Espirituialidades e Sociedade



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>    As novas tribos do Senhor


24/10/2007


Por Marcos de Moura e Souza

 

Foi uma visita incomum e barulhenta. Por volta das 15h30 da primeira sexta-feira de outubro, três caminhões e duas caminhonetes chegaram a uma aldeia dos índios guajajaras no interior do Estado do Maranhão trazendo nas carrocerias cerca de 200 pessoas, a maioria indígenas da mesma etnia, mas também de outras aldeias que raramente pisam no local. Um grupo de brancos, entre eles estrangeiros - do Reino Unido, da Alemanha e dos Estados Unidos -, fazia parte da comitiva. Os veículos também levavam uma carga rara: exemplares de uma versão inédita da Bíblia traduzida para a língua indígena. O trabalho, que levou mais de três décadas para ficar pronto, é considerado agora por missionários protestantes de diversas denominações um elemento-chave para a conquista das almas dos guajajaras para os postulados da fé evangélica.

Em poucos instantes, os visitantes formam uma coluna na entrada da aldeia. Dois deles desenrolam uma faixa na qual se lê "Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor" e, embaixo, a versão na língua indígena: "Hurywete Teko Wá Ta'e Tupàn Wazar Romo Hekon A'e Xe". E começam a marchar em bloco pelo chão de terra que corta a aldeia Zutíwa, um povoado isolado e enfiado na floresta, na região Centro-Sul do Estado. Os guajajaras (ou tenetearas) são o povo indígena mais numeroso do Maranhão, com cerca de 13 mil pessoas. Zutíwa, na Terra Indígena Araribóia, é uma das maiores aldeias do Estado.


Marcha realizada no lançamento da versão inédita da "Bíblia" traduzida para língua indígena, na aldeia de Zutíwa: ponto-chave para a conquista das almas dos guajajaras para a fé evangélica
Foto - Marcos de Moura e Souza / Valor



Os custos do processo de tradução da Bíblia para guajajara (sua manutenção junto aos índios, viagens, tratamentos de saúde, auxílio de outros tradutores) foram de US$ 1 milhão
Foto - Marcos de Moura e Souza / Valor

Enquanto caminham, índios e alguns brancos entoam hinos evangélicos na língua guajajara. Nas casinhas de pau-a-pique cobertas de palha à margem do caminho, crianças saem à porta para ver a novidade. Mulheres amamentando em pé voltam-se, curiosas. Numa casa adiante, um grupo de índios, sentados à sombra de uma enorme mangueira carregada de frutos ainda verdes, acompanha o movimento sem sorrisos ou acenos.

A marcha chega ao centro da aldeia e pára diante da escola, uma construção térrea sem reboco. A chegada da "Tupàn Ze'en", ou "Palavra de Deus", é especial para os guajajaras de Zutíwa, que se dizem "uzeruzar ma'e" ou "crentes". A tradução, do "Gênesis" ao "Apocalipse", foi feita por Carl Harrison, americano que viveu anos na aldeia. Ali ele é conhecido por quase todos apenas como "dotô Carlos".

"Agora vamos aprender a rezar e a ler. Ela vai aprender e me fala", diz, com um sorriso, num português arrevesado, o velho José Guajajara, de calça, camisa e cocar, ao lado da mulher, Rosinha Paulino Guajajara, ambos da aldeia Anajá, que foram a Zutíwa para o lançamento. "Aqui tem muito crente. Já falo para eles sobre a palavra de Deus terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo. Com a Bíblia inteira vai ser melhor", conta Roberto Gomes Rodrigues Guajajara, de 32 anos, casado com Dinalva, que se apresenta como dirigente da Igreja Batista de Zutíwa.

Os custos do processo de tradução (sua manutenção junto aos índios, viagens, tratamentos de saúde, auxílio de outros tradutores) foram bancados por igrejas e instituições protestantes no Brasil (batista, presbiteriana, cristã evangélica e assembléia de Deus), Reino Unido e EUA. Segundo estimativa da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais, o custo foi de US$ 1 milhão. Já a publicação foi bancada pela CrossWorld, uma agência missionária dos EUA - que atua da Bósnia ao Haiti, da República Democrática do Congo à Indonésia -, e pela Wycliffe Bible Translators, agência americana que financia traduções para povos não-cristãos ao redor do mundo.


