José Herculano Pires

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José Herculano Pires
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Concedo-me o direito de abstrair-me do problema de Deus para examinar a questão da criação do homem. Os cientistas se colocaram precisamente nessa posição e admitiram a existência de um processo evolutivo no qual o homem aparece como o resultado de uma filogênese fantástica. Dos animais inferiores até os superiores, num desenvolvimento progressivo e complexo, as forças naturais modelaram formas sucessivas de vida que deram como resultado o aparecimento da espécie humana na Terra. A superioridade do homem ante as espécies animais de que ele procederia suscitou dúvidas e debates que permanecem até hoje. Simone de Beauvoir (1), discípula e companheira de Sartre no campo da concepção existencialista sem Deus, admitiu que a palavra espécie não pode ser aplicada à humanidade, que não é uma espécie animal, mas um devir (vir a ser), algo em auto-evolução constante e irrefreável. Alfred Russell Wallace (2), êmulo de Darwin no campo evolucionista, opôs-se ao materialismo biológico daquele, sustentando uma posição espiritualista. De Spencer a Bergson a concepção evolucionista conseguiu firmar-se como a mais elevada interpretação da realidade, apesar da insistência das correntes dogmáticas-religiosas e das correntes irracionalistas em combatê-la, considerando-a simples teoria metafísica sem bases científicas.

Após a segunda guerra mundial e em conseqüência das atrocidades a que grandes nações civilizadas foram conduzidas, o pessimismo levou o homem a novas formas de dúvida. Passou-se a falar em mudanças não em progresso ou evolução. Produto do susto e da decepção, esse recuo está sendo superado pelo próprio avanço científico, em que os processos da evolução se confirmam continuamente. Kardec já advertia, no século passado, que o mal das interpretações humanas está na falta de uma visão mais ampla e profunda da realidade. Os homens vêem apenas um ângulo do quadro geral da Natureza e se apegam a essa percepção restrita para a elaboração de seus pensamentos. Exemplo típico dessa restrição mental é a tentativa, hoje renovada, de separar a evolução biológica, considerada inegável, dos demais aspectos do processo evolutivo universal. Uma restrição arbitrária, característica da orientação analítica da pesquisa científica e oposta à visão de conjunto dos métodos conclusivos da reflexão filosófica.

Na Ciência, como em tudo, temos de reconhecer a oposição dos contrários. O método analítico é uma faca de dois gumes. Por um lado nos faculta a precisão objetiva no conhecimento de uma realidade específica, por outro lado nos impede a visão de conjunto. Foi exatamente por isso que se tornou necessário, após o aparente desprestígio da Filosofia, ante as conquistas inegáveis da pesquisa científica, recorrer-se à Filosofia das Ciências para evitar-se a fragmentação total do Conhecimento. Só no plano filosófico se tornou possível reajustar as conquistas científicas num quadro geral de interpretação da realidade. Mas existe outro fator determinante da desconfiança científica em relação dos princípios espíritas, que é o instinto de conservação, agente preservador da integridade do homem e das suas realizações. Esse instinto, bem manifesto no sócio-centrismo das instituições científicas ou de qualquer outra natureza, reage contra tudo o que possa modificar o saber já considerado como adquirido. Recentemente, o Prof. Remy Chauvin, do instituto de Altos Estudos de Paris, denunciou a existência no campo científico de uma alergia ao futuro, responsável pela rejeição liminar, sem exame, de toda novidade, mesmo que sustentada por cientistas categorizados. Essa neofobia tem produzido muitos mártires no campo científico e cultural em geral.

