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Allan Kardec

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Allan Kardec
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REVISTA ESPÍRITA
Jornal de Estudos Psicológicos
publicada sobre a direção de Allan Kardec

março de 1864


Por vezes pergunta-se se Deus não teria podido criar os Espíritos perfeitos, para lhes poupar o mal e todas as suas consequências.

Sem duvida Deus o teria podido, pois e todo-poderoso; e se não o fez, é que, em sua soberana sabedoria, julgou mais útil que fosse de outro modo. Não pertence aos homens perscrutar seus desígnios e, ainda menos, julgar e condenar as suas obras. Desde que não pode admitir Deus sem o infinito das perfeições, sem a soberana bondade e a soberana justiça; desde que tem sob os olhos, incessantemente, provas de sua solicitude pelas suas criaturas, deve pensar que essa solicitude não podia ter falhado na criação dos espíritos. Na terra o homem é como a criança, cuja visão limitada não vai além do estreito circulo do presente, e não pode julgar da utilidade de certas coisas. Deve, pois, inclinar-se ante o que ainda esta além do seu alcance. Contudo, tendo-lhe Deus dado a inteligência para se guiar, não lhe e defeso procurar compreender, parando humildemente no limite que não pode transpor. Sobre todas as coisas mantidas no segredo de Deus, não pode estabelecer senão sistemas mais ou menos prováveis. Para julgar qual desses sistemas mais se aproxima da verdade, ha um critério seguro, que são os atributos essenciais da Divindade. Toda teoria, toda doutrina filosófica ou religiosa que tendesse a destruir a mínima parte de um só desses atributos pecaria peia base e seria, por isto mesmo, manchada de erro. De onde se segue que o sistema mais verdadeiro será aquele que melhor se acomodar com esses atributos.

Sendo Deus todo sabedoria e todo bondade, não poderia ter criado o mal como contrapeso do bem; Se tivesse feito do mal uma lei necessária, teria voluntariamente enfraquecido o poder do bem, porque aquilo que e mal não pode senão alterar e não fortificar o que é bem. Ele estabeleceu leis que são inteiramente justas e boas; o homem seria perfeitamente feliz se as observasse escrupulosamente; mas a menor infração a essas leis causa uma perturbação cujo contra-golpe experimenta; dai todas as suas vicissitudes; é, pois, ele próprio a causa do mal por sua desobediência as leis de Deus.

Deus o criou livre de escolher seu caminho. O que tomou o mau caminho o fez por sua vontade e não pode acusar senão a si-próprio pelas consequências para si decorrentes. Pelo destino da terra, só vemos os Espíritos desta categoria, e é o que fez crer na necessidade do mal. Se pudéssemos abraçar o conjunto dos mundos, veríamos que os Espíritos que ficaram no bom caminho percorrem as diversas fases de sua existência em condições completamente diversas e que, desde que o mal não é geral, não poderia ser indispensável. Mas resta sempre a questão de saber porque Deus não criou os Espíritos perfeitos. Essa questão e análoga a esta outra: Porque a criança não nasce completamente desenvolvida, com todas as aptidões, toda a experiência e todos os conhecimentos da idade viril?

Há uma lei geral que rege os seres da criação, animados e inanimados. E a lei do progresso. Os Espíritos a ela submetidos pela força das coisas, sem o que a exceção teria perturbado a harmonia geral e Deus quis dar-nos um exemplo abreviado na progressão da infância. Mas como o mal não existe como necessidade na ordem das coisas, pois não é devido senão a Espíritos prevaricadores, a lei do progresso absolutamente não os obriga a passar por esta fieira para chegar ao bem; ela não os força senão a passar pelo estado de inferioridade intelectual ou, por outras palavras, pela infância espiritual. Criados simples e ignorantes, por isso imperfeitos, ou melhor, incompletos, devem adquirir por si-mesmos e por sua própria atividade, a ciência e a experiência que de inicio não podem ter. Se Deus os tivesse criado perfeitos, deveria tê-los dotado, desde o instante de sua criação, com a universalidade dos conhecimentos; tê-los-ia isentado de todo trabalho intelectual; mas, ao mesmo tempo, lhes teria tirado toda a atividade que devem desenvolver para adquirir, e pela qual concorrem, como encarnados e desencarnados, ao aperfeiçoamento material dos mundos, trabalho que não incumbe mais aos Espíritos superiores encarregados somente de dirigir o aperfeiçoamento moral. Por sua mesma inferioridade torna-se uma engrenagem essencial da obra geral da criação. Por outro lado, se os tivesse criado infalíveis, isto é, isentos da possibilidade de fazer mal, eles fatalmente teriam sido impelidos ao bem como mecanismos bem montados, que fazem automaticamente obras de precisão. Mas, então, não mais livre arbítrio e, por conseqüência, não mais independência; ter-se-iam assemelhado a esses homens que nascem com a fortuna feita e se julgam dispensados de fazer alguma coisa. Submetendo-os a lei do progresso facultativo, quis Deus que tivessem o mérito de suas obras, para ter direito a recompensa e a desfrutar a satisfação de haverem conquistado suas próprias posições.

