Espiritualidade e Sociedade





Maria José Gomes S. Nery

>    A única finalidade da vida é crescer

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Maria José Gomes S. Nery
>    A única finalidade da vida é crescer



"A única finalidade da vida é crescer. A suprema lição é aprender como amar e ser amado incondicionalmente".



A frase-título deste artigo, não foi escrita por um religioso, mas por Elizabeth Kubler Ross, nascida na Suiça em 1926, uma mulher especial, que teve que esforçar-se muito para ser médica e alcançar seus objetivos de vida. Como Psiquiatra e, mais tarde, como encarregada da Clínica de Psicofarmacologia, começou a trabalhar também com pacientes terminais e, ao invés da maioria dos profissionais que não tinha muita coragem de encarar estas pessoas ou seus próprios sentimentos com relação à morte; ela lhes dava atenção, fazia companhia, segurava suas mãos, perguntava e conversava a respeito de como se sentiam. Diz que eles foram o melhor professor que jamais teve. Passou a descobrir aspectos muito importantes, não só sobre a morte, mas também sobre a vida; mudando a maneira como o mundo pensava sobre a morte e o morrer. Após muitos anos de trabalho com pacientes psiquiátricos, pacientes terminais, crianças moribundas e pacientes de Aids, com quem aprendeu muito e com seus estudos e pesquisas, trouxe compreensão e consolo para milhares de pessoas que tentavam lidar com a própria morte ou com a de entes queridos, assim como também trouxe luz sobre o significado da vida e o viver melhor. Perseguida pela fama de ser especialista e só falar sobre a morte, ela diz que o único fato incontestável em sua vida é a importância da vida: - "sempre digo que a morte pode ser uma das maiores experiências que se pode ter. Se você vive bem cada dia da sua vida, não tem o que temer".

Além dos seminários que fazia sobre o assunto pelo mundo todo, escreveu alguns livros sobre seu trabalho com pacientes terminais. Percebeu estudando suas anotações e refletindo sobre suas experiências, que todas as pessoas que sofrem uma grande decepção ou uma grande perda (morte ou expectativa da morte de um ente querido, descobrir-se portador de uma doença grave, nascimento de um filho com alguma anormalidade, perda de um sonho, etc...), passam por estágios semelhantes aos desses pacientes. (1) O primeiro era o choque e a negação que é uma defesa, uma maneira normal de lidar com más notícias inesperadas, permitindo que a pessoa considere a possibilidade negativa ou o fim de sua vida (ou de algum ente querido) e em seguida volte ao dia a dia de sempre. Quando a negação não é mais possível, (2) é substituída pela raiva, revolta e rancor, que se dirigem a todos: Deus, familiares, médicos, enfermeiras, amigos, qualquer pessoa que esteja saudável. É uma fase muito difícil para todos e não deve ser considerada como algo pessoal, apenas significa: - ainda estou vivo e estou sofrendo, não se esqueçam disto.

Quando lhe é permitido dar vazão à sua raiva, sem culpas, geralmente passa para o estágio de negociação (3), onde pede, promete e negocia com Deus sobre a necessidade de viver mais tempo, como por ex: - "eu preciso viver até... meu filho se formar". Elizabeth notou que as promessas com Deus, nunca eram mantidas, mas a negociação ia elevando o prazo cada vez mais. Esta fase é útil, pois a raiva já não é tão grande e a pessoa consegue ouvir e se comunicar com as pessoas, mesmo com uma certa agressividade. É a melhor ocasião para deixá-los externar sua raiva e antigas mágoas, ajudá-los a resolver pendências e velhas disputas. Poder falar e discutir sobre isto traz maior entendimento e pode transformar os sentimentos negativos em maior compreensão e amor.

Em determinado momento a doença não mais podendo ser negada principalmente por causa das enormes mudanças que estão ocorrendo, com graves limitações físicas, com a aparência sofrendo mudanças debilitantes e podendo também surgir problemas financeiros; a pessoa passa por uma profunda depressão (4), quando lamenta perdas passadas, as coisas que não fez, os erros cometidos. Quando estes aspectos são encarados aberta e diretamente, os pacientes costumam reagir bem melhor. O aspecto mais difícil da depressão desta fase, é "reconhecer que vai perder tudo e todas as pessoas que ama", em que geralmente não há um lado positivo a explorar ou palavras para consolar; é um tipo de depressão silenciosa e a melhor ajuda que as pessoas podem dar neste momento é aceitar esse pesar, ficar junto, fazer um gesto de carinho, dizer uma prece. Depois pode entrar num estado de "luto preparatório", ficando mais quieto, não desejando muitas visitas, aprontando-se para a chegada da morte. Esta atitude indica que resolveu seus negócios inacabados e que poderá ir pacificamente.

