacionam

 

"Darwin fascina até seus críticos"

O biólogo Niles Eldredge, curador da exposição Darwin e do departamento de paleontologia do Museu Americano de História Natural, de Nova York, é autor, em conjunto com colegas das universidades de Rochester e Harvard, de uma teoria que desafia certos aspectos das idéias darwinianas. Intitulada Equilíbrio Pontuado (Punctuated Equilibrium, em inglês), sustenta que a evolução se dá em picos rápidos – o que significa alguns milhares de anos –, intercalados por períodos estáticos. Eldredge, que já publicou estudos sobre a relação existente entre a evolução e a extinção das espécies, atualmente busca, por meio de pesquisas científicas, integrar padrões repetitivos da vida com a teoria da evolução. Ele conversou com a repórter Tania Menai em seu escritório, no Museu Americano de História Natural.

O QUE MAIS FASCINOU O SENHOR NA MONTAGEM DESSA EXPOSIÇÃO?
A criatividade de Darwin quando ele era jovem. Durante a viagem no Beagle, ele manteve a mente aberta e observou os sinais da natureza. De volta à Inglaterra, começou a juntar as peças e formulou as primeiras idéias sobre a evolução das espécies. Mesmo as pessoas que discordam das idéias de Darwin são fascinadas por esse homem.

O LIVRO DE DARWIN SOBRE A EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES É UMA DAS OBRAS MAIS INFLUENTES DE TODOS OS TEMPOS. POR QUE ESSE ASSUNTO TANTO NOS FASCINA?
Todos os seres humanos são fascinados pelo tema porque ele nos faz pensar sobre quem somos e de onde viemos.

QUAL A IMPORTÂNCIA DO TRABALHO DE DARWIN NA ERA DO DNA, DO GENOMA E DO BIOTERRORISMO?
Se não soubéssemos das possibilidades da evolução e que ela funciona por mutação e seleção natural, não teríamos idéia de que devemos nos preocupar com o surgimento da gripe aviária. Trata-se de uma nova forma de vírus evoluído, que pode se espalhar de humano para humano.

COMO O SENHOR VE O DESIGN INTELIGENTE, O CONCEITO DE QUE A VIDA FOI CRIADA POR UM SER SUPERIOR, SENDO INTRODUZIDO NAS AULAS DE CIÊNCIAS EM ALGUMAS ESCOLAS PÚBLICAS AMERICANAS?
As escolas devem saber que existem objeções religiosas à teoria da evolução. Mas não devem ensinar o Design Inteligente como se fosse ciência de verdade. Esse conceito não é científico.

A EXPOSIÇÃO PREOCUPOU-SE EM EXPLICAR QUE "TEORIA NÃO É UM FATO". O QUE SIGNIFICA?
Teorias significam achismos numa linguagem coloquial. Por outro lado, são o pilar central das explicações dos fenômenos naturais. Os mecanismos quânticos, as placas tectônicas e a relatividade são teorias. A evolução também.

DARWIN VISITOU O BRASIL. QUE IMPRESSÃO ELE TEVE DO PAÍS?
Darwin ficou mal impressionado com a escravidão. Ele via todos os seres humanos como membros de uma única espécie e considerava a escravidão inaceitável. Por outro lado, Darwin ficou maravilhado com a possibilidade de comparar a diversidade da vida existente nas águas costeiras com a diversidade biológica na floresta que podia ser vista da praia.

O QUE DARWIN PENSARIA DESSA EXPOSIÇÃO?
Ele era um homem modesto. Talvez ficasse encabulado com a atenção recebida por sua vida e obra. Se tivesse oportunidade de ver os dias atuais, Darwin ficaria fascinado com os avanços da ciência, especialmente a genética e a paleontologia. Acredito que ele não se surpreenderia, mas certamente ficaria desapontado ao descobrir que tantos americanos ainda rejeitam sua teoria baseados em argumentos religiosos.

 

Origens da Origem

De como Charles Darwin concebeu A Origem das Espécies e aprofundou suas teses

Por Carlos Graieb

Embora os gênios costumem ser representados como pessoas "inspiradas", que têm idéias brilhantes a partir do vácuo, o fato é que quase sempre o inverso é verdadeiro. Em vez de ser atingidos por um raio fulminante, homens que entram para a História como luminares trabalham anos e anos em suas teses revolucionárias. O naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) é um ótimo exemplo disso. Ele ficou conhecido como o pai do evolucionismo. Sua teoria diz que as várias espécies de vida não foram criadas já "prontas", mas evoluíram no correr das eras, obedecendo ao princípio da "seleção natural". Quando Darwin é mencionado, é inevitável que logo em seguida surja o nome de sua obra-prima, A Origem das Espécies (1859), em que ele condensou suas idéias pela primeira vez. Mas Darwin não foi autor de um livro só. Ele trabalhou na teoria da evolução por vinte anos, antes de publicá-la. E, nos anos que se seguiram a 1859, continuou apurando seus argumentos. Será que é importante conhecer os textos que vieram antes e depois de A Origem das Espécies? É claro que sim, e uma prova em dose dupla acaba de chegar às livrarias. O Darwin "aprendiz" está em As Cartas de Charles Darwin (tradução de Vera Ribeiro; Unesp/Cambridge; 339 páginas; 32 reais), uma excelente coletânea que cobre os anos de 1825 a 1859. Já o Darwin maduro, que aprofunda suas teses, está em A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais (tradução de Leon de Souza Lobo Garcia; Companhia das Letras; 376 páginas; 26 reais), um clássico traduzido pela primeira vez para o português.

Enquanto escrevia A Origem das Espécies, Darwin se viu atormentado por uma dúvida: abordar ou não a evolução humana. Ele sabia que os religiosos atacariam violentamente o livro. Falar sobre o homem era jogar mais lenha na fogueira. Assim, ele apenas deixou implícito que os humanos tinham evoluído de ancestrais primitivos, em vez de ter sido sido criados "à imagem e semelhança de Deus". Uma discussão minuciosa só veio bem mais tarde, com os dois volumes de A Descendência do Homem (1871) e, posteriormente, com A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais. Este último, lançado em 1872, visava à derrubada de um tabu: o de que apenas os homens podem externar emoções, pois seu rosto foi esculpido para expressar "as coisas sutis do espírito". A primeira parte da argumentação no livvro talvez pareça banal, mas não era tão fácil de engolir 130 anos atrás. Observando animais domésticos e selvagens, Darwin demonstra que a habilidade de expressar emoções não é algo que torne os humanos especiais, pelo contrário: é algo que compartilhamos com todos os outros bichos. A segunda parte do argumento é mais importante. Ela diz que os "movimentos expressivos" também são fruto da evolução, ou seja, se consolidaram nas espécies ao longo do tempo. Segundo Darwin, o fato de as expressões humanas serem as mesmas entre ingleses e nativos da Polinésia não quer dizer que todos foram "criados iguais", mas sim que são descendentes de um mesmo ancestral.

