Espirituialidades e Sociedade



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>    Rubens Saraceni entrevista Pai Élcio de Oxalá


04/05/2007

 

Rubens Saraceni: Hoje nós temos um convidado muito especial, nosso querido Pai Élcio de Oxalá, com um trabalho reconhecido no Brasil e no exterior, que hoje nos deixa a sua biografia. Gostaria que o senhor deixasse registrado um histórico de quando veio essa coisa de Umbanda e da curimba que tomaram essa proporção tão grande.

Pai Élcio: Comecei a trabalhar na Umbanda em 1950. Tinha 14 anos e a minha mãe, que era católica, não aceitava que a gente falasse de espiritismo, dizia: “- Nossa Senhora, feitiçaria!” Mas eu tinha uma missão para cumprir. Continuei a ir escondidinho da minha mãe. Sempre dava um jeitinho de ir na minha mesa branca, tomar um passe, receber a orientação dos mentores...

Rubens Saraceni: Quando a sua mediunidade aflorou?

Pai Élcio: Por volta dos meus 18 anos, estando na maioridade, pude ir pela primeira vez em um terreiro e foi aí que eu consegui saber que se tratava de uma coisa mais séria, que tinha mesmo haver comigo e não dava para dispensar a espiritualidade. Foi em um Templo de Umbanda chamado Padre José de Alencar que já nem existe mais.

Rubens Saraceni: Aconteceu lá o que acontece com 90% dos centros de Umbanda. Quando os dirigentes desencarnam dificilmente tem um herdeiro já aceito pelos outros médiuns para assumir pacificamente os trabalhos. Então, a maioria desses médiuns, às vezes com vinte, trinta anos de trabalho, abrem suas próprias casas e começam construir toda uma estrutura novamente. Então, particularmente, não sei se melhor seria permanecer a estrutura, ou se é melhor dissolvê-la e cada um começar um novo trabalho renovado.

Pai Élcio: De minha parte, acho que deveria ser mantida aquela estrutura. Teríamos tantas histórias boas para relatar! Sou testemunha de fatos maravilhosos que aconteceram lá, e hoje, isso se perdeu no tempo, pois não existe qualquer registro. Lembro-me de uma entidade que baixava lá, e se que se apresentava como um padre. Certa vez, depois da passagem dele, veio um mentor daquela casa e ele então, pegou uma garrafa branca com água e colocou um pano escuro atrás e fazendo aparecer dentro da garrafa, uma pessoa que estava fazendo mal para a outra. A gente via bem o rosto!

Rubens Saraceni: Pena que não ficaram registros dessas coisas. O propósito desse programa é justamente resgatar essas memórias para enriquecer a Umbanda nas gerações futuras. Vamos voltar no tempo. Onde o senhor nasceu?


Pai Élcio: Em Varginha, no sul de Minas Gerais no dia 9 de abril de 1937.

Rubens Saraceni: E como veio essa coisa do gosto pela música, pela curimba e pelo atabaque?

Pai Élcio: Por volta de 1975 eu fui apresentado a um Baluarte, Sebastião Campos que dirigia a Federação Espírita de São Paulo. Ele fazia umas reuniões aos domingos lá e eu era convidado. Lá, ele cantava o hino da Federação, eu o aprendi e comecei a cantá-lo, e muitas pessoas ficaram admiradas. Fui chegando devagar na casa, e aí foi começando meu primeiro trabalho. Lá conheci também Olívio Biquete.

Rubens Saraceni: O senhor possui uma voz privilegiada. Como foi seu conta­to com a curimba, e tornar-se o curimbeiro oficial da Umbanda?

Pai Élcio: Me convidaram para estar na Festa de Ogum realizada por Pai Jamil no Ibirapuera. Quando vi a imagem de Ogum se aproximando e o pessoal jogando flores, eu disse: “- Oh meu Deus! Quem me dera poder estar lá em cima cantando para o meu Pai Ogum!” As coisas começaram por aí. No ano seguinte, meu Pai Ogum me chamou lá para cima. Me apresentou pai Milton Fernandes e eu ingressei na Curimba dele, a primeira escola de curimba do Brasil.

Rubens Saraceni: Muito importante esse registro. Já falamos de Sebastião Campos e agora Pai Milton Fernandes, sobre o qual temos pouca coisa documental, apesar de muitos o terem conhecido e se beneficiado do trabalho dele. Pai Élcio de Oxalá é presidente da escola de Curimba Élcio de Oxalá que já formou sei lá quantas pessoas. Vamos falar um pouco sobre os pontos cantados.

