Espiritualidade e Sociedade



Ademir L. Xavier Jr.

>     A mediunidade de Fernando Ben

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Ademir L. Xavier Jr.
>    A mediunidade de Fernando Ben

 

 

A psicografia como fenômeno é de extraordinária versatilidade. No dizer de Kardec:

De todos os meios de comunicação é a escrita o mais simples, o mais cômodo e, so­bretudo, o mais completo. É para ela que devem tender todos os esforços, pois que per­mite estabelecer com os Espíritos relações tão continuadas e tão regulares quanto as que existem entre nós.

Acredito mesmo que essa versatilidade da psicografia ainda está por se revelar por completo. A prova disso foi a enorme quantidade de informação proveniente de desencarnados por meio de psicografia exercida por médiuns veteranos como Chico Xavier e Divaldo Franco. Se outros tipos de mediunidade quase que desapareceram (como é o caso da mediunidade de efeitos físicos, materializações etc), semelhante situação não aconteceu com a psicografia, cumprindo a esperança de Kardec. Esse também é o caso do médium Fernando Ben.

Natural de Olinda (Pernanbuco), Fernando Ben vive no Estado do Rio de Janeiro. As principais informações sobre o trabalho com cartas psicografadas pode ser encontrado no site "Cartas de Fátima" (2), tal como o cronograma de sessões públicas, onde não menos de 500 pessoas as vezes aguardam pacientemente por uma notícia de um parente desencarnado. A leitura de alguma dessas cartas pode ser assistida em videos no youtube (3) que trazem depoimentos de parentes surpresos com as comunicações. De acordo com Ben, todo o trabalho é coordenado por uma entidade de nome Fátima, que organiza e acompanha a realização das psicografias, dai o nome "Cartas de Fátima".


Fernando Ben (à direita) com Divaldo Franco

 

Exemplos

A carta de João Fernando Maciel (4), em uma comunicação obtida a 21 de dezembro de 2015, ilustra uma variação da linguagem frequentemente encontrada nas cartas:

Ser-me-ia insignificante gastar essas linhas com proselitismo ou palavras sem análise mais profunda. Ser-me-ia, também, infrutífero apenas focar meu lembrete em palavras formais par meus saudosos familiares.

Aproveito o tempo dado, apenas informando: a morte é mal compreendida, porque estou morto e falo, e não sou anjo, nem sou demônio, sou eu, indicando pautas nos jornais desta terra bem populada que hoje vivo. Apenas sou eu, sorrindo e tocando de leve minha barba branca.

Como propriamente identificado pelos familiares, seu autor era ligado às letras, dai seu estilo algo poético, um traço reconhecido de sua personalidade.

As informações transmitidas não se restringem a essas. A maior parte das cartas traz mensagens de pessoas comuns, falecidas recentemente, "gente como a gente" e, justamente por isso exigem contextualização para serem compreendidas. São missivas compostas por alguns parágrafos, onde abundam citações de nomes (são comuns cartas com dezenas deles), além de informação que só faz sentidos para os familiares mais íntimos.

Pedro Macedo Storani (5), em alguns trechos de sua carta afirma:

Vi na música uma grande válvula de escape e prazer, não só nas que ouvia, mas principalmente nas que me envolvia na bateria.

Hoje não é o pretenso e futuro advogado, e nem o publicitário que esmera novos voos, mas o Pedro que reconhece pelo simples fato que a vida não cessa.

Voltei a ser magro, me enchi de ser gordinho. Tô ai, tô do lado do Vasco...

o que permitiu aos pais identificar perfeitamente a personalidade do filho no seu interesse pela música, seus planos profissionais, seu estado pregresso de saúde e até time de futebol preferido.

Guilherme H. Shiroky (6) em alguns trechos de sua carta diz:

Perdoa mãe pelo dia 27 de fevereiro...Peço que o querido Martin me entenda também... Um beijo mais que especial para o orgulho do mano, a doutora dentista, Priscila Raquel.

A expressão "orgulho do mano" era usado pelo falecido, segundo sua mãe, para referir-se a sua irmã, também citada na carta e constitui uma verdadeira assinatura de identificação.

Um caso que repercutiu na mídia foi uma psicografia de Rian Brito (7, 8), que faleceu em circunstâncias algo misteriosas e foi amplamente noticiada. Em alguns trechos de sua missiva endereçada à mãe, Márcia Brito, pode-se ler:

Sou o seu filho vivo, perplexo pela nova realidade, mas feliz por constatar que muito do que já pensava é real. Mãe, continue sua luta sem medo. Pois a discussão tem feito muitas pessoas pensarem, mas também não se iluda, mãe amada, toda proibição estimula.

Peço que continue, aprimore e transcenda nesta proposta de conscientização. Mas sempre lembrando que ao pedir para proibir, se aceito esse pedido, muitos vão usar a Ayahuasca, pelo próprio fato de ser proibido.

 



O autor refere-se a crença da mãe sobre a vida após a morte no "muito do que já pensava é real". Sua mãe também identifica seu filho na maneira como escreve e na citação de seu envolvimento com uma campanha de conscientização do uso da erva Ayahuasca.

A opinião da crítica

Como não poderia deixar de acontecer com fenômenos considerados extraordinários, a atividade do Fernando Ben parece incomodar algumas pessoas. Há os que insistem em afirmar que as informações são forjadas, outros desclassificam os fatos, pretendendo saber mais do que os parentes destinatários das cartas, que declaram nunca ter trocado qualquer tipo de informação com o médium.

