Espiritualidade e Sociedade



Luiz Carlos D. Formiga

>    Eleição? Antes de Votar pergunte ao Candidato Sobre o Aborto

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Luiz Carlos D. Formiga
>    Eleição? Antes de Votar pergunte ao Candidato Sobre o Aborto

 

Como age o cidadão espírita em relação à política? Como vem sendo sua conduta em época de eleição?

Parece-me que a grande maioria não é apaixonada pelo tema, ficando alguns surpresos com o Dr. Bezerra.


“A política é a ciência de criar o bem de todos e nesse princípio nos firmaremos” Deputado A. Bezerra de Menezes


O cidadão brasileiro é responsável na escolha do Presidente da República. Como deve o espírita comportar-se neste momento grave? Qual a importância do seu voto? Seremos responsáveis pelos resultados do novo governo?

“O pior analfabeto é o político. Ele não houve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. Esse analfabeto se orgulha dizendo que odeia política. Mas é da sua ignorância política que nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista e corrupto.” Foi, mais ou menos, assim que disse Bertold Brecht.

Que contribuição podemos dar como cidadãos espíritas? Será que a frase corriqueira “não devemos misturar espiritismo e política” na realidade não está escondendo insuficiências e deficiências?

Se examinarmos a frase do Deputado Bezerra vamos notar que está implícita a idéia de que o homem de bem é um ser político. O que precisa ficar claro é que não devemos misturar Doutrina Espírita com política partidária. Mas podemos, num critério apartidário, examinar a ciência de criar o bem de todos. A finalidade da Doutrina Espírita é contribuir para o progresso da humanidade. Isto é pensar no próprio bem estar futuro, isto é, reencarnar numa sociedade melhor, mais justa, onde encontrará uma liderança intelecto-moral.


“Saber é o supremo bem, e todos os males provém da ignorância.“
León Denis, “No Invisível”, sétima edição, pág. 341.FEB


O espírita deve ficar atento para não repetir os erros do passado. Para tanto bastará lembrar os períodos históricos de evolução das Religiões. No início encontramos a pureza original da fé, em seguida surge a organização eclesiástica, que num outro momento sente a ambição pelo poder temporal, levando-a à decadência. Dizia o professor N.G.Barros: “o terceiro período caracteriza a ausência de confiança na maternidade do espírito. Logo, podemos concluir que a Religião deixa de ser movimento espiritualizante, para se transformar em Partido Político de conquista do Poder Temporal. Sem a conscientização de que há em nós um princípio inteligente eterno e perfectível, nenhuma Religião ou Filosofia se liberta do Poder Temporal e da Decadência Própria.”

É pertinente enfatizar que precisamos estar atentos para não deixar a Casa Espírita se transformar em comitê de campanha ou palanque de candidato. Ela deve ser apartidária e aí, também concordamos, que “Espiritismo e política não se misturam.” O espírita, como ser social, deve participar da sociedade e colaborar na sua transformação. A Casa Espírita não está impedida de orientar seus frequentadores, quanto à importância do voto consciente. A pessoa vê a sociedade como algo abstrato e fica com a sensação de que não faz parte dela, lavando as mãos.

A resposta do espírito Bezerra de Menezes nos deixa cientes da necessidade do voto consciente: “quando você votar e o país tomar o rumo, então você é responsável, porque o rumo que o país seguir, será o resultado do homem que você escolheu.”

Para o espírita, o candidato deve estar liberto do ter. Zaqueu seria, na época, um bom candidato: “Senhor, dou a metade dos meus bens aos pobres e, se causei dano a alguém, seja no que for, indenizo-o com quatro tantos.” O moço rico perdeu a eleição! Dar aos pobres talvez fosse mais fácil, o problema era seguir Jesus.

O candidato deve estar liberto do poder. Na estrada de Damasco Saulo de Tarso era o poder equivocado, mas compreendeu a verdade que o libertou.

“De boa vontade pois me gloriarei nas minhas fraquezas,
para que em mim habite o poder de Cristo.”
2 Corintios 12: 9

Uma outra característica dos políticos do futuro, líderes autênticos, é que serão “pobres de espírito”. A incredulidade zombou dessa máxima. Eruditos, doutores não entenderam a mensagem de Jesus, porque julgavam possuir muito saber e, por isso, alimentaram a falsa idéia de superioridade e infalibilidade.

Alguns dizem que o parente-candidato não é bom, mas que vão votar nele assim mesmo, porque pelo menos tirarão algumas vantagens. É o pensamento inconsciente imediatista incapaz de prever as conseqüências. O mesmo espírito Bezerra adverte: “Se você escolheu, porque tinha interesses pessoais e não os interesses da comunidade, responderá pelo carma histórico e coletivo que virá.”

E, se com essa mesma falsa idéia, diante das câmaras de TV, o candidato escolher o aborto?

Algumas pessoas, sem refletirem, defendem o aborto dizendo que a sociedade deve fazer sua opção num plebiscito. Poder-se-ia , no mesmo momento, perguntar sobre pena de morte, eutanásia e outros. Após ouví-los alguns vão chegar à conclusão que: “matar é a coisa mais natural deste mundo”.