Pai Élcio: O ponto cantado é que determina a hora em que nós devemos chamar as entidades. Às vezes, por falta de conhecimento, o coitado do nosso irmãozinho que está na frente de uma curimba, na hora que a entidade bate no peito e diz que vai para Aruanda ele canta: “Oxalá mandou; Ele mandou buscar...” E o caboclo então, dá uma olhadinha pra ele e na sua educação maravilhosa dá uma volta, um abraço em cada um. E ele continua cantando. Aí o caboclo abraça todo mundo e vai embora sem ponto. E às vezes nem se percebe que se canta um ponto de chamada na hora da subida. É muito importante saber as colocações, a hora que deve-se cantar, ou não. Senão a gente acaba confundindo as entidades.

Rubens Saraceni: O trabalho de Umbanda tem toda uma seqüência que começa pelo canto de defumação, abertura de trabalho, hino da Umbanda, canto para Oxalá, canto para as linhas de Orixá. Às vezes alguns cantam na abertura para a esquerda também, aí vem o canto de chamada, firmeza do Orixá da casa.

Pai Élcio: Louvações... Se a gente quiser fazer uma saudação a Oxalá, a gente está cantando para o Pai Maior, que é uma entidade máxima na nossa espiritualidade, para o qual eu acredito não ter ponto de chamada nem de subida. Quem é que vai mandar Oxalá embora? Ele não vai, ele está!

Rubens Saraceni: Ele está o tempo todo. Não conheço um ponto de subida de Oxalá, só de louvação. Nunca tinha prestado atenção. São interessantes essas coisas sobre os pontos cantados porque existem pontos aos quais recorremos, como os de descarrego, que tem de ser um ponto forte de chamamento do poder através da música.

Pai Élcio: O ponto cantado é uma prece. A firmeza do terreiro é o ponto cantado.

Rubens Saraceni: Eu já vi casos em que se percebe uma sobrecarga muito grande no centro, e então o Guia mandar cantar um ponto de tal Orixá. A gente sabe que é um ponto de descarga e então à medida que vai cantando aquele ponto, tudo muda. A falange daquele Orixá desce como que envolvendo toda aquela carga negativa e indo embora.

Pai Élcio: Uma vibração fora de série! Eu costumo recomendar às pessoas. Muitas vezes o dirigente está ocupado durante os trabalhos e uma irmãzinha passa mal na assistência, às vezes é a primeira vez que está lá. Está super carregada de cargas negativas, se sentiu mal e caiu lá. Aí todo mundo diz: “Canta um ponto para o Pai Ogum pra levantar aquela irmãzinha!”

Rubens Saraceni: O conhecimento hoje dos pontos dentro da Umbanda graças ao seu trabalho e de outras pessoas está começando a se disseminar. Temos à nossa disposição livros com os pontos cantados de Umbanda, com as letras, sem a música. Os pontos tem um fundamento por trás. Hoje não temos muitos CDs, mas houve um tempo que havia muitos Long Plays à nossa disposição. O senhor chegou a gravar LPs não é?

Pai Élcio: Sim. Eu gravei a minha primeira música há muito tempo, que falava assim: “Meu pai, caminha com eu agora; Meu pai, caminha com eu agora; Sou filho seu pequenino; Minha missão é tão grande; Valei-me Nossa Senhora; Valei-me Jesus menino”. Essa foi a minha primeira gravação. Certa vez, eu estava numa festividade e a Preta Velha chorou. Eu estava cantando para ela e as lágrimas desciam. Aí o cabone veio me perguntar o motivo e eu lhe disse:“- Sabe meu filho, esse ponto tem um fundamento tão grande... tão grande, que a Preta Velha realmente memorizou muita coisa através dele. O ponto era o seguinte:

Fio se suncê precisar; É só pensar na vovó que ela vem te ajudar; Fio se suncê precisar; É só pensar na vovó que ela vem te ajudar;

Pense numa pisada longa zifinho; Lá no seu jacutá; Numa casinha branca zifinho; Que a vovó tá lá;

Sentada num banquinho tosco zifinho; Com a sua rosária na não; Pense na Preta Velha zifinho; Fazendo oração; Pense na Preta Velha zifinho; Fazendo oração.

Rubens Saraceni: Esse é antigo. sim. São pontos como este que não sabe­mos como cantá-lo no centro porque nos falta a melodia.

Pai Élcio: O J.B. de Carvalho foi um dos que mais nos trouxe pontos de raiz.

Rubens Saraceni: Eu tenho vários discos do J.B. de Carvalho. Só não tenho mais a vitrolinha para tocá-los. (risos). Nós conhe­cemos o Pai Élcio só como Pai Élcio de Oxalá e não nos preocupamos com o sobrenome mas é Élcio Xavier não é? Fale-nos como foram esses trinta e poucos anos cantando a Umbanda.