Darwin passou uma década procurando a melhor forma de abordar "o problema do homem". Foram precisos quase vinte anos para que ele desse forma à teoria da evolução. No volume de sua correspondência, há páginas fundamentais sobre seu método de trabalho, suas dúvidas e certezas. Em 1844, por exemplo, ele fez suas primeiras confissões a um colaborador: "Estou quase convencido de que as espécies não são (isto é como confessar um assassinato) imutáveis". Mas há muito mais nas cartas: opiniões políticas, relatos de viagem, intimidades. Por meio delas pode-se constatar, por exemplo, o ferrenho antiescravismo de Darwin. No campo das viagens, a mais importante é sem dúvida a que ele empreendeu a bordo do Beagle, um navio que o trouxe aos trópicos, onde recolheu amostras de flora e fauna e teve os primeiros lampejos da teoria da evolução. No trajeto, Darwin passou pelo Brasil. Aportou na Bahia e no Rio de Janeiro e, em 1º de março de 1832, fez uma descrição de Salvador, deixando-se contaminar pelo espírito da terra: "Dá vontade de levar uma vida sossegada numa região assim". Um dos aspectos mais curiosos da vida de Darwin foi sua saúde: ele sofria com misteriosas dores de estômago, tinha tremores e vômitos incontroláveis. As causas dessa doença nunca foram esclarecidas, mas a epopéia estomacal está toda registrada nas cartas.

O século XX foi pródigo na derrubada de totens. Karl Marx veio ao chão com o Muro de Berlim. Sigmund Freud ficou capenga, pois muitas de suas hipóteses não puderam ser comprovadas. Mas Darwin resistiu e resiste aos ataques mais duros. Hoje, a maioria de seus opositores se reúne sob o rótulo do criacionismo. Eles continuam defendendo a idéia de que Deus criou as formas de vida tais como elas são. De tempos a tempos, até obtêm uma vitória política. Em 1999, no Estado americano do Kansas, impediram por lei que a evolução fosse ensinada em algumas escolas. Mas, no campo estritamente científico, não adianta espernear: a biologia é uma disciplina darwinista. A cada dia surgem novas linhas de estudo ancoradas no darwinismo. Os pesquisadores podem até discordar em minúcias. Uns dizem que a evolução é gradual; outros, que ela ocorre em saltos. Mas um ponto ninguém põe em questão. E ele é justamente a genialidade de Darwin.

 

Espírito animal

Em trechos do livro de 1872, Charles Darwin mostra que a expressão de sentimentos não é prerrogativa do gênero humano, e sim algo comum a várias espécies. Alguns exemplos

O medo nos cães
Mesmo o mais fraco dos medos é invariavelmente demonstrado
colocando-se o rabo entre as pernas. Esse gesto é acompanhado
pelo repuxar das orelhas; mas elas não são coladas contra a cabeça como quando o cão rosna e também não são abaixadas como quando ele se sente satisfeito e afetuoso.

A afeição nos gatos
Eles se mantêm em pé, de costas levemente arqueadas, cauda erguida perpendicularmente e orelhas em pé. O desejo de roçar-se em alguma coisa é tão forte nesse estado de espírito que eles freqüentemente podem ser vistos roçando-se contra pés de cadeiras e mesas, ou contra batentes de porta.

A fúria nos cavalos
Os cavalos, quando enfurecidos, jogam suas orelhas para trás, projetam a cabeça e descobrem parcialmente os dentes incisivos, prontos para morder. Quando dispostos a dar coices, geralmente, por hábito, repuxam as orelhas; e seus olhos voltam-se para trás de maneira peculiar.

O prazer nos macacos
Eles mostram os dentes e soltam uma espécie de risada. Tão logo sua risada desaparece, uma expressão, que podemos chamar de um sorriso, passa pelo seu rosto. Ou seja, uma expressão de satisfação, da mesma natureza que um sorriso incipiente e semelhante àquela tantas vezes vista no rosto do homem, pode ser nitidamente reconhecida nesse animal.


Onde Darwin é só mais uma teoria

Nas escolas evangélicas, os alunos aprendem que o evolucionismo existe, mas que a razão está com a Bíblia

por Carolina Romanini

As escolas brasileiras ligadas a instituições religiosas sempre ensinaram o criacionismo. Seja nas aulas de religião, seja nos cultos, os alunos aprendem que Deus criou o mundo e todos os seres que o habitam. A triste novidade é que, na maioria das escolas mantidas por confissões evangélicas, o criacionismo passou a ser ensinado também nas aulas de ciências e de biologia, dividindo território com o evolucionismo de Charles Darwin. No fim do ano passado, o Colégio Presbiteriano Mackenzie, de São Paulo, trocou os livros convencionais de ciências do ensino fundamental I por apostilas traduzidas da Associação Internacional das Escolas Cristãs nos Estados Unidos. Com o novo material didático, até a 4ª série os alunos da instituição aprendem apenas a versão criacionista do mundo e da vida. Da 5ª série em diante, Darwin entra em cena. O evolucionismo passa a fazer parte das aulas de biologia, mas informa-se aos alunos que, entre as duas teorias, a escola prefere aquela amparada na Bíblia. "Não viramos criacionistas do dia para a noite. Nossa escola tem 138 anos, e durante todo esse tempo fomos criacionistas", diz a professora Débora Muniz, diretora do Colégio Presbiteriano Mackenzie.

Os adventistas, que mantêm a maior rede de escolas evangélicas do país, com 130?000 alunos, optaram por outro caminho para ensinar o criacionismo em sala de aula. Há cinco anos, empreenderam uma total reformulação nos livros didáticos de ciências produzidos por uma das 56 editoras mantidas pela igreja. Agora, os livros contrapõem a teoria bíblica à ciência em diversos capítulos, deixando claro que consideram que a segunda nem sempre é verdadeira. No capítulo das origens do universo e da vida, Darwin é impiedosamente surrado. Diz o texto a certa altura, tropeçando no português: "Muitos ensinam a evolução como se ela fosse um fato cientificamente comprovado. Isso não é verdade e nem honesto, já que não se podem provar cientificamente as origens da vida". Os criacionistas sustentam suas posições antidarwinistas alegando que o criacionismo não se mantém apenas pela fé, mas também pela comprovação científica. Diz o professor Nahor Neves de Souza Júnior, do Centro Universitário Adventista de São Paulo: "As descrições literais e históricas da Bíblia, incluindo o livro do Gênesis, estão sendo progressivamente confirmadas pelas mais recentes descobertas arqueológicas no Oriente Médio".