Li, na Ciência e Cultura(37 (8): 1296-1297. 1985), um artigo que não aceitava o argumento de que o aborto “mata uma vida em formação”. Ora, diz o médico e autor, “se seguirmos esse tipo de raciocínio, teremos de admitir que os métodos anticoncepcionais também fazem o mesmo: matam pela raiz. Continua o articulista: - “o casal que evita o coito genital nos dias férteis da mulher, consciente e deliberadamente está a impedir uma criança de viver.” Seguindo a mesma linha de raciocínio, lembramos dos espermatozóides na masturbação masculina, o que, para ele, deve impedir muitas crianças de viverem. Será que, para ele, um programa de planejamento familiar não seria uma medida preventiva do aborto?

O problema não é tão simples como parece e por isso mesmo não pode ser tratado simplisticamente. O articulista de Ciência e Cultura, no entanto está coberto de razão, quando afirma que “temos o dever de nos integrarmos ativamente no debate, pois não nos cabe o direito de permanecer alheios à discussão de nenhum tema de relevância nacional.” É necessário realmente refletir antes de votar!

Não concordamos com sua tese, mas o felicitamos por discutir a questão, expondo-se com coragem. Lembramos que este é um tema mascarado e escondido por hipocrisias e tabus, que sofre pressão até internacional, além de ser um grande estimulante de radicalismos.

No Jornal do Conselho Federal de Medicina (página 10, agosto de 1994) duas cartas receberam o mesmo título: “ Aborto e Anacronismo “. Nelas, as representantes da Comissão de Cidadania e Reprodução e da CEPIA (Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação) manifestam profundo respeito e admiração pela atitude que chamaram de corajosa de dois médicos. Eles admitiram publicamente que, mesmo contra a Lei, por solicitação materna, interrompiam gestações em casos de anomalias fetais graves.

Uma professora de Filosofia, nas suas reflexões, diz que “a reivindicação do direito de decisão sobre o aborto é contestada pela Igreja Católica como negação das orientações religiosas.” E, continua: - “estranha argumentação, que parece esquecer que nem toda a humanidade é católica (ou mesmo cristã) e que aqueles que não o são devem ter o direito de optar por diferentes regras de vida.”

Isto me lembrou debate onde um ex-deputado, depois de fazer um resumo crítico do pensamento exposto pelos debatedores, acusou-os de estarem batendo sobre a velha tecla ao defenderem o voto. Disse o ex-deputado: - “Vocês me desculpem, mas já vi esse discurso. O cidadão vota, cruza os braços e vota quatro anos depois. As democracias modernas não se explicam mais apenas com modelos de representação.”

Um jornalista usou da palavra e ironizou a crítica, dizendo que o interesse do ex-deputado não era debater, mas impedir um acordo que estava começando a surgir. Para colocá-lo no que considerou o eixo do debate perguntou-lhe: “O voto é o ponto central da democracia ou não é?“ E, continuou: “Não adianta dizer que é velho. Você tem uma novidade melhor? E sabe porque é tão difícil aceitar isso? Porque dá trabalho, é lento, é chato! Porque, não é bastante ser brilhante, inteligente e ter boas idéias, é preciso ter a maioria, e isso complica as coisas!” ( O Globo, 12. O País. Sábado, 07-9-1996)

Será que candidatos à Presidência da República, por medo de se revelarem ou por ausência de reflexão, vão se recusar a discutir o assunto na TV?

Certamente alguns candidatos (deputados e senadores) vão ficar escondidos na sombra de sua covardia.

Pergunta central:
deve-se aceitar o aborto de uma jovem, gestante HIV-positiva, grávida pelo estupro?

O candidato pensará: “a gravidez vai acelerar a infecção do vírus e a mulher, já agredida pelo estupro, certamente não vai querer um filho, que vai nascer com Aids.”

Gostaria de pedir ao leitor e eleitor que nesse momento parasse e refletisse um pouco antes de responder a questão. Deve-se aceitar o aborto?

E, nessas condições?

Responda para si mesmo. Marque a resposta no parênteses correspondente para depois verificar se mudou de idéia. Sim ( ) Não ( ). Marque, também, a resposta do seu candidato ( ) Sim ( ) Não.

Somos livres para pensar e decidir. Eu, particularmente, sou contra qualquer tipo de censura, o que não é o mesmo que denunciar a “televisão” que está deseducando a população em geral e a criança em particular. É dever do cidadão, principalmente dos especialistas em saúde integral, exigir o cumprimento do disposto no Capítulo V da Carta da República, sobre Comunicação Social. A Constituição Federal, estabelece prioridades educativas, artísticas, culturais e informativas para o rádio e a televisão, afirmando que um dos princípios que devem guiar a programação é o respeito aos valores éticos e sociais.

O Artigo 220 recomenda a criação de meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas de rádio e TV. Não podemos deixar de lembrar que a família, base da sociedade, tem proteção especial do Estado e é dever da família e do Estado assegurar à criança e ao adolescente acesso à cultura, à dignidade e à convivência familiar e comunitária.

O Ministério Público Federal deve tomar as providências que lhe cabem no sentido de fazer cumprir o disposto na Carta da República. Qual a colaboração que o candidato, em quem você votou, tem dado nesse sentido?

