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28/03/2007


ONG inaugura centro para confecção de móveis para crianças com deficiência

Juliana Rocha Barroso

 

Uma fábrica de idéias. Foi assim que a terapeuta ocupacional colombiana Ayola Cuesta Palácios definiu a Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual (Laramara) durante a inauguração do Centro de Tecnologia Adaptada (CTA) "Mara Gabrilli", no dia 12 de março. O CTA funcionará na sede na instituição e será um espaço de compartilhamento da técnica de confecção de móveis feitos com material reciclável adaptados para crianças com deficiência visual ou neuromotora.

O espaço é fruto de um trabalho que Ayola iniciou na associação em 2001 com a oficina Fazendo Juntos. Atendendo em grupos, ela ampliou o trabalho abrindo para participação das famílias interessadas e envolvendo outros profissionais de diferentes áreas da Laramara.

"A oficina nasceu deste princípio, reunir pessoas com as quais podemos discutir quais são as necessidades da criança e usar esses saberes para descobrir como podemos fazer melhor as coisas. No início, com o auxílio de dona Ana, profissional de apoio do Espaço de Convivência das Famílias, traçamos esta idéia de fazer juntos. Uma coisa é dar tudo feito para a família outra é convidá-la para que seja parte da solução", justifica Ayola.

Além de envolver a comunidade, o objetivo do trabalho é baratear custos de móveis, que normalmente são muito caros, dificultando o acesso às famílias de baixa renda. Por isso, a matéria-prima base é material reciclado, como tubos de PVC, isopor, EVA (tecido emborrachado) e, principalmente, papelão. Além de facilitar o aprendizado das famílias, que podem confeccionar novas peças de acordo com o crescimento da criança, este material possibilita maior funcionalidade das crianças deficientes.

"O objetivo destes objetos é auxiliar a criança a participar de forma mais ativa das atividades do cotidiano", diz Ayola.

Para a terapeuta, quando há participação da família e comunidade na solução do problema as coisas são diferentes.

"Começamos a passar a técnica, mas as coisas que vocês vêem aqui não são padrão. Cada uma é feita a partir da observação da criança, de sua necessidade e cada um dá a sua idéia e faz junto", explica.

Ela afirma que a novidade do Centro de Tecnologia Adaptada é que todos podem participar.

"Ele é formado por pessoas de diferentes disciplinas, aposentados, professores, não precisa ser especialista. É só dedicar seu tempo. É um pólo formador, de compartilhamento de conhecimento. Não se guarda conhecimento, quem guarda não cresce."

Mara Siaulys, presidente da Laramara, conta que Ayola foi a grande incentivadora dos pais e profissionais.

"Hoje ela não está mais conosco, regressou à Colômbia, mas veio para a inauguração deste centro. Ela não só nos ensinou a técnica da construção dos objetos, com foi a grande incentivadora."

A demanda foi crescendo, o que levou à criação do espaço exclusivo.

"Temos consciência de que as pessoas com deficiência visual possuem necessidades especificas em relação à interação, comunicação no ambiente. Você tem os diferenciais no processo de aprendizagem, mas precisam também de materiais e recursos específicos para sua interação e inclusão social. Sem esses recursos, elas não poderão atender igualdade de condições com as outras pessoas. É por essa razão que a Laramara não se restringiu ao trabalho educacional, mas procurou atender às necessidades das pessoas, assegurando-as educação e oportunidades iguais para que elas possam ser realmente cidadãs integradas e integrais", explica Mara.

Fruto desta preocupação, já foram produzidos ao todo 149 materiais para beneficiar as crianças, entre eles: 40 planos inclinados; dois cantinhos sensoriais; dez modelos de brinquedos; uma piscina de bolinhas; seis calendários de comunicação; dois Parapodiuns (equipamento para promover que a criança fique em pé com apoio); um Stand in Table (equipamento para crianças que também necessitam ficar em pé, porém com menor apoio); 13 cadeiras de posicionamento feitas de papelão; 35 cadeiras de plástico adaptadas com espumas; seis cantinhos de posicionamento; um andador de papelão; 30 adaptadores para preensão (para favorecer que a criança segure melhor os objetos em suas atividades do cotidiano, como colheres e copos adaptados); 12 tipos de adaptadores pedagógicos (para a criança segurar bem em lápis, giz de cera, pincel...).

"Para cada material produzido, contamos com o apoio da família e amigos na confecção", ressalta Mara.

Ayola acrescenta:

"Fazendo Juntos são soluções simples para problemas complexos. É assim que se reúne talentos e pessoas. O sorriso das mães quando saem com os materiais não tem preço".

O nome dado ao CTA é uma homenagem à vereadora Mara Cristina Gabrilli.

"Ela é um exemplo de pessoa que, à frente da Secretária Especial da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida da Prefeitura da Cidade de São Paulo, trabalhou arduamente desenvolvendo políticas públicas e orientações em todas as áreas para melhoria da qualidade de vida dessas pessoas. Queremos que seu nome perpetue nesse espaço, significando a admiração que sentimos por ela e por tudo aquilo que representa: o orgulho da mulher brasileira", justifica Mara Siaulys.

