Carlos Augusto Parchen

>   Acaso x Programação

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Apresento a seguir um questionamento que recebi e a resposta que dei sobre o assunto em pauta, por achar muito pertinente e interessante. Retirei toda e qualquer identificação do autor, mas fora isso, tudo está reproduzido na íntegra.

 

A PERGUNTA:

Carlos Parchen, boa noite. Sempre procuro ler os seus escritos sobre temas espíritas e os considero bastante racionais. Sou espírita e XXXXXXXXXXXX, mas sempre que acontece uma discussão no Centro Espírita que freqüento, sobre o tema: acaso X programação, não chegamos a conclusão alguma. Acontece que dentro de meu pensamento, ambos os temas se contradizem. Se um acontecimento não é programado, como o companheiro muitas vezes advoga em seus escritos, então ele torna-se submetido às leis do acaso. No máximo, são probabilísticos e a probabilidade como sabemos de nossos estudos de estatísticas, trabalha intensamente com o acaso. Ora, sabemos de nossos ensinamentos espíritas, que na espiritualidade, nada acontece por acaso. Mesmo admitindo-se que dentro de uma probabilidade estatística, ocorreu um acontecimento ruim com alguém, sem que houvesse a devida programação, temos forçosamente que admitir que Deus, dentro de suas Leis Divinas, sabia antecipadamente dessa ocorrência. Com isso a pergunta que sempre "emperra" as discussões nos Centros Espíritas: qual o motivo que para alguns as coisas sempre correm muito bem e outros, apesar de esforços íntimos, tudo vai mal? A resposta de sempre, vinda dos dirigentes dos centros: é o "karma", ou seja, estão "pagando" os erros das encarnações passadas. Sofrem porque fizeram o mal e o sofrimento é benéfico porque redime. Ou seja, o sofrimento nesta encarnação, foi "programado" para poder pagar pelos erros do passado. Portanto, se não ocorreu uma programação ou até mesmo uma "determinação" para ocorrência do sofrimento no presente, então é "por acaso". Ora, se é casual, como ficam as Leis Divinas? Qual o critério que existe, de modo que alguns reencarnam em berço de ouro e outros em miseráveis favelas? Vamos excluir os casos de reencarnações especiais como "missão" espiritual, visando um melhor aperfeiçoamento do espírito. Nesse ponto, as discussões nos meios espíritas, durante as reuniões de estudos, tendem a se encerrarem. Não existe uma explicação coerente e racional. No caso do feto que se contaminou com AIDS mas não "merecia", como fica situação do mesmo? Receberá alguma "compensação" na próxima encarnação? Acumulará créditos espirituais para quando voltar para a erraticidade? Ou na verdade, necessitava realmente de passar por esse problema tão terrível, para compensar algum erro passado? Então o "karma" existe! Na verdade, tenho minha opinião pessoal, que ainda não sabemos exatamente o porque desses problemas. Acredito que os espíritos ainda não nos revelaram como se processa o mecanismo desses acontecimentos. Qual a sua opinião? Gostaria de saber, pois admiro muito as suas colocações racionais. Agradeço.
Um grande abraço.

Atenciosamente

A RESPOSTA

De fato, esse tema é controverso, pois afeta muito as crenças pessoais dos espíritas, que na sua maioria ainda não entendem o que é a fé raciocinada. E não a praticam, preferem ser místicos, religiosos, dogmáticos.

Na verdade a questão é muito simples, se fizermos a análise a partir de alguns pressupostos fundamentais:


a) o livre arbítrio é inviolável, e isso é uma verdade absoluta, princípio básico que nos torna ESPÍRITOS E RESPONSÁVEIS PELOS NOSSOS ATOS. Se não aceitarmos isso, a própria crença em Deus desaparece e o Espiritismo vai por água abaixo e está incorreto.

b) Deus é Justo e Perfeito, em conseqüência sua Lei é justa e perfeita e segue seu curso, não necessitando de nenhum tipo de intervenção. A LEI É UNA E PERFEITA, E DEUS NÃO INTERFERE NELA, pois se é justa e perfeita, nada mais necessita ser feito. Se não acreditarmos nisso, não podemos acreditar em Deus, ou pior, se não acreditarmos nisso, Deus é imperfeito.

c) Deus nos deu o "poder" de "deuses", de sermos "co-criadores". Isso nos foi claramente lembrado pelo Cristo: "...vós sois deuses..." (*). É parte integrante e indissociável do nosso livre arbítrio alterarmos o curso da Lei Divina, O QUE OCASIONA O MAL, QUE NÃO É CRIAÇÃO DIVINA. Deus não pode interferir em nossos atos, pois violaria o livre arbítrio. Deus não pode evitar que o mal aconteça, pois é uma decisão nossa (humanidade) que ele (o mal) exista.

d) Todos os que estamos neste orbe (terrestre), ESTAMOS AQUI POR QUE MERECEMOS, PELA CARACTERÍSTICA DE NOSSA EVOLUÇÃO. ESTE É UM ORBE ONDE O MAL AINDA IMPERA, E SE REENCARNAMOS AQUI, É QUE "MERECEMOS" SER EXPOSTOS AO MAL.

e) Não existe, peremptoriamente, o determinismo na reencarnação. Esse é um pressuposto que está evidente em toda a Obra de Kardec, de maneira explícita. O determinismo anularia o Livre Arbítrio. Além do mais, isso é lógico e racional e está em perfeita consonância com a Lei Divina.

f) Queiramos ou não, nossas reencarnações são (e têm que ser) probabilísticas, ditadas pelas tendências reencarnatórias (que alguns denominam de Karma). Se não forem probabilísticas, seriam determinísticas, o que anularia o livre arbítrio e poria em "xeque" a Justiça Divina.

