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>     Em livro, teólogos da libertação revidam censura do Vaticano


09/05/2007

 

Valquiria Rey
De Roma

 

Teóricos da Teologia da Libertação já têm uma resposta à recente notificação do Vaticano contra o jesuíta espanhol Jon Sobrino, punido por ter supostamente dado, em sua obra, muita ênfase à humanidade – e não à divindade – de Jesus Cristo.

 

 

Através do livro Baixar os Pobres da Cruz: Cristologia da Libertação, disponível gratuitamente na Internet (clique aqui), 40 dos mais importantes teóricos da corrente se solidarizam com Sobrino, rebatendo uma a uma as alegações da Santa Sé contra a obra do jesuíta, que recebeu a notificação punitiva do Vaticano no último mês de março.

Na coletânea, os teólogos da libertação afirmam que os pobres são os crucificados de hoje. Eles defendem que a missão da Igreja em relação aos pobres não deve se restringir apenas à tarefa de dar conforto e amparo aos mais necessitados, mas contestar as origens da exclusão.

"Expressamos nossa fraternidade, fazendo o que Jon Sobrino sempre fez com seriedade e compaixão: pensar a fé em Cristo no contexto dos povos crucificados", escreve o teólogo Leonardo Boff no prefácio do livro.

"Isto sempre foi, é e, sobretudo, vai continuar sendo nossa 'cristologia da libertação'. Uma teologia militante, que luta para 'baixar os pobres da cruz', sem pretendidas neutralidades, nem hipócritas eqüidistâncias."

 

'Por que agora?'

O sacerdote belga Joseph Comblin questiona o que teria motivado a punição de Sobrino às vésperas da 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, que será aberta pelo papa Bento 16, dia 13 de maio, em Aparecida.

"Teria (a Santa Sé) alguma intenção não expressada na publicação deste documento exatamente agora, e exatamente sobre as obras de um autor que tem notoriedade indiscutível na América Latina?", questionou o teólogo radicado na Paraíba.

"Não teria a intenção de colocar suspeitas sobre a teologia latino-americana em geral?"


Para Jung Mo Sung, professor de Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, "o verdadeiro problema que a obra de Sobrino suscita não é o fato de ele não ter explicado com a devida ênfase a divindade de Cristo, mas ter assumido que o problema primeiro e primário do pobre é a fome, a morte antes do tempo", disse.

"Sobrino mostra que Jesus morreu na cruz não porque Deus exigia o seu sacrifício, mas para anunciar a esperança aos pobres e denunciar seus opressores."

De acordo com o teólogo, a Santa Sé não entende que pobre é aquele que passa fome, e não quem ainda não conheceu Cristo.


Sobrino

Recolhido desde que recebeu a notificação da Santa Sé, Sobrino assina o epílogo, agradece a solidariedade recebida e defende a criação de uma nova Igreja em favor dos pobres.

"Uma Igreja que se decide por esta opção não é somente povo de Deus. Entre nós, tem sido uma gloriosa Igreja de mártires", afirmou o teólogo espanhol, que vive em El Salvador há 50 anos.

No livro, organizado pela Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo, Sobrino cita o monsenhor Oscar Romero – ex-arcebispo de San Salvador, assassinado em 1980 enquanto celebrava uma missa: "a Igreja se predica a partir dos pobres e nós não nos envergonhamos nunca de dizer a Igreja dos pobres, porque foi entre os pobres que Cristo quis colocar sua cátedra de redenção".

Segundo o frei Luiz Carlos Susin, os teólogos não pretendem fazer manifestações diretamente contra ou se dirigindo às instituições vaticanas durante a visita do papa ao Brasil.

"Não consideramos nem oportuno e nem útil manifestações em Aparecida", disse à BBC Brasil.

"A idéia é aprofundar e publicar a teologia nos pontos contestados pelo Vaticano. Sobrino é o teólogo que melhor articulou o que deve ser a teologia não só latino-americana, mas a partir do ‘lugar teológico’ dos pobres."

Os teólogos da libertação estarão reunidos no Seminário Latino-americano de Teologia em Pindamonhangaba, entre 18 e 20 de maio, para discutir a igreja e o cristianismo no contexto atual da América Latina.

O evento paralelo aos debates oficiais da 5ª Conferência visa a garantir a aprovação de resoluções que dêem continuidade a reuniões anteriores de Medellín e de Puebla, que consagraram a opção preferencial da Igreja pelos pobres.

Entre os presentes, devem estar o peruano Gustavo Gutiérrez e o chileno Pablo Richard.

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