Desprezo pelas realidades espíritas e até uma certa inveja da faculdade do médium são causas mais que naturais para essa crítica, mas a pior delas é certamente a preguiça em observar os fatos tais quais são. De um crítico descuidado lemos:

todas essas cartas dizem praticamente a mesma coisa...parece que todas são tiradas de livros dessa doutrina...Transcenda não sei o que...gratidão a alguma coisa...aprimorar a consciência e um monte de palavras vazias que servem pra 99,9% das pessoas que perderam algum parente.

Como vimos, isso está longe de ser verdade, já que todas as cartas contém citações abundantes. De resto é compreensível que a informação transmitida pelo médium forme um substrato interpretado para agilizar o processo. Como é possível observar com outros médiuns psicógrafos, os autores que se comunicam não o fazem por capricho ou por frivolidades. O tempo de psicografia é compartilhado com inúmeros autores e serve a um propósito específico que é comum a todas as comunicações.

Números de telefone e CPFs informados levantam teorias de conspiração contra o médium. Ora, desde que os Espíritos mantêm sua individualidade, suas memórias, a citação de sequência de número é perfeitamente compreensível pela psicografia, devendo constituir até um fenômeno bastante comum.

Críticos precisam entender que as informações mais relevantes passadas nas cartas são justamente os conteúdos pragmáticos (ou seja, informação dependente do contexto), que apenas fazem sentido aos parentes mais próximos e que, portanto, não estão publicamente disponíveis. Em uma das cartas, entre inúmeras outras informações particulares, o autor declara seu local preferido de férias, o que, conclusivamente, apenas parentes mais próximos têm conhecimento. Em outro caso, o nome de um animal de estimação é citado, junto com dezenas de nomes de parentes. A abundância de informação dependente de contexto tais como nomes, citação de times de futebol, preferências, gostos, frases e descrição de comportamento formam um conjunto relevante de identificação que desbanca as teorias conspiratórias e confirmam a excelência da psicografia de Fernando Ben.

 

A importância das cartas psicografadas particulares

Nunca será demais reler o que diz Kardec sobre a "utilidade das evocações particulares", que está no Capítulo 25 de "O Livro dos Médiuns" (1):

Ora, os Espíritos superiores são as sumidades do mundo espírita; a própria elevação em que se acham os coloca de tal modo acima de nós, que nos assusta a distância a que deles estamos. Espíritos mais burgueses (que se nos relevem esta expressão) nos tornam mais palpáveis as circunstâncias da nova existência em que se encontram. Neles, a ligação entre a vida corpórea e a vida espírita é mais íntima, compreendemo-la melhor, porque ela nos toca mais de perto. Aprendendo, com eles mesmos, em que se tornaram, o que pensam e o que experimentam os homens de todas as condições e de todos os caracteres, assim os de bem como os viciosos, os grandes e os pequenos, os ditosos e os desgraçados do século, numa palavra, os que viveram entre nós, os que vimos e conhecemos, os de quem conhecemos a vida real, as virtudes e as fraquezas, bem lhes compreendemos as alegrias e os sofrimentos, a umas e outros nos associamos e destes e daquelas tiramos um ensinamento moral, tanto mais proveitoso, quanto mais estreitas forem as nossas relações com eles. Mais facilmente nos pomos no lugar daquele que foi nosso igual, do que no de outro que apenas divisamos através da miragem de uma glória celestial.

Há outro ponto importante que se formará, inexoravelmente, com o acúmulo de cartas. Dado que muitas delas trazem citação de uma dezena de nomes, seu histórico formará um grande registro de intercâmbio mediúnico, cujo objetivo é cumprir a função consoladora da Doutrina Espírita.

Sobre isso, lançamos mão de um paralelo. No primeiro episódio de "Harry Potter" de autoria da escritora Britânica J. K. Rowling, Harry, o personagem principal é convidado à iniciação como mago na escola de Hogwarts por meio de uma carta enviada em correio especial, usando corujas. Acontece que seus parentes invejosos interceptavam as missivas. Não foi uma nem dez cartas que foram interceptadas, na tentativa inútil de impedir que Harry seguisse seu destino. O contra ataque foi devastador: não apenas centenas, mas milhares de cartas foram enviadas a Harry, até que uma fosse lida por ele. Assim acontece com as cartas psicografadas particulares: se algumas cartas não são suficientes para convencer da realidade maior da vida após a morte, o que dizer de milhares delas? Nada poderá impedir que elas continuem a vir e prover consolação aos que choram seus entes queridos provisoriamente transferidos para o mais além..

 

Referência

1 - A. Kardec. "Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas", Capítulo V – Dos médiuns, Médiuns escreventes ou psicógrafos. "O Livro dos Médiuns". Versão Ipeak, www.ipeak.com.br.
2 - http://www.cartasdefatima.com.br/ (Acesso em abril de 2017).
3 - https://www.youtube.com/user/difusorespirita
4 - https://www.youtube.com/watch?v=X9MKmCNHAH4
5 -
https://www.youtube.com/watch?v=eddmN8dAkwo&list=PLHvin5749nXzZjpMdLm-kWjRHP_0DTL9W
6 -
https://www.youtube.com/watch?v=em5yCL1OysU&list=PLHvin5749nXzZjpMdLm-kWjRHP_0DTL9W&index=21
7 - https://www.youtube.com/watch?v=Fr3ekc6kEgA

 

Fonte: https://eradoespirito.blogspot.com.br/2017/04/a-mediunidade-de-fernando-ben.html

 


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