O Carlos Eduardo Novaes era colecionador de pérolas políticas e disse certa vez que “os maus governantes são eleitos pelos bons cidadãos que votam mal.” Alguém pode querer manipular o que foi dito e é necessário enfatizar que o voto é o centro da democracia. Podem falar mal, botar milhões de defeitos, podem dizer que o processo é enfadonho, trabalhoso, lento, digam o que quiserem, mas os cientístas ainda não descobriram algo melhor.

Em uma coisa temos que concordar com o Novaes: “O maior defeito da democracia é que somente o Partido que não está no governo sabe governar.”

“Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.”
Mateus, 5

E sobre o aborto? Qual a posição do seu candidato? E a sua? Gostaria de modificar a resposta oferecida naquele primeiro momento? Ainda há tempo!

Na época em que estudei os aspectos legais e éticos do abortamento o capítulo VI do Código de Ética, que trata da responsabilidade profissional médica, dizia que o médico responde civil e penalmente por atos profissionais danosos ao cliente, a que tenha dado causa por imperícia, imprudência, negligência ou infrações éticas (artigo 45). Será muito diferente para os profissionais da Comunicação Social?

O aborto é um tema que origina hoje reações extremadas, em países desenvolvidos, resultando em sérios problemas de segurança, como descrito por Sampaio ( Reformador, pág.176-179, junho de 1998): “Certo Pastor de uma igreja fundamentalista passou quatro anos preso por colocar bombas em dez clínicas onde o aborto era realizado. Sua agressividade chegou a tal nível de insanidade que, solto persiste em sua cruzada, e é responsável pela origem de plásticos para serem colocados em vidros de veículos com a seguinte sugestão: Executem os Aborteiros Assassinos.”

Na sociedade que ainda dá os primeiros passos da evolução, a luta, que se deveria processar no campo das idéias, se transforma em agressões físicas. O movimento religioso, deturpando os verdadeiros valores produzem as “guerras-santas”. A liberdade de credo é constitucionalmente garantida no Brasil, mas já existem ensaios de violência de alguns que se dizem religiosos. Recentemente, houve uma manifestação ruidosa em um “Shopping”, pasmem, no Rio de Janeiro, contra um espetáculo teatral, onde o Codificador da Doutrina Espírita estaria representado.

A idéia de imortalidade e reencarnação apavora tanto quanto a do “Príncipe da Trevas”. É tão difícil produzir argumentos racionais contrários à primeira, quando favoráveis à segunda! Diante da impotência e do desespero só resta a eles uma alternativa. Aí o argumento às vezes é muito forte!

O médico não deverá provocar o abortamento, salvo quando não houver outro meio de salvar a vida da gestante ou quando a gravidez resultar de estupro, mas sempre depois do consentimento expresso da gestante ou de seu representante legal ( Código Penal, art. 128).

“É na consciência humana que se encontram os princípios
que darão autoridade para todos,
quando forem proclamados pela vontade nacional
e convertidos em leis pelos eleitos do povo.”
León Denis (6)

Uma de minhas filhas fazia o internato no Hospital. Lá ela recebeu e trouxe para casa um “material didático” que trazia o título: “Pratique Solidaried’Aids”. Nele encontramos “os dez mandamentos da luta contra a Aids”. O primeiro era: “Amarás a vida sobre todas as coisas”, e, o quinto, “Não engravidarás nem amamentarás sendo HIV positiva.”.

A gestante, da questão central, recebeu estas informações.

E, se o feto foi gerado sem os hemisférios cerebrais (anencéfalo)? Isso, também, acontece na vida real!

Questões semelhantes nos fizeram escrever o livro, “Dores, Valores, Tabus e Preconceitos” (ver livraria do geae - http://www.geae.org), porque raciocínios como estes muitas vezes transcendem o espaço de um artigo.

O leitor gostaria de pensar novamente na questão originalmente proposta? Lembremos a existência de um dado complicador, o estupro. É uma questão complexa como aquela que ocorreu durante a tempestade no mar.

Num naufrágio mãe e filha única se separam. As ondas afastam a filha. De repente uma outra criança agarra-se à mãe. O que fazer? Salvar a criança, que tem nela a última chance de sobrevivência, ou largá-la e procurar salvar a própria filha?

A vida isolada é a vida egoísta, a vida selvagem;
a vida em comum é a vida moral, que faz nascer o direito e o dever...”
Denis

Como devemos agir? Como justificamos o agir?

Todas as decisões implicam num processo de escolha, que é precedido de julgamento, que por sua vez é determinado, entre outros fatores, pelo valores pessoais daqueles que decidem. Os valores ou a formação de valores, por sua vez, são uma conseqüência das atividades dos indivíduos dentro de um meio social. É bom lembrar que a influência de valores pessoais em julgamentos muitas vezes não é consciente.

Será que o leitor respondeu, a questão central deste texto, de modo inconsciente?

Existe estudo informando que o direito de matar o nascituro, em ambiente hospitalar, não diminuiria o aborto ilegal ou clandestino. Este argumento, utilizado a favor do aborto, é assim muito desvalorizado.