Sem a lei universal do progresso, aplicada a todos os seres, teria tido que estabelecer uma ordem de coisas completamente outra. Sem duvida, Deus tinha a possibilidade. Por que não o fez? Teria sido melhor de outro modo? Assim, ter-se-ia enganado! Ora, se Deus pode enganar-se, e que não e perfeito; se não e perfeito, não e Deus. Desde que não se pode concebê-lo sem a perfeição infinita, ha que conduzir-se que o que fez e o melhor; se ainda não estamos aptos a compreender os seus motivos, certamente podê-lo-emos mais tarde, num estado mais adiantado. Enquanto esperarmos, se não pudermos sondar as causas, poderemos observar os efeitos e reconhecer que tudo no universo e regido por leis harmônicas, cuja sabedoria e admirável previdência confundem o nosso entendimento. Muito presunçoso, pois, seria aquele que pretendesse que Deus deveria ter regulado o mundo de outra maneira, pois isto significaria que, em seu lugar, teria feito melhor. Tais são os Espíritos, cujo orgulho e ingratidão Deus castiga, relegando-os a mundos inferiores, de onde só sairão quando curvando a cabeça sob a mão que os fere, reconhecerem o seu poder. Deus não lhes impõem esse reconhecimento; quer que seja voluntário e fruto de suas observações, razão por que os deixa livres e espera que, vencido pelo mal mesmo, que a si atraem, se voltem para ele.

A isto respondem: "Compreende-se que Deus não tenha criado os Espíritos perfeitos; mas se julgou a propósito submetê-los todos a lei do progresso, não teria podido, pelo menos, criá-los felizes, sem os submeter a todas as misérias da vida?'' A rigor, compreende- se o sofrimento para o homem, pois pode ter desmerecido; mas os animais também sofrem; entredevoram-se; os grandes comem os pequenos. Ha alguns cuja vida não passa de longo martírio; como nos tem o livre arbítrio ou desmereceram?”

Tal e, ainda, a objeção por vezes feita e a qual os argumentos acima podem servir de resposta. Não obstante, juntaremos algumas considerações.

Sobre o primeiro ponto diremos que a felicidade completa e resultado da perfeição, pois as vicissitudes o são da imperfeição. Criar os Espíritos perfeitamente felizes fora criá-los perfeitos.

A questão dos animais exige alguns desenvolvimentos. Eles tem um principio inteligente - isto e incontestável. De que natureza e este principio? Que relações tem com o homem? E estacionário em cada espécie, ou progressivo ao passar de uma a outra espécie? Qual o seu limite de progresso? Marcha paralelamente com o homem, ou e o mesmo principio que se elabora e ensaia a vida nas espécies inferiores, para receber, mais tarde, novas faculdades e sofrer a transformação humana? São outras tantas questões até hoje insolúveis; e se o véu que cobre esse mistério ainda não foi levantado pelos Espíritos, e que ainda é prematuro; o homem ainda não esta maduro para receber toda a luz. É verdade que vários Espíritos deram teorias a respeito, mas nenhuma tem um caráter bastante autentico para ser aceita como verdade definitiva. Assim, ate nova ordem, não podem ser consideradas senão como sistemas individuais. Só a concordância lhes pode dar a consagração, pois nisto esta o único e verdadeiro controle do ensino dos Espíritos. Eis porque estamos longe de aceitar como verdades irrecusáveis tudo quanto ensinam individualmente; um principio, seja qual for, para nós só adquire autenticidade pela universalidade do ensinamento, isto e, por instruções idênticas, dadas em todos os lugares, por médiuns estranhos uns nos outros, sem sofrer as mesmas influencias, notoriamente isentos de obsessões e assistidos por Espíritos esclarecidos. Por Espíritos esclarecidos deve entender-se os que provam sua superioridade pela sua elevação de pensamento, o alto alcance de seus ensinos, jamais se contradizendo e jamais dizendo nada que a lógica mais rigorosa não possa admitir. Assim e que foram controladas as diversas partes da doutrina, formulada no Livro dos Espíritos e no Livro dos Médiuns. Tal não e ainda o caso da questão dos animais Eis por que ainda não o decidimos. Até a constatação mais seria, não se devem aceitar teorias que possam ser dadas a respeito, senão como inventario, e esperar sua confirmação ou sua negação.

