Espiritualidade e Sociedade





Gelson Luis Roberto


>    Subjetividade e Cristianismo: a noção de indivíduo a partir da trajetória deixada por Jesus

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Jorge Cordeiro
>   Subjetividade e Cristianismo: a noção de indivíduo a partir da trajetória deixada por Jesus

 

A idéia diretriz de uma nova religião que se seguirá à era cristã haveria de ser a de que todos são Cristo”. C. G. Jung

“A idéia é muito simples, tão simples, se não tomar cuidado, você a esquecerá. É a seguinte – todos no mundo são Cristo e que todos são crucificados. É o que eu quero dizer. Não esqueça disto. Aconteça o que acontecer, não se atreva a esquecê-lo”. Sherwood Anderson.

 

O psicólogo suíço Carl Gustav Jung refere que todo o processo interior do homem ocidental passa, necessariamente, pelo mito de Cristo. Podemos afirmar sem medo que o processo de todos os “filhos da terra” passam necessariamente por Jesus.

No livro de Max Jammer (2000), Einstein e a religião, encontramos uma citação de Einstein que diz “Ninguém consegue ler o evangelho sem sentir a presença real de Jesus. A personalidade dele pulsa em cada palavra. Nenhum mito tem tanta vida assim” (p.22). Herculano Pires (s.d.) afirma que o mito não é uma coisa ilusória ou uma mentira, mas uma realidade interna da alma que se projeta no mundo externo. Do ponto de vista psicológico o mito é um padrão exemplar a trazer questões vitais e permanentes.

Mas o que isso significa para uma psicologia com contornos espirituais? Que implicações oferecem para cada um de nós?

Podemos afirmar, por exemplo, que o processo que passamos tem padrões muito claros e marcados pela vida de Cristo. Assim, podemos falar que toda a vida do homem deve ser sacrificial, o sacrifício como sagrado ofício, isto é, consagrada a uma idéia maior que o próprio indivíduo.

Mas essa afirmação ainda não faz jus a idéia que queremos transmitir. Mais do que uma “imitatio Christi”, queremos dizer que quando falamos em processo interno, estamos falando em algo que ocorre e foi possibilitado porque Jesus esteve aqui nesta terra e nos deixou essa condição. Que sua vida é um marco que restaura o significado de nossas vidas e dá uma nova noção: a que existe uma caminhada individual. Com Jesus nos defrontamos de maneira clara e definitiva com a noção de indivíduo e de liberdade. Tirando-nos de um destino que sucumbe às forças coletivas ou de deuses irados para a realização de um caminho próprio.

Temos em André Luiz uma passagem belíssima sobre a influência de Jesus à humanidade, diz ele que

Desde a chegada do Excelso Benfeitor ao Planeta, observa-se-lhe o pensamento sublime penetrando o pensamento da Humanidade. Dir-se-ia que no estábulo se reúnem pedras e arbustos, animais e criaturas humanas, representando os diversos reinos da evolução terrestre, para receber-lhe o primeiro toque mental de aprimoramento... Aquele que vinha libertar as nações, não na forma social que sempre lhes será vestimenta às necessidade de ordem coletiva, mas no ádito das almas, em função da vida eterna... Ele chega sem qualquer prestígio de autoridade humana, mas, com sua magnitude moral, imprime novos rumos à vida, por dirigir-se, acima de tudo, ao espírito, em todos os climas da terra. Transmitindo as ondas mentais das Esferas Superiores de que procede, transita entre as criaturas, despertando-lhes as energias para a Vida Maior, como que a tanger-lhes as fibras recônditas, de maneira a harmonizá-las com a sinfonia universal do Bem Eterno (1984: p. 182).

Podemos notar nessa passagem que Jesus rompe com o padrão até então vivido pelo homem, transgredindo com sua mente poderosa (com ondas das Esferas Superiores) a nossa mente infantil e fechada. Ele então faz ao homem interior, pois se dirige ao espírito. Quão grandiosa e profunda é essa contribuição! Quão marcante é a sua presença que muda a paisagem do mundo terreno. Como diz o texto, ele imprime novos rumos à vida. E é exatamente isso que importa considerarmos. Que rumos são esses? O que significa esse despertar? Eles desperta a nós! Jesus descortina um mundo novo: o mundo subjetivo do espírito.

