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>  O aborto e os aborteiro$


15/05/2007

 

Assistindo ao Jornal Nacional quase que inteirinho sobre a chegada do Papa Bento XVI ao Brasil, veio à tona, novamente, a questão do aborto. O Papa o condena em pronunciamento, sendo seguido pela cúpula da Igreja Católica brasileira. Por outro caminho, o Ministro Temporão, responsável pela pasta da saúde, mantém-se firme na defesa indireta do aborto, reivindicando um “amplo debate” que culminaria na realização do plebiscito onde o povo escolheria entre descriminalizar ou manter o aborto como um crime. A nossa legislação somente libera o aborto em caso de risco de vida para a mãe ou em gravidez resultante do estupro.

Não comentaremos os pormenores jurídicos ou religiosos sobre o tema. Nos ateremos à fala do Ministro da Saúde e, também, do Presidente Lula, igualmente dúbia, se declarando contra o aborto, mas, o classificando como “um problema de saúde pública...” Ambos viajam no clássico: “não sou contra nem a favor, muito pelo contrário...”

A questão delineada é a da descriminalização, com farta argumentação favorável e contrária. Isso exige das autoridades posições definidas, pois há muita informação disponível, principalmente de cunho científico. Sentar no muro já abre portas para decisões equivocadas e, sinceramente, torra a paciência (isso mesmo, desci do salto!).

Conclamar um “amplo debate” requer debatedores habilitados. São milhões de brasileiros aptos ao voto no Plebiscito. Então, pergunto: para um tema de gigantesca importância, já existe um eleitorado informado suficientemente sobre o que irá escolher? Podemos deixar essa informação a cargo de uma campanha eleitoral movida por interesses próprios e paixões de todos os tipos, inclusive a religiosa? Não são os mesmos eleitores que, recentemente, foram ludibriados pela propaganda dominante e, em votação, optaram pelas armas? Quais os estudos existentes que comprovam a descriminalização do aborto como solução, enquanto “problema de saúde pública”? Quem nos assegurará que os veículos de comunicação agirão com isenção nos debates acerca do aborto? Como resolver o entrave jurídico à possível descriminalização, se a Constituição Federal considera inalienável o direito à vida a partir do nascimento, estendendo-o à gestação? Se a ciência não chegou a um acordo sobre o início da vida, ficou a dúvida, nesse caso, devemos abortar? Se a população em algumas pesquisas populares se declara, em sua maioria, contrária ao aborto, qual o sentido dessa consulta por plebiscito? Não seria o momento do investimento em esclarecimento sobre a sexualidade, por meio de formas realmente eficazes?

 

Perguntas... perguntas... perguntas...

Existem denúncias facilmente localizadas na internet (por isso não as cito integralmente, aqui) sobre uma indústria do aborto, onde as crianças mortas têm partes do seu corpo utilizadas comercialmente. Pergunto: já não fazemos isso com o gado? Outras denúncias informam que o plebiscito seria a estratégia dos mercadores da morte (aborteiros) para convencer a população com uma maciça campanha na mídia, a mesma estratégia utilizada sobre a questão do desarmamento, quando a população votou a favor das armas.

O que diz o Ministro e o Presidente sobre o fato, já que temos uma mídia tendenciosa, da qual o próprio Lula já provou o veneno? Acabo de ouvir um locutor da TV Bandeirantes afirmar que uma pesquisa popular revelou a posição contrária da população em relação à posição do Papa sobre a condenação no uso de camisinha e sobre o aborto. Misturou-se propositadamente as informações. A posição da Igreja sobre os métodos anticoncepcionais já se demonstrou ultrapassada, mas a população concorda, em sua maioria, com a condenação do aborto. Pergunto: é esse o terreno seguro para um debate popular e um plebiscito?

Considerando o aborto um problema de saúde pública, analisemos o cenário em que poderia transcorrer legalmente. Presume-se o SUS como responsável pela finalização das conseqüências dos abortos clandestinos, pois a maioria das mulheres recorreria a ele. Então, a mulher procuraria o Sr. SUS e abortaria em totais condições de segurança. Opa! Tem algo errado aqui! Estamos falando do SUS, dos hospitais públicos, do atendimento nesses hospitais, do acesso popular às vagas oferecidas nesses hospitais, do agendamento e espera por esses atendimentos. Pergunto: há estrutura para o abortamento seguro?

Conheço uma senhora que chegou ao sétimo mês de gravidez sem conseguir uma vaga para o primeiro pré-natal. Esse caso ocorreu há menos de dois anos. Imaginemos uma candidata ao aborto seguindo na fila, esperando sua vez, enquanto a barriga cresce... (digo barriga para os aborteiros entenderem, pois não conseguem ver uma criança); ou a jovem entrando timidamente e amedrontada no hospital, recebendo o costumeiro péssimo humor dos profissionais em serviço; outra mulher acaba de ser chamada, após longa fila e, quando seria a sua vez, os médicos entram em greve...; enquanto isso, mulheres mais abastadas teriam acesso a instituições seguras e bem estruturadas, pois iriam pagar o aborto com o seu rico plano de saúde.

Não há como negar o aborto como um problema de saúde pública. No entanto, o aborto não é o problema, em si. Ele é a culminância de processos anteriores. Descriminalizá-lo é empurrar a sujeira (no caso, o bebê) para debaixo do tapete (no caso, a sepultura).

Invistamos no esclarecimento, pois a sua ausência ou deficiência está na raiz do problema. Vamos educar sexualmente a população, superando mitos religiosos, tradicionalismos, proibições, conceitos ultrapassados. Situemos o homem e a mulher num ambiente social de despertamento constante para suas responsabilidades, exercendo a sexualidade equilibrada.

Se o governo quer agir, então organize programas que esclareçam como manter relações sexuais que não desemboquem no aborto, que ofereçam suporte psicológico para pessoas desorientadas com a gravidez não planejada ou vítimas de estupro. Enfim, programas que valorizem a vida humana. Salientamos que essa orientação não é responsabilidade exclusiva do Governo. Mas, nesse texto, é dele que falamos.

Como disse um alto membro da Igreja Católica, em rede nacional, esperemos que o Ministério da Saúde lute pela vida e não pela morte. Então, Srs. Autoridades comandantes do meu Brasil varonil: honrem o salário que lhes pago todos os meses! Quebrem a resistência em defender a vida, superando interesses financeiros e políticos.

 

Afinal...

Quantos caminhos um homem deve andar pra que seja aceito como homem?

...

Quantas vezes deve um homem olhar pra cima para pode ver o céu?

Quantos ouvidos um homem deve ter pra ouvir os lamentos do povo?

Quantas mortes ainda serão necessárias para que se saiba que já se matou demais?

...

Quanto tempo pode uma montanha resistir antes que o mar a desfaça?

...

Quanto tempo o homem deve virar a cabeça, fingindo não ver o que vem vindo?

[Diana Pequeno]


Harmonia e felicidade


Cristiano Fádel



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