Inacio Guajajara, 28 anos, que compõe hinos evangélicos em guajajara, converteu-se há três meses. Freqüentador da Assembléia de Deus, diz que deixou de beber, dançar e fumar
Foto - Marcos de Moura e Souza / Valor


Os 3 mil exemplares da Bíblia em guajajara foram impressos na Coréia do Sul porque o preço de US$ 20 para a impressão de cada exemplar valia o custo da distância
Foto - Marcos de Moura e Souza / Valor

A "Tupàn Ze'en" é a terceira Bíblia traduzida do começo ao fim para uma língua indígena do Brasil, de acordo com a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). A primeira, em língua uaiuai, foi lançada em 2002 pela Missão Evangélica da Amazônia. A segunda, em guarani embiá, pela SBB em 2004. Há trechos da Bíblia, o Novo Testamento e porções do Antigo já traduzidos para outras 42 línguas indígenas por instituições protestantes. Neste momento, pelo menos outras duas traduções, com a participação da SBB, estão em andamento. O esforço de tradução é reflexo do avanço protestante sobre povos indígenas.

Os exemplares da Bíblia guajajara trazidos nos caminhões e nas caminhonetes chegaram em caixas de papelão com a inscrição "Guajajara Bible Made in Korea" e o acrônimo "SIL". Os 3 mil exemplares foram impressos na Coréia do Sul - aparentemente, segundo missionários, porque o preço (US$ 20 para a impressão de cada exemplar) valia o custo da distância - e os direitos autorais são da Wycliffe, na Flórida. Da instituição faz parte o Summer Institute of Linguistic (SIL), entidade lingüística muito criticada por antropólogos e lingüistas no Brasil, que a acusam de ter o objetivo de converter povos originários. Em 1976, o então presidente Ernesto Geisel chegou a proibir o SIL de entrar nas aldeias por alegações de que o instituto estaria de olho nas riquezas naturais da floresta.

Hoje, os índios não querem saber de velhas polêmicas. O foco está na Bíblia. Os exemplares são vendidos a R$ 10 (para que entendam que o livro tem valor). Missionários presbiterianos envolvidos na tradução festejam: o mundo tem cerca de 6 mil línguas e 236 contam com a tradução integral da Bíblia.

Na frente da escola da aldeia, os índios e os missionários celebram um culto na língua indígena. A alemã Brigitte Engelberg, de 53 anos, uma das missionárias na linha de frente na evangelização dos guajajaras, assume o microfone. "Nós, alemães, já temos a Bíblia inteira há 500 anos e hoje são vocês", diz ela para os índios que a ouvem em pé, formando um "u" diante da escola. "Essa palavra não é como um livro de receita de bolo", continua, com a Bíblia na mão. Brigitte então lê um trecho em guajajara do Evangelho de João e aconselha os índios a falarem com Deus "e ele vai se revelar mais e mais para vocês".

O cristianismo não é novidade para os guajajaras. No século XVII, foram erguidas as primeiras instalações jesuíticas entre eles, oferecendo "certa proteção contra a escravidão, mas implicaram um sistema de dependência e servidão", escreve o antropólogo Peter Schröder, da Universidade Federal do Pernambuco, em um perfil dos guajajaras postado no site do Instituto Socioambiental. No fim do século XIX, foi a vez de capuchinhos instalarem uma missão na região. O local - então chamado de Alto Alegre - foi palco, em 1901, de um levante guajajara em que mais de 200 católicos, entre eles alguns frades italianos e freiras, foram mortos pelos índios. Poucos meses depois, índios canelas, moradores, polícia e até o Exército derrotaram os índios, que foram perseguidos por anos, relata Schröder.

Nos anos 1930, vieram os primeiros missionários protestantes ligados à atual Crossworld. Mas foi a partir da chegada de Harrison à região, em 1969, que o contato dos índios com o universo cristão da Reforma parece ter ganho impulso. O Novo Testamento, traduzido por ele com a ajuda de alguns indígenas, circula entre os guajajaras desde que ficou pronto, em 1985. Existem mais de cem aldeias guajajaras no Maranhão. Os missionários estão lá desde o século XVIII.

