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>    Com câmera nas mãos, profissionais da saúde, pacientes e familiares têm um novo olhar para o ambiente hospitalar


27/08/2007

por Luciene Correia

 

Quando se fala em internação em hospitais, logo se pensa em coisas tristes e frias. Para sair desse estereótipo, a organização da sociedade civil de interesse público (OSCIP) ImageMágica oferece, há quase dois anos, em unidades de saúde de diversas regiões do país, uma câmera fotográfica e convida a equipe técnica, os médicos, os enfermeiros, a diretoria, os pacientes e seus familiares a registrarem os momentos de seu dia-a-dia no local.

O fotógrafo e idealizador dessa ação, André François explica que a proposta é que eles façam as imagens para expressar seu ambiente. Na entrevista, ele e Paula Blandy, diretora da ImageMágica, contam as experiências que viveram, em 2006, com a produção do livro Cuidar – um documentário sobre a medicina humanizada no Brasil. Além de compartilharem as histórias do projeto Humanizando Relações, também falam sobre o trabalho Olhar Sem Fronteiras e outras idéias da OSCIP.

Portal Setor3: Como começou o trabalho do Humanizando Relações?

André François: Antes de entrar em qualquer hospital, é preciso passar por um processo complicado de autorização. Depois que vencemos essa barreira, vem toda a metodologia do projeto para percorrer os corredores, entrar no quarto... Mas, sempre antes é necessário conhecer o histórico de cada paciente. A equipe de enfermagem nos apresenta todas as fichas e nos orienta quanto aos cuidados a serem tomados na aproximação. Esse momento é muito especial.

Portal Setor3: Por que esse momento é crucial para o desenvolvimento do projeto?

André François: Fica muito difícil quando, por exemplo, uma mãe acaba de receber a notícia de que seu filho está com câncer. Mas, depois de dois ou três dias, a família cede porque, geralmente, a criança pede. Ela quer se divertir. A situação é bem diferente quando a família convive com o tratamento do filho há uns seis meses. É receptiva de imediato.

Portal Setor3: Como é a abordagem?

André François: A gente se aproxima, diz que é uma atividade, uma brincadeira, dá a câmera digital na mão deles. Eles adoram, ficam fissurados com a máquina e viram fotógrafos. Lembro de um garotinho, o João, de seis anos, em Goiânia. Ele assim que pegou a câmera começou a se comportar como um fotógrafo, buscando ângulos. É Maravilhoso!

Portal Setor3: Explique um pouco da proposta do Humanizando.

André François: Temos uma equipe de psicólogos e educadores para nos acompanhar no hospital. Ficamos cerca de oito horas por dia, durante uma semana em cada unidade. Quando já estamos integrados no hospital, pedimos que façam imagens do ambiente deles. Aspectos positivos e os desafios a enfrentar. Queremos provocar reflexões. A idéia é que cada reflexão gere mudanças de atitude, na estrutura. O olhar de um médico diante de sua foto é novo. A imagem registrada, por ele, vai fazê-lo pensar naquele instante.

Paula Blandy: Esse novo olhar é sentido em todos. No ano passado, por exemplo, trabalhamos em enfermarias pediátricas. Tinha uma paciente, uma garota de 13 anos, em tratamento de câncer. Ela tira a foto dela mesma com chapeuzinho cor-de-rosa. Recolhemos o seu depoimento que é a legenda da foto: "Uma das coisas que gosto aqui sou eu mesma. Eu me amo. É bom quando ficamos internados para tratamento e aparecem pessoas com novas atividades. A gente pára para pensar. É muito melhor do que ficar sozinha sem companhia".

André François: É um momento muito importante porque é quando reúne imagem e texto. Questionamos: por que você tirou essa foto? O que quer dizer com ela? O mais comovente são as expressões deles ao olharem as fotos. É maravilhoso!

Portal Setor3: As fotos ficam com eles?

André François: Sim. Fazemos um livrinho com as fotos só para distribuir para os hospitais para eles entenderem o trabalho que foi feito. E os pacientes montam seus próprios álbuns que levam para casa. Esse material tem um valor enorme. Imagina uma mãe ou um pai que tem um filho hospitalizado. Muitas vezes são casos graves e têm pouco tempo de vida. Fica uma lembrança.

Portal Setor3: Hoje, como está esse projeto?

André François: Estamos no 21º hospital. Chegamos no começo de julho em Recife. Agora nosso objetivo é atingir todos os hospitais universitários do país. A gente sente que os recém-médicos, os residentes, podem eternizar esse trabalho de humanização. Tem toda uma carreira pela frente e ainda provocar a reflexão em toda equipe.

Portal Setor3: O livro Cuidar – um documentário sobre a medicina humanizada no Brasil é outra ação do Humanizando Relações?

