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13/09/2007

Na rota dos meninos escravos

Xaquín López
EL PAIS


Em um paupérrimo e distante povoado de Benim, o futuro não prometia nada de bom para Joachim (10 anos), Emmanuelle (12) e Samuel (16). Mas o pior estava por vir: vendidos por apenas 50 euros (o lote inteiro), um traficante de crianças escravas os levou para campos de trabalho na Costa do Marfim
.

O tráfico de crianças escravas continua vigente na África em pleno século 21. As ricas plantações de cacau da Costa do Marfim são uma atração para os países mais pobres do oeste africano. É o que ilustra esta história em dois capítulos: o primeiro em maio e o segundo em agosto. Uma história como tantas, a de um traficante que comprou dois meninos e um adolescente de seus pais no povoado de Dehounta, no Benim. O preço: apenas 50 euros (cerca de R$ 133). Atravessaram de ônibus três países do golfo da Guiné até chegar à Costa do Marfim. Agora sua vida está nas mãos dos capatazes do cacau, como há dois séculos os negreiros eram donos da vida de milhões de pessoas no continente maldito.

"Chegou o ônibus para levar os meninos para a Costa do Marfim." A notícia correu como pólvora por Bohicon, no Benim. Nos povoados mais distantes da cidade já sabiam. Nas cabanas às margens do rio Ueme já sabiam. Nas choças nos subúrbios, entre mosquitos e cloacas, estavam a par.

O ônibus estacionou discretamente em um bairro da cidade, do outro lado da linha do trem. Lassau, o motorista, esperava pacientemente há dois dias o momento de ligar o motor. Seria nessa mesma noite... o mais tardar no dia seguinte. O trabalho agora era para Agustin, o traficante de crianças escravas.

Bohicon é uma cidade média, com cerca de 150 mil habitantes. É uma parada obrigatória na rota que liga Cotonou ao norte do Benim. Entre o rio Ueme, que desce pelo leste, e a fronteira com Togo, a oeste, há centenas e talvez milhares de povoados condenados à miséria mais absoluta.

Agustin estava nesse momento em um desses povoados, Dehounta, reunido com o conselho de anciãos e pais. À sombra de uma árvore, dizia a eles que precisava de meninos da aldeia "para trabalhar em um projeto de cooperação internacional na Costa do Marfim". Era uma maneira eufemística de chamar a coisa. Realmente estava comprando dois meninos e um rapaz para explorá-los nas plantações de cacau marfinenses. Pelos dois menores pagava 10 mil francos (cerca de R$ 40). Pelo maior, um pouco mais, 15 mil.

Benim é um dos países mais pobres do mundo, e à pobreza soma-se o estigma do tráfico de crianças. A poligamia está na origem do problema. Há homens mais velhos no povoado de Dehounta que têm até cinco mulheres, e com cada uma, em média, cinco filhos. Lucien Houmenou, com mais de 20 filhos vivendo mal no meio do nada, vendeu um deles. "Eu concordo em entregar meu filho, mas ele tem de voltar dentro de três anos e trazer dinheiro para casa", havia dito a Agustin na assembléia.

Emmanuelle Houmenou nunca tinha ido à escola. Nos dias de mercado em Kpokissa ajudava sua mãe, e a seu pai no campo de milho e no que fosse preciso. Justine não queria enviá-lo à Costa do Marfim, mas seu marido já tinha os 10 mil francos no bolso e o consentimento do conselho do povoado.

Agustin tinha deixado o carro em um lugar discreto a poucos quilômetros de Dehounta, porque uma coisa era ser traficante e outra muito diferente passear com as crianças pelo povoado à vista de todos. Ao cair da tarde, sem despedir-se de ninguém, nem de seus pais, Emmanuelle, 12 anos, caminhava descalço por uma trilha de areia avermelhada com uma sacola de plástico na mão. Era seguido de Samuel Anedé, o maior, de 16 anos, e fechando a comitiva ao lado de Agustin ia Joachim Nadja, o menor, de 10 anos, também descalço. Eram escoltados por dois jovens do povoado.

Até Bohicon há uma longa estrada de três horas por um caminho de terra, maltratado pelo temporal que caíra nessa tarde. No final de maio essas tormentas anunciavam a chegada da época das chuvas; em poucas semanas o rio Ueme transbordaria e alagaria tudo. Ao chegar a Bohicon já era noite e havia um controle da polícia na entrada da cidade. O carro de Agustin atravessou entre uma pilha de pneus velhos e uma vala, sem que ninguém reparasse. Todo mundo na área sabe a que Agustin se dedica, e se o descobrissem levando três meninos sem papéis dos povoados iria para a prisão.

O ônibus saiu de Bohicon à meia-noite. Iam ao todo 35 viajantes, a maioria jovens sem documentos, sem dinheiro e com pouca bagagem, que trabalhariam pelo menos três anos nas plantações de cacau e café da Costa do Marfim. Um desses jovens levava dois de seus filhos e mais um menino, que um vizinho lhe havia entregado.