Em geral nunca seria demasiada a prudência em face a teorias novas, sobre as quais poderíamos ter ilusões. Assim quantas vimos, desde a origem do Espiritismo que, publicadas prematuramente, apenas tiveram vida efêmera! Assim será com todas as que apenas tiverem caráter individual e não tiverem passado pelo controle da concordância. Em nossa posição, recebendo as comunicações de cerca de mil centros espíritas sérios, disseminados em diversos pontos do globo, estamos em condições de ver os princípios, sobre os quais houve concordância. Foi esta observação que nos guiou ate hoje e nos guiara igualmente nos novos campos que o Espiritismo e chamado a explorar. E assim que, desde algum tempo, observamos nas comunicações, vindas de vários lados, quer da Franca, quer do estrangeiro, uma tendência para entrar numa via nova, através de revelações de uma natureza toda especial. Essas revelações, muitas vezes em palavras veladas, passaram inapercebidas a muitos dos que as receberam; muitos outros se supuseram os únicos a recebê-las; consideradas isoladamente, para nos não teriam valor; mas a sua coincidência lhes da alta importância, que terá de ser julgada mais tarde quando vier o momento de as levar a luz da publicidade.

Sem essa concordância, quem poderia estar seguro de ter a verdade? A razão, a lógica, o raciocínio, sem duvida são os primeiros meios de controle a serem usados. Em muitos casos isto basta. Mas quando se trata de um princípio importante, da emissão de uma idéia nova, seria presunção crer-se infalível na apreciação das coisas. E, alias, um dos caracteres distintivos da revelação nova o de ser feita em toda parte no mesmo tempo. Assim como as diversas partes da doutrina. Ai esta a experiência a provar que todas as teorias aventurosas por Espíritos sistemáticos e pseudo-sábios sempre foram isoladas e localizadas; nenhuma tornou-se geral e não suportou o controle da concordância; varias, mesmo, caíram no ridículo, prova evidente que não estavam certas. O controle universal é uma garantia para a futura unidade da doutrina.

Esta digressão afastou-nos um pouco do assunto, mas era útil, para dar a conhecer a maneira por que procedemos, no caso de teorias novas concernentes o Espiritismo, que esta longe de haver dado a ultima palavra sobre todas as coisas. Jamais as emitimos antes que tenham recebido a sanção de que acabamos de falar, razão por que algumas pessoas, um tanto impacientes, se admiram de nosso silencio em certos casos. Como sabemos que cada coisa vira a seu tempo, não cedemos a nenhuma pressão, venha de onde vier, pois sabemos a sorte dos que querem ir muito depressa e tem em si mesmo e em suas próprias luzes uma confiança multo grande. Não queremos colher fruto antes de maduro; mas e preciso ter certeza de que, quando estiver maduro, não o deixaremos cair.

Estabelecido este ponto, pouco nos resta a dizer sobre a questão proposta, embora o ponto capital ainda não possa ser resolvido.

O sofrimento dos animais é constante. Mas é racional imputar esses sofrimentos a imprevidência de Deus ou a uma falta de bondade de sua parte pelo fato de a causa escapar A nossa inteligência, como a utilidade dos deveres e da disciplina escapa ao escolar? Ao lado desse mal aparente não se vê brilhar a sua solicitude pelas mais ínfimas criaturas? Não são os animais providos de meios de conservação adequados ao meio onde devem viver? Não se vê que a sua pelagem desenvolve-se mais ou menos, conforme o clima? Seu aparelho de nutrição, suas armas ofensivas e defensivas proporcionadas aos obstáculos a vencer e aos inimigos a combater? Em presença destes fatos, tão multiplicados, e cujas conseqüências só escapam ao olho do materialista, é-se levado a dizer que não há Providencia para eles? Não, por certo, posto nossa visão seja muito limitada para julgar a lei do conjunto. Nosso ponto de vista, restrito ao pequeno circulo que nos envolve, só nos deixa ver irregularidades aparentes; mas quando nos elevaremos pelo pensamento acima do horizonte terreno, apagar-se-ão essas irregularidades ante a harmonia geral.

