Luiz Carlos D. Formiga

>    Ensino, Pesquisa e Ética na Microbiologia Médica

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Luiz Carlos D. Formiga
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E se os espíritas, chamados "científicos ou kardecistas", estiverem com a razão? Eles advogam que são inúmeras as evidências científicas sugestivas de imortalidade e reencarnação e que devemos estudá-las para não sermos considerados indigentes culturais, diante dos alunos de graduação da universidade de Colúmbia ou da Geórgia.

Docente-Pesquisador na Faculdade de Medicina, você também é responsável pelos valores ético-morais deles! Quase no final da aula teórica, já terminando a estatística da Sífilis congênita, você abre para perguntas. Terminar a aula um pouco mais cedo não fará nenhuma diferença e ganhará a pesquisa experimental, que já reclama a sua insubstituível presença física, no laboratório.

Como nenhum aluno faz uso imediato da palavra, e iniciam a debandada, você desconfia do seu desempenho didático.

Olha o relógio e verifica que há tempo disponível. Como é pesquisador sente-se seguro e faz incentivação:

- “Podem perguntar qualquer coisa relacionada ao Treponema”.

Lá do fundo da sala, como que querendo testá-lo, aquele aluno “problema” faz a pergunta sobre a anencefalia e o aborto. Contra ou a favor? A turma incentivada retoma os lugares e você, que fora requisitado como educador recebe outra questão. Uma aluna interessada na saúde da mulher dá a sua contribuição: Professor, e a gravidez após o estupro? O Senhor é contra ou a favor do aborto?

De forma sistemática ou não, verbal ou não, consciente ou inconsciente, intencional ou não, todos somos responsáveis, quando transmitimos valores, atitudes, tabus, preconceitos e esteriótipos.

Nessa hora você se lembra daquele antigo e paciente professor que se recusava, ao sair de sala, a discutir “o melhor ataque da seleção brasileira”. Lembra quando dizia que “o médico interfere no campo do sujeito, no seu corpo e, por vias indiretas não apenas contingentes, em sua vida pessoal, suas emoções, sua socialidade, suas economias. Por isso é a medicina uma profissão moral.”

Na hora de responder aos alunos você percebe que fez a dissociação entre ensino e pesquisa, que não deveria ser uma questão legal, mas visão de mundo.

Algumas questões parecem deixar o pesquisador desnorteado. E, você pensa. Uma pessoa-em-potencial ainda não é uma pessoa para a ética? E se fosse nossa filha? Talvez seja a próxima pergunta daquela aluna chatinha da gineco! Será que ela vai voltar a perguntar se devemos alongar uma gravidez evidentemente inconseqüente como nos fetos anencefálicos?

Uma sensação, de que o diploma e os trabalhos científicos publicados no exterior não formam o docente, começa a incomodar. Aquele outro aluno, religioso e tímido, que senta na turma do gargarejo, e que também foi fisgado pela incentivação , encontra coragem e pergunta: Professor, o Mestre acha que devemos distinguir os campos da ética e da religião?

Querendo ganhar tempo, você pergunta se há mais alguma pergunta. E ela surge fatalmente, do outro lado, fazendo a turma virar para a esquerda. Professor, você (alguns alunos não usam mais o “Sr”) não acha que a religião é sempre a expressão das convicções da fé de um grupo humano restrito e que a ética é muito mais abrangente?

Você começa a sentir vontade de fugir! No entanto, lembra da frase acima:

“De forma sistemática ou não, verbal ou não, consciente ou inconsciente, todos somos responsáveis, quando ...”

Relembrando que também somos biocomputadores você procura nos arquivos suas primeiras noções de religião e percebe que delas não se lembra. São arquivos apagados ou colocados no diretório “Lixo”. Numa última tentativa, desesperada, você vai ao diretório e constata que, ao contrário dos alunos da Universidade de Columbia, no seu curso não havia a disciplina de Religiões Comparadas. Como entender aquela recusa dos religiosos que pareciam suspeitar do problema das transfusões e a Aids? Como fazer para respeitar o universo cultural de um país católico, mas que acredita em reencarnação?

Quando o aluno tímido fala nos antigos gnósticos - Clemente de Alexandria, Orígenes, São Jerônimo e outros - você desconfia dos seus créditos de mestrado e doutorado.

Sentindo-se evidentemente mal você encontra um arquivo da época de diretório acadêmico, quando o “santo” era outro! Mas nem aí você escapa!

Um aluno protestante lembra “ser muito revelador que Marx, para destruir os hegelianos de esquerda, que também acreditavam que as palavras entram na argamassa com que a sociedade é construída, o tivesse feito justamente com o auxílio de palavras: a Ideologia Alemã.” Como bom protestante ele faz você lembrar que, na Bíblia , “No Princípio era a Palavra...”

Você parece não entender muito bem a colocação do aluno, que é filho de uma professora de didática.

De repente, você descobre que o educador trabalha com a palavra e o microbiologista com o micróbio. E, justamente nesta hora é que elas, as palavras, parecem atropelar-se respondendo ao aluno que insiste.

Professor, a ética avalia os comportamentos do ser humano enquanto ser humano, independente de qualquer convicção religiosa ou política?

Muitas vezes os alunos não perguntam porque já avaliaram a condição do docente-pesquisador!

Permite outra questão mestre! E continua, sedento, querendo beber na fonte dos conhecimentos de quem já possui alguns cabelos brancos. Você recorda que na sua época não se podia confiar em ninguém com mais de trinta anos. Mas, só agora começa a entender . Sente-se envelhecer sem amadurecer.

Mestre! A essa altura, mesmo após o doutorado você já não se sente diminuído, quando o chamam apenas de mestre. Mestre, você não acha que o estupro é uma grande injustiça por ser uma violação física e moral da dignidade da pessoa?