Pai Élcio: Eu era muito ligado à matéria, gostava de um bolero, era cantor de samba, cantor da noite e tal. Mas veio o momento de me desligar de tudo isso. Quando minha Preta Velha desceu e falou que à partir daquele momento estava começando um novo trabalho, parei com tudo e ingressei na escola de Curimba Pai Milton Fernandes. Um homem maravilhoso, muito bom de coração e de espiritualidade. Quando ele faleceu, eu fiquei junto com a filha dele fazendo um trabalho junto com a escola. Foi lá onde eu comecei a ter uma sala para dar aulas de canto e ali eu formei vários alunos. Naquele tempo, só tinha a Escola de Curimba Milton Fernandes, nascendo depois a Escola de Curimba Pombinho Branco que era de Demétrios Domingues. Depois conheci o Severino Sena que foi meu aluno e de lá nós formamos a Escola de Curimba Élcio de Oxalá.

Rubens Saraceni: Uma caminhada. O senhor tem noção de quantos cantores, curimbeiros, tocadores de atabaque já formou ao longo desses anos?

Pai Élcio: Cerca de 300 ou 400 Ogãs.

Rubens Saraceni: Hoje são promovidos vários concursos de pontos cantados de Umbanda. No passado esse tipo de evento existia?

Pai Élcio: Nós não tínhamos quase eventos em São Paulo e Minas. Eventos públicos somente festa de São Cosme e Damião, a de Ogum que o Pai Jamil fazia no Ibirapuera e a Festa de Oxóssi realizada por Joana Amparato que era do Primado de Umbanda. A Escola de Curimba Milton Fernandes fez o primeiro Festival de Curimba onde participaram vários curimbeiros, várias casas, vários terreiros. Hoje a nossa Umbanda teve a felicidade de ter Pai Rubens e outros dirigen­tes que começaram a fazer outros eventos.

Rubens Saraceni: Hoje estão sendo mostradas as coisas boas. Porque não é só o trabalho pesado de segurar carga das pessoas, a Umbanda é alegria, é confraternização, emanação, é vibração. E a Umbanda tem seu fundamento no ponto cantado, uma das suas forças atuan­tes através da música. Durante os trabalhos alguns médiuns ficam meio envergonhados de cantar meio alto e desafinar, então cantam baixinho, para si. Mas eu sempre digo que quando se for cantar não devemos nos preocupar com a voz, porque o ato de enunciar o Orixá ali, traz a vibração para pessoa e a beneficia.

Pai Élcio: Não precisa ter a voz bonita basta firmeza que o seu canto chega até lá.

Rubens Saraceni: É o sentimento naquelas palavras. É como uma oração, se ela é repetida porque foi decorada não tem valor. Mas se é feita pela alma, pelo coração a divindade é acessada e retorna. Entre LPs e CDs, quantos o senhor já gravou?

Pai Élcio: Cerca de 14.

Rubens Saraceni: Qual a grande dificuldade para mantê-los num mercado fechado, como o umbandista?

Pai Élcio: Paga-se um preço alto para a gravadora lançar os cds, e existem irmãos nossos que pegam o cd original e fazem cópias piratas vendendo-as por um preço lá embaixo. O original fica encalhado por muito tempo e isso dificulta dar prosseguimento ao trabalho. Em vez de fazer dois, três planos, conseguimos fazer um e quando termina a gente nem pensa mais em fazer o próximo.

Rubens Saraceni: Hoje a figura do pirata está aí, atrás de uma máquina imprimindo qualquer coisa e tirando a possibilidade de se construir uma indústria genuína. Mas a gente sabe que o senhor não pára mesmo com todos as dificuldades. O que nós podemos esperar?

Pai Élcio: Eu estou no Estúdio Sólon e agora em março se Deus quiser estaremos lançando um novo trabalho. Eu e a Conceição da Jurema estamos gravando dez faixas cada um, ao todo, o cd terá vinte faixas. O que eu posso adiantar é que tem surpresa e surpresa boa. O lançamento está marcado para o último sábado do mês de março.

Rubens Saraceni: E o senhor lança o seu CD só no Brasil Pai Élcio?

Pai Élcio: Eu tive a oportunidade há dois anos atrás de fazer o lançamento em Portugal e na França. Hoje a Umbanda lá é muito bonita, parece que a gente anda em São Paulo. Eles levam a espiritualidade com muita fé e seriedade.

Rubens Saraceni: Nosso abraço aos irmãos de Portugal e da França. Nosso programa é transmitido por lá também e com certeza eles devem assistir a esse seu depoimento que nós vamos guardar na videoteca de Umbanda para ficar disponibilizado para sempre!

 

Fonte : Jornal de Umbanda Sagrada

 

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