 

 

 

 

Em nome do Senhor
Débora Muniz, diretora do Colégio Presbiteriano Mackenzie, de São Paulo, defende a troca dos livros de ciências convencionais por apostilas de conteúdo criacionista até a 4ª série, feita no ano passado: "O evolucionismo é apresentado no momento certo"

As escolas evangélicas batistas veem com desconfiança o material didático produzido especialmente para introduzir o criacionismo nas aulas de ciências – tanto o importado quanto o preparado por autores brasileiros. Os batistas preferem usar os livros didáticos convencionais, utilizados também nas escolas laicas, e introduzir o criacionismo por meio da Bíblia e de livros de apoio sobre temas religiosos. O Ministério da Educação não apoia o ensino do criacionismo nas aulas de ciências, mas não pode proibi-lo. A única exigência do órgão é que os livros didáticos, mesmo defendendo a teoria bíblica da criação, apresentem simultaneamente a versão evolucionista consagrada pela ciência. "Não aprovamos livro didático que trate do criacionismo apenas. Temos uma posição muito clara, a de que o criacionismo é para ser lecionado e discutido na aula de religião", diz Maria do Pilar Lacerda, secretária de Educação Básica do Ministério da Educação. Essa conduta é adotada pelas escolas católicas, que evidentemente sustentam os dogmas bíblicos, mas separam a religião da ciência. "Sabemos que o criacionismo é uma teoria de fé e que o evolucionismo é ciência. Não podemos contrastá-los em sala de aula", diz o paranaense Dilnei Lorenzi, secretário executivo da Associação Nacional de Educação Católica.

Nas salas de aula, as escolas evangélicas não chegam a desqualificar as ideias de Darwin como fraudes. Elas aceitam que os animais evoluam ao longo das eras, mas não que uma espécie possa gerar outra completamente diferente, e muito menos que o homem e os macacos tenham ancestrais comuns. Com relação a outros aspectos do mundo animal, os evangélicos têm posições bem mais controvertidas. Os fósseis seriam restos de animais que morreram durante o dilúvio bíblico, que data de 2400 a.C. Os dinossauros também teriam sido extintos na mesma enxurrada, e não 65 milhões de anos atrás, como ensinam os cientistas. Os dinossauros não poderiam ter existido há tanto tempo – os evangélicos acreditam que o mundo tenha sido criado em 4004 a.C., data estabelecida no século XVII pelo bispo irlandês James Ussher.

Os alunos das escolas evangélicas não são necessariamente seguidores da religião pela qual elas se orientam. Nas escolas adventistas, por exemplo, 70% dos estudantes não seguem essa doutrina. Os pais de alunos das escolas evangélicas não costumam reclamar do fato de seus filhos serem instruídos no criacionismo em detrimento da ciência. Dizem ter escolhido a escola por acreditar que ela incute nas crianças valores morais, éticos e cristãos. "Nossa escola forma verdadeiros cidadãos. De que adianta o adolescente estar preparado para o vestibular se não tiver uma boa formação como ser humano?", diz a baiana Selma Reis Guedes, uma das diretoras do Colégio Batista Brasileiro, de São Paulo.










Longe do muro
Selma Reis Guedes é a responsável pelo atendimento religioso de pais e alunos no Colégio Batista Brasileiro, de São Paulo, que usa livros de ciência convencionais, mas defende o criacionismo. "Não podemos ficar em cima do muro. Por que não ensinar criacionismo se é nisso que acreditamos?", ela diz - Foto - Lailson Santos


À época em que governava o Rio de Janeiro, Rosinha Garotinho tentou implantar aulas de religião com viés criacionista nas escolas do estado. Em abril de 2004, a governadora chegou a declarar publicamente que não acreditava na teoria da evolução. O projeto causou polêmica, principalmente entre a comunidade científica, e foi oficialmente implantado, mas não vingou. A pedido do arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eusébio Scheid, o novo prefeito do Rio, Eduardo Paes, que é católico, pretende implantar o ensino religioso nas escolas públicas do município. Segundo fontes da Secretaria da Educação da prefeitura carioca, no entanto, o mais provável é que o projeto não saia do papel.

Embora as escolas evangélicas brasileiras procurem conciliar as ideias darwinistas com o criacionismo, a verdade é que, para os defensores da versão bíblica da criação do mundo, a teoria da evolução representa um inimigo a ser combatido a todo custo. Nos Estados Unidos, a oposição ao darwinismo se tornou uma guerra que frequentemente chega aos tribunais. Nos últimos anos, muitas escolas americanas de ensino fundamental e médio simplesmente subs–tituí-ram os ensinamentos de Darwin pelo criacionismo nas aulas de ciências e de biologia. Duas dezenas de estados americanos já criaram leis que obrigam os colégios a ensinar o criacionismo ao lado da teoria da evolução. O último deles foi a Louisiana, em junho do ano passado. A manobra é constantemente motivo de processos judiciais por parte de pais de alunos – que em geral são derrotados nas decisões dos juízes.

Os criacionistas americanos se reúnem em organizações influentes e com forte lobby político. De tempos em tempos eles aperfeiçoam seu arsenal de argumentos para desqualificar Darwin. Um dos mais recentes é que certos elementos da natureza são tão complexos que só podem ter sido criados por uma inteligência superior. Como o olho humano. No reino animal, um bom exemplo de design inteligente é o besouro-bombardeiro, chamado de "o besouro de Deus". Comum em várias regiões do mundo, esse artrópode é dono de um sistema de ataque que lembra uma complexa arma militar. Duas bolsas localizadas em seu abdômen armazenam, separadamente, água oxigenada e hidroquinona, substâncias que entram em ebulição ao ser misturadas. Diante do predador, o besouro abre uma câmara de combustão e mistura os dois líquidos. Depois comprime a bolsa, disparando a solução tóxica por meio de um jato fortíssimo.

Os evolucionistas explicam que as substâncias que o besouro armazena são comumente produzidas por artrópodes, como também são corriqueiras nesses animais as vesículas de reserva de líquidos. Por acaso, ao longo da evolução, líquidos e bolsa se concentraram numa determinada espécie. De qualquer forma, a ideia de que os seres vivos são o resultado de um planejamento cuidadoso realizado por um designer inteligente não resiste ao menor exame. Veja o exemplo do engasgo, que pode levar uma pessoa à asfixia e à morte. Os seres humanos engasgam porque têm a laringe em posição muito baixa na garganta, se comparada à dos chimpanzés e à da maioria dos mamíferos. Esse arranjo adaptativo permite a modulação dos sons e, por consequência, a fala. É excelente do ponto de vista da sobrevivência da espécie, mas atrapalha quando se trata de respirar e comer ao mesmo tempo. Se o homem tivesse tido um designer mais inteligente, esse problema teria sido evitado com a simples colocação das tubulações – a da respiração e a da alimentação – bem distante uma da outra. É por isso que o biólogo Francisco Ayala, da Universidade da Califórnia, definiu a seleção natural como o "design sem um designer".







