Espiritualidade e Sociedade



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>   Paquistanesa luta contra violência gerada em nome de honra e religião


08/03/2009

 

Thiago Varella
Do UOL Notícias
Em São Paulo



Em nome da honra e, muitas vezes, da religião, três mulheres são assassinadas todos os dias no Paquistão. Outras tantas são estupradas, agredidas e vítimas de violência tão cruéis quanto serem queimadas vivas ou atacadas com ácido no rosto. Os dados são da ONG Associação das Mulheres Progressistas, de Islamabad.

A psicóloga Shahnaz Bokhari é a diretora e fundadora da ONG. Divorciada por três vezes, mãe de quatro filhos e muçulmana, a ativista luta contra a violência sofrida pelas mulheres no seu país. Desde 1987, Bokhari já conseguiu atender mais de 17 mil mulheres, provendo atendimento jurídico, apoio psicológico e, até mesmo, um teto para morar.

"Sou de uma família de classe média alta, com bastante educação e mesmo assim sofri com grandes problemas por ser divorciada. Comecei a me comparar com mulheres pobres, sem estudos e pensei na condição delas. Descobri que elas não são nem ao menos tratadas como seres humanos. Elas são humilhadas, agredidas, vendidas em mercados", contou em entrevista ao UOL Notícias.

Ultimamente, a ativista tem se dedicado em ajudar mulheres desfiguradas e cegadas por ataques com ácido. Somente 4% dos agressores são punidos, nestes casos.

"Ninguém se responsabiliza por esse tipo de violência no país. Ao contrário de países mais ricos, ainda estamos lutando para ter leis para o combate da violência contra as mulheres", explica Bokhari.

As mulheres do mundo, até mesmo as do Brasil, devem acordar. É necessário por os pés no chão, lutar pelos direitos e dizer: chega de violência
- Shahnaz Bokhari - psicóloga paquistanesa

A psicóloga responsabiliza muito mais a falta de conhecimento do que a religião muçulmana pelo excesso de violência. O Alcorão (livro sagrado do Islã) reprova atitudes violentas e considera as mulheres iguais aos homens, segundo Bokhari. "A maior parte da população do Paquistão é analfabeta. E os mulás também não têm estudos. Por isso eles interpretam a religião como querem. Ninguém os repreende."

Além da falta de ajuda do governo, Bokhari sofre com constantes ameaças e com a truculência da polícia para levar seu projeto adiante. O abrigo que fundou para socorrer as mulheres agredidas foi invadido duas vezes pela polícia e sua casa também já foi alvo da violência policial, conta. A psicóloga já foi até mesmo processada pelo Estado sob a acusação de "ajudar uma tentativa de adultério", relembra.

"Infelizmente no Paquistão, dizem que eu sou uma vergonha para o país, porque eu mostro somente o lado ruim daqui. Que sou uma terrorista dos direitos humanos. Fui obrigada a enviar minhas duas filhas e meus dois filhos para morar fora do país, em um lugar mais seguro", lamenta.

A oposição que enfrenta dentro do próprio país muitas vezes desanima a psicóloga, que diz não ver muitas mudanças em todos esses anos de luta. Porém, seus anos de ativismo deram projeção internacional ao problema sofrido pelas mulheres paquistanesas.

Bokhari já ganhou prêmios internacionais, como o Leaders for the 21st Century Award, ganho nos Estados Unidos, pela sua atuação nos direitos humanos e a comunidade internacional passou a pressionar o governo paquistanês. Casos como o de Naeema Azar, uma mulher que tinha uma promissora carreira professional e foi desfigurada por seu ex-marido em um covarde ataque de ácido, ganhou as páginas de jornais importantes como o "The New York Times". "É daí que eu busco minha coragem, minha vontade de seguir em frente", explica.

Além disso, sua ONG recebe doações vindas de diversas partes do planeta. Ainda não é o bastante, em sua avaliação. Mais que dinheiro para conseguir pagar advogados e médicos para as mulheres agredidas, Bokhari quer que seu povo tenha mais acesso à educação. "É necessário educar os homens do Paquistão. As mães têm uma grande responsabilidade ao criar os filhos. Elas devem ensiná-lo a respeitar as mulheres como seres humanos iguais e não como vacas ou ovelhas."

Consciente que a violência contra as mulheres não é um problema exclusivo do Paquistão, a ativista manda um recado para as brasileiras, neste Dia Internacional da Mulher. "As mulheres do mundo, até mesmo as do Brasil, devem acordar. Não podem esperar nada cair do céu. É necessário por os pés no chão, lutar pelos direitos e dizer: chega de violência."


Shahnaz Bokhari já conseguiu atender
mais de 17 mil mulheres,
vítimas de violência no Paquistão



O terrorismo pessoal

30/11/2008
The New Yort Times

Islamabad, Paquistão - O terrorismo nessa parte do mundo significa normalmente bombas explodindo ou hotéis queimando, como atestam as últimas cenas horríveis de Mumbai. Entretanto, paralelamente ao brutal terrorismo público que enche as telas da televisão, há uma forma de terrorismo igualmente cruel que não recebe quase nenhuma atenção e por esse motivo se espalha: jogar ácido no rosto de uma mulher para deixá-la feia e deformada.