Os três meninos de Agustin viajavam na parte dianteira do ônibus, em silêncio, alheios ao futuro que os aguardava. A estrada para Togo estava infestada de controles policiais. Contei até nove em um percurso de 200 km. Isidoro e Bertin, os ajudantes do motorista, se revezavam para descer e dar algum dinheiro para os policiais - 2 mil a 5 mil francos - para que lhes abrissem passagem.

Às 5 da madrugada o ônibus estava na fronteira de Togo. Os ajudantes abriram as portas e todo mundo percorreu a pé os 100 metros que havia entre os dois controles policiais. Talvez por causa da hora, ou talvez porque o tráfico de crianças não interesse a ninguém, a verdade é que nem a polícia de Benim nem a de Togo pediram documentos.

Em uma hora o ônibus estava novamente em marcha. Da fronteira até Lomé, capital do Togo, que fica na fronteira com Gana, são cerca de 50 km. Era preciso estar preparado para atravessá-la às 7 da manhã, que é quando se abre a passagem fronteiriça e uma multidão de gente de Togo passa para o outro lado.

Uma vez em território ganense não havia pressa, podia-se descansar durante toda a manhã. Alguns viajantes tomavam café solúvel e pão com manteiga em um quiosque, uma das famosas barracas de comida que há em qualquer esquina da África ocidental. Outros aproveitaram que o ônibus estava vazio para se esticar nos bancos e tirar um cochilo. Agustin levou as crianças para o mercado de Aflao para comprar sandálias de plástico para seus pés descalços, alguns abacaxis e mangas. O sonho de Samuel, o mais velho, era comprar um telefone celular como o de Agustin. "Você poderá comprar quando ganhar dinheiro na Costa do Marfim", este disse.

Agustin tem 35 anos e muitas cicatrizes na pele, senão na alma. Ele também foi um menino escravo na Costa do Marfim. Seu pai o vendeu aos 15 anos para o primeiro traficante que passou por seu povoado. Meu trato com ele era que podia acompanhá-lo durante a viagem, mas sem fotos nem dados que o identificassem.

Quem já viajou em transporte público pelo golfo da Guiné sabe que um veículo não tem número limitado de passageiros. Viajam os que couberem. E no ônibus dos meninos escravos iam muitos mais que a lotação. Em cada dois assentos havia três passageiros; as sacolas no chão não deixavam espaço para apoiar os pés e, além disso, os bancos no corredor que são para casos de emergência também estavam ocupados. Da parte dianteira, só se viam cabeças apinhadas e sonolentas pelo calor e o cansaço. Não se escutavam conversas, só o ruído do motor e das rodas saltando buracos.

Emmanuelle cedeu ao cansaço e apoiou sua cabeça, dormindo sobre um ombro de Samuel. O maior dos meninos adotava o papel de protetor de seus dois companheiros. Dividia a comida com eles, procurava espaço para ocupar assentos nas paradas, chegou até a enfrentar uma vez Agustin porque estavam havia horas sem comer. "Quando voltarmos ao povoado direi a minha gente que você não está nos tratando bem", ele disse ao passar a fronteira de Gana. Agustin não se deixa intimidar facilmente, mas talvez tenha sido nesse momento que decidiu comprar sandálias para os menores.

Ao passar Acra, a capital de Gana, anoiteceu. O motorista, Lassau, estava cansado. Iam passar a segunda noite em um posto de combustível entre Acra e Elmina. Os que podiam jantavam alguma coisa. A maioria viajava com a roupa do corpo, sem um franco no bolso. Agustin comprou pão e algumas latas de sardinha e preparou sanduíches. Em uma barraca próxima havia uma televisão e um grupo de 15 ou 20 pessoas se amontoava para ver a partida Milan-Liverpool. Os meninos já estavam dormindo no ônibus. Pouco a pouco os passageiros foram procurando seu lugar, caindo no acostamento ou na praia. A noite era escura e sufocante.

Cruzar a Costa do Marfim não ia ser fácil. O país estava mergulhado numa guerra civil de cinco anos e as estradas se encontravam cheias de soldados com Kalashnikovs e má vontade. Os ajudantes do ônibus tinham previsto tudo. Haviam conseguido em Abidjã, a capital econômica do país, um salvo-conduto para o ônibus, que dizia "comboio de ajuda humanitária". Mas havia um problema: a lista de passageiros que os policiais da fronteira tinham era de 25 pessoas no ônibus, e não 37. Isidoro reuniu os 12 que não estavam na lista, incluindo Agustin, os meninos e eu. Entrou em contato com as máfias locais que se dedicam a passar sem-documentos de Gana para a Costa do Marfim e, em troca de 20 mil francos, nos atravessaram numa caminhonete "tro-tro", de noite, por trilhas na selva.

Enquanto isso, o outro ajudante e o motorista buscavam proteção no posto policial da fronteira marfinense. Estavam dispostos a pagar até 45 mil francos (R$ 183) por um carro policial que escoltasse o ônibus até Meayi, no coração das plantações de cacau do país. Era muito dinheiro para que a brigada do posto deixasse passar tal oportunidade.

