Espiritualidade e Sociedade





Mirgon Kayser

>   A favor da vida das mulheres e das crianças

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Mirgon Kayser (*)
>    A favor da vida das mulheres e das crianças


O caso da menina de 10 anos abusada e estuprada ao longo de parte de sua infância e engravidada como ápice do ciclo de violência sofrida escancara uma situação que é vivida por milhares de mulheres de todas as idades e milhares de crianças de todos os gêneros em nosso país. Esse cenário é diuturnamente denunciado por entidades de defesa dos direitos da criança e pelo fim da violência contra a mulher.

Tão chocante quanto a situação em si, é ver que uma criança brutalizada e engravidada contra a vontade não é o centro da questão. As entidades pró-vida que aparentemente não se importam com a vida dessa criança montaram um circo para questionar não a violência, mas o direito dessa criança não conviver com consequências permanentes da violência sofrida. Essa criança deveria ser acolhida, receber serviço médico ágil e objetivo para a realização do aborto legal e um pedido de desculpas em nome da nossa sociedade que se mostrou incapaz de protegê-la. Ao invés disso foi exposta publicamente e precisou aguardar por uma decisão judicial.

A Associação Médico-Espírita, que até agora não se pronunciou sobre o comportamento genocida do Presidente da República frente a pandemia, deveria se envergonhar em colocar o peso de seu julgamento sobre uma menina de 10 anos. Afirmar em uma nota pública que “médicos ofereceram gratuitamente infraestrutura de pré-natal, parto e pós-parto, visando dar opção à gestante de não matar o bebê” é nauseante. Uma nota de tal forma contaminada pelo lobby antiaborto que chega ao ponto de falsear o texto basilar do Espiritismo, O Livro dos Espíritos.

A entidade cita a questão 359 do Livro dos Espíritos sugerindo que em seu conteúdo esteja dito que “o aborto só se justifica em caso de risco à vida da mãe”. Isso não é verdade. A dita questão 359 questiona objetivamente se há crime no aborto em caso de risco de vida da mãe, para o que a resposta é negativa. Textualmente, diz que “é preferível sacrificar o ser que não existe, ao ser que existe”. É bem diferente do que insinua a nota. Na realidade, sendo a obra absolutamente omissa sobre estupro, a única coisa que a questão 359 aproxima é que, à luz do Espiritismo, temos ainda muitos tabus e falsas premissas a desconstruir, inclusive sobre aborto.

Só há uma vítima nessa história, ela tem 10 anos de idade e já sofreu abusos demais. Essa criança não escolheu ser abusada. Não escolheu ter sua infância violada. Não escolheu ser engravidada. Empatia, solidariedade e compreensão gerais e irrestritas seriam as únicas manifestações humanamente aceitáveis. Nem ela, nem as milhares de mulheres e crianças abusadas todos os anos precisam das fogueiras medievais de entidades cuja prática deveria ser condizente com o discurso de amor e tolerância que pregam.

Como espírita e como ser humano, meu compromisso é com um mundo livre de toda forma de violência contra as mulheres, um mundo de proteção às crianças e de respeito às religiões, mas também um mundo livre de toda forma de manipulação religiosa e intolerância disfarçada.

 

(*) Espírita e Secretário de Comunicação do PT de Porto Alegre.

 

 



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Fonte: https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2020/08/a-favor-da-vida-das-mulheres-e-das-criancas-por-mirgon-kayser/
Publicado em: agosto 19, 2020


 



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