O que mais choca nesta observação localizada, é a destruição de uns seres pelos outros. Desde que Deus prova a sua sabedoria e a sua bondade em tudo o que podemos compreender, e forçoso admitir que a mesma sabedoria presida ao que não compreendemos. Alias, não se exagera a importância dessa destruição senão porque se a liga a matéria, sempre por forca do estreito ponto de vista em que se coloca o homem. Em definitivo, só se destrói o invólucro; o principio inteligente não e aniquilado; também o Espírito é tão indiferente a perda de seu corpo, quanto o homem a de sua roupa. Essa destruição dos envoltórios temporários e necessária a formação e manutenção de novos envoltórios, que se constituem com os mesmos elementos; mas o principio inteligente não é atingido, quer nos animais, quer no homem.

Resta o sofrimento, que por vezes leva a destruição desse invólucro. Ensina-nos o Espiritismo, e nos prova que o sofrimento no homem é útil ao seu avanço moral. Quem nos diz que o dos animais não tem utilidades? que na sua esfera e conforme certa ordem de coisas, não seja causa de progresso? E certo que não passa de hipótese, mas ao menos se apóia nos atributos de Deus: a justiça e a bondade, enquanto as outras são a sua negação.

A questão da criação dos seres perfeitos, tendo sido debatida em sessão da Sociedade Espírita de Paris, o Espírito de Erasto ditou, a respeito, a seguinte comunicação.

SOBRE A NÃO-PERFEIÇÃO DOS SÊRES CRIADOS
(Sociedade Espírita De Paris, 5 de fevereiro de 1864 - Médium: Sr. D'Ambel)

 

Porque não criou Deus todos os seres perfeitos? Em virtude mesmo da lei do progresso. E fácil compreender a economia desta lei. Aquele que marcha está no movimento, isto e, na lei da atividade humana; aquele que não progride, que por essência se acha estacionário, incontestavelmente não pertence a gradação ou a hierarquia humanitária. Explico-me. Quem nasce numa posição mais ou menos elevada, acha em sua situação nativa um dado estado de ser. Ora! esta certo de que se sua vida inteira decorresse nessa situação de ser, sem que lhe tivesse trazido modificações por sua ação ou pela de outrem; declararia que a sua existência e monótona, aborrecida, fatigante, numa palavra, insuportável. Acrescento que teria perfeita razão, visto como o bem só e bem relativamente ao que lhe e inferior. Isto e tão certo que se puserdes o homem num paraíso terrestre, num paraíso onde não se progride mais, em dado tempo ele achara a existência insustentável e aquele repouso um impiedoso inferno. Dai resulta, de maneira absoluta, que a lei imutável dos mundos e o progresso ou o movimento para a frente; isto e, que todo Espírito que e criado esta inevitavelmente submetido a essa grande e sublime lei da vida; conseqüentemente, tal e a mesma lei humana.

Só existe um ser perfeito e não pode existir senão um: Deus! Ora, pedir ao Ser Supremo a criação de Espíritos perfeitos, seria pedir-lhe que criasse algo de semelhante e igual a si. Emitir semelhante proposição, não é a condenar previamente? Ó homens! porque perguntar sempre qual a razão de ser de certas questões insolúveis ou acima do entendimento humano? Lembrai-vos sempre que só Deus pode ficar e viver na sua imobilidade gigantesca. É o summum e o maximum de todas as coisas, o alpha e o omega de toda a vida. Ah! crêde-me, filhos, jamais busqueis levantar o véu que cobre esse grandioso mistério, que os maiores Espíritos da criação não abordam sem tremor. Quanto a mim, humilde pioneiro da iniciação tudo o que vos posso afirmar é que a imobilidade é um dos atributos de Deus, ou do Criador e que o homem e tudo o que é criado têm como atributo a mobilidade. Compreendei, se o puderdes, ou esperai a hora de uma explicação mais inteligível, isto é, mais ao alcance do vosso entendimento.

Não trato senão desta parte da questão, pois vos quis provar apenas que não tinha ficado estranho a vossa discussão. Sobre todo o resto, reporto-me ao que foi dito, pois todos me pareceram da mesma opinião. Em breve falarei de outros casos que foram assinalados (os casos de Poitiers).

Erasto.

REVISTA ESPÍRITA
Jornal de Estudos Psicológicos
publicada sobre a direção de Allan Kardec

março de 1864

 


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