Ao meio-dia de quinta-feira, um 4x4 com dois policiais se pôs a caminho, escoltando o ônibus. Em Aboisso, os 12 do "tro-tro" subimos novamente no ônibus. Quando os policiais descobriram a manobra ficaram irados, mas tudo fazia parte do teatro de gestos da África, sabiam que ao chegar ao destino poderiam tirar um dinheiro extra pelos 12 ilegais.

Era a última jornada da rota e a mais perigosa, porque até Meayi faltavam 800 km e dezenas de controles militares. Na entrada de cada cidade se encenava a mesma história. Os dois policiais desciam com a lista de passageiros na mão e o certificado que acreditava o comboio de ajuda humanitária. Cumprimentavam seus colegas e poucos minutos depois a barreira se abria e o ônibus seguia caminho.

Às 6 da manhã do dia seguinte, 25 de maio, quase amanhecendo, o comboio chegou ao final da viagem. Um homem de meia-idade e sorriso amplo esperava os passageiros. Joseph Houpan se apresentou aos policiais como "o chefe dos beninenses de Meayi". Ele era a pessoa que tinha enviado o ônibus a Benim para trazer os imigrantes sem documentos. Tinha muitos contatos entre os capatazes marfinenses e agora ia lhes entregar a mão-de-obra de que precisavam para a próxima colheita.

Joseph estava eufórico e não parava de dar instruções. Abriu as portas de algo parecido com um escritório ao lado da mesquita. Não parava de mandar mensagens por telefone. "O ônibus do Benim já chegou", repetia em francês. Ao longo dessa manhã foram chegando capatazes agrícolas a bordo de suas picapes. Os viajantes do ônibus matavam tempo despencados em frente ao escritório. A cerimônia se repetiu até que não restou ninguém: o capataz escolhia dois, três... alguns até cinco jovens. Pagava 35 mil francos por cada um a Joseph - o preço oficial da passagem de ônibus - e ia embora com as pessoas na caminhonete. Com o dinheiro arrecadado, Joseph faria contas com o motorista e os ajudantes e daria a parte combinada aos policiais. O resto, afirmou que cerca de 40 mil francos, era o que ele ganhava por seus serviços.

O trato com os capatazes era simples: cada imigrante trabalharia o primeiro ano para pagar os gastos da passagem; no segundo ano poderia economizar um pouco, mas do salário escasso seriam descontados a comida e o alojamento, e no terceiro ano teria de pagar a viagem de volta e regressar para casa com alguns milhares de francos no bolso.

Os meninos de Agustin não entravam no leilão dos capatazes porque ele já havia se encarregado disso em Bohicon. Na metade da manhã chegou um homem de meia-idade ao qual Agustin chamou de Monsieur Essay. Ele cumprimentou Agustin e subiu no ônibus para ver os rapazes. Poucos minutos depois desceu e deu a Agustin seu dinheiro (120 mil francos em notas de 10 mil). O trato era que se os meninos trabalhassem bem Agustin poderia voltar depois de um ano e ganhar um dinheiro extra.

Três meses depois, em meados de agosto passado, voltei à Costa do Marfim atrás da pista dos meninos de Agustin. Os localizei no povoado de Lassina Bango, a cerca de 20 km da cidade de Gabeadji. Estavam levantando um acampamento de cabanas de barro no meio da selva. A grande colheita do cacau começa em outubro e é preciso construir moradias para os trabalhadores.

O capataz, Chalade Essay, um beninense estabelecido há 17 anos na Costa do Marfim, me permitiu fotografar o maior, Samuel, em pleno trabalho e inclusive trabalhar com ele, mas recusou que eu visse os outros meninos menores.

"Estou contente. Melhor trabalhando aqui do que passando fome em Dehounta", disse Samuel assim que me viu. Contou que este ano o capataz não ia lhe pagar nada porque tinha de devolver o dinheiro das passagens de ônibus e a comissão de Agustin. "Se eu trabalhar como até agora, me dará 20 mil francos no final do ano que vem", ele disse.

"E os meninos?", perguntei.

"Andam por aí. No início não se adaptaram ao trabalho duro, mas agora estão bem", disse Samuel, sem se atrever a dar mais explicações diante do patrão. Antes da minha chegada, Monsieur Essay tinha dado ordens para esconder todos os meninos do acampamento para que o jornalista não os visse trabalhando no barro. Quando eu voltava para o carro, reconheci Joachim, o menor dos três, sentado num muro de uma das casas recém-construídas no acampamento. Tirei uma foto dele e segui meu caminho, consciente de que às minhas costas, assim que eu deixasse o povoado, esse menino de 10 anos e Emmanuelle, de 12, pegariam novamente o enxadão para cavar a terra, compactar barro e levantar as paredes das casas.

Ainda faltam capítulos para se escrever no livro da escravidão infantil na África. Há 200 anos começou a luta por sua abolição, mas no golfo da Guiné, em pleno século 21, Agustin continua percorrendo os povoados do Benim para comprar meninos escravos.


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