Apoio discreto
Professor e alunos numa aula de ciências no Colégio Cristão, de Belo Horizonte, de orientação batista: o criacionismo aparece só em materiais de apoio
- Foto - Nelio Rodrigues


A mais recente estratégia dos criacionistas americanos para implantar os dogmas da Bíblia nas aulas de ciências das escolas públicas é sustentar o discurso de que a liberdade acadêmica deve ser preservada a qualquer custo. O texto da lei que tornou obrigatório o ensino do criacionismo nas escolas da Louisiana afirma que é preciso "ajudar os professores a criar nas escolas um ambiente que promova o pensamento crítico, a análise lógica e a discussão objetiva das teorias científicas". Além disso, diz a lei, "deve-se incentivar os alunos a analisar com objetividade as teorias estudadas". São sábios conselhos, ninguém duvida. Apenas não estão a serviço do aperfeiçoamento das instituições acadêmicas, mas das aspirações dos criacionistas de universalizar suas ideias nas salas de aula. O conceito de liberdade acadêmica é o tema central do primeiro filme destinado a panfletar as ideias criacionistas, Expelled: No Intelligence Allowed, lançado nos Estados Unidos há dez meses (e massacrado pela crítica). O filme denuncia uma suposta conspiração por parte da comunidade científica americana contra o criacionismo. Uma pesquisa recente da Universidade da Pensilvânia mostrou que, nos Estados Unidos, um em cada oito professores do ensino médio apresenta o criacionismo a seus alunos como "uma alternativa cientificamente válida para a explicação darwinista sobre a origem das espécies". No Brasil, não existem estatísticas sobre o assunto, mas, pelo avanço criacionista nas aulas de ciências das escolas evangélicas, pode-se apostar que os dogmas da Bíblia estão em alta no meio educacional.

O julgamento do macaco

Em 1925, o professor de biologia John T. Scopes, de 24 anos, foi julgado por violar a lei que proibia o ensino da teoria da evolução nas escolas públicas do Tennessee. "O julgamento do macaco", como ficou conhecido, contrapôs o promotor William Jennings Bryan, candidato derrotado três vezes à Presidência dos Estados Unidos, ao advogado Clarence Darrow e deu visibilidade global ao tema. Scopes foi condenado a pagar a irrisória multa de 100 dólares, mais tarde revogada.


CONFRONTO NO TRIBUNAL
Spencer Tracy e Fredric March em O Vento Será Tua Herança

A duração do dia do Senhor

"O julgamento do macaco" chegou às telas do cinema pela primeira vez em 1960, com O Vento Será Tua Herança. Ao lado, a transcrição de trecho do debate entre os personagens Henry Drummond (o advogado de defesa representado por Spencer Tracy) e Matthew Harrison Brady (o promotor interpretado por Fredric March). Na versão cinematográfica, a defesa usou a Bíblia para demonstrar a fragilidade das teses do criacionismo
- veja o diálogo abaixo.

Brady: o bispo Ussher, estudioso da Bíblia, determinou dia e hora exatos da criação. Deus iniciou a criação em 23 de outubro do ano 4004 a.C., às 9 horas.

Drummond: no horário da costa leste ou das Montanhas Rochosas? Não era horário de verão, já que Deus não criou o sol antes do quarto dia, certo?

Brady: certo.

Drummond: quanto tempo o senhor acha que durou esse primeiro dia? Vinte e quatro horas?

Brady: a Bíblia diz que foi um dia.

Drummond: não havia sol. Como o senhor sabe quanto tempo durou? É possível que tenha durado 25 horas, já que não havia um método para saber?

Brady: é possível.

Drummond: o primeiro dia, tal qual descrito no livro do Gênesis, poderia ter durado por tempo indeterminado?

Brady: quero dizer apenas que não foi necessariamente um dia de 24 horas.

Drummond: poderia ter durado uma semana, um ano, 100 anos ou 10 milhões de anos. A Bíblia é um livro. Um bom livro, mas não o único.

Brady: é a palavra revelada por Deus aos homens que a escreveram.

Drummond: como o senhor pode saber que Deus não falou com Charles Darwin?

Brady: Deus ordena que eu me oponha aos ensinamentos malignos desse homem.

Drummond: Deus fala com o senhor? Diz-lhe o que é certo e errado?

Brady: sim!

 

A ciência e a fé já foram unidas

Ensinar Adão e Eva nas aulas de ciências é treva.
Astrologia é charlatanismo. Mas grandes descobertas científicas foram feitas por gênios que conviveram bem com ideias religiosas e até superstições.

O primeiro místico e o primeiro cientista foram uma mesma pessoa, um Homo sapiens qualquer que, olhando para o céu noturno há 30.000 anos, viu a lua cheia e se encheu de devoção e conjecturas. Partes diferentes de seu cérebro processaram à sua maneira a informação visual captada pelos olhos. Uma delas, o lobo temporal, registrou aquela luz pálida emanada de um disco que parecia flutuar no espaço como uma experiência sublime, inexplicável, superior, poderosa, acachapante, religiosa. Ao mesmo tempo, outras regiões do cérebro tentavam avaliar se aquele objeto luminoso oferecia algum perigo, se podia despencar causando danos, se era comestível, se sua aparição na abóbada celeste se repetiria ou se poderia ser relacionada com algum outro fenômeno, como a escassez ou a abundância de caça. Como sugeriu poeticamente o astrônomo francês Guillaume Bigourdan (1851-1932), o último Homo sapiens do planeta será talvez surpreendido pela morte quando entretido com a mesma lua cheia e – por maiores que sejam sua educação e treino científico, mais exata sua noção do tamanho, das distâncias e dos formatos das órbitas – ela lhe parecerá sublime, inexplicável, superior, poderosa, acachapante, religiosa. Disse Bigourdan: "Isso é do homem. Contar lunações, medir órbitas, calcular fre-quências, mas se prostrar extático diante da imensidão do universo".

Por eras o lado místico e o científico conviveram sem conflitos na mente humana. Com o excedente econômico trazido pelo desenvolvimento tecnológico, as sociedades primitivas deram-se ao luxo de ter indivíduos dedicados a tarefas específicas – o guardião armado, o sacerdote para aplacar as fúrias naturais e adivinhar o trajeto dos mamutes, o líder para julgar e punir quem ferisse as regras de convivência do grupo. Mesmo depois disso, com as tarefas práticas entregues a certos indivíduos enquanto outros se dedicavam a magia e rituais, a fé e a razão continuaram como campos complementares da experiência humana. As civilizações da Antiguidade, a babilônica, a chinesa, a persa, a hindu, a grega e a romana, tiravam sua coesão social e sua força da fusão indelével entre o místico e o prático. Os engenheiros romanos que projetaram e construíram o Anio Novus, o maior aqueduto do seu tempo, com 95 quilômetros de extensão, banharam-se em sangue de touro obedecendo a preceitos da jus divinum (lei divina) como forma de garantir a proteção dos deuses para seu extraordinário empreendimento. A Europa medieval arrastou-se na névoa das crenças, com pouquíssimo progresso tecnológico. Mas nem o advento do Iluminismo, do Método Científico ou da Revolução Industrial fez regredir as crenças, as superstições e o poder das religiões de moldar o pensamento e o comportamento das pessoas.