Pouco a pouco, porém, e hoje mais rapidamente do que no passado, essa posição acomodatícia vai sendo vencida pelas próprias exigências do progresso, da 'evolução científica. Em nossos dias, a descoberta da antimatéria, as pesquisas cósmicas, o reconhecimento dos fenômenos paranormais através da Parapsicologia, a recente descoberta do corpo-bioplásmico do homem e de todos os seres, o êxito, ainda incipiente mas já significativo das pesquisas sobre a reencarnação, a constatação da existência de outras dimensões da realidade, a evolução do conceito de universos-paralelos para o de universos-interpenetrados, a aceitação da pluralidade dos mundos habitados e da escala evolutiva dos mundos - proposta há mais de um século pelo Espiritismo - estão arrancando as corporações científicas de suas cômodas poltronas acadêmicas e lançando-as decisivamente em órbita, nas rotas giratórias do progresso. Lembro-me de um poema de Rainer Maria Rilke, em que ele se compara a um falcão que gira em circulo crescentes em torno a uma torre secular, símbolo de Deus. E uma imagem feliz da evolução, que se processa em espiral. O retorno à barbárie na segunda guerra mundial não representa retrocesso da evolução humana, mas apenas uma curva decrescente da espiral que tocou os resíduos bárbaros do homem - a região subterrânea dos instintos animais - para uma espécie de catarse coletiva. Mas tudo serve para a exploração dos que se entregam ao comodismo e dos que ainda não conseguiram desprender o seu pensamento dos objetos materiais. A História da Matemática nos mostra que o pensamento dos primitivos era de tal maneira apegado ao concreto que, nas tribos selvagens, a contagem das coisas não excedia ao número de dedos das mãos, indo quando muito até à soma dos dedos dos pés. A posição dos anti-evolucionistas atuais assemelha-se, guardadas as distâncias culturais, à dos selvagens presos aos seus próprios dedos. Temos a prova da evolução em nós mesmos e em tudo o que nos rodeia, mas os espíritos sistemáticos e opiniáticos querem as favas contadas onde não há favas.

O Espiritismo ensina que tudo se encadeia no Universo, numa seqüência constante de relações. No item 540 de "O Livro dos Espíritos", obra fundamental da doutrina, encontramos esta proposição: Tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o Arcanjo, pois ele mesmo começou pelo átomo. Assim, do átomo nasce o minério, deste o vegetal, deste o animal, deste o homem e deste o Anjo, o Arcanjo e quantas criaturas espirituais quisermos enumerar. Por isso, o sobrenatural desaparece quando admitimos o processo continuo da evolução. A Natureza nos mostra as duas faces da concepção de Espinosa, com sua teoria da Natureza naturata e da Natureza Naturans, equivalente ao conceito de mundo sensível e mundo inteligível, do pensamento de Platão, interligados e interatuantes. O que poderia existir fora da Natureza? Deus? Mas já vimos que a fonte originária, pelo fato mesmo de ser a origem de tudo está ligada ao Todo e nele se insere. Podemos, como os druidas (os sacerdotes celtas das Gálias) imaginar o Universo formado por três círculos: o de Gwinfid, em que Deus permanece; o de Abred, em que vivemos as nossas vidas carnais; o de Anunf, correspondente às regiões inferiores do plano evolutivo. Mas na concepção materialista o círculo de Gwinfid não pode existir, uma vez que Deus foi excluído (3). Como podemos considerar a criação do homem sem a ação de Deus? E o que tentaremos expor agora.

A união de dois princípios fundamentais, força e matéria, existentes no caos primitivo, determina o aparecimento das estruturas atômicas. Os átomos se aglutinam em formações diversas e produzem os elementos minerais. Mas estes elementos não estão mortos, não são estáticos. No seio da sua aparente placidez os átomos continuam em permanente agitação e produzem, quando as condições se tornam favoráveis, as primeiras formas vegetais. Nestas formas temos o nascimento da sensibilidade rudimentar, que vai desenvolver-se até a produção das primeiras formas animais. A atividade atómica transmite-se a essas formas produzindo a motilidade, a capacidade de movimentação própria, que arranca os animais do solo e os submete às experiências vitais. A sensibilidade se aguça e se aprimora através de milénios. Os cérebros rudimentares se desenvolvem e se enriquecem, o sistema nervoso (desenvolvimento do sistema fibroso vegetal) estrutura-se numa rede sensível, permitindo a organização de um aparelho cerebral que capta e reelabora os estímulos exteriores. Os animais evoluem até o aparecimento dos primatas, que assinalam o salto qualitativo do cérebro animal para o cérebro humano.

