Wilson Garcia

>   O primeiro centro espírita da história?


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Wilson Garcia
>  O primeiro centro espírita da história?

 

 

Com o título "Há 150 anos surgia o primeiro centro espírita do mundo", este jornal publicou em seu número passado um artigo em que repete alguns equívocos cometidos por outros órgãos da imprensa espírita, inclusive alguns escritores.

O primeiro deles é esta confusão de semelhança entre o centro espírita e a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Não paira dúvida de que são duas coisas bem distintas, como se verá mais à frente.

Outros equívocos são cometidos nas seguintes afirmações: 1) que "a sociedade era franqueada a qualquer pessoa"; 2) que a "SPEE constituiu-se no primeiro centro espírita do mundo". Nem uma coisa nem outra são verdadeiras.

Chamo a atenção, também, para a revelação de que "1500 pessoas compareciam às reuniões a cada ano", como a justificar o fato relatado anteriormente de que a SPEE era freqüentada por grande número de pessoas. Trata-se, aqui, de evidente ufanismo, que em geral nós, os espíritas, alimentamos. Veja bem, se a SPEE se reunia uma vez por semana, a considerar o número absoluto citado, teremos em média 28 pessoas por sessão, o que não é nenhum número expressivo.

Em geral, repito, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, conhecida como SPEE, é vista e citada como o primeiro centro espírita da história do Espiritismo. Foi fundada em Paris no ano de 1858 por Allan Kardec e alguns amigos. Entretanto, será mais correto afirmar que a SPEE foi a primeira sociedade espírita legalmente organizada, uma vez que entre ela e o centro espírita há muito pouca coisa em comum. Em meu livro Nosso Centro, Casa de Serviços e Cultura Espírita faço esse registro a fim de contribuir para a formação de uma consciência a respeito da doutrina e a evolução de suas práticas nestes cento e cinqüenta anos de história. Permito-me reproduzir aqui as reflexões inseridas no referido livro sobre este interessante assunto.

"O centro espírita não se limita a consolar os aflitos com palavras". A afirmação de Herculano Pires revela o que é concebido de forma geral nos meios espíritas, mas presta-se também a reflexões oportunas, uma vez que o centro espírita como tal encontra-se ainda a caminho de sua melhor definição. A Kardec coube apenas conhecer os primeiros passos da SPEE que, então, não era conhecida por centro espírita.

A expressão centro espírita ganhou novos sentidos ao longo da história e, hoje, designa o local onde se reúnem os adeptos do espiritismo para estudar e praticar a doutrina. É, também, em algumas situações, sinônimo de espiritismo, sentido este consagrado pela prática lingüística. Assim, o uso da expressão se generalizou e se sobrepõe ao próprio nome oficial das organizações espíritas. Em geral, as pessoas dizem: "vou ao centro espírita" e não à Associação de Estudos Espíritas Paulo e Estevão ou qualquer outro nome que tenha a instituição. O termo, portanto, popularizou-se.

Desconhece-se qualquer instituição, nos primórdios do Espiritismo na França, que fosse designada por centro espírita. A expressão foi, certamente, criação brasileira e serviu tanto para popularizar a doutrina quanto para se tornar sua própria designação.

No início, faziam-se reuniões para estudo e pesquisa dos fenômenos mediúnicos. Compreendê-los era o grande desafio dos pesquisadores da segunda metade do século XIX. Ao publicar o primeiro livro da doutrina "O livro dos espíritos" Kardec abriu o leque das inúmeras atividades que poderiam ser realizadas por uma organização burocrática, somando-se, pois, ao estudo dos fenômenos mediúnicos e à sua pesquisa.

A passagem das reuniões mediúnicas informais para as de uma sociedade organizada, interessada em prosseguir nas pesquisas, mas, também, em aplicar a teoria à prática do cotidiano, forneceu diversos e interessantes desdobramentos. Com a filosofia básica estabelecida, o espiritismo não poderia se contentar apenas com os fenômenos e sua compreensão. Caso o fizesse, correria o risco de ter o número de interessados reduzido paulatinamente. A mais convincente razão, contudo, estava na própria realidade doutrinária, plena de novas perspectivas capazes de sobrepor-se ao marasmo das repetitivas reuniões de pesquisa.

Kardec não teve tempo nem possibilidade de fornecer algo próximo de um modelo de centro espírita capaz de atender ao desejo do homem do século seguinte. O estatuto que oferece no "Livro dos Médiuns" expressa a intenção de auxiliar através de instruções derivadas especificamente da experiência com a SPEE, então fundada fazia pouco tempo, cuja estrutura difere bastante do centro espírita da atualidade.

Por ser a primeira instituição legalmente organizada, visando à aplicação prática do espiritismo e por haver surgido quase um ano após o lançamento de "O Livro dos Espíritos", a SPEE é tipicamente uma associação disposta ao estudo dos fenômenos mediúnicos, interessada na sua compreensão e nos conhecimentos advindos da relação com as inteligências invisíveis. O artigo primeiro do seu estatuto assegura: "A sociedade tem por objeto o estudo de todos os fenômenos referentes às manifestações espíritas e sua aplicação às ciências morais, físicas, históricas e psicológicas".

A sociedade foi, de fato, a primeira instituição espírita legalmente fundada a funcionar como estimuladora do aparecimento de outras dentro e fora da França. Limitava-se, contudo, aos objetivos expostos no seu regulamento, nada possuindo daquilo que foi, com o tempo, incorporado como serviço ao centro espírita. O regulamento é uma peça bastante curiosa, mas é também severa do ponto de vista da disciplina, ao garantir direitos e estabelecer penalidades para aqueles sócios que porventura viessem a praticar atos que colocassem em risco o nome da sociedade.

Pelo regulamento se fica sabendo que ninguém poderia se tornar sócio sem a indicação de dois membros titulares e a aprovação da diretoria. De certa forma, ainda hoje tal preceito se encontra em boa parte dos estatutos dos centros espíritas, mas com pequena aplicação prática.

A SPEE jamais realizava reuniões públicas. Todas as suas sessões eram privativas dos sócios e vedadas aos curiosos. Quem delas quisesse participar deveria obter autorização do presidente e ainda assim participaria apenas da sessão para a qual a autorização tivesse sido liberada. Os médiuns não detinham direitos sobre as comunicações que obtinham; só lhes era permitido tirar cópia das comunicações, mantendo o original na sociedade. Assim, a SPEE se reservava o direito de uso das comunicações, seja para fins de publicação na Revista Espírita seja para outras finalidades.



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Fonte: Jornal Comunica Ação Espírita | 68ª edição | 07 de 2008.
- http://www.adepr.org.br/?pagina=jornal&id=40 -




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