O cientista de maior impacto na história, sir Isaac Newton (1643-1727), ao tempo que mudava o curso do pensamento com suas leis da gravitação universal e da mecânica clássica, considerava-se melhor teólogo que astrônomo e via mais possibilidades na alquimia do que no cálculo infinitesimal. O poeta Alexander Pope escreveu o epitáfio de Newton: "Nature and nature’s laws lay hid in night; God said ‘Let Newton be’ and all was light". (A natureza e as leis da natureza estavam imersas na noite; Deus disse "Que Newton seja" e tudo se iluminou.) Johannes Kepler (1571-1630), o mais fenomenal matemático de seu tempo, escondeu por dez anos o fato de ter confirmado as observações do astrônomo dinamarquês Tycho Brahe (1546-1601), descobridor da forma elíptica das órbitas dos planetas do sistema solar. Escondeu por pavor de estar cometendo uma heresia contra a visão aristotélica da Igreja, que, já começando a aceitar a hipótese heliocêntrica de Copérnico, determinava, porém, que as órbitas desenhadas por Deus só podiam ser círculos perfeitos. Na apresentação de sua obra Harmonices Mundi (Harmonia do Mundo), Kepler se desmancha em mística adoração pelo Criador em termos que chocariam os cientistas ou qualquer pensador racional dos dias atuais: "Deixei-me levar pela fúria divina e roubei os barcos dourados dos egípcios para construir uma casa adequada ao meu Deus. Mas se isso O contrariar não hesitarei em queimar meus estudos". Kepler, que também era astrólogo, atribuía suas descobertas científicas a epifanias – ou seja, a revelações divinas.


Em nome de Deus
Os astrônomos Kepler e sir Isaac Newton julgavam estar lendo a mente divina
Fotos Bettmann/Corbis/Latinstock


Essa convivência pacífica entre o fervor religioso e a capacidade de pensar racionalmente não duraria muito mais tempo. Logo, a ousadia crescente dos cientistas e filósofos surgidos a partir de meados do século XVII passaria a se tornar um estorvo para a Igreja, em especial para a hierarquia católica. A mais estrondosa trombada, algo que ecoou pelos séculos até os nossos dias, foi vivida por um leitor e admirador de Kepler, o físico, matemático e astrônomo nascido em Pisa em 1564 que se entronizou no panteão da liberdade de pensamento com o nome de Galileu Galilei. A perseguição empreendida contra Galileu pelo Santo Ofício eternizou-o como um mártir da razão que só escapou da morte depois de renegar publicamente seu apoio à hipótese de Copérnico.

O que Galileu fez para atrair a fúria da Inquisição católica e por que Kepler e outras grandes cabeças escaparam ilesos? Galileu investiu diretamente contra as Escrituras e, ao contrário de Kepler, não esperava que suas descobertas fossem apenas confirmações, com ligeiras e aceitáveis variações, da verdade revelada dos livros sagrados e das bulas papais. Não. Galileu pôs de pé um conjunto de premissas que, de tão revolucionárias, são as mesmas a presidir todas as experiências científicas até hoje – o Método Científico. Para que um experimento fosse científico, ensinou Galileu, entre outras coisas, ele deveria poder ser repetido por outras pessoas, em outros lugares e, dadas as mesmas condições, produzir os mesmos resultados. Simples? Sem dúvida, simples. Mas revolucionário. Um alquimista jamais se colocaria esses entraves – os ingredientes, os processos e os saberes da alquimia eram segredos pessoais e intransferíveis como os de um mágico. Galileu foi também um extraordinário polemista. Ele refutou com veemência a crença predominante de que tudo o que Deus queria que os homens soubessem sobre o céu e a terra estava nos livros sagrados. "As Escrituras ensinam como chegar ao céu, mas não como ele funciona", escreveu Galileu, citando um padre e astrônomo de seu tempo. Ele elaborou: "Não posso aceitar que a visão de Deus sobre astronomia seja aquela que está na Bíblia. Se aceitar isso, terei de negar sua infinita perfeição". Galileu pregava que Deus não falou aos homens sobre astronomia e física pelas Escrituras, mas por outra linguagem, a da natureza. Graças a outra dádiva divina, a mente humana, essa linguagem poderia ser lida com a ajuda da matemática, da observação, do apego à exatidão das medidas, pelas conjecturas e, principalmente, pela experimentação, em especial com a matéria em movimento.


"Não se preocupe tanto com a exatidão – ninguém vai aceitar tudo isso literalmente."

Se se pudesse fechar o foco sobre um único feito de Galileu Galilei, ele seria, sem dúvida, o ceticismo na investigação científica. Os sábios que andaram de mãos dadas com as crenças religiosas de seus tempos – e Kepler é o exemplo mais acabado – tinham a convicção de estar apenas revelando ao mundo a perfeição da mente divina descrita nas Escrituras ao torná-la acessível aos mortais por meio de seus livros. Galileu era mais ambicioso. Ele tinha certeza de que a experimentação científica captaria as mensagens de Deus diretamente na natureza e, se elas contrariassem as crenças religiosas, paciência. Kepler se ofereceu para destruir seu livro. Galileu sugeriu que, quando em choque com a boa ciência, as crenças religiosas é que deveriam ser desprezadas. Albert Einstein reagiu como Galileu quando veio a confirmação empírica de um dos pontos de sua Teoria da Relatividade Geral, o que estabelecia que a luz também sofre a ação da gravidade. Informado de que astrônomos internacionais, observando um eclipse em Sobral, no Ceará, em 1919, haviam constatado a deflexão da luz das estrelas nas proximidades do Sol, Einstein rea-giu sem surpresa: "Se a luz não fosse desviada, Deus estaria errado". Como se vê, a concepção básica de Galileu ajudou a criar o mundo moderno. Por isso, é inevitável a sensação de retrocesso quando se vê a multiplicação das tentativas de ensinar Adão e Eva nas aulas de ciências das escolas brasileiras – e não por valorizar as Escrituras. Uma mente poderosa como a do filósofo Giambattista Vico (1668-1744) usou argumentos de alta elaboração racional para defender a tese de que, ao investir contra as crenças religiosas e superstições, o ceticismo científico destruiria os fundamentos da civilização. Pode-se concordar ou discordar de Vico, mas isso se dará no campo da razão. O atraso mesmo está na aceitação literal da Bíblia em questões científicas.



O poder da razão

Giambattista Vico (1668-1744) e Galileu Galilei (1564-1642) entraram para a história do pensamento com registros opostos. Galileu como o mártir que quase foi crucificado por discordar do dogma católico que colocava a Terra no centro do universo. Vico por defender que, ao enfraquecer a fé e as superstições, o ceticismo científico era um perigo para a civilização. O maravilhoso, no caso, é que visões tão opostas tenham sido ambas exemplos do uso mais requintado da mente humana e de seu instrumento, a razão.


