Wilson Garcia

>   Cairbar Schutel, sentinela avançada da cultura espírita nas terras bandeirantes

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Wilson Garcia
>  Cairbar Schutel, sentinela avançada da cultura espírita nas terras bandeirantes


A imagem é meramente circunstancial e não deve ser levada ao pé da letra, como se dizia antigamente, para não reduzir a dimensão do homem e seu trabalho pelo Espiritismo, trabalho esse realizado especialmente na primeira metade do século XX.

Qualquer um que se dá ao luxo de ler sobre este homem fica impressionado com sua dedicação, entusiasmo, mas igualmente com sua visão e coragem com que se colocou na linha de frente de combate, buscando garantir um lugar de destaque na sociedade para as ideias e os princípios espíritas.

Aqueles que se formaram ao contato com os seus livros, ou que viveram sob sua influência, notadamente no Sudeste do Brasil, ficam impressionados com o seu poder de luta. E falar disso para as gerações da atualidade, em 2015, parece relembrar um tempo desconhecido e utópico, afinal, vivemos a era do imediato, da fragmentação, da unidade aparentemente frágil.

Vejo Cairbar Schutel em cada uma das variadas fronteiras em que atuou: como jornalista, editor, farmacêutico, orador, líder espírita, polemista e até político. E ao representa-lo nessa multiplicidade de imagens, encontro-o como homem de visão, como rompedor de limites, vestido da indumentária apropriada a cada situação, mas em todas elas com a bandeira do Espiritismo na mão. Um exemplo, enfim, para a nossa era individualista, de escassez de lideranças naturais e de líderes assentados em frágeis estruturas doutrinárias.

Talvez se deva dizer que o Cairbar político não tinha, ainda, a base espírita, pois tomaria contato com o Espiritismo por volta de 1904, quando sua atuação a favor da terra matonense já havia se iniciado, porém o sentimento que o levou, primeiro, a escolher aquela localidade e, depois, por ela lutar para dotá-la das melhores condições possíveis era já elogiável, capaz de colocá-lo ao lado dos desbravadores dos sertões paulistas.

O contato com o Espiritismo, o estudo da obra kardequiana e o convencimento do valor dos conhecimentos que tinha à mão vão encontrar nele as bases consolidadas para a tarefa a que se propôs, levando-o a descartar a atuação política intensa e a ocupar-se, agora, com a conquista do espaço para o Espiritismo. Então, o farmacêutico prático e generoso desenvolve outras habilidades para jogar-se de corpo e alma no trabalho de divulgação dos princípios espíritas, descobrindo que esse campo exigia muito mais do que o simples discurso oral.

O jornalista Cairbar Schutel é o narrador dos acontecimentos que, também, dirige a tipografia adquirida com esforço; é o tipógrafo que de componidor em punho cata as letrinhas e monta palavra por palavra, frase por frase, linha por linha e leva para a impressora manual, onde vai também colocar sua energia física para gravar os textos em folhas de papel, que depois serão dobradas, refiladas e distribuídas muitas vezes por ele mesmo, nas esquinas, nos cemitérios, à porta das igrejas, em datas comuns e especiais. Assim, sob o cheiro tóxico da tinta e os gazes perigosos do chumbo, aquele jornalista passa dias e noites e tem pouco descanso.

Não falo de alguém nascido num planeta primário criado pela imaginação; falo de uma localidade de nome Matão que não era mais que uma vila incrustrada no coração de São Paulo nos finais dos anos 1800. Ali, o jornalista apaixonado pelo Espiritismo se torna também escritor, editor, distribuidor e, para não deixar que padres e pastores retirem o direito do Espiritismo de coexistir e se disseminar, Cairbar Schutel torna-se um polemista de verve franca, viril. E dali mesmo vai irradiar para o estado de São Paulo, para o Brasil e ultrapassar as fronteiras do país a mensagem contida nas obras de Allan Kardec. 

Em tempos em que o empreendedorismo adquire contornos de meio de sucesso empresarial, a história de Cairbar Schutel é de exemplo raro a ser seguido. E mais, em um mundo tecnológico como o atual, da comunicação em real time, o desempenho desse homem magro e vigoroso com a comunicação é de fato de espantar. O jornal que fundou em 1905 e editou a custo do sacrifício pessoal, sempre diante da perspectiva do fracasso financeiro, tornou-se pequeno para a quantidade de notícias e estudos que o Espiritismo propiciava. Cairbar cria uma revista, então, e dota-a, numa atitude corajosa sem precedentes, das melhores qualidades gráficas e, outra vez com ousadia editorial, de conteúdo extraordinário, veiculando acontecimentos do Brasil e do exterior, estudos assinados por personalidades que só nos chegavam na raridade dos livros na língua original. Com esta visão corajosa de que era possuído, denominou-a de Revista Internacional do Espiritismo e fez jus ao nome. Ainda hoje não se tem notícia de alguém que tenha feito obra semelhante...

Jornal e revista juntos, atuantes, atuais, fazendo imprensa vibrante eram também pouco para o visionário de Matão. Criou ele a editora, escreveu os textos das polêmicas, juntou-os em livros; escreveu estudos e publicou mais livros. Pensava, sentia, vibrava. Enfrentava a lama e a poeira das estradas, as dificuldades financeiras e às vezes a ausência de apoio e nada disso o desanimava. Enfrentava padres, bispos e pastores maldosos, que muitas vezes não tinham escrúpulos e excitavam a população a marchar contra o destemido homem, e nada o arredava do caminho, nada faziam-no perder o bom-senso, este raciocínio que a Doutrina Espírita oferece na lógica dos seus princípios.

Lá, da sua quase insignificante Matão, tornou-se uma voz respeitada. E mais, tornou-se admirado e exemplo para figuras que mais tarde se tornariam expoentes do Espiritismo brasileiro. Talvez, aquela que melhor encarna essa admiração seja a do nosso “metro que melhor mediu Kardec”, J. Herculano Pires. Este não se cansava de dizer das qualidades do nosso bandeirante espírita, a quem a doutrina em terras brasílicas deve, e deve muito.

Cairbar Schutel chegou a este mundo no século XIX, atravessou o século XX e permanece no século XXI como um exemplo nos diversos e diferentes campos em que atuou. Quase ficou conhecido, também, como o primeiro espírita a levar a doutrina ao rádio, tal era a sua capacidade de vislumbrar oportunidades de disseminar os seus princípios. A história corrigiu o engano, esta mesma história que o traz hoje ao mundo contemporâneo para nos fazer relembrar que é possível sonhar grande se a alma não é pequena...

 




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