Temos para isso que vencer nosso próprio demônio. Não podemos esquecer da tentação de Jesus no deserto, quando ele se defronta contra o seu pior inimigo, o demônio do poder que lhe oferece um reino. Mas ele foi capaz de compreender e recusar, dizendo; “Meu reino não é deste mundo”. Com nos diz Jung, de qualquer forma havia um reino. Lembrando uma outra passagem em Lucas 17, 20-21 onde está - “E, interrogado pelos fariseus sobre Quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes, e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior. Nem dirão: Ei-lo aqui, ou Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus está dentro de vós”.

Essas duas afirmações expressam de maneira muito clara que existe uma nova perspectiva. Depois dele tomamos contato com um caminho próprio e individual. Descobrimos de maneira evidente que existe um mundo interno e é ele o nosso objetivo maior. Existe um reino e ele não é desse mundo, esse reino é o reino de Deus, mas pasmem, ele está exatamente aonde? Não no mundo que nos confunde, não na família que nos exercita, não na religião ou qualquer filosofia de vida. Ele está dentro de nós.

Queremos colocar que devemos fazer exatamente o que fez Cristo, não imitando-o, mas devemos fazer a nossa experiência. Isto significa o comprometimento com o homem total, “o esforço de realizar o “homem total” oculto e ainda não manifesto, que é também o homem mais amplo e futuro” (Jung, 1991).

Temos ainda o ranço de jogar os nossos pecados sobre Cristo a fim de escapar de nossa responsabilidade mais profunda e isto contradiz o espírito do cristianismo. Jesus pegou o que era inferior e mostrou que isso não deve permanecer do lado de fora. Não deixou-se seduzir nem relegou os aspectos indignos do homem - suportou, compreendeu e transformou. O maior desvalor (chamado popularmente de pecado) encontra o valor supremo (Cristo) e é isso que devemos realizar: o encontro do que é inferior com o que é superior, dentro de nós.

E senão conseguimos conduzir o homem interior ao seu pleno desenvolvimento e realização é porque queremos imitar o Cristo de maneira literal. Agindo de maneira superficial e formalística, transformamos Jesus num objeto externo de culto. Essa mentalidade rouba a misteriosa relação com o homem interior.

Sabemos que ninguém mexe com fogo sem ser atingido de alguma forma. Jesus teve a capacidade de nos atingir, mesmo não querendo, mesmo negando-o, fomos atingidos e por causa disso não somos mais os mesmos. Com Jesus a atenção não mais recai apenas sobre aquilo que se faz, mas sobre o como se faz determinada ação, pois é isso que inclui todo o ser daquele que age. Encontramos em João 16:33, as palavras de Jesus “No mundo, tereis tribulações, animai-vos, porém. Eu venci o mundo”.

Podemos entender a dinâmica que cristo viveu e sua marca que nos acompanha no d.C. como estágios que o ser passa, mais precisamente o ego, num processo dialético que nos leva ao progresso, em direção a uma meta. Processos que resultam em diversas transformações e soluções, expressando o desenvolvimento de uma subjetividade que nos devolve para um todo objetivo. Assim, a presença de Jesus não mudou apenas as formas de pensar e conceitos até então válidos como a noção de justiça, a ordem social e o valores que norteiam o homem. Mas mudou a forma de vivenciar e olhar para esses mesmos valores e conceitos. Ele tira o olhar de fora, da vivência exterior para um olhar de dentro, uma vivência interna. Todas as correntes idealistas, com Kant e o românticos alemães; todas as tentativas de organizar a relação entre sujeito e objeto, na busca de como se dá o sentido e se reconhece a verdade como a fenomenologia e a hermenêutica de Heidegger; as questões dos filósofos existencialiostas; todas as discussões modernas sobre subjetividade e subjetivação; tudo isso foi profunda e revolucionariamente apresentado por Jesus.