Nas aldeias de Barreirinha, Angico Torto, Jacaré e Zutíwa é fácil identificar sinais de assimilação de discursos e comportamentos inspirados pelo cristianismo evangélico. Em Angico, uma das muitas aldeias localizadas na beira da rodovia que liga os pequenos municípios de Arame e Grajaú, Ernesto Praxedes Guajajara, um rapaz de baixa estatura e sorridente, de 28 anos, que tem de cor trechos do Novo Testamento, dirige cultos de sexta a domingo na sua casa de barro e bambu.

Ernesto é o evangelizador da aldeia. Até antes da Bíblia, usava a versão do Novo Testamento nos cultos. "São mais os jovens que vêm. Eles têm mais facilidade de entender", afirma. "Costumo falar da vida de Jesus, sobre abandonar os pecados, fazer a vontade de Deus, estudar mais a palavra, senão a gente não se prepara para evitar o mal. 'Vigiai e orai'." E o que são os pecados? "Festa de dança com banda da cidade, álcool, prostituição, briga, quando um casal passa do limite, cobiça a mulher do outro."

Não é só. Ernesto - ou Xini, como é conhecido - entendeu que tem a obrigação de mudar práticas ancestrais de seu povo consideradas pelos missionários, e agora por ele, obras do demônio. A "muquiada" é um de seus alvos. Trata-se do rito de passagem da menina para a fase adulta, quando da primeira menstruação. "Aconselho as pessoas a não participarem. Os mais velhos contam que veio de outra dimensão. O pajé fica a noite toda cantando. É idolatria aos espíritos. Não é de Deus."

Pela tradição, a menina é mantida isolada numa cabana, coberta com tinta preta de jenipapo e alimentado-se por até uma semana de um tipo de farofa. Depois, diante da aldeia, o pajé dança, invoca espíritos e pede proteção a ela. Os homens oferecem caças que reuniram nas vésperas. Em algumas aldeias, dizem os religiosos e os índios, a festa degenerou e depois do rito os índios mergulham num embalo coletivo de cachaça.

Outro alvo de Xini é a feitiçaria de pajés temida pelos guajajaras: o caruara. O evangelizador tenta explicar: diz que o pajé tem uma ciência de pegar um pedaço de osso, ou um pedaço de pau e o espírito associado a esses objetos, fazê-lo virar água e colocá-lo em alguém. A pessoa, diz ele, adoece. Somente outro pajé tem poder para desfazer o feitiço. "Também não é coisa de Deus ficar adorando espíritos. O caruara pode até matar. Já falei com pajés, para não cair a caruara. Quem é crente está protegido. Mas depende da fé."

Nascida na cidade de Chelmsford, a 50 quilômetros de Londres, Bronwen Hewett, missionária de 57 anos da CrossWorld, tem o apoio de Brigitte na linha de frente da evangelização dos guajajaras. Ela vive em Arame desde 1998. E, ao falar do caruara, é categórica. Enquanto para os guajajaras os pajés operam espíritos bons e maus, para ela só há um lado. "O pajé é instrumento de Satanás, perguntando aos espíritos, demônios."

Pelo menos parte dos missionários é condescendente com práticas guajajaras: a poligamia, por exemplo. Mas o caruara, dizem, é simplesmente incompatível com o pensamento teológico. O rito da "muquiada" é outro choque para os missionários. "Na Bíblia está escrito para não se chamar espíritos, para não se fazer coisas que agradam a Satanás", afirma a britânica, de olhos azuis meigos e ar descontraído, que circula por Arame e pelas aldeias numa moto Honda Bis.

Essa rejeição à "muquiada" já começa a ser partilhada por índios crentes. "Ainda estamos batendo cabeça sobre como fazer quando tiver uma menina na idade da 'muquiada'", revela Inácio Guajajara, 28 anos, da aldeia Novo Zutíwa, que conta ter se convertido há três meses. Freqüentador da Assembléia de Deus no município de Grajaú, Inácio - que naquela sexta-feira estava de camisa abotoada até o pescoço (sob quase 40º C), calça, sapato e Bíblia na mão - diz que deixou de beber, dançar, fumar e a ir a "muquiadas".

Francisco Guajajara, 16 anos, neto do cacique Crispim da aldeia Barreirinha e cujo avô materno ele conta ter morrido por caruara, esclarece: "A gente deixa de ir para a festa da 'muquiada'. Porque senão a pessoa vai ter vontade de cair e a gente se desvia outra vez." Na própria aldeia Zutíwa, Paulo Gomes Guajajara, 32 anos, encontrou alternativa: oração, em vez do rito de passagem tradicional. "A gente fez a nossa festa, um culto, para não se misturar. Lê a Bíblia [no caso, ainda o Novo Testamento], canta na igreja da aldeia, ora e entrega a menina-moça para Deus."