Bloomimages/Corbis

 

A revolução sem fim de Darwin

Chega ao Brasil a exposição que abre as comemorações dos 200 anos de nascimento do cientista que explicou como a vida evolui na Terra. Ele se tornou um herói da racionalidade

Gabriela Carelli e Leoleli Camargo

A história da viagem dele é quase tão conhecida e reverenciada quanto a de Cristóvão Colombo. O naturalista inglês Charles Darwin iniciou em 1831 uma viagem pelo mundo a bordo do Beagle, um pequeno navio de exploração científica. Quando voltou à Inglaterra, cinco anos depois, ele trazia na bagagem um conjunto de idéias revolucionárias que mudariam para sempre a geografia da alma humana tanto quanto Colombo mudou a geografia terrestre. Darwin, como se sabe, é o autor da teoria da evolução. A histórica viagem de Darwin é o tema central de uma imponente exposição que leva o seu nome, inaugurada na semana passada no Museu de Arte de São Paulo (Masp), e que permanecerá em cartaz até 15 de julho. A mostra, montada pela primeira vez em 2005, no Museu Americano de História Natural, em Nova York, reúne reproduções de mais de 400 itens relacionados ao naturalista e à sua viagem no Beagle, entre animais, plantas, fósseis e paisagens. A exposição atrai sobre Darwin a atenção que ele merece como um herói da razão e um inimigo da superstição e da ignorância

Tamanha foi a força das revelações de Darwin sobre a origem e a transformação do mundo animal, das plantas e, em especial, da humanidade, que quase ninguém consegue ter uma visão muito clara hoje em dia de como se pensavam essas coisas antes dele. Poucas revoluções tiveram esse poder. A prova de que a Terra é redonda é uma delas. Parece natural hoje em dia nos vermos habitando uma esfera que gira sobre o próprio eixo e em torno do Sol. Mas por milênios se acreditou em uma Terra plana como um campo de futebol sustentada pelos ombros fortes de um titã que se apóia sobre os cascos de tartarugas. A evolução lenta das espécies ao longo das eras formando linhagens que desembocam nos atuais seres vivos. Isso é o Darwin. Antes dele? Acreditava-se na versão religiosa segundo a qual por volta do ano 4004 a.C., de uma só tacada, Deus criou o homem, a mulher e os demais seres vivos exatamente como eles são agora. Essa visão pré-darwinista, que só sobrevive dentro dos círculos religiosos, tem conseguido ultimamente uma projeção assustadora. À luz desse retrocesso, relembrar as conquistas de Darwin torna-se um imperativo.

Quando Darwin lançou A Origem das Espécies, em 1859, o primeiro de seus livros que explicam a teoria da evolução, cientistas e intelectuais de todos os matizes foram obrigados a se posicionar diante dos argumentos do naturalista. Apesar do rigor científico das pesquisas que conduzira, suas conclusões ofendiam a todos. Conceitos arraigados havia séculos na biologia, como o de que as espécies não mudam ao longo do tempo, caíram por terra diante dos argumentos de Darwin. A criação do mundo como descrita na Bíblia foi desmontada. Entre todas as suas propostas, a mais difícil de engolir por seus contemporâneos foi a de que o homem não é um animal superior a todos os outros e tem ancestrais em comum com os macacos. "A publicação de A Origem das Espécies destituiu a vida humana de qualquer superioridade em relação aos animais, enterrou o conceito de divindade e pôs fim a milhares de anos de irracionalidade na comunidade científica e em parte da sociedade", disse a VEJA o filósofo Philip Kitcher, da Universidade Columbia e autor do livro Living with Darwin (Vivendo com Darwin). Os ataques às idéias de Darwin prosseguiram por todo o século XX. O naturalista foi acusado de solapar os valores tradicionais da sociedade e de defender o determinismo genético. Os sociólogos o criticavam por reduzir a complexidade social ao resultado de ações individuais, instintivas e egoístas.

Depois de quase 150 anos da publicação de A Origem das Espécies, a vitória das idéias de Darwin é inequívoca. Entre os grandes nomes que revolucionaram a maneira de pensar, como Karl Marx e Sigmund Freud, Darwin é o único cujas idéias ainda servem de base sólida para avanços extraordinários do conhecimento. Até a teoria geral da relatividade, de Albert Einstein, tem de travar uma queda-de-braço constante com seus adversários, os teóricos da física quântica. Darwin só tem inimigos fora da ciência.

O desenvolvimento da genética, a partir do início do século XX, ajudou a explicar como funciona a transmissão das características hereditárias. O que Darwin tem a ver com isso? Muita coisa. A possibilidade de transmissão de características genéticas de uma geração à seguinte foi intuída por Darwin, mas ele não viveu o suficiente para ver esse mecanismo ser demonstrado. "Foi necessário um século de descobertas para que a teoria da evolução de Darwin se comprovasse plenamente, em todos os seus aspectos", disse a VEJA o biólogo David Mindell, da Universidade de Michigan.

O caminho de Darwin até completar suas teorias foi o do estudioso aplicado. Já a trajetória do homem por trás do cientista foi acidentada. Embora tivesse começado a escrever A Origem das Espécies em 1838, ele demorou 21 anos para publicar o volume. O naturalista sabia que suas idéias cairiam como uma bomba sobre uma sociedade habituada a buscar a verdade nas páginas da Bíblia. Em 1844, ele escreveu a um amigo dizendo que divulgar suas idéias seria "como confessar um assassinato". Em sua consciência, Darwin – que era religioso – debatia-se com questões morais aflitivas. Na juventude, pretendia tornar-se sacerdote. Foi com espanto que viu os geólogos de seu tempo concluir: que a Terra surgiu há milhões de anos (hoje se sabe que são 4,5 bilhões), e não há 6.000 anos, como querem os religiosos. À medida que seus próprios estudos sobre a evolução das espécies se desenvolviam, entravam em choque com todos os dogmas religiosos. Diante das idéias de Darwin, sua mulher, Emma, com quem teve dez filhos, temia que o casal fosse separado na eternidade – ela subiria aos céus e ele desceria ao inferno. O naturalista debateu-se com as questões da fé durante toda a vida. Por fim, declarou-se agnóstico.