Você exclamaria: mas é um caso de estupro! Recuso-me a aceitar uma gravidez que se originou de um ato violento.

E, tem toda a razão, pois é difícil aceitar que a Justiça Divina se valha de um expediente tão sórdido para provar ou punir. Que Deus é esse que ainda deixa a criança nascer com Aids? Aliás este Deus é hoje responsável por tantas outras coisas!

Alguns deseducadores religiosos, que trabalham com a Pedagogia do medo, substituem o Deus por outra “divindade” capaz de fazer o grande milagre, o de extrair dólares de pessoas ingênuas.

Todos um dia saberão que temos guias espirituais que nos protegem e que nos falarão a respeito de que estamos aqui para aprender; do propósito superior de nossas vidas. No entanto, respeitando o livre arbítrio individual, nos permitem prosseguir numa situação se assim o desejarmos. Eles têm o cuidado de não eliminar nossas lições. Se estivermos avançando na direção de algo que irá nos ensinar uma lição valiosa porém difícil, eles poderão nos mostrar maneiras mais alegres de aprender a mesma coisa. Se resolvermos persistir no caminho original, eles não tentarão impedir-nos. Cabe-nos escolher a alegria, mas caso aprendamos melhor através da dor e do esforço, os guias espirituais não os afastarão de nós ( 9 ). A Doutrina dos Espíritos nos ensina que o acaso não existe no universo, onde Leis Divinas e justas regem a vida física e moral.

Alguns médiuns nos deixam estupefatos.

Nostradamus previu a decapitação do Duque e deu o nome do carrasco, que foi escolhido “ao acaso”, na hora. Isto 66 anos após a morte do médico francês (1503-1566). O cálculo matemático da probabilidade desta predição estaria na proporção de um para cinco milhões contra o acaso.

Conheci uma pessoa que não consigo esquecer. Fomos visitá-la e, para não ir só, convidei um amigo. Era uma visita fraternal porque o nosso amigo estava numa enfermaria. Quando chegamos, encontramos um grupo que tinha ido levar a bioenergia aos pacientes. Ao perguntarem quem rogaria ao Pai, antes do passe, o meu amigo “enfermo” se ofereceu. Eu e o outro, sentados com ele na cama, ouvimos sua prece que arrancou lágrimas de todos. Marcondinho agradeceu a Deus, justo e bom, pelo dom da vida. Agradeceu à sua mãe a oportunidade da reencarnação e às Entidades Venerandas, através de Kardec, pela Codificação da Doutrina Espírita, que ele aprendera a amar no Centro Espírita Filhos de Deus, A Casa do Caminho, no Curupaiti. E, onde ele havia adquirido resistência moral contra as dores.

Se a mãe de Marcondinho soubesse que a Hanseníase, na época sem tratamento, o deixaria cego, com os braços e as pernas atrofiados, levando-o à cadeira de rodas; se ela soubesse dos seus sofrimentos, talvez tivesse feito a opção pelo aborto. No entanto, teve um filho amado e inesquecível, também para outras pessoas. Os espíritas vão entender quando eu disser que o Marcondes trabalhava na reunião mediúnica e teve oportunidade de ajudar espíritos desencarnados, que ainda estavam sofrendo com o estígma da lepra e as seqüelas da hanseníase.

Marcondes havia entendido a frase registrada por Marcos, Lucas, Mateus e João, que é estudada no Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XXIV, ítem 18.

“Se alguém quiser vir nas minhas pegadas,
renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.”

“Bem aventurados os que choram, porque serão consolados”
Mateus, 5


Emmanuel pede que reparemos, em plena Natureza, todos os elementos, que em face do mal, oferecem o melhor que possuem para o reajustamento da harmonia e para a vitória do bem. “Quando o temporal parece haver destruido toda a paisagem, congregam-se as forças divinas da vida para a obra do refazimento. O sol envia luz sobre o lamaçal, curando as chagas do chão. O vento acaricia o arvoredo e enxuga-lhe os ramos. O cântico das aves substitui a voz do trovão. A planície recebe a enxurrada, sem revoltar-se, e converte-a em adubo precioso. O ar suporta o peso das nuvens e o choque da faísca destruidora, mas torna à leveza e à suavidade. A árvore de frondes quebradas ou feridas regenera-se, em silêncio, a fim de produzir novas flores e novos frutos. Aprendamos a receber a visita da adversidade, educando-lhe as energias para proveito da vida. A ignorância é apenas uma grande noite que cederá lugar ao sol da sabedoria. Entendamos o bem”.
(Fonte Viva, decima nona edição, p.85-86, FEB).

Com esse pensamento Paulo se dirigiu aos companheiros:

“Não te deixes vencer pelo mal, mas, vence o mal com o bem.”
Romanos, 12: 21.

Voltemos à questão central!

Que estigma! Filho de um estupro!

Tendemos a acreditar que alguém com um estigma não seja um ser humano. Com base nisso, fazemos discriminação, reduzimos sua chance de vida, como o fizemos com os antigos leprosos, com a filha da prostituta ou com o ex-presidiário.