Eis, em linhas gerais, nesse esquema superficial, o processo de criação do homem. Quanto mais simples esse esquema, mais fácil para compreendermos a lenta elaboração da criatura humana a partir da noite dos primórdios. E de supor-se que essa criatura grosseira, elaborada a partir do mineral, não tenha qualquer outra experiência além das que enfrentou no processo de sua formação. Mas acontece que o homem se mostra dotado de uma inteligência criadora, capaz de desenvolvimento sem limites da sua imaginação e - o que mais assombra - dotada de um anseio crescente de elevar-se além da sua condição humana e atingir uma posição superior de que ele jamais podia ter tido algum vislumbre. Quanto mais se desenvolve, mais se acentua nele o contraste entre a sua condição primitiva - de bicho da Terra tão pequeno, como escreveu Camões - e os seus anseios insopitáveis de elevação e comunicação com planos e seres superiores, que ele nunca podia ter visto. De onde vem tudo isso? Supõem os materialistas que se trata de produtos da imaginação excitada pelo medo, num desejo natural de alcançar a segurança através de criações imaginárias. Mas como explicar a coerência dessas criações arbitrárias com os fenômenos paranormais, cuja existência está hoje cientificamente provada? Que dizer de uma idéia primitiva, coma a de uma duplicata do corpo material que pode projetar-se à distância, que Spencer atribuiu simplesmente ao sonho, quando esse corpo hoje se confirma através da pesquisa cientifica no campo da Física e da Biologia, par pesquisadores materialistas?

Esse é o momento em que temos de voltar à idéia de Deus inata na criatura humana - o Ser perfeito de Descartes encontrado no fundo da sua própria imperfeição - à lei de adoração assinalada por Kardec e que exerceu papel decisivo na orientação do homem para a sua humanização. O acaso da concepção materialista transforma-se necessariamente numa inteligência cósmica a desafiar, por sua grandeza e sua inegável sabedoria na construção universal, a miserável inteligência humana, capaz de tudo atribuir a um jogo de forças cegas no seio de uma nebulosa. Não precisamos nem mesmo pensar nas formações complexas do homem ou do anjo. Podemos ficar nos primórdios, examinando apenas a estrutura do átomo, a construção infinitesimal desse universo microscópico, ou melhor, infra-microscópico. Mas se olharmos para cima e pensarmos nos sistemas solares, na galáxia e nas super-galáxias, o absurdo da concepção materialista se tornará simplesmente monstruoso. Sentiremos as orelhas de Midas substituirem, peludas e agudas, as nossas delicadas orelhas humanas.

E o que dizer da experiência de Deus procurada através de artifícios religiosos, depois dessa imensa extensão percorrida pela humanidade através dos milênios, numa experiência natural e vital em que as forças da vida vão brotando do chão do planeta e projetando-se às profundidades cósmicas? E como se milionários ensandecidos resolvessem juntar-se num quarto escuro, de portas e janelas fechadas, para contar os níqueis do bolso do colete a fim de avaliar quanto possuem, para terem a experiência do dinheiro. Basta isso para mostrar-nos a razão da crise religiosa do presente. Os homens começaram a descobrir que possuem muito mais do que as igrejas lhes podem dar.

Criado do limo da terra, segundo a alegoria bíblica, arrancado das entranhas do reino mineral, segundo a teoria evolucionista espírita, o homem está ainda em formação, em desenvolvimento, amadurecendo nas experiências que enfrenta na existência corporal. O corpo é o seu instrumento de evolução. Um instrumento vivo e ativo que ele precisa controlar pela força do espírito. Na proporção em que avança, o espírito se impõe ao corpo e o domina. A dialética da evolução torna-se nele um processo consciente. E o responsável único pelo sucesso ou fracasso do seu destino. Deus está nele como um poder mantenedor e orientador, mas não punitivo (4). Ele mesmo se castiga ante o tribunal da sua consciência.

Quando se dispõe a progredir, o prêmio que recebe é a graça que o fortalece para que possa vencer o mal. Ninguém pode perdoar os seus erros, apagar as suas faltas. Dispõe da jurisdição de si mesmo e supera o seu condicionamento determinista pelas decisões do seu livre-arbítrio. Juiz e réu ao mesmo tempo, pode julgar-se com pleno conhecimento de causa.

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NOTAS DO A ERA DO ESPÍRITO:
(1) http://www.simonebeauvoir.kit.net/
(2) http://www.geocities.com/gilson_medufpr/wallace.html
(3) Ver Revista Espírita (Jornal de Estudos Psicológicos (Allan Kardec)), ABRIL 1858, O Espiritismo entre os Druidas
(4) Ver pesquisa CASTIGOS, SIM. PENAS ETERNAS, NÃO.
in http://aeradoespirito.sites.uol.com.br/A_ERA_DO_ESPIRITO_-_Portal/ARTIGOS/Indice/INDICE_Estudos.html

 


Fonte: no livro AGONIA DAS RELIGIÕES, cap. VI.

 

 

 



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