Quanto a probabilidade ter um forte componente do "acaso", prezado amigo, temos que nos lembrar que AS LEIS NATURAIS, OU DIVINAS PERMANECEM EM CURSO E ASSIM SENDO, O "ACASO" NADA MAIS É QUE A CONSEQÜÊNCIA (EFEITO) DA LEI DIVINA, RESPONDENDO A UMA "CAUSA".

Assim sendo, o sofrimento causado a outro por alguém é de responsabilidade única e exclusiva de quem a causa. Deus e a Lei Natural não podem evitar que isso ocorra, pois estaria sendo violado o livre arbítrio E A PRÓPRIA LEI DIVINA (E ISSO FARIA COM QUE A LEI DIVINA FOSSE IMPERFEITA).

Quanto a ser injusto, prezado amigo, isso em tese até poderia ser verdade, se não tivéssemos que pertencer a este orbe (Terra). Nascemos aqui por que merecemos, pela nossa ainda inferioridade. LEMBRE-SE QUE AQUI É UM MUNDO DE EXPIAÇÃO E PROVAS. E SER SUBMETIDO AO MAL E AO SOFRIMENTO É PARTE DAS EXPIAÇÕES E PROVAS. Tirando os espíritos missionários que aqui reencarnam, todos nós "merecemos" estar expostos às dificuldades deste mundo, INCLUSIVE À POSSIBILIDADE DE NOS FAZEREM O MAL.

Sinceramente, não consigo "ver" onde está a dificuldade de compreender que NADA ESTÁ ESCRITO, NADA ESTÁ DETERMINADO nas reencarnações, que trazemos apenas tendências reencarnatórias, que nenhum fato da vida está pré-determinado, que NÃO EXISTE A HORA DA MORTE.

Na reencarnação somos inseridos no meio social, cultural e econômico e recebemos o corpo mais adequado às nossas tendências reencarnatórias. Mas daí em diante, estamos sob nossa total e absoluta direção, até com o poder de abdicar disso (exemplo: obsessão). E TEMOS QUE NOS LEMBRAR QUE A PROVA MAIOR (E EXPIAÇÃO) É TERMOS REENCARNADO NESTE MUNDO, ONDE O MAL IMPERA (VIDE LIVROS DOS ESPÍRITOS E O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO).

Assim sendo, não existe isso de que DEUS ESTARIA PERMITINDO INJUSTIÇAS SE A PESSOA A QUEM OCORRE O MAL NÃO "MERECESSE" E QUE TODO O MAL QUE ACONTECE A ALGUÉM ESTAVA DESTINADO A OCORRER.

Não existe isso de "não merecer". Se não "merecêssemos", não teríamos reencarnado aqui na Terra.

Não existe, portanto, conflitos de "casual", "acaso", "merecimento" e "Lei Divina". E isso é evidente, eu diria até "óbvio".

Prezado amigo, dentro dos postulados trazidos por Kardec, seguindo ainda o que Kardec e os Espíritos Superiores nos disseram da necessidade absoluta de que tudo passe pela análise da lógica e da razão e mais, considerando os pressupostos da existência de Deus e da perfeição da Lei Divina, podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, que NADA ESTÁ ESCRITO OU DETERMINADO PARA NINGUÉM.

Eu poderia me estender muito mais , mas outros argumentos estão nos diversos artigos que escrevi na série "Ninguém morre antes da hora?"

Não sou o "dono da verdade", e nem pretendo sê-lo. Tudo o que aqui coloco é convicção pessoal, fruto de síntese pessoal, mas é uma crença de fé raciocinada, que embasei muito bem. E não vejo, até o momento nenhuma razão de mudar essa forma de pensar.

Mas fico triste e infeliz que a maioria dos espíritas tenham optado pelo caminho cômodo do misticismo, do dogma, por terem optado por "culpar o destino" por tudo que ocorra, por responsabilizar a "programação reencarnatória" por todo mal que ocorra, pela comodidade e pela preguiça de acharem que "tudo está escrito" quando, na verdade, temos que compreender que se não mudarmos a sociedade, a humanidade, o mal continuará a existir e gerará dor e sofrimento, e que Deus nada pode fazer a esse respeito, senão esperar que APRENDAMOS A SERMOS FELIZES, mudando nosso mundo de "expiação e provas" para um "mundo de regeneração".

Desculpe as caixas altas, negritos e sublinhados, mas é para destacar os pontos chaves em cada argumento.

Faça a sua síntese e estabeleça a sua verdade. E faça a sua parte para transformar o mundo. É isso que importa.

Eu acredito muito e sigo praticando como lema de vida o que disse Geraldo Vandré:

"...QUEM SABE FAZ A HORA, NÃO ESPERA ACONTECER..."

Fraterno abraço.

 

(*) Salmo, 82:6 e João, 10:34.


Curitiba, 03 de abril de 2010

 

Fonte: www.carlosparchen.net

 

 

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