Hansenianos e indivíduos HIV positivos são portadores de um estigma mais do que de uma doença. Antonio Magalhães Martins, autor do livro “Do Outro Lado Da Fronteira” disse certa vez que eu jamais teria possibilidade de entender o que é ser discriminado como leproso. Mas, o seu livro é tão esclarecedor! Disse-lhe na ocasião. Ele retrucou: “experiência vivida não pode ser transmitida”. Esta foi a resposta de minha mulher, quando indaguei sobre a dor do parto.

Será Deus tão injusto? Mas, se for injusto deixa de ser Deus! Como compreendê-Lo?

Luciano dos Anjos (1) escreveu que não devemos nos cansar de pesquisar, discutir e conceber a Eterna Substância, que deve ser ainda um dos primordiais - senão o único - objetivos filosóficos da criatura. Comenta que após um politeísmo esdrúxulo, embora acalentando-o com a unicidade mosaica desse Criador, nada melhor nos apresentaram além de um Deus antropomorfo, pessoal e todo-poderoso. A conseqüência natural é o ateísmo, quando não leve direto ao materialismo absoluto.

No livro de uma professora de filosofia, formada pela USP, nas suas reflexões finais ela diz que “numerosas investigações científicas parecem atestar que o número de óvulos fecundados, que são expulsos espontaneamente, antes da implantação no útero, é extremamente elevado - cerca de 30%. No entanto, continua a pensar a professora, há argumentos religiosos que insistem que a alma passa a pertencer ao novo ser no momento da fecundação.” Em seguida, pergunta: “qual o destino dessa alma que tem seu futuro interrompido precocemente por um Deus tão esbanjador?”  
(Maria Tereza Verardo.1987. Aborto. Um direito ou um crime. Editora Moderna)

Certamente se fôssemos esse Deus, também não faríamos melhor!


“Não há, não houve, não haverá poesia.
Vencido o silêncio, a palavra é mutilação.”
J.G. de Araújo Jorge, apud L. Anjos


O espírita, que é jornalista e escritor diz que não é fácil concebê-Lo ( embora talvez não seja impossível) fora dessa idéia em que a maioria das religiões e das escolas filosóficas O apresentam. Mas é preciso compreender que, afinal, é exatamente fora dessa idéia que Ele se encontra e daí a dificuldade mesma de entendê-Lo.

“Arte é ânsia de conter o infinito numa expressão.”
Gilka Machado, apud L. Anjos


Após passar rapidamente em revista algumas escolas filosóficas, o escritor, nos mostra o esforço de muitos que tentaram resolver a Grande Equação. Definições e conclusões enquadram-se , duma forma ou doutra, dentro de três posições fundamentais para explicar Deus: o Ateísmo, o Panteísmo e o Teísmo. O Teísmo, sem dúvida, foi que mais se aproximou da verdade, porém, ainda assim, apenas nas suas linhas gerais. Adotou a melhor posição teológica no quadro genérico das concepções. Todavia não soube avançar na explicação detalhada. E, quando o fez, fê-lo mal.


“Deus! O terrível problema! Quando a ciência chega aqui, ou emudece ou blasfema.”
Guerra Junqueiro, apud L. Anjos


O leitor já percebeu que não há intenção de nossa parte em desenvolver a questão como alguns gostariam de ver desenvolvida. Por isso, é que sugiro a leitura da obra, colocada nas referências bibliográficas, para que possam apreender o pensamento do autor. Cabe-nos transcrever, ainda, que “ninguém se aproximou tanto da concepção de Deus, capaz de suportar o raciocínio moderno, do que o monismo vedantino.”


“Uma generalização que termina num Deus pessoal não pode ser universal,
não pode ser verdadeira.
Temos de ir adiante, ao Impessoal.
O Deus Impessoal que propomos não é um Deus relativo;
por isso não se pode dizer que ele é bom ou mau,
mas que é algo além do bem e do mal,
porque não é bom nem mau.”
Swami Vivekananda, apud L. Anjos


Anjos, L. (1) diz : “ importa esclarecer bastante um aspecto da questão: Deus impessoal na transcendência e pessoal na imanência já se propôs e representa de fato um grande passo na direção da Verdade; entretanto, o Deus que proponho é IMPESSOAL NA IMANÊNCIA E NA TRANSCENDÊNCIA”, dentro de um absurdo que analisou posteriormente.

Informação pertinente é que o autor, depois de inúmeras reflexões afirma que a melhor explicação de Deus, sem dúvida, há de ser aquela dada pelos Espíritos a Allan Kardec, por vários motivos e, ainda, porque se houvessem ido mais além nos confundiriam a razão.

“Que é Deus? - Deus é a Inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.”

