Dora Incontri

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Os princípios da pedagogia espírita se encontram presentes na tradição filosófico-pedagógica ocidental, desde Sócrates, com a sua prática da maiêutica, de extrair a luz espiritual de dentro do educando, convocando-o a construir por si mesmo a sua perfeição moral e seu conhecimento do mundo e de si. Liberdade, emancipação do homem e da criança, relação amorosa entre educador e educando, engajamento do educador na transformação do indivíduo e da sociedade – são alguns aspectos dessa linha que vem se constituindo no decorrer dos séculos no Ocidente – e que teve como representante máximo a figura de Jesus.

Mais diretamente, porém, a pedagogia espírita remonta a três grandes precursores, Jan Amos Comenius (1592-1670), Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827). Rivail, depois conhecido como Kardec, era discípulo de Pestalozzi, que recebeu influências de Rousseau e Comenius. Esta descendência histórica nos faz encontrar o fio condutor que desemboca no espiritismo e, portanto, na pedagogia espírita.

Kardec foi o herdeiro desta tradição pedagógica, transfundindo-a para o espiritismo, ao dar-lhe um caráter eminentemente educativo. Segundo a filosofia espírita, a existência humana é um projeto educacional, para a eternidade, pois a nossa meta é a perfeição. Caminhamos, nesta trilha evolutiva, construindo a nós mesmos, experimentando ações, em liberdade, cooperando com a obra divina em nós e fora de nós.

Com um novo conceito de ser humano (como projeto inacabado, que deve ele mesmo aperfeiçoar) e um novo conceito de criança (como ser reencarnado, herdeiro de si e dono de potencialidades únicas), Kardec abre um novo rumo à educação do ser. Entretanto, ele mesmo não teve tempo de adentrar mais claramente por uma proposta pedagógica espírita – ele não conseguiu fazer o link entre os seus 30 anos de educador (e suas heranças pestalozzianas) e a nova filosofia que estava fundando, a partir da ciência espírita. Apesar dos trechos, clarões, em suas obras, em que aparece o educador fazendo afirmações eminentemente pedagógicas e apesar do próprio espiritismo ter um caráter completamente educativo, Kardec não chegou a formular uma pedagogia espírita.

Essa formulação caberia aos espíritas brasileiros. Podemos considerar dois marcos históricos da constituição da pedagogia espírita no Brasil. O primeiro é a fundação do Colégio Allan Kardec, de Eurípedes Barsanulfo, em Sacramento (MG), em 1907. A proposta de uma escola de vanguarda, com um educador afetivo, com uma educação livre e ativa, participativa e ética, com desenvolvimento do espírito critico, científico e de uma profunda espiritualidade – tudo isso mostra claramente a pedagogia espírita no seu primeiro e no seu melhor momento até agora. Contemporânea de Eurípedes, foi a educadora Anália Franco, que fundou várias escolas no estado de São Paulo, apresentando alguns elementos que apareceriam na proposta pedagógica espírita.

O segundo marco é a formulação teórica da pedagogia espírita – com a criação do termo – feita por José Herculano Pires. O jornalista, filósofo e escritor paulista lança no início da década de 70, a revista Educação Espírita, onde escreve vários artigos de grande alcance teórico e prático sobre uma nova educação – a pedagogia espírita. Mais tarde, postumamente, seria publicado o seu livro Pedagogia Espírita, (1985), reunindo todos os seus escritos sobre o assunto.

Contemporâneos de Herculano, cada qual desenvolvendo uma experiência à mesma época da revista Educação Espírita, eram então o médico mineiro radicado em Franca (SP), Tomás Novelino, com seu Educandário Pestalozzi e o militar espírita Ney Lobo, que inaugurou a cidade-mirim no Instituto Lins de Vasconcellos (Curitiba).

Entretanto, esses pioneiros da prática e da teoria da pedagogia espírita fizeram seus trabalhos sem maiores repercussões em suas respectivas épocas, permanecendo como focos de luz isolados da grande massa do movimento espírita brasileiro, muito mais voltado ao assistencialismo do que à educação.

A partir de 1997, porém, reiniciou-se um novo período da pedagogia espírita, com o lançamento do livro A Educação segundo o Espiritismo, de Dora Incontri, seguindo-se depois a defesa de sua tese de doutorado na Faculdade de Educação da USP: A Pedagogia Espírita, um projeto brasileiro e suas raízes historico-filosóficas. (Depois editado pela Comenius). A partir de então, a história da pedagogia espírita se identifica com a história da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita, com seus cursos, projetos, congressos.

 


Fonte: http://pedagogiaespirita.org.br/tiki-index.php?page=historia




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