As idéias de Darwin, aperfeiçoadas por seus discípulos ao longo de 150 anos, são hoje um consenso entre os biólogos. Mas continuam a incomodar o pensamento religioso. Muitas descobertas da ciência no último século, como o surgimento do universo através da explosão primordial, o Big Bang, de alguma maneira se acomodaram em meio aos dogmas da fé. No caso da gênese humana, é diferente. A teoria de que todas as formas de vida nasceram da "sopa primeva" e evoluíram ao longo dos milênios se choca frontalmente com o maior dos dogmas, o que reza que o homem é a criação suprema de Deus e foi feito à sua semelhança. Neste início do século XXI, em que se observa uma busca intensa pela espiritualidade e pelo misticismo como antídoto às atribulações da vida moderna, a ira das religiões contra Darwin tem se acirrado. Nos Estados Unidos, onde 54% dos adultos dizem descender de Adão e Eva, segundo um levantamento recente do Instituto Harris Poll, menos da metade das pessoas crêem na teoria da evolução de Darwin. Muitas escolas americanas, nas aulas de ciências, decidiram substituir os ensinamentos de Darwin por uma variante do criacionismo batizada de "design inteligente". Segundo essa teoria, há elementos na natureza, como o olho humano, que têm uma estrutura tão engenhosa que só podem ter sido criados por um projetista, ou seja, um ser superior.

As escolas infantis russas também vêm sendo palco de campanhas contra o darwinismo. Há poucos meses, manifestando seu apoio a um grupo de pais de alunos que processou uma escola por manter apenas a teoria da evolução das espécies no currículo, o patriarca da Igreja Ortodoxa russa declarou que a teoria de Darwin é "baseada em argumentos deturpados" e que "não há provas concretas de que uma espécie possa se transformar em outra". O episódio que melhor simboliza a resistência das religiões a Darwin ocorre atualmente no Quênia e envolve o mais completo esqueleto humano pré-histórico já descoberto, desenterrado em 1984 e batizado de Turkana Boy. Um dos principais líderes evangélicos do Quênia, o bispo Boniface Adoyo, recusa-se a expor o achado arqueológico. Ele alega que não descende do Turkana Boy nem de algo que se pareça com ele.

Há um mês, o papa Bento XVI entrou na discussão ao lançar um livro no qual reflete sobre o surgimento do universo e do homem. O pontífice afirma que a teoria da evolução não pode ser provada de modo conclusivo. O papa escreve também que a forma como a vida se desenvolveu indica uma "razão divina" que não pode ser explicada apenas por métodos científicos. Alguns cientistas buscam conciliar Darwin e a fé. O biólogo americano Francis Collins, um dos responsáveis pelo mapeamento do DNA humano, é o mais proeminente entre os devotos de Darwin que assumem também sua fé religiosa. "Se Deus escolheu usar o mecanismo da evolução para criar a diversidade de vida que existe no planeta, quem somos nós para dizer que ele não deveria ter criado o mundo dessa forma?", argumenta Collins. É provável que o embate entre Darwin e as religiões nunca arrefeça. A fé humana já se provou resistente a todos os argumentos da lógica. Por outro lado, o edifício científico construído por Darwin, como se pode observar na exposição montada no Masp, é grande demais para ser renegado.

 


Darwin em 10 perguntas e respostas

1 O que Darwin descobriu?
Charles Robert Darwin descobriu que todos os seres vivos, do mais sábio dos homens ao bacilo unicelular, podem ter sua linhagem ancestral traçada até o começo da vida sobre a Terra.

2 Por que isso foi tão explosivo no tempo de Darwin e por que ainda causa tanta polêmica?
Antes de Darwin a ciência se retorcia em torno da crença religiosa segundo a qual todos os seres vivos tinham sido criados por Deus, cabendo aos homens apenas dar-lhes nomes. Nenhum cientista teve antes de Darwin argumentos e coragem intelectual de se opor à idéia religiosa da criação. As descobertas eram pateticamente adaptadas ao dogma religioso. Quando começaram a ser desenterrados ossos de dinossauros e outros animais extintos, o sábio francês Georges Cuvier (1769-1832) ofereceu a mais extraordinária dessas adaptações: "São ossos de animais que não conseguiram embarcar na Arca de Noé e morreram no dilúvio bíblico". Darwin quebrou esse paradigma e chocou-se de frente com a hierarquia religiosa protestante e católica. Ele o fez de maneira serena mas irrefutável colocando de pé uma doutrina que se assenta sobre cinco pontos.

3 Quais são as cinco teorias que sustentam Darwin até os dias atuais?
EVOLUÇÃO – O mundo vivo não foi criado nem se recicla perpetuamente. Os organismos estão em um lento mas constante processo de mutação.

O ANCESTRAL COMUM – Todo grupo de organismos descende de um ancestral comum. Os homens e os macacos atuais, por exemplo, divergiram de um mesmo ancestral, há cerca de 4 milhões de anos. Todos os seres vivos, em última instância, descendem de uma simples e primitiva forma de vida – a chamada "ameba original".


MULTIPLICAÇÃO DAS ESPÉCIES – As espécies vivas tendem a se diferenciar com a passagem das eras. Darwin desenhou a primeira "árvore da vida" em que espécies "tronco" vão dando origem a outras que saem do veio principal como "galhos".

GRADUALISMO – As populações se diferenciam gradualmente, de geração em geração, até que as espécies que seguiram por um "galho" da árvore da vida não mais pertençam à mesma espécie do "tronco" e de outros "galhos".

SELEÇÃO NATURAL – É a teoria essencial do darwinismo. Ela se baseia no fato de que os seres vivos sofrem mutações genéticas e podem passá-las a seus descendentes. Cada nova geração tem sua herança genética colocada à prova pelas condições ambientais em que vive. A evolução é oportunista e randômica. O que é isso? Primeiro, o processo evolutivo seleciona (ou seja, mantém vivos e com mais chance de passar adiante seus genes) os animais e plantas cujas mutações são mais favorecidas pelo ambiente em que são obrigados a viver. Segundo, as mutações ocorrem ao acaso, e não com o objetivo de melhorar as chances de sobrevivência de quem as sofre. Um exemplo simples: os peixes primitivos não podiam tirar oxigênio diretamente da água. Alguns passaram por mutações que os dotaram dessa capacidade. Esses últimos se adaptaram melhor à vida aquática e hoje dominam os rios, lagos e oceanos.

4 A evolução é uma teoria ou uma lei natural? É uma teoria científica.
Como tal, ela pode ser desmontada desde que surja uma única prova de que ela não funciona. Darwin disse que se alguém lhe apontasse um único ser vivo que não tivesse um ascendente sua teoria poderia ser jogada no lixo. Os neodarwinistas são ainda mais desafiadores: basta que se prove que um único órgão de um ser vivo (olhos, ouvidos, nadadeiras...) não teve origem em um proto-órgão (olhos, ouvidos, nadadeiras primitivas) e toda a teoria darwinista pode ser descartada.