Quando a pessoa que está gravemente doente têm a oportunidade de expressar sua raiva, chorar e se lamentar, resolver suas questões pendentes, verbalizar seus medos; tendo ao seu lado alguém (ou algumas pessoas) que também tenha coragem de enfrentar seus próprios medos e ansiedades, conseguindo ouvi-la, compreende-la, dialogar serenamente, pode passar melhor por todos os estágios, chegando ao da aceitação (5). É um período de resignação meditativa e silenciosa, de serena expectativa; a luta interior desaparece e é substituída geralmente por muito sono. Não estará feliz, mas não sentirá mais raiva ou depressão. É um período quase isento de sentimentos, o que não significa resignação, mas uma vitória.

Estes estágios não são absolutos, nem todos atravessam todos os estágios, nesta exata sequência, mas é um guia útil para compreender as diferentes fases que podem atravessar os doentes terminais. Elizabeth conta que estes pacientes geralmente não se curavam fisicamente, mas todos melhoravam emocional e espiritualmente, sentindo-se muitas vezes melhor do que as pessoas saudáveis. "Eles mostraram-me muito mais do que é estar morrendo, refletiram sobre suas vidas e seu passado e ensinaram-me todas as coisas que têm verdadeiro significado, não para a morte, mas sim para a vida".

Nos seus seminários a Dra Ross também tentava ajudar as pessoas a encarar de frente antigos problemas, que muitas vezes se iniciaram quando da perda de um ente querido. Segundo sua experiência, na iminência da perda, quando não é abrupta, todos já devem saber da verdade, inclusive o próprio doente, para ir aprendendo a lidar com isso, ter a chance de fazer coisas que gostariam uns para os outros e também de uma "despedida". Mesmo que isto seja sofrido, é uma atitude mais saudável do que evitar o assunto ou mentir, seja para crianças, jovens, adultos ou pessoas idosas. Contar sobre a realidade (de acordo com a idade e maturidade de cada pessoa), demonstrar sua própria tristeza, deixar que os outros da família coloquem as suas emoções, conversar sobre isto, faz com que aprendam a enfrentar a perda e a mágoa de forma saudável, evitando futuros sofrimentos e reações negativas. As mortes súbitas e inesperadas são mais difíceis de lidar, a morte decorrente de alguma doença de desenvolvimento mais lento e de conseqüências fatais, dá as pessoas a chance também de se retratarem pela maneira distante ou agressiva como se relacionaram anteriormente e/ou de resolver qualquer problema que tivessem com ela.

A Dra Ross e sua equipe estudaram posteriormente 20 mil casos de experiência de quase morte (EQM), cujas interessantes conclusões citaremos em outra oportunidade. Após toda sua vivência profissional e pessoal, ela escreve que a única finalidade da vida é crescer e a suprema lição é aprender como amar e ser amado incondicionalmente. "Quando acabamos de fazer tudo que viemos fazer aqui na Terra, podemos sair de nosso corpo, que aprisiona nossa alma como um casulo aprisiona a futura borboleta. E, na hora certa, podemos deixá-lo para trás, e não sentimos mais dor, nem medo, nem preocupações - estamos livres como uma linda borboleta voltando para casa, para Deus (de uma carta a uma criança com câncer)". Escreve ela que viver é como ir para a escola, quanto mais aprendemos, mais difíceis ficam as lições; mas que as adversidades nos tornam mais fortes e percebe-se pelos seus escritos que acredita em reencarnação.

Como se pode notar,as conclusões dos trabalhos, estudos e experiências de vida desta notável mulher, são na maioria concordantes com a doutrina Espírita, apenas não questionando ou abordando o que pode acontecer com as pessoas após o desencarne e durante as vivências no mundo espiritual, entre vidas; nem aprofundando-se no aspecto da reencarnação. Mais alguns pensamentos seus: que um modo de não sentir medo é saber que a morte não existe e que tudo nesta vida tem um propósito positivo. Nossa preocupação deveria ser a de viver, enquanto estamos vivos, desbloqueando nossa capacidade de auto-realização, por ficarmos cativos de papéis culturalmente definidos, estereótipos, não nós mesmos. A morte é a chave para a vida; é aceitando a limitação de nossa existência que nos capacita a achar força e coragem para rejeitar alguns papéis e expectativas externas e dedicar cada dia da nossa vida-por mais longa que venha a ser - a evoluir o mais completamente que podemos.

"A negação da morte é parcialmente responsável pelo fato de as pessoas viverem vidas vazias e sem objetivo; pois quando você vive como se fosse faze-lo para sempre, fica muito fácil adiar as coisas que sabe que tem que fazer. Você vive sua vida em preparação para o amanhã ou em lembrança do ontem e, nesse ínterim, cada hoje é perdido". Ao contrário, quando compreende que cada dia pode ser o último que tem., pode aproveitar e criar oportunidades nesse dia para evoluir, aproximar-se mais dos outros seres humanos. Vivemos numa época de incertezas e o mundo precisa de seres humanos evoluídos que se importem com os outros e trabalhem cooperativamente e afetuosamente, não pelo que esses outros possam possa fazer por ele, mas sim pelo que ele pode fazer pelos outros."Se você distribuir Amor a outros, receberá de volta o reflexo desse Amor; você evoluirá e espalhará uma luz que brilhará nas trevas da época em que vivemos - seja no quarto de um doente, de um moribundo, em seu próprio lar e em qualquer lugar.

Complementamos aqui com um trecho do Evangelho: - "Amai ao vosso próximo como a vós mesmos; fazei aos outros o que desejaríeis que vos fizessem; amai os vossos inimigos; perdoai as ofensas, se quereis ser perdoados; fazei o bem sem ostentação; julgai-vos a vós mesmos antes de julgar aos outros. Humildade e caridade, eis o que não cessa de recomendar, e o de que ele mesmo dá o exemplo. Orgulho e egoísmo, eis o que não cessa de combater. Mas ele faz mais do que recomendar a caridade, pondo-a claramente, em termos explícitos, como a condição absoluta da felicidade futura". (O Evangelho segundo o Espiritismo, capXV, item 3). Jesus há 2 mil anos nos ensinou o caminho para a evolução e a felicidade, mas muitos ainda se fazem de surdos e, quando isto já é algo entendido e enfrentado, necessitamos de muita luta e esforço para conseguir por em prática de vez em quando algumas destas orientações que sabemos ser o verdadeiro e único caminho. Podemos adiar nosso crescimento, mas não podemos retroagir ou evita-lo para sempre, a própria vida se encarrega de dar seus avisos, "empurrões" ou "chibatadas" para fazer-nos acordar, reagir, refletir e seguir adiante. O que nos consola e anima é que estamos fadados a progredir e à felicidade, cada um escolhe como e quando.

Não usemos frivolamente o tempo que temos para gastar, tratemo-lo com carinho, pois cada dia pode trazer novas conscientizações, aprendizagens, evolução. Tentemos não permitir que um dia se passe sem acrescentar algo ao que já aprendemos ou compreendemos. Não descansemos até que esteja feito o que pretendíamos, mas vamos vagarosamente o quanto for necessário para manter o passo firme; não desperdicemos energia. "Finalmente: não permitamos que as ilusórias urgências do imediato nos desviem de nossa visão de eterno..." (Kubler-Ross).

"As lições que cada uma daquelas pessoas nos ensinavam traziam todas, no fundo, a mesma mensagem:-

Viva de tal modo que, ao olhar para trás, não se arrependa de ter desperdiçado sua vida.

Viva de tal modo que não se arrependa do que fez ou não deseja ter agido de outra forma.

Viva uma vida digna e plena.

Viva".

 

Alguns dos livros de Elizabeth Kubler Ross:
A Roda da Vida; Morte: Estágio final da Evolução



 

 

 

Fonte: http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?art=410&sec=30 - http://aeradoespirito.sites.uol.com.br/

 

 



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