Mas quando se fala em subjetividade, não estamos nos referindo às experiências do ego com suas fantasias narcisistas e fechadas egoisticamente. Essa subjetividade onde o outro não existe e onde a minha dor parece a maior de todas, não tendo noção nem dimensão do que seja a dor num contexto mais amplo. Que acaba fazendo que adolescentes matem os outros porque simplesmente estão irados, curiosos ou brigaram com as namoradas. Essa subjetividade é a doença de um ego que perdeu o contato coma totalidade da vida. Estamos falando de uma subjetividade que significa mundo interior. E mundo interno não quer dizer mundo privado: eu com minha preocupações, eu levando para dentro o mundo externo ou vivendo minhas coisas. O mundo privado fala ainda de um eixo horizontal e estamos nos referindo ao eixo vertical da vida, o mundo interno com sua profundidade onde encontramos a alma.

Depois dessa ressalva, podemos enumerar e resumir as contribuições deixadas por Jesus com a noção de mundo interno ou subjetividade:

1) libertação da psique infantil; 2) operacionalização sobre os problemas dolorosos da vida; 3) Entendimento dos sintomas como condição própria de cada um e por isso superável por nós mesmos; 4) nova racionalidade; 6) descoberta da capacidade de mudança e poder pessoal; 7) uma nova perspectiva de vida; 8) reconhecimento do mundo interno e conquista de si mesmo.

Temos também uma perspectiva histórica com a vivência deixada por Jesus. Joaquim de Flora (in Jaffe, 1992), teólogo do século XII, postulou três períodos da história do mundo: a Idade da Lei, ou do Pai; a Idade do Evangelho, ou do Filho; e a Idade da contemplação, ou do Espírito Santo. Podemos estabelecer uma relação interessante sobre esses estágios, considerando todo esse período que antecede Jesus e depois de sua vinda. Como nos ensina o Evangelho Segundo Espiritismo, a primeira revelação veio com Moisés. A dispensação judaica centrava-se na Lei e na coletividade do povo escolhido. Temos uma visão baseada em postulados coletivos e uma ordem que todos os hebreus devem seguir em nome de sua nação. Esta é uma perspectiva onde o valor da subjetividade não está presente, vale a idéia de nação. Na Segunda revelação encontramos o valor na fé e num indivíduo singular, concebido como um ser divino. Jesus é esse indivíduo que reuniu o conteúdo sagrado carregado anteriormente pela nação de Israel, personificando o homem-Deus. Essa vivência de Jesus transfere a tarefa para cada um , já que ele é o caminho, a verdade e a vida. Como nos afirma Jung, “Cristo é o homem interior ao qual se chega pelo caminho do autoconhecimento”.

Encontramos no evangelho apócrifo de Tomé, o Dídimo, duas passagens que marcam bem essa condição deixada por Jesus: “Todo aquele que conhece o Todo e não conhece a si próprio, a este falta tudo”; e “Se derdes à luz o que tendes dentro de vós, o que tendes dentro de vós vos salvará. Se não tendes dentro de vós, o que não tendes dentro de vós vos matará”. Na versão inglesa encontramos a última parte do texto com uma tradução do original diferente da portuguesa que talvez traduza melhor o sentido e onde diz que “se não revelares o que tem dentro de vós, o que não revelares vos destruirá”. Com Jesus aprendemos que devemos realizar o que existe de mais verdadeiro em nós. E ele então promete o consolador, apresentando a terceira dispensação. Essa terceira revelação está centrada na experiência pessoal e conectiva, onde, através da experiência medial, cada um de nós é convocado a ser o escolhido, o sacrificado de Deus. Estamos conectados em todos os níveis, podendo sintonizar e fazer parte dessa grande corrente onde o espírito de verdade se faz ouvir.

