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OBSESSÃO E DESOBSESSÃO NOS TERREIROS DE UMBANDA
Apenas uma opinião!

Publicado em setembro 25, 2007

 

A procura, por uma casa umbandista, remete invariavelmente a tentativa de solucionar problemas.

Existe uma assertiva de que as pessoas, quando atravessam o portal de um templo, terreiro, choupana ou tenda de Umbanda pela primeira vez, o fazem movidos pela dor, sofrimento ou problemas diversos.

No geral, podemos dividir esses motivos em duas situações distintas, mas que em determinados casos, se entrelaçam confundindo-se e inferindo uma na outra: problemas de ordem espiritual (pertubações, desequilíbrios psíquicos e psicológicos, demandas, disfunções mediúnicas etc.) e de ordem material ou emocional (doenças, desemprego, problemas amorosos, falta de recursos financeiros, etc.).

É fato, que um terreiro de Umbanda deve sempre estar preparado para uma pluralidade de possibilidades de atendimento. Não existe especialização, não podemos, a priori, limitar os trabalhos das entidades espirituais apenas a este ou aquele tipo de caso. Evidente que existem situações, cuja natureza da solicitação leva a uma questão ética e moral, que impedem a sua realização, mas isso é outra conversa. O importante é estarmos conscientes, que a qualquer instante, podemos nos deparar com a necessidade de fornecermos desde uma simples orientação, até a complexidade de realizarmos um atendimento, que se resolva apenas com um trabalho espiritual, envolvendo diversos elementos, esforços mediúnicos e muito tempo.

Diante dessa multidiversidade de atendimentos, não é difícil, que em algum instante, nos deparemos com a obsessão e a necessidade de realizarmos um trabalho de desobsessão.

Sobre este assunto nos deteremos a partir de agora.

A primeira vista, quando falamos em obsessão, desobsessão, obsessor e obsediado parece que deixamos a seara da Umbanda e adentramos no universo do Espiritismo.

Obsessão e desobsessão existem desde que o mundo é mundo, ou pelo menos desde que as civilizações surgiram. Entretanto, ganhou cores, explicação, vocabulário próprio e estudos diversos, com o surgimento da codificação kardequiana, no fim do séc. XIX. Obsessão é uma das principais preocupações e desobsessão é um dos diversos trabalhos realizados pelos Centros Espíritas ou Sociedade Espíritas, como desejam alguns kardecistas. Assim, temos no Espiritismo o maior volume de informação, metodologias de tratamento e experiências acumuladas sobre o referido tema.

Muitos terreiros de Umbanda recorrem a esse cabedal de conhecimento do Espiritismo, para lidar com a obsessão, aplicando as soluções kardecistas para realizar as desobsessões, frente aos casos que aparecem no seu dia-a-dia. Por que ocorre isto? O motivo é simples.

A Umbanda historicamente surge no início do séc. XX, por fatos ocorridos dentro da FEB-Federação Espírita Brasileira, então sediada no Rio de Janeiro, portanto depois da codificação de Kardec e consolidação do Espiritismo na Europa e principalmente no Brasil. Os fatos, que envolveram Zélio e o Caboclo das 7 Encruzilhadas na FEB, são de domínio público e não cabe aqui repetí-los, mas existe sempre um ponto pendente e jamais desenvolvido ou questionado pelos estudiosos umbandistas: se a FEB, casa mater do Espiritismo no Brasil, tivesse aceito as incorporações das entidades que se manifestaram no público presente, conforme os relatos e testemunhos da época, será que o Caboclo das 7 Encruzilhadas teria decidido fundar a Umbanda, para permitir a manifestação de caboclos, pretos-velhos e demais falanges trabalhadoras? Essa é uma pergunta que volta e meia me faço. Será que não estaríamos, hoje por dentro do Espiritismo, ou talvez no máximo sendo uma escola ou segmento espírita? Desculpe-me a ilação.

Retomando a linha de raciocínio, outros motivos levaram ao imbricamento ou a absorção do know-how espírita, com relação à obsessão e desobsessão, pelos terreiros de Umbanda. O primeiro congresso umbandista (1940), que procurou realizar uma aproximação visível com o Espiritismo, proximidade esta plenamente rejeitada pelo congresso espírita, que aconteceu na mesma época; o surgimento da Umbanda de Cáritas e mesmo na atualidade a proliferação de romances umbandistas e de espíritas sobre a Umbanda, que inserem o universo pós-morte a uma situação de similaridade ou de perfeita adequação com o mundo espiritual na visão kardequiana.

Ora, se no mundo espiritual não existe nenhuma diferenciação na realidade espírita e umbandista, se no fim de tudo, a visão kardequiana é a que prevalece, por que não adotarmos o Livro dos Médiuns como referência para a mediunidade umbandista, o Livro dos Espíritos para nos responder as questões primordiais e a vasta literatura e estudos espíritas, quando precisamos resolver casos de obsessão, aplicando as soluções de desobsessão amplamente ali divulgadas? Eis a questão.