Essas são algumas das mudanças mais perceptíveis nos traços culturais dos guajajaras que dizem ter se tornado crentes. Francisco relata outra experiência pessoal. "Meu pastor proibiu muitas coisas: jogar bola, namorar menina que não é crente, participar de festa." O adolescente, que fala um português claro, estuda informática na cidade e freqüenta os cultos da Assembléia de Deus.

"Mais do que proselitismo de indivíduos, o cálculo missionário busca gerar um campo simbólico no qual idéias como as de culpa, amor, eternidade, criação, entre outras, tenham sentido para o grupo-alvo", escreve Ronaldo de Almeida, doutor em antropologia social, num ensaio intitulado "Traduções do Fundamentalismo Evangélico".

No caso dos guajajaras, a relação com os missionários era marcada até poucos anos atrás pela prestação de ajuda no campo da saúde, com envio de médicos e treinamento de agentes de saúde nas aldeias. Alguns evangélicos, no entanto, usaram de outros caminhos para garantir sua entrada nas aldeias. "No Zutíwa, todo o pessoal disse que aceitava Jesus. Uns diziam que iam se batizar até na lama", lembra o jovem Francisco. Por que tanto fervor? "Só para receber roupas que um pastor batista dava para os convertidos." Segundo Bronwen, esse pastor não está mais na região e o grupo de missionários avalia com cautela pedidos de ajuda material, exatamente para não haver uma adesão à fé por interesse em bens e favores. As aldeias a recebem hoje, diz, para falarem da mensagem bíblica. E só.

Desde a Constituição de 1988, a Funai não concede autorização para missionários entrarem em terras indígenas, para que os "usos e costumes dos povos sejam respeitados". O órgão informa que chegou a retirar missionários de algumas aldeias. Mas operações como essas são delicadas, por duas razões: primeiro, falta de pessoal e o acesso é fácil a muitas aldeias; segundo, o Brasil assinou em 2002 a Convenção 169, da Organização das Nações Unidas (ONU). Os países signatários reconhecem, entre outros pontos, que os povos indígenas têm autonomia para decidir, por exemplo, quem deve ou não entrar em suas terras. Assim, como evitar a entrada ou retirar missionários das aldeias se eles têm a permissão das lideranças para ficar? E mais: o que fazer com pastores que sejam indígenas?

O que costuma inquietar antropólogos, lingüistas indígenas e sertanistas são indagações como: Por que alterar a cultura dos indígenas com visões de mundo alheias às deles? Quais serão os reflexos dessas mudanças na estrutura social desses povos? Quem garante que a teologia cristã dá aos índios um instrumental mais apropriado para sua vida em comunidade do que sua perspectiva animista?

O pastor presbiteriano Norval Oliveira da Silva, de 44 anos, que nos últimos quatro fez a verificação e revisão da Bíblia guajajara, diz considerar impossível preservar uma cultura. "Nós, missionários, estamos insistindo no fato de que as culturas são dinâmicas. E a mudança cultural ocorre com a presença do missionário ou não." Muitos povos, argumenta, têm a organização social revirada por causa do contato com madeireiros, garimpeiros, álcool ou só pelo fato de terem sido contatados. Para ele, as mudanças no estilo de vida do índio crente não alteram sua real identidade e sua cultura. "Ele pode ser teneteara sem seguir pajelança, sem que sirva aos espíritos. Eu sou brasileiro e não pulo carnaval."

O reverendo Sérgio Paulo Martins Nascimento, presidente da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais, que, ao lado de missionários de outras partes do país e do exterior, participou das festas de lançamento da Bíblia no interior do Maranhão, parte do pressuposto de que o indígena não é perfeito só porque vive na mata, mais afastado da civilização (alguns nem tanto). "Ele é humano como todos nós e todos somos falíveis." A Bíblia, portanto, seria o caminho para todos. "O que falamos é 'você tem essa opção, o Cristo do Evangelho, a escolha é sua'. E as mudanças, a partir do exame crítico, partem deles e não da imposição, como foi o processo de cristianização jesuítica." Os guajajaras não têm, tradicionalmente, um deus único, mas criadores ou heróis culturais, responsáveis pela criação e transformação do mundo, diz Schröder. Maíra e os gêmeos Maíra-ira e Mucura-ira são os mais importantes, explica.

