Eugenio Lara

>   O Livre-Pensar e a Práxis Sociocultural

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O movimento espírita consegue aglutinar um grande corpo de voluntários na manutenção de atividades assistenciais. Promoções beneficentes, campanhas de arrecadação de alimentos, de vestuário, tornam-se um polo aglutinador de pessoas interessadas em praticar a caridade. O complexo assistencial que o movimento espírita mantém, às custas de doações e de muito trabalho de voluntários, é respeitado em todo o País.

Mas quando se trata da organização de determinada atividade cultural, os voluntários são bem poucos. Estudo, participação em seminários, simpósios, realizações que conduzem as pessoas à reflexão nem sempre atraem um número razoável de participantes. Muitos eventos subsistem em função da postura abnegada de um parco número de pessoas, que sacrificam suas horas de lazer na organização e promoção de eventos de natureza cultural.

Tentar inverter ou subverter a mentalidade das pessoas que se dedicam ao assistencialismo seria um contrassenso. Num país cheio de misérias como o nosso, trabalhar em prol do próximo torna-se um dever cívico, tanto quanto moral. Se estivéssemos na Suíça a postura seria outra, já que nesse país não há a miséria que existe por aqui. Mas estamos no Brasil, com índices alarmantes no campo social. Justamente por isso que todo trabalho no campo cultural e educacional é sempre bem-vindo. Cultura e educação são excelentes preventivos da miséria. E o espiritismo, com efeito, pelo seu apelo cultural e educativo, se constitui num poderoso auxiliar da prevenção à violência, miséria, corrupção e tantas outras mazelas de nosso dia-a-dia.

Todavia, por que muitos dos que assumem uma postura mais arejada, sem dogmatismos, voltada para a reflexão e o autoconhecimento, na hora de arregaçar as mangas para trabalhar se omitem? Onde estão os livres-pensadores que o espiritismo produz? Por que grande parte deles assume uma postura individualista? Por que pouco produzem e agem à margem de tantas realizações e atividades? Talvez a resposta a essas questões esteja não somente na natureza humana, mas também na natureza da filosofia espírita. “O poder do espiritismo está em sua filosofia”, afirmou Kardec de forma categórica. Pois o tempo demonstrou que o espiritismo somente será efetivamente respeitado se oferecer à sociedade uma contribuição que extrapole o assistencialismo. Se possuíssemos um Estado eficiente, grande parte das instituições espíritas se tornariam inúteis. A contribuição espírita é muitíssimo maior do que os milhares de passes e pratos de sopa distribuídos diariamente pelo Brasil afora.

O espiritismo, bem compreendido e vivenciado, é um convite à reflexão, à autocrítica, a uma tomada de consciência. Entra-se num processo de transformação, de ruptura, de rearticulação dos fatores morais e intelectuais.

O produto final desse processo não é o crente, no sentido daquele sujeito crédulo, pio, ingênuo e que, em função da mentalidade mágica, torna-se submisso, facilmente manipulável. E nem o ativista xiita, meio terrorista, guerrilheiro, sectário, pronto para explodir de indignação, uma espécie de coquetel molotov ambulante.

Também não é o iconoclasta, o “quebra-santo”, qual Policarpo Quaresma disposto a reformar tudo aquilo que não corresponda ao seu ideário.

A filosofia espírita produz livres-pensadores, pessoas livres de dogmatismos, do medo do sobrenatural, solidárias, idealistas, ao menos em tese, pois numa época onde o hedonismo e o individualismo dominam o cenário social, fica difícil não ser influenciado. Some-se a isso a sensação de liberdade que o espiritismo oferece na medida em que o sujeito toma consciência de sua natureza, dos mecanismos que permeiam sua existência, a percepção da imortalidade, o processo evolutivo... Ele se assume como sujeito livre, independente, consciente de suas limitações e de suas possibilidades. Todavia, não é qualquer um que consegue conciliar o espírito solidário com sua liberdade, solitária, individual, única e muitas vezes impregnada de egoísmo.

O aconchego do lar, da família, as futilidades do dia-a-dia, as injunções sociais, são componentes sedutores que desafiam o maior dos idealistas. Não é qualquer um que sacrifica momentos de lazer, um fim de semana prolongado, para se dedicar ao estudo e divulgação do espiritismo. É preciso paixão, grande dose de paciência, um ideal renovador e muita, mas muita perseverança, elementos fundamentais na realização de qualquer práxis social ou cultural. São virtudes que se adquirem vivendo, trabalhando, existindo...

 

 



Eugenio Lara, arquiteto e jornalista, é cofundador e editor do site PENSE - Pensamento Social Espírita, membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc), expositor do Centro Espírita Allan Kardec, de Santos-SP e do Instituto Cultural Kardecista de Santos (ICKS). É autor dos livros em edição digital: Racismo e Espiritismo; Milenarismo e Espiritismo; Amélie Boudet, uma Mulher de Verdade e Conceito Espírita de Evolução.

 



Fonte:
http://viasantos.com/pense/arquivo/1251.html

 


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