Ex-secretária da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, que assumiu em 2005, a psicóloga e publicitária Mara Gabrilli ficou tetraplégica em 1994, depois de um acidente de carro. Em1997, criou a ONG Projeto Próximo Passo (PPP), de auxílio a deficientes físicos e pesquisa de curas. Durante seu mandato na primeira secretaria voltada para cegos, surdos e outros deficientes, trabalhou para melhorar a vida dos cerca 1,5 milhão de paulistanos com deficiência e 2 milhões com dificuldades de locomoção, segundo dados de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

"Quero parabenizar essa instituição, essa mulher, a Mara, por tanta obstinação. Com este trabalho vamos tirando a deficiência da cidade e propiciando para essas pessoas oportunidade igual a todo mundo. Além de uma homenagem maravilhosa, estamos falando de um centro que vai fazer uma diferença muito grande aqui no Brasil. A gente esta falando de ensinar pessoas com poucos recursos a desenvolver técnicas, materiais para facilitar o cotidiano de muita gente. Espero que meu nome traga muita sorte, prosperidade. A gente sabe que trabalhar inclusão é um trabalho bastante complexo", declara a vereadora durante o lançamento do CTA.

A presidente da Laramara conta que uma parceria com Mara Gabrilli agregará estagiários de diversas áreas, auxiliando e pensando juntos em soluções criativas para as crianças.

"Esperamos ainda que uma parceria com a Secretaria venha se concretizar, fortalecendo as ações do Centro de Tecnologia Adaptada Mara Gabrilli, tornando essa idéia uma das ações conhecida por todos de nossa cidade e talvez do Brasil", diz.

A equipe fixa do CTA é multidisciplinar (fisioterapeuta, fonoaudióloga, terapeuta ocupacional, pedagoga, assistente social, psicóloga). Uma das integrantes, Ana Paula Nogueira, conta que muitos profissionais de outras instituições estão interessados no trabalho.

"Vamos dar um workshop em junho. Não temos a data ainda, mas vai sair logo. A gente vai ensinar a fazer alguns equipamentos e a preparação do material, a partir disso a pessoa vai criando."

Segundo Mara, a intenção é expandir o método por todo o Brasil. Atualmente, o CTA conta com doações esporádicas de tintas, colas, placas de papelão, palitos de churrasco e algumas ferramentas.

"Existem algumas empresas e bancos interessados em parcerias na doação de materiais e recursos para, então, abrirmos as portas para as crianças da comunidade que venham necessitar também destas adaptações e oportunidades. Buscamos parcerias permanentes para que o CTA funcione e multiplique este conhecimento."

 

Interação e inclusão

Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual (Laramara) é referência no Brasil em baixa visão e apoio à educação e inclusão de crianças com deficiência visual e múltipla deficiência. Criada em 1991, ela é também um centro de propagação de conhecimentos e experiências, além de produzir materiais pedagógicos, gerar recursos e tecnologias para melhorar a qualidade de vida, além de fazer o diagnóstico e a habilitação de crianças e jovens vindos de todo o Brasil para avaliação oftalmológica, avaliação funcional da visão e do desenvolvimento integral.

Desde sua criação, foram realizados diagnósticos e habilitações em 7.253 famílias de deficientes visuais, em serviços como Oftalmologia, Intervenção Precoce, Pedagogia, Atividade da Vida Diária, Orientação e Mobilidade e Serviço Social. 450 crianças e jovens com deficiência visual foram integrados e capacitados nos programas da instituição. A equipe conta hoje com 200 funcionários, 25 deles com deficiência visual, 32 profissionais especializados e 150 voluntários.

Além da contribuição de empresas e voluntários, a Laramara criou unidades de negócios como gráfica, agência de publicidade, estúdio de som, auditório e restaurante, que contribuem para sua auto-sustentabilidade. Cada unidade é independente e tem todo o lucro revertido para o trabalho da instituição.

A busca por recursos pedagógicos e brinquedos adequados, o desenvolvimento e adaptação de materiais, métodos e técnicas inovadoras têm sido alvo de constante pesquisa, levando à criação de um espaço aberto ao público para demonstração e venda.

Hoje, no programa de jovens e adultos, possui 71 pessoas ocupando 91 vagas em oficinas, atendimentos e no curso Cidadania, Autonomia e Mundo do Trabalho (CAMT), criado em 1996, com o nome de Programa de Preparação para o Trabalho. Em 11 anos de funcionamento, formou 624 jovens e adultos com deficiência visual.

Entre os serviços de apoio que oferece, a Laramara oferece atividades sócio-culturais, palestras oficinas e cursos para os pais, oferece orientação e mobilidade e adaptação de matérias, apoio e suporte à inclusão escolar, cursos e capacitações para professores, coordenadores e diretores. Distribui kits com materiais especiais de orientação e mobilidade e pedagógicos. Possui um grupo psicossocial de apoio e suporte à família de crianças integradas; uma fábrica de máquinas Braile e bengalas; um centro de produção de brinquedos e recursos pedagógicos; orientação e encaminhamento profissional dos alunos do programa; departamento cultural, audioteca e o acervo Braile Serviços. Ainda possui atividades complementares, como espaços lúdicos, playground; brinquedoteca de empréstimo, cantinho da leitura, atividades aquáticas e natação.

 

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Serviço

Laramara
Rua Conselheiro Brotero, 338.
Barra Funda
São Paulo - SP
CEP: 01154-000
Tel.: (11) 3660-6400
laramara@laramara.org.br

 

Fonte : Portal Setor 3 Senac

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