Você é obrigado a parar para refletir na pergunta do aluno e parece confundir, como sinônimos, a ética e a moral. Como o dicionário está distante você começa a pensar que o ar condicionado está desligado. A questão é reforçada por outro aluno que opinando que “a injúria agrava-se quando é seguida de gravidez imposta à força.”

O seu desespero parece avaliar que o binômio ensino-pesquisa está desequilibrado, tendendo para um lado. Você conclui que a culpa não é sua porque sempre desejou fazer apenas pesquisa, mas no Brasil ela é principalmente feita nas universidades do governo. O remédio foi dar algumas aulas sem grande esforço, afinal, no ensino “moderno” o aluno tem que se virar!

Por um descuido, ou ato falho, na tela do computador surge a inesquecível figura de Ítalo Suassuna, de quem a Microbiologia brasileira vai sempre se lembrar!

-“Muitos poderão aprender a metrificar ou fazer versos, mas poucos produzirão poesia; muitos estudarão ciências, mas poucos contribuirão para o conhecimento científico.”

“Como a informação é a tarefa inicial para treinar e disciplinar a mente, um desenvolvimento desarmônico com o exagero dessa etapa, tende a produzir o erudito, de quem já se disse; homens capazes de repetir o que já se sabe, todavia incapazes de criar. No campo científico, estes promovem ou criticam resultados, mas ignoram por completo, ou pior ainda, estimulam de modo negativo a lógica ou a logística de sua aquisição.”

“Outros, encantam-se com a técnica e a execução e tornam-se mecanólatras ou ritualistas, reproduzindo esterilmente os mesmos processos ou métodos que outros produziram ou descreveram.”

“Em relação a tais enganos, enquanto os primeiros repetem e repetem, os segundos confirmam e confirmam. Ambos deseducam ou desorientam para a atividade criadora. São figuras perniciosas e enganadoras em países como o nosso.”

Nesse momento você se lembra de Zeferino Vaz e faz um passeio mental pelo laboratório. Está uma graça, todo reformado! Mas, o Zeferino continua a incomodar lecionando como fundou a Universidade de São Paulo. Primeiro precisamos de cérebros, depois de cérebros e depois ainda de cérebros. Em seguida vem a biblioteca , só depois então os equipamentos.

Estaria certo o Zeferino?

Estaria certo o Suassuna?

Recordo-me que em “Educação para a Pesquisa”, em 1970-71, o nosso Microbiologista asseverava :

“Que a nossa ciência cultive essa atitude, responda ao que em torno de nós desafia a nossa capacidade, evite a moda ocasional ditada por interesses de outros povos, e realize assim uma contribuição brasileira, que possa ser somada e não confundida, destacada e não ignorada, no edifício da Ciência que é comum a todos os povos.”

Aos jovens estudantes gostaria de lembrar que falo sem interesses subalternos. Que homenageio professores que já não detêm o poder e mesmo que o tivessem já não me adiantariam muito, sou professor aposentado. Hoje dependo de outro professor - o Fernando!

Perdoem-me a digressão. Vamos voltar à sala de aula.

Você pensa numa saída estratégica, lembra do “Você Decide” e resolve fazê-los votar no contra ou a favor do aborto, só para ter uma idéia da opinião da turma.

É importante ganhar tempo, adiar uma discussão para a qual, com todos os trabalhos publicados, não se sente competente.

No fundo ficam algumas interrogações!

Problemas éticos podem ser resolvidos pela estatística, como a questão da adesividade de bactérias às células do hospedeiro? Ou, será a ética de ordem qualitativa? A base da legislação para todos os cidadãos é a ética? Estado é apenas o centro legislador para todos os cidadãos? O aborto situa-se no campo ético que é competência do Estado?

Se uma pessoa-em-potencial (feto) ainda não é uma pessoa podemos desta forma recomendar o aborto? uma pessoa-sem-potencial (paciente terminal) não é mais uma pessoa, então podemos pensar em eutanásia?

E se os espíritas, chamados “científicos ou kardecistas“, estiverem com a razão? Eles advogam que são inúmeras as evidências científicas sugestivas de imortalidade e reencarnação e que devemos estudá-las para não sermos considerados indigentes culturais, diante dos alunos de graduação da universidade de Colúmbia ou da Georgia.

Microbiologista não trabalha apenas com o micróbio. Há sempre um paciente, um aluno, enfim uma pessoa por traz deste exame ou aula.

A responsabilidade do docente pesquisador não está apenas na pesquisa e de ponta. O binômio é indissociável.

Você conseguiu gastar o tempo e a sala deve ser deixada para que o outro professor entre.

Surge uma dúvida cruel. E se eles continuarem a me acompanhar pelos corredores?

Alguns usam a estratégia de esconder-se no banheiro ou correm para o experimento inadiável.

A síndrome de aversão ao aluno tem cura, mas é como na Hanseníase, sempre fica o leproestígma.

Outra saída é o autocratismo. Aqui a parábola do bom pastor é tomada ao pé da letra. O pesquisador-professor guia ovelhas inconscientes. Devem obedecer o traçado do caminho e comer a pastagem escolhida. Mas, os alunos e colegas desconfiam deste pastor.

Um bom Pastor é ético. As ovelhas adultas são inteligentes e responsáveis por suas decisões e atos, sempre dispostas ao diálogo com “Seu Pastor” para juntos descobrirem os melhores caminhos.


Texto elaborado para discussão com alunos do Curso de Pós-graduação em Microbiologia da Faculdade de Ciências Médica da UERJ, em maio de 1998.

Publicado no Boletim - Sociedade Brasileira de Microbiologia - Notícias, 21: 3-4, julho, 1998.




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