Anteriormente, discutindo as condições da vida após a morte, aproveitando a dúvida apresentada por um médico, nos socorremos do depoimento de um outro. O médico André Luiz retorna à nossa dimensão graças a extraordinária mediunidade de Francisco Cândido Xavier e conta com detalhes a sua experiência do outro lado da vida. Para ilustrar o pequeno capítulo utilizamos as experiências de quase morte, quando as pessoas se lembram de sua breve passagem do outro lado. Comentamos que a nossa ansiedade nos faz desafiar uma pessoa, que passou pela experiência autoscópica, a provar que a morte do corpo não mata a vida. No entanto, observa-se que estas pessoas não estão interessadas em fornecer tal prova a terceiros. Uma delas disse: “Quem teve a experiência sabe. Os outros devem esperar a prova final”.
Dores, Valores, Tabus e Preconceitos. CELD Editora

Para as pessoas que tiveram a experiência do “Transcendente”, a existência de um Deus Imanente e Transcedente não é uma questão de crença infundada, mas um fato baseado numa vivência direta. Assim como nossas atitudes acerca da realidade material da nossa vida diária são baseadas, primeiramente nas percepções sensíveis.

Guardadas as devidas proporções este comentário faz lembrar o de Erick Fromm quando afirmou que “o inconsciente só o é em relação ao estado normal de atividade”, “são simplesmente estados mentais diversos, que se referem às modalidades existenciais diferentes.” Assim, podemos admitir que a mente consciente constitui apenas parte do psiquismo total. Existe uma vida psíquica chamada de “inconsciência”. Esta atividade psíquica é o principal protagonista, quando o sono retira a outra de cena. Na realidade o inconsciente acha-se representado naquela fração do sonho que se registra na memória consciente.

“Se eu quiser falar com Deus tenho que aceitar a dor, tenho que comer o pão que o diabo amassou,
tenho que virar um cão, tenho que lamber o chão dos palácios suntuosos do meu sonho,
tenho que me ver tristonho, tenho que me achar medonho e
apesar de um mal tamanho alegrar meu coração.”
Gil



Você também lembrou do Marcondinho?

Devemos permitir que uma mulher portadora do vírus da Aids fique grávida?

Ja se falou até na esterilização de homens HIV positivos, embora não haja justificativa de ordem ética ou legal capaz de legitimar esta prática.

E se a mulher HIV positiva desejar ter um filho? Não discutimos o valor do diagnóstico precoce permitindo à mulher evitar a gravidez. Mas, e se ela já estiver grávida? Legalizado o aborto, o médico que se recusar a fazê-lo poderá ser demitido por justa causa?

Quando estamos diante de um dilema devemos discuti-lo e só tomar uma decisão após profunda reflexão. Quando discutimos estamos perguntando a resposta a Deus. Ele nos responde quando estamos fazendo a reflexão, com profundidade e extensão. Há, então, maior lucidez, aumento do nível da consciência, local onde estão escritas as Leis Divinas.

Por isso oramos, antes da decisão.

“É da discussão que nasce a luz”

Ouvi, certa vez, uma discussão, diálogo, entre duas pessoas ( 8, 16 ). Uma delas havia enfrentado, com muita angústia, um aborto espontâneo. Percebi que, embora fossem do mesmo credo, apresentavam posições antagônicas. Senti vontade de entrar na discussão, sem ser convidado, mas observando anteriormente que eram materialistas resolvi ficar, discretamente, escutanto.

Muitos têm fé no niilismo, como elas, e acreditam na inexistência de vida após a morte, embora esta tese seja defendida sem nenhuma evidência experimental que a suporte. Até hoje ninguém provou que não existe vida depois da morte, mas, alguns defendem quase fanaticamente essa idéia. Sem saber se estaria diante de uma delas, resolvi recolher-me à minha insignificância. As pessoas de credo materialista, acreditam no nada, geralmente se recusam a olhar pela janela espiritualista, que fica no lado oposto do cômodo. O fanático é cego às evidências científicas acumuladas e que apontam na outra direção.

Afirmo que o Corynebacterium diphtheriae produz porfirina, que é fluorescente sob luz U.V.. O pigmento fluorescente pode ser facilmente pesquisado e usado como triagem no diagnóstico laboratorial da difteria (12). Afirmo, porque tenho evidências experimentais que suportam essa afirmação, mas ninguém até hoje me deu evidências de que a morte do corpo mata a vida.


“Richet disse que uma boa e completa experiência vale por cem observações, e acrescentaremos: vale dez mil negações, ainda mesmo quando essas negações emanassem de sumidades de maior notoriedade, se estas não se dignassem repetir as experiências e demonstrar-lhes a falsidade”
Gabriel Delanne, 1893


Voltemos ao diálogo entre as duas senhoras.

Uma opinião apresentada por uma delas, a de que o aborto é um direito, foi o que me chamou a atenção. Vivemos nos equilibrando entre direitos e deveres!

Disse: “a campanha pela legalização do aborto deve seguir na direção pura e simples do direito de abortar, não necessitando, a mulher, explicar que há problemas com o feto ou que foi estuprada. O aborto não deve ser considerado crime e o argumento que invoco é um só. A mulher pode dizer que não quer este filho e que seu corpo lhe pertence. Este é o projeto de lei pelo qual anseiam as mulheres."

Diz a outra:

“mas, aqui o direito de um implica na morte do outro. Não podemos auto-atribuirmos a decisão e a ação de matar o outro. Isto é questão de poder acumpliciado a uma licença ética. É exatamente o que se dá com o político que leva o povo à guerra; dá-se ainda com o terrorista, com o torturador, com os assassinos de todos os matizes. Poder e não-ética associados produzem todas as lesões ao outro: o roubo, a censura, o seqüestro, a lista é longa”.