Tenho investigado esses ataques de ácido aqui no Paquistão, que são comumente usados para aterrorizar e subjugar as mulheres e meninas numa faixa da Ásia que vai desde o Afeganistão até o Camboja (os homens quase nunca são atacados com ácido). Porque as mulheres normalmente não têm importância nessa parte do mundo, seus agressores raramente são processados e as vendas de ácido normalmente não são controladas. É um tipo de terrorismo que acaba sendo aceito como parte do barulho de fundo na região.

Este mês, no Afeganistão, homens de moto jogaram ácido num grupo de garotas que ousaram ir para a escola. Uma das meninas, uma jovem de 17 anos chamada Shamsia, disse aos repórteres em seu cama no hospital:
"Eu irei para a escola mesmo que eles me matem. Minha mensagem para os inimigos é que mesmo que eles façam isso 100 vezes, eu ainda continuarei com os meus estudos".

Quando encontrei Naeema Azar, uma mulher paquistanesa que já foi uma agente imobiliária atraente e autoconfiante, ela usavam um véu preto que cobria sua cabeça e rosto. Quando ela tirou o lenço, eu recuei de susto.

O ácido havia queimado sua orelha esquerda e a maior parte da orelha direita. Deixou-a cega, sem pálpebras, e sem a maior parte do rosto, deixando apenas osso.

Seis enxertos com pele de sua perna ajudaram, mas ela ainda não consegue fechar os olhos ou a boca; ela não come na frente dos outros porque é muito humilhante quando a comida escorrega para fora enquanto ela mastiga.

"Olhe para Naeema, ela perdeu os olhos", suspirou Shahnaz Bukhari, uma ativista paquistanesa que fundou uma organização para ajudar essas mulheres, e que estava prestes a chorar. "Ela me faz chorar toda vez que aparece na minha frente".

Azar ganhava um bom salário e estava sustentando seus três filhos pequenos quando decidiu se divorciar do marido, Azar Jamsheed, um vendedor de frutas que raramente levava dinheiro para casa. Ele concordou em terminar com o casamento (arranjado) porque estava interessado em outra mulher.

Depois do divórcio, Jamsheed veio se despedir das crianças, e então sacou uma garrafa e derramou ácido no rosto de sua mulher, de acordo com o depoimento dela e do filho.

"Eu gritei", lembra-se Azar. "A carne das minhas bochechas estava caindo. Dava pra ver os ossos do meu rosto, e toda minha pele estava caindo".

Os vizinhos vieram correndo, conforme saia fumaça da carne que queimava em seu rosto e ela corria cegamente, batendo contra as paredes. Jamsheed nunca foi preso, e desde então desapareceu. (Eu não consegui encontrá-lo para que ele contasse o seu lado da história).

Azar sobreviveu com a caridade de amigos e com o apoio do grupo de Bukhari, a Associação Progressista das Mulheres (www.pwaisbd.org).

Bukhari está levantando dinheiro para pagar um advogado e pressionar a polícia a processar Jamsheed, e pagar pela cirurgia de olhos que - com um cirurgião talentoso - pode restaurar a visão de um dos olhos.

Bangladesh impôs controles sobre as vendas de ácido para evitar esse tipo de ataque, mas no geral é bem fácil entrar numa loja qualquer na Ásia e comprar ácido sulfúrico ou hidroclorídrico, que servem para destruir um rosto humano.

Ataques de ácido e episódios de mulheres queimadas são comuns em parte da Ásia porque as vítimas são as mais silenciosas dessas sociedades: - elas são mulheres e pobres. O primeiro passo é o mundo simplesmente perceber o que está acontecendo, e dar voz a essas mulheres.

Desde 1994, Bukhari documentou 7.800 casos de mulheres que foram deliberadamente queimadas, escaldadas ou sujeitas a ataques de ácido, apenas na área de Islamabad. Em apenas 2% dos casos alguém foi condenado.

Durante os últimos dois anos, os senadores Joe Biden e Richard Lugar vêem defendendo um Ato contra a Violência Internacional Contra a Mulher, que adotaria uma série de medidas para denunciar essa brutalidade e pressionar os governos para prestarem atenção a isso.
Esperemos que a nova influência de Biden ajude a aprovar a lei no novo Congresso.

Isso pode ajudar a acabar com o silêncio e a cultura de impunidade em torno desse tipo de terrorismo.

A parte mais assustadora da minha visita a Azar, além de ver seu rosto, foi um comentário do seu filho de 12 anos de idade, Ahsan Shah, que amorosamente a leva a todos os lugares. Ele me disse que numa casa em que eles passaram um tempo depois do ataque, o homem que morava no andar de cima costumava bater em sua mulher todo dia e ameaçá-la, dizendo: "Você está vendo a mulher lá debaixo que foi queimada pelo marido? Eu vou queimá-la exatamente do mesmo jeito..."

Fonte: UOL



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