Joanna de Ângelis (1998) nos afirma que Jesus é o perene momento em que o Rei Solar mergulhou nas sombras terrestres, a fim de que nunca mais houvesse trevas na humanidade, possibilitando uma perfeita identificação entre a criatura e o seu Criador, para todo o sempre. A benfeitora nos coloca que Ele implantou o Seu reino no país das almas, inaugurando a Era da renúncia aos bens terrenos. Convidou-nos ao despertamento. Podemos dizer com a palavras de Joanna “busca a Jesus nas tuas paisagens íntimas e estabelece um vínculo de amor com Ele, deixando-te conduzir pelo caminho seguro do Bem” (p. 28).

Coloca-nos a benfeitora (2000) que Jesus aspirava para todos os indivíduos a mesma posição que conseguiu, tendo o Pai como exemplo e Foco a ser conquistado. Propôs que ninguém se satisfaça com o já conseguido, mas cresça, busque e se entregue ao esforço constante de libertação, ascendendo no rumo da Grande Luz.

Por isso Jesus é o grande libertador de nossa alma, o iniciador de nossa condição como espíritos capazes e livres. Abrindo os horizontes do homem interior e nos mostrando o caminho da conquista individual, onde todos estão a partir dele autorizados e conscientes que podem ser um Cristo.

Para finalizar, deixamos a poesia de Tagore falar o quanto a nossa alma precisa de Deus. E foi esse o convite e caminho deixado por Jesus:

 

LUGAR DE AMOR

Em todo indivíduo existe
um recanto imaculado,
virgem, inexplorado,
silencioso,profundo...

Em toda criatura permanece
um mundo,
santo e ignorado,
nunca dantes penetrado,
aguardando,
enriquecido de ternura...

Há, no abismo de toda alma,
um rochedo,
um lugar, uma ilha,
um paraíso,
recanto de maravilha
a ser descoberto...

Em todo coração se demora
um espaço aberto para a aurora,
um campo imenso,
a ser trabalhado,
terra de Deus,
lugar de sonho,
reduto para o futuro...

Em toda a vida
há lugar para vidas,
como em toda alegria
paira uma suave melancolia
prenunciadora de aflição

Há, porém, um lugar em mim,
na ilha dos meus sentimentos não desvelados
um abismo de espera,
um oceano de alegria,
um cosmo de fantasia,
para brindar-Te,
meu Senhor!

Vem, meu amado,
Rei e Senhor,
dominar a minha ansiedade,
conduzir-me pela estrada
da redenção.

E toma desse estranho e solitário país,
reinando nele e iluminando
com as tuas claridades celestes,
para que, feliz, eu avance,
até o desfalecer das forças,
no Teu serviço libertador.

Vem, meu Rei,
ao meu recanto,
e faze de minha vida
um hino de serviço.
E por Ti uma perene
canção de amor.


Bibliografia

ÂNGELIS, Joanna. Benção de natal. Divaldo Franco. Salvador: Leal, 1998.
_______________. Jesus e o Evangelho. Divaldo Franco. Salvador: Leal, 2000.
Bíblia Sagrada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.
JAFFE, Lawrence. Libertando o coração. Saõ Paulo: Cultrix, 1992.
JAMMER, Max. Einstein e a religião. Rio de Janeiro: Contraponto, 2000.
JUNG, C. G. Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, 1991.
LUIZ, André. Mecanismos da mediunidade. Francisco C. Xavier e Waldo Vieira. Rio de Janeiro: Feb, 1984.
PIRES, Herculano. Revisão do cristianismo. São Paulo: Paidéia, s.d.
TAGORE, Rabindranath. Pássaros Livres. Divaldo Franco. Salvador: Leal, 1998.
TOMÉ, o Dídimo. Evangelho segundo Tomé. Apócrifos: os proscritos da Bíblia. Compilados por Maria Helena de Oliveira Tricca. São Paulo: Mercuryo, 1992

 

Fonte: AMERGS - Associação Médico-Espírita do Rio Grande do Sul - http://www.amergs.com.br/artigos/index.php?a=8

 



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