León Denis ( 6 ), que foi um orador brilhante, fez uma conferência em Tours, na sala do Cirque e posteriormente em Orléans, na sala do Instituto, em fevereiro e abril, respectivamente. A acolhida que lhe foi feita, e o convite insistente de um grande número de ouvintes, permitiram que hoje pudéssemos estudá-lo. Nele Denis diz: “nós que desejamos uma ordem social baseada na Justiça e na Liberdade, façamos inicialmente, justos e virtuosos a nós mesmos, tornemos nossos corações livres, as razões esclarecidas, os costumes dignos, as consciências honestas e marchemos nós, em frente, sem fraquejar.”

Voltemos ao diálogo das duas amigas.

Em defesa de suas idéias, continuou a senhora: “o aborto não é um direito, é uma possibilidade decorrente do poder e da anestesia da consciência, como escravizar o negro, matar judeus.”

“A Idade Média foi a idade de ferro, a idade do feudalismo,
a idade onde as fogueiras crepitaram,
onde o sangue corria em torrentes nas salas de tortura,
onde as incontáveis forças se erguem com os seus frutos sinistros.”
Denis

Como que se não tivesse escutado os argumentos apresentados, surge a réplica:

“A legislação do aborto não dá à mulher autonomia sobre seu corpo. Precisamos entrar na modernidade! Estamos atrasados em relação à Itália, Alemanha ou à França.”

O leitor também já ouviu essa conversa antes, não?

Alguns acreditam que o que se USA lá deve-se USAr cá!

Nem nos EEUU a lei é abrangente!

“Sim”, concorda a outra. “Mas, não seria o caso de ampliar a informação sobre anticoncepção? Usar do direito de não engravidar, nestes dias modernos de Aids, usar a camisinha e exigir a colaboração do companheiro? Afinal, a eficiência dos anticonceptivos é próxima de 100%! “

“É, mas um dia a casa cai e você aparece grávida, minha filha! - disse a outra."

A resposta veio na ponta da língua: “mas a culpa é do bebê?” O óvulo é seu. O útero, também, mas o ovo fertilizado é outra pessoa!


“Na alma humana existe um sentimento natural que a eleva acima de si mesma para um ideal de perfeição no qual se resumem essas potências morais denominadas o Bem, a Verdade e a Justiça. Esse sentimento, quando está esclarecido pela Ciência, quando é fortificado pela razão, quando tem por base essencial a liberdade de consciência, da consciência autônoma e responsável, esse sentimento é o mais nobre de quantos possamos conhecer.”
Denis


Pudemos ouvir o silêncio, enquanto a outra engolia em seco, embora não se desse por vencida.

“Sim, mas enquanto os t-e-ó-r-i-c-o-s, como você, discutem se o feto com duas ou com quatro semanas já é uma pessoa, a mulher engrossa as estatísticas. Você sabia, minha cara, que nos meados de 1985 o aborto era a quarta causa de morte? Que o INAMPS gastava 46% do orçamento de obstetrícia em complicações causadas pelo aborto? Que a Organização Mundial de Saúde indicava, em 1978, a ocorrência de 3 a 5 milhões de abortos anuais no Brasil e que isso representava 10% dos casos no mundo? As mulheres pobres vão continuar abortando com agulha de tricô?

A conversa estava tão quente que resolvi escutar ainda mais discretamente. Conclui que a intuição mais uma vez havia me favorecido. Afinal poderia sobrar pra mim. E se uma delas resolvesse olhar na minha direção e me perguntasse: “o senhor não acha?”

Eu não poderia ser indelicado e responder: “Eu não acho nada, minha senhora!”

De repente a outra, olhando para minhas mãos e, como se quisesse me envolver na discussão disse: “Espera aí, vamos entrar nessa de que o Ministério da Saúde adverte... e, gastar fortunas dos recursos públicos, para tratar enfisema e câncer pulmonar que apareceram por causa de uma droga socialmente aceita?

“Minha amiga”, falou com tom de piedade, “não seria melhor investir numa estrutura melhor para gerar filhos? Investir em creches e oferecer orientação sobre contracepção? O país já tem os sistemas de comunicação bem desenvolvidos é só questão de vontade política fazer a opção pela educação!” e, arrematou: “Isto não é o mesmo que colocar o aborto na lei e a consciência fora da lei?”

Nesta hora achei que a outra não ia conseguir sair da lona, enquanto eu, o juiz, contava até dez.

“Há pessoas com nervos de aço.”
Lupicinio Rodrigues


Como lutador de excelente preparo físico ela ficou de pé, e: “Ora, minha amiga, estamos discutindo a existência de alguém que ainda nem é uma pessoa. É apenas um amontoado de células. Eu estou defendendo a mulher e você vai ficar defendendo um feto!”

“A mulher é sempre ignorada. Essa é a grande questão do nosso século. As mulheres que abortam, no Brasil, não o fazem por opção. Quando falo no direito de abortar falo em direito à vida humana, decente e digna. É preciso existir estrutura para gerar filhos, foi você mesma quem colocou!”

