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03/09/2007

Transformando conflitos em oportunidades

 

Uma nova forma de mediação de conflitos está sendo utilizada em uma pequena cidade do norte de Minas Gerais. Segundo Luís Tadeu Assad, professor da Universidade Federal de Brasília (UNB) e diretor do Instituto Ambiental Brasil Sustentável (IABS), não se trata de mediação e sim, gestão de conflito. Isso porque o que se busca é produzir soluções de desenvolvimento em áreas de conflito - como em Guaraciama, onde o embate entre uma multinacional de celulose e carvão e agricultores terminou com o assassinato de um produtor rural no começo do ano. O caso ainda está sendo investigado, mas a ONG tem como objetivo fazer com que os dois lados conversem para que todos tirem lições da tragédia.

"Transformamos os conflitos em oportunidades de desenvolvimento para todos", afirma Assad.

A metodologia, ainda sem nome, busca integrar teorias de resolução de conflitos, vindas do Direito, a uma abordagem socioambiental dos problemas. Nessa entrevista, o professor e diretor da ONG explica como a gestão de conflitos se desenvolveu e como foi aplicada até agora.

 

Rets - Como é feita a mediação de conflitos?

Luis Assad - Não chamamos de mediação. A mediação é apenas uma função dentro da gestão de conflitos. Nosso objetivo é sempre facilitar o diálogo entre as partes.

Rets - Como isso é feito?

Luis Assad - Estamos desenvolvendo uma metodologia, a gestão pacífica de conflitos socioambientais. Com ela buscamos intervir em conflitos para que as partes possam conversar e encontrar soluções. Na verdade, consideramos o conflito parte integrante do desenvolvimento socioambiental. Sempre houve e sempre haverá desentendimentos nessa área. Acreditamos, porém, que não podem acontecer enfrentamentos como o de Guaraciama, onde uma pessoa morreu. Isso nunca. Nós não investigamos o caso, não sabemos quem foi o responsável, mas tentamos baixar a tensão entre agricultores e empresa para que haja um desenvolvimento sustentável na região.

Rets - Mas de que forma isso é feito na prática?

Luis Assad - Acreditamos que, se colocados os problemas na mesa, o dálogo acaba sendo mais sincero. Tentamos apontar as causas do conflito para ambas as partes. Mostramos para a empresa por que os agricultores se sentem alijados das terras e, aos trabalhadores, o que a empresa pode fazer de bom. A partir daí, a tensão tende a diminuir. Transformamos os conflitos em oportunidades de desenvolvimento para todos.

Rets - Que tipo de oportunidades surgiram nesse caso?

Luis Assad - É grande o desemprego na comunidade. Antes da chegada da empresa, as pessoas viviam do extrativismo e agricultura. Quando a companhia chegou, tudo mudou. A economia ganhou nova dinâmica. Surgiram novos empregos, mas, ao longo do tempo, algumas funções foram sendo realizadas por máquinas, que agilizavam a produção. Ou seja, tempos depois, não havia mais tanta oferta de emprego e o meio ambiente foi alterado. O que fizemos foi buscar alternativas com o poder público e o setor privado. Hoje alguns agricultores já estão produzindo mel e renovando seus plantios. Por outro lado, a empresa passa a ter uma imagem melhor perante a sociedade. Um melhor relacionamento entre estas partes, ainda por cima, protege a área de explorações predatórias.

Rets - Não houve dificuldades?

Luis Assad - Sim. A empresa, por exemplo, se negava a admitir nossa presença como intermediários. Já ONGs atuantes na região nos acusavam de estarmos do lado da empresa. Com os dois lados envolvidos - agricultores e empresários - tivemos problemas com vocabulário. Enfim, foi um processo de convencimento. Hoje todos participam, mas com um certo pé atrás.

Rets - O IABS possui também alguma iniciativa proativa? Ou atua apenas quando já há um conflito?

Luis Assad - O ideal é conseguirmos chegar antes de o conflito ser deflagrado. Nesse caso chegamos depois de haver morte, mas antes já havia uma série de boicotes. O ideal é evitar que a situação chegue a esse nível, porque, depois, há muita desconfiança. Em alguns casos, fazemos mediação, pois acreditamos no diálogo. Quando chegamos, procuramos os melhores representantes e tentamos fazer com que conversem. Ganhamos a confiança pouco a pouco, mas estamos evoluindo.

Rets - De que maneira vocês chegam ao conflito?

Luis Assad - Essa é uma grande questão nossa. Como chegar às áreas de conflito? Nesse caso, chegamos depois de a situação de conflito já estar instalada. Havia uma morte, afinal. Conseguimos recursos e passamos a agir lá. Afinal, uma intervenção custa dinheiro. Como ninguém nos conhecia, tivemos que nos apresentar, ganhar confiança de ambos os lados.

Rets - Além de Guaraciama, em que outras áreas o IABS atua?

Luis Assad - Já trabalhamos no Ceará, onde houve um conflito entre pescadores e grandes empresas em uma área turística. Fomos chamados pela prefeitura local para tratar do conflito. Os recursos vieram do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Com a UNB (Universidade Federal de Brasília), atuamos em três áreas da BR-163 (Cuiabá-Santarém). Já atuamos também em parceria com outras entidades.

Rets - Há um tempo pré-determinado para a atuação?

Luis Assad - Geralmente trabalhamos com um horizonte de seis a oito meses. Mas isso varia bastante, de acordo com a complexidade do caso.

Rets - Como foi desenvolvida a metodologia?

Luis Assad - A partir de um trabalho na UNB, onde sou professor e faço pós-doutorado. Nosso objetivo é terminar o processo de criação da metodologia até o fim do ano, pois ela ainda não está totalmente consolidada. Nos inspiramos nas teorias de conflito, mas com foco em meio ambiente.

Rets - Deu para unir as duas coisas?

Luis Assad - Ainda estamos trabalhando nisso. Mas é certo que nunca haverá uma metodologia certa para todos os casos, ela vai precisar mudar de acordo com a situação. Temos a intenção de criar um observatório de gestão de conflitos.

Marcelo Medeiros

 

Fonte: http://www.rets.org.br


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