André François: Isso. Esse trabalho é resultado de 25 mil fotos tiradas no ano passado, quando a equipe percorreu hospitais de todo território brasileiro. Esse livro-documentário tem 117 fotos que retratam de tudo o que existe de medicina humanizada no país.

Portal Setor3: Como foi essa experiência?

André François: Foram momentos de que me abalaram bastante emocionalmente. Chorei muito, sentia dificuldade para dormir. No Baixo Rio Negro, no Amazonas, acompanhamos dona Maria a caminho de volta para casa levando a filha, de nove anos, morta. Foram três dias num barquinho. Conhecer histórias como a da Marineide, uma garota de 17 anos, com câncer, muito grave. A mãe dela vendeu a última vaca para conseguir dinheiro para pagar a viagem da filha. Ela precisava fazer os exames no Hospital do Câncer do Ceará. É uma situação muito difícil. Mas, ao invés de me desanimar, me traz para a vida.

Portal Setor 3: Você tem notícias desses personagens?

André François: Sim. Marineide mesmo. Ela nos disse que adorava desenhar, assim como eu quando era criança. Então, preparei um pacote com papéis e lápis de pintura e enviei para ela. Depois de um tempo, recebi pelos Correios um envelope com as imagens que ela produziu.

Portal Setor 3: Livro publicado, projeto fechado?

André François: Todos os nossos projetos estão em andamento. Histórias com as de Marineide me incentivaram a acompanhar pessoas que, como ela, precisam percorrer distâncias longas e difíceis para conseguir acesso a atendimento médico. Pude perceber que pessoas saem do Acre a Goiânia, por três dias de viagem, em busca de hospitais para tratamento. Muitas não conseguem nem chegar, outras morrem sem saber o que tinham. É espantoso! O conceito do 'cuidar' precisa estar presente.
Além desse, temos um outro projeto: o Olhar Sem fronteiras. Essa iniciativa precisa ser colocado em prática. É uma extensão da Escola do Olhar – oficina de fotografia desenvolvida em escolas da rede pública. A idéia é propor como temas de fotografias os 8 Objetivos do Milênio que são 8 Jeitos de Mudar o Mundo, estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Portal Setor 3: Quais os locais a serem visitados?

André François: Esse projeto ainda depende de captação de recursos, mas está sendo formulado há dois anos. O plano é ter um panorama do que foi visto por jovens de várias partes do mundo, em 2007, sobre essas metas do milênio. Já escolhemos cinco localidades: Brasil, Estados Unidos, Nova Zelândia, Japão e África. No Brasil, esse projeto terá maior escala, abrangendo: São Paulo, aldeias indígenas e o Alto Rio Negro.

Paula Blandy: Todos somos potenciais futuros doentes. Precisamos chegar humanizados a uma consulta médica também. E entender que o profissional da saúde também tem uma vida difícil. Assim como o paciente, o médico fica fragilizado para lidar com a morte, com a dor e o choro. Por isso, o Humanizando Relações não é focado no paciente, mas em todos os envolvidos no processo.

André François: É o pensar no outro. E principalmente, pensar em si e o que pode fazer para transformar. Assim, o mundo pode ser diferente e melhor.


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Serviço:
Para conhecer o trabalho da ImageMágica, acesse aqui.

ImageMágica
(11) 2577-9902
olhar@imagemagica.org
Livro: Cuidar - Um documentário sobre a medicina humanizada no Brasil
Fotografias de André François, reportagem de Alicia Peres e edição de texto de Ronaldo Bressane.
248 páginas
em média R$117,00

Fotografia desperta o potencial no indivíduo e a responsabilidade para um mundo melhor

Luciene Correia

"Perceber o mundo em que se vive é o primeiro passo para modificá-lo". Essas palavras do fotógrafo André François mostram a importância da fotografia como ferramenta para a transformação social e ponte para comunicação entre os povos. Seu interesse pela imagem veio quando descobriu que era disléxico. "Comecei a me concentrar nos desenhos. Depois meu pai me apresentou a máquina fotográfica. O registro de imagens passou a ser a minha vida."

Em 1992, quando André produziu o livro São Thomé das Letras, onde passou um ano registrando a vida e o trabalho dos moradores nas pedreiras do Triângulo Mineiro, percebeu o papel social da fotografia. Ele conta que entregou as fotos ao patrocinador que, logo depois, um empresário de Porto Alegre ligou sensibilizado com as imagense pediu a indicação de alguma entidade na região Sul do País. André passou o contato da ONG Viva Criança que, com o dinheiro doado, construiu o Montanha da Criança, espaço para crianças e jovens em situação de risco. "O poder da imagem modificou a vida de muitas crianças daquela região. Nesse instante, caiu a ficha e entendi como a fotografia pode se transformar numa ponte para transformar as coisas. Fiquei muito orgulhoso. Se eu tenho a chance de construir essas pontes, vejo isso como uma lição de vida".