Por trás dos muros da Igreja de São Francisco, matriz da cidade de Arame, a movimentação evangélica é vista com discrição. Para um padre que preferiu não ter o nome revelado, o lançamento da Bíblia em guajajara é "ótimo, uma alegria" e ele não vê problema no fato de ela ter sido feita por protestantes. A Igreja Católica reconhece que, desde o que ficou conhecido pelos católicos como "massacre de Alto Alegre", sua atividade missionária refluiu. "Até uns 15 anos atrás, não se podia nem falar com os padres da região sobre trabalhar com os guajajaras. Houve um afastamento deliberado. E os missionários protestantes estrangeiros chegaram livres dessas histórias."

Mas não é isso que fez a diferença. Em boa parte das 488 terras indígenas brasileiras, há atualmente presença de missões protestantes. E as mudanças comportamentais são tão ou mais perceptíveis que a dos guajajaras. Em "Transformando os Deuses", ensaístas relatam que entre índios convertidos de diversas regiões do Brasil já se vê manifestações de transe/êxtase em cultos pentecostais; glossolalia (fala em línguas incompreensíveis); batismos; esforços de dominação e demonização do xamanismo; e cisão de povos entre "católicos" e "crentes".

Segundo o levantamento do IBGE "Tendências Demográficas de 2005", o número de indígenas autodeclarados católicos caiu de 64,3% para 58,9%, de 1991 para 2000. Dos 41,1% restantes, 20% se disseram evangélicos. Entre eles, os que mais cresceram foram os pentecostais, de 7,7% para 11,9%.

É difícil estimar quantos são os guajajaras que já aderiram à fé evangélica. Em algumas aldeias guajajaras - como Anajá, Barreirinha e Betel -, a parcela de índios "crentes" é de quase 100%, afirma Bronwen. "Essas aldeias já são diferentes: não fazem mais 'muquiada' e já não há espaço para o pajé."

Talvez justamente por sentir que seu papel estivesse sendo ameaçado pela nova realidade, Alcebíades Miranda Guajajara, de 65 anos, pajé da aldeia Jacaré, tomou uma decisão inusitada: converteu-se. "Fui na crença tem uns cinco anos. Antes fumava, bebia cachaça, dava na mulher demais. Eu aceitei a palavra de Deus. Tudo isso eu deixei." Alcebíades diz também que não faz caruara. Pergunto se, como crente, continua sendo pajé. Ele me olha com espanto. "Como é que vou curar os outros?" A resposta revela que, pelo menos entre alguns índios mais velhos que se dizem convertidos, a fé cristã-evangélica não penetrou totalmente no universo e na mitologia guajajara. Na aldeia Zutíwa, por exemplo, o cacique Bernardo, 58 anos, recém-convertido, diz que continuam a fazer a "muquiada" e festas tradicionais, a do milho e a do mel, embora já não procurem tanto os pajés. "Posso ser cem anos crente, mas a cabeça é a mesma de sempre."

Até quando essa dualidade permanecerá, ninguém sabe. Os missionários apostam que a chegada da Bíblia aumentará o número de conversões - principalmente entre os jovens, que revelam mais interesse pela obra. Só na sexta-feira em que a Bíblia foi lançada na aldeia de Bernardo, cerca de 20 exemplares foram vendidos em pouco mais de duas horas. Até a tarde de sábado, mais de cem.

Especialistas criticam tradução

Valor Econômico - 19/10/2007 - por Marcos de Moura e Souza

Lingüistas, antropólogos e indigenistas costumam ser críticos ferozes da atividade dos missionários em território indígena. Ainda mais quando esses missionários se dedicam a traduzir textos bíblicos. "Ensinar a língua indígena a um povo é o único meio que temos de perpetuá-la e perpetuar o manancial de conhecimento expresso nessa língua", diz Yonne Leite, doutora em lingüística e professora aposentada do Museu Nacional do Rio de Janeiro. O problema, continua a especialista, é que os missionários usam o ensino da língua indígena como um mecanismo para que textos bíblicos sejam introduzidos na cultura de um povo, substituindo seus mitos, sua vida cerimonial, seus costumes.


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