5 Darwin fez tudo sozinho ou ele é mais um "filho do Iluminismo", como ficaram conhecidos outros sábios que contestaram dogmas religiosos em seu tempo?
O que Darwin fez como naturalista é quase miraculoso. Se ele não tivesse proposto a teoria da evolução, ainda assim seria lembrado como um dos gênios da humanidade. Seus trabalhos sobre botânica experimental, psicologia animal e classificação são obras que ainda hoje são leituras atuais e obrigatórias para os estudiosos. Muitos pré-darwinistas pavimentaram o caminho para Darwin, em especial no que diz respeito ao gradualismo. Sábios gregos e os chineses da Antiguidade admitiam que formas de vida podiam se transformar com o tempo ou mesmo desaparecer. Alfred Russel Wallace, contemporâneo de Darwin, desenvolveu de forma independente uma teoria da evolução. O que fez de Darwin único foi o rigor de seu método científico, sua capacidade multidisciplinar e o processo disciplinado de extrair conclusões com base em décadas de observação.

6 O que os chamados neodarwinistas acrescentaram ao trabalho original de Darwin?
Muita coisa. Depois do impacto original de suas idéias, Darwin caiu em um quase-esquecimento. As primeiras duas décadas da ciência genética no século XX pareciam minar o darwinismo. Se todas as mutações genéticas descobertas até então eram mutiladoras (retardamentos, membros atrofiados...), como as espécies podiam evoluir? Coube a três grandes neodarwinistas colocar ordem na casa. O primeiro deles foi o americano nascido na Alemanha Ernst Mayr, que morreu em 2005, aos 100 anos. Mayr mostrou como funciona a seleção natural. Ele demonstrou que o isolamento era a chave da questão. Como ambientes isolados colocam pressões evolucionárias diferentes sobre uma mesma espécie, ela tende a mutar em diferentes direções até desgarrar totalmente do plantel original. O segundo foi George Gaylord Simpson, que desencavou os "ossos velhos", os fósseis, que permitiram mostrar de maneira cristalina a evolução que produziu os cavalos atuais. O terceiro foi Theodosius Dobzhansky. Seu trabalho com moscas de frutas uniu os campos da genética com o darwinismo. Dobzhansky demonstrou que nem toda mutação é deletéria. O sucesso da mutação vai depender do ambiente onde o indivíduo vai viver.

7 Darwin disse que o homem descende do macaco?
Não. Darwin escreveu que tanto os homens atuais quanto os macacos atuais tiveram antepassados primitivos. Mas essa tem sido a mais resistente falsidade sobre o darwinismo.

8 A briga da Igreja com Darwin vem do fato de ele ter tirado o homem da linhagem dos "anjos decaídos"?
Sem dúvida. Darwin mostrou que a linhagem humana é fruto de pressões evolutivas em ação por milhões de anos tanto quanto qualquer outro ser vivo. Sob esse aspecto a humanidade nada tem de especial.

9 Darwin nunca foi desmentido em nada?
Em edições posteriores de sua obra A Origem das Espécies..., Darwin sugeriu que os seres vivos poderiam passar características adquiridas para seus descendentes. Esse mecanismo, que ele tomou de empréstimo do francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829), foi uma clara fraqueza de Darwin. Ele duvidou da seleção natural como único mecanismo de diferenciação. Ou seja, pelo menos por alguns anos Darwin acreditou na idéia, hoje absurda, de que a girafa tem pescoço comprido de tanto se esforçar para comer as folhas tenras do topo das árvores, as únicas que sobram em tempos de secas escaldantes.

10 A que se atribui essa fraqueza de Darwin?
Darwin enfrentou cerrada oposição das instituições científicas tradicionais, além de descrédito e pressões familiares terríveis.O pai de Darwin queria que se tornasse um clérigo anglicano, e não um naturalista. Emma, sua mulher, tinha certeza de que iria para o céu e Charles, por sua teoria, para o inferno. Ela se torturava com a idéia de "passar a eternidade" longe do marido. Nesse ambiente, não é estranho que Darwin tenha flertado com o mecanismo lamarquista, um processo menos ofensivo aos dogmas religiosos. No fundo, Darwin sabia que primeiro o pescoço da girafa cresceu por mutação aleatória, e essa mutação se mostrou favorável nos períodos de seca inclemente, de forma que a natureza a selecionou para sobreviver até os dias de hoje.

 

O BRASIL AOS OLHOS DE DARWIN



Salvador em gravura do livro de Robert Fitzroy, capitão do Beagle: para Darwin, a beleza do casario branco e elegante só perdia para a exuberância da floresta tropical

 

Ao aportar no litoral da Bahia em fevereiro de 1932, na terceira escala de seu périplo a bordo do Beagle, Charles Darwin ficou extasiado com a vegetação à sua frente. Anotou em seu diário: "É uma visão das mil e uma noites, com a diferença de que é tudo de verdade". Era a primeira vez que o naturalista pisava numa floresta tropical. Darwin esteve no Brasil por duas vezes, nos trajetos de ida e de volta de sua viagem de cinco anos. Ao todo, permaneceu cinco meses e meio no país, tempo suficiente para realizar seus estudos e espantar-se com os hábitos dos nativos. A começar pelo Carnaval. Em Salvador, quando viu os foliões tomar as ruas e atirar bolas de cera cheias de água uns nos outros, achou por bem recolher-se à tranqüilidade civilizada do Beagle.

Dois meses depois, o navio chegou ao Rio de Janeiro, então capital do império. No Rio, Darwin foi convidado a conhecer uma fazenda de café no norte fluminense. Antes da viagem, criticou em seu diário a demora das autoridades brasileiras em lhe conceder os documentos necessários para viajar com cavalos. "Mas a perspectiva de ver matas selvagens cheias de belos pássaros, macacos, preguiças e jacarés", ele escreveu, "faz um naturalista até mesmo lamber a poeira das botas de um brasileiro." A excursão durou quinze dias. No caminho, o explorador só conseguiu se alimentar de galinha e farinha de mandioca, este último ingrediente, segundo Darwin, "o mais importante alimento na subsistência do brasileiro".

Na volta ao Rio de Janeiro, Darwin deixou o Beagle e se hospedou num chalé em Botafogo. Andou pela Floresta da Tijuca, foi ao Jardim Botânico e ao Pão de Açúcar e coletou centenas de plantas e insetos. Fez anotações sobre a "falta de educação" dos brasileiros e a forma como a Justiça era feita no país. "Se um crime, não importa quão grave seja, é cometido por um homem rico, ele logo estará em liberdade. Todo mundo pode ser subornado", escreveu. As observações mais contundentes de Darwin sobre o Brasil dizem respeito à manutenção da escravidão e à forma violenta como os escravos eram tratados. Certo dia, inadvertidamente, foi protagonista de um episódio dramático. Um escravo conduzia a balsa na qual ele fazia uma travessia de rio. Tentando se comunicar com ele para lhe dar instruções, Darwin começou a gesticular e a falar alto. A certa altura, sem querer, esbarrou a mão no rosto do negro. Este imediatamente baixou as mãos e a cabeça, colocando-se na posição que estava habituado a assumir para ser punido fisicamente. "Que eu jamais visite de novo uma nação escravocrata", anotou ele ao deixar a

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