A obsessão é tema comum e preocupação, tanto do Espiritismo como da Umbanda, ninguém questiona isso. O trabalho de desobsessão é que deveria ser realizado nos terreiros, usando o conhecimento, os conceitos, os parâmetros, os elementos, a ritualística, a liturgia, ou seja, a rica gnose e o tratamento espiritual próprio da Umbanda.

Sei, vocês agora podem estar pensando, mas não é isso que acontece? Não.

A bem da verdade, muitos umbandistas, dirigentes de terreiros inclusive, acreditam haver uma divisão clara, entre os campos de ação da Umbanda e do Espiritismo. Enquanto, a Umbanda se limitaria aos casos de ordem espiritual e material explicitados no início deste artigo, ao Espiritismo seria inerente as questões de doutrinação, evangelização, obsessão e correlatos. Eu mesmo, fui um dos que, por diversas vezes, usei este tipo de argumento.

Alguns terreiros chegam ao ponto de dividirem seus trabalhos, com um dia determinado para as giras de Umbanda e outro dedicado exclusivamente, as sessões espíritas ou mais conhecidas como mesas brancas.

Waldo Vieira, médium espírita, antes de voltar-se inteiramente a Projeciologia, na época em que psicografava romances, forneceu uma entrevista polêmica, em que afirmava a necessidade de dirigentes de Centros Espíritas, em manter um vínculo de amizade com dirigentes de Terreiros de Umbanda e vice-versa, para que os casos surgidos no dia-a-dia de cada um, sendo inerentes a seara do outro, pudessem ser devidamente encaminhados. Waldo proclamava uma salutar parceria entre Centros Espíritas e Terreiros. Foi execrado.

Quantos terreiros, não recomendam aos que estão dando os primeiros passos na Umbanda e as vezes até na espiritualidade em geral, as obras espíritas como referência?

Quantos terreiros não iniciam os ensinamentos básicos, através de cursos baseados no ESDE (Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita) e nos livros da codificação de Kardec? Quantos umbandistas, não respondem as questões primordiais, quem somos, de onde viemos e para onde vamos, com a visão do Espiritismo? Fica assim, muito difícil dissociar uma coisa da outra.

Não dá para entender, que diante do nível de complexidade, que os trabalhos umbandistas podem chegar, não tenhamos desenvolvidos um modus operandi e faciendi próprio para tratarmos casos de obsessão. Rica, como sempre digo, a Gnose Umbandista possui de motu próprio, soluções as mais variadas para os trabalhos de desobsessão. Não me cabe aqui listar quais são elas. Uma coisa é certa, se a dor é a mesma (obsessão), o diagnóstico, bem como, o receituário podem ser totalmente diferentes, logo cada caso é um caso. Não existem receitas de bolo, quando a problemática é obsessão.

Outro ponto relevante a se destacar, é se as características da mediunidade umbandista, permitem que nossos médiuns incorporem espíritos obsessores, no nível de servir plenamente de instrumento para um trabalho de desobsessão.

Acredito sinceramente, que as condições psico-energéticas para uma incorporação das entidades de nossas falanges trabalhadoras, diferenciam, em muito, da incorporação de obsessores ou de espíritos sofredores, como são assim denominados nos círculos espíritas. No meu entendimento, somente em casos extremos, isto pode ou deve ocorrer.

Embora válidos e dignos de respeito e consideração, os trabalhos encetados pelo Espiritismo, não devem servir de base e solução para os casos de obsessão, que existem ou chegam ao mundo dos terreiros umbandistas.

O movimento umbandista precisa amadurecer, diante desses imbricamentos com o alheio. Sincretizamos demais e aderimos com facilidade as novidades. A catolização imposta, a espiritização recorrente, a candomblelização histórica e por último, recente, o movimento de apometrização da Umbanda, divergem da linha original, descaracterizam a forma e são totalmente desnecessárias ao momento atual e o desenvolvimento rito-litúrgico futuro da nossa religião. Universalidade e Diversidade são conceitos diametralmente opostos à manutenção de determinadas situações e não significam agregação de tudo que se deseje aderir a Umbanda.

Os que me conhecem sabem que não sou um purista e radical, não faço apologia a codificação, respeito a diversidade das escolas do movimento umbandista e acredito na ancestralidade e universalidade da Umbanda. Somente, acredito que, a nossa religião é resolvida em si mesma e possui soluções originais, explicações próprias para todas as coisas.

Tendo a plena condição de resolver casos de obsessão sem se valer de desobsessões definidas pelo alheio.

Como está explícito no título, esta é apenas uma opinião.

Namastê,

 

Caio de Omulú

 

Fonte: http://www.povodearuanda.com.br/wp-content/uploads/2008/07/correio-da-umbanda-2007-08-edicao-20.pdf

 



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