E agora, você já descobriu qual possui a capacidade maior de argumentar e contra-argumentar? As mulheres que defendem os seus direitos precisam ser ouvidas. Eu sou a favor da competência, esteja ela de saia ou não.

“Sim”, veio a resposta: “e deve ser aí que devemos gastar a nossa energia e não tentando desumanizar o outro! Sempre que se quer humilhar, castrar, limitar ou matar o outro, recorre-se a esta técnica consagrada. O primeiro ato é des-humanizar. Se o embrião é um VIR A SER, mas NÃO É ainda por que não suprimi-lo em favor dos que SÃO?

Hitler e Stálin tinha idéias, até nobres, pelas quais se auto-atribuíram o direito, e até o dever, de matar judeus, dissidentes, capitalistas, comunistas e católicos.

O que se quer é “des-humanizar” o embrião para adormecer as consciências com uma legitimidade.

A ciência não tem uma definição de vida, portanto não pode justificar um procedimento tão grave sobre o que desconhece.”


“Há pessoas com nervos de aço, sem sangue nas veias e sem coração.”
Lupicinio


Eu não sei onde esta conversa foi parar, mas ela me estava fazendo pensar tanto, que já me sentia cansado. Foi com certa contrariedade que tomei o ônibus e deixei as senhoras com as suas reflexões. Mas, ainda consegui ouvir:

“O Brasil continua na Idade Média em relação à condição da mulher."

Para essas mudanças chegarem, precisamos de pressão e conscientização.”

Creio que os três concordávamos, aí não tínhamos dúvidas! Pressão de ambas as partes, favorecendo a reflexão. E, conscientização ampla, geral e irrestrita, sem escamotear os argumentos espiritualistas.

O Boletim Informativo AJA/PB (Ano 1, número 6, julho-setembro, 1996), nos lembra que pouco antes da Guerra de Secessão, em 1857, a Corte Suprema dos Estados Unidos declarou que o negro não era pessoa ante a lei por sete votos a dois. Um século mais tarde, em 1973, no caso Roe X Wade também por sete votos a dois, a mesma Corte Suprema declarou que o nascituro não era pessoa ante a lei. Os argumentos foram semelhantes: 1. (1973) Toda mulher tem direito a fazer o que queira com o seu corpo, (1857) todo homem tem direito a fazer o que queira com a sua propriedade; 2. (1973) Ainda que possua um cérebro e biologicamente seja considerado um ser humano, o nascituro não é pessoa ante a lei, (1857) Ainda que possua um cérebro e biologicamente seja considerado um ser humano, o negro não é pessoa ante a lei; 3. (1973) Acaso não será o aborto mais humanitário? Afinal não têm todos os bebês o direito de serem desejados e amados? Não é melhor que a criança jamais chegue a nascer do que enfrentar sozinha um mundo cruel? (1857) O negro não tem direito a ser protegido. Não é melhor ser escravo do que ser enviado sem preparo a um mundo cruel? E, por aí vai!

Voltemos à questão original. Você é contra! Não gostaria de pensar de novo, rever a resposta?

Você é contra o aborto e defende a manutenção de um óvulo fecundado ao mesmo tempo que condena à morte prematura uma mulher, que deixará outros filhos órfãos?

É melhor evitar o nascimento de milhões de crianças sem família, sem lar, sem proteção e que serão os marginais do futuro ou os jogadores da seleção, que irão perder ou ganhar novamente o campeonato mundial de futebol. Será que o direito à vida deve ficar atrelado a classe social privilegiada?

Agora, o leitor, está começando a entender as nossas raras lideranças generosas que lutam por oferecer o aborto através de nossa rede pública. Vamos voltar a esse assunto mais adiante. “Me aguarde!”

Na realidade o que está por trás deles é a insensibilidade, que se acompanha do medo. Medo de dividir o bolo da riqueza nacional.

“Bem aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.”
Mateus, 5


Alguns vão parar de ler neste momento. Irão argumentar que o assunto e muito difícil ou alegar que já estão cansados de pensar. É assim que cometemos os maiores crimes. Não gostamos de pensar e tomamos decisões de forma irresponsável e inconsciente. Alguns se recusam a examinar as evidências científicas da imortalidade da alma e os diversos casos sugestivos de reencarnação, publicados por pesquisadores competentes e sérios. São incapazes de perceber que a questão da sobrevivência da alma, depois da morte física, é tema crucial para a educação, porque pode influenciar a hierarquia de valores, padrões éticos, códigos morais e comportamento dos seres humanos.

Aqueles que se recusam a discutir esta questão tornam-se cegos. Não sabem que os recentes progressos no novo paradigma da Biologia e da Física fortaleceram ainda mais as evidências de que a consciência humana sobrevive à morte do corpo físico. Morre a persona, mas a individualidade é indestrutível. Seu destino posterior é um tema que merece reflexão. Onde ficam empilhadas as almas depois que perderam seus envoltórios materiais?

O Brasil faz milhões de interrupções de gravidez anuais. Nossas enfermarias recebem um grande número de mulheres, na maioria adolescentes, apresentando complicações decorrentes desta prática. Isto aumenta o