Após este trabalho, o fotógrafo começava sua missão como empreendedor social. Neste contexto, em 1995, criou a Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) ImageMagica. É fácil perceber o envolvimento da equipe da entidade com os projetos que desenvolve. Um grande painel de desenhos ocupa uma das paredes da sede. É um mapa da comunidade de Heliópolis feito pelos participantes, durante uma oficina da Escola do Olhar. "Sou apaixonado por esse painel. Assim que o vi, disse: esse fica comigo!", diz André, olhando para aqueles desenhos, sem cor, mas com emoção.

Desde sua criação, a OSCIP tem colecionado histórias de transformações sociais. André fala com orgulho do primeiro projeto: Escola do Olhar. "Nas escolas da rede pública, montamos um laboratório fotográfico e apresentamos a fotografia com a técnica pinhole – câmara feita artesanalmente por uma caixa ou lata com um pequeno orifício, onde a luz é captada. Usamos latas de tinta para construir as câmeras. Depois, os jovens interessados fazem o mapa da região, identificam os aspectos positivos e os negativos do bairro, da cidade. Com isso, vem a proposta: o que você pode fazer para melhorar essa situação? E para manter o que está bom? A idéia é que o jovem se apodere da sua realidade. Assim, ele trabalha a auto-estima. E compreende que a solução pode estar num gesto, numa atitude dele mesmo."

A diretora da ImageMágica, Paula Bandy relata uma experiência em uma das oficinas. "Em Mogi, uma menina tirou fotos num espaço na Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU). Ela viu que o lixo tomava conta do local. Na escola, os alunos observam as fotos, e mostram uns para os outros e se mobilizam para melhorar o que registraram. Resultado: não jogaram mais lixo naquele local. Pequenas ações podem fazer grandes diferenças".

Paula conta que, como a escola é aberta, o movimento do olhar tem efeito multiplicador. Além dos alunos, os professores também são capacitados. E os pais dos alunos conhecem o trabalho de seus filhos. Desta forma, o trabalho se consolida na região.

O benefício não é apenas para aquela localidade, mas principalmente para os que participaram das oficinas da Escola do Olhar. "Pela nossa experiência de 12 anos com esse projeto, cerca de 20% dos alunos têm vontade de continuar envolvidos com a fotografia". É o caso de Cleber Nascimento de Brito, 21 anos, que participou de oficina pela biblioteca na Alvina do Cursino, no Ipiranga, em 2004 e hoje trabalha como assistente de projetos na ImageMágica.

A diretora da OSCIP constata que o caso de Cleber comprova a mudança de perspectiva de vida. Hoje o jovem está aprendendo inglês e estuda cursinho pré-vestibular. "Para mim, a fotografia tem o mesmo significado de quando comecei a aprender pinhole e até agora, trabalhando com câmeras digitais: mostrar o mundo que enxergo sem dizer uma palavra. Mostrar o que é difícil dizer, usando apenas imagens. Seja fazendo críticas, apresentando lugares abandonados ou coisas que as pessoas vêem todos os dias, mas nem sabem que estão lá ou por que estão lá ou elogios. Acredito que fotografar é guardar os momentos que um dia serão difíceis de lembrar apenas com a memória", diz Cleber.

Um momento importante para o reconhecimento deste projeto foi durante as comemorações dos 450 anos da cidade com o trabalho Olhar S. Paulo. Durante três anos, a ação reuniu 12 mil jovens e 1 mil e 400 professores para fazerem fotos sobre as mais diversas regiões e comunidades da cidade de São Paulo. Apesar da ação estar relacionada com o aniversário da capital, o projeto durou três anos. O mesmo projeto, em outras versões, foi feito ainda com algumas empresas tais como ThyssenKrupp; Aços Villares, em Mogi das Cruzes e em Pindamonhangaba; e Prodata, garantindo à ImageMagica o título de Ponto de Cultura dado pelo Ministério da Cultura.

Nas escolas públicas, as oficinas são gratuitas. O idealizador da ImageMágica revela que os cursos em escolas particulares e em empresas viabilizam o desenvolvimento de projetos de fotografia na rede pública de ensino. "Lembro da cena do presidente da Kodak sentado no chão montando a sua lata para fotografar. O trabalho social não é apenas com jovens carentes. O que importa é provocar reflexão e, em conseqüência, uma mudança. Depois de uma experiência assim, o olhar da gestão é outro", diz.

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Serviço:

Para conhecer o trabalho da ImageMágica, acesse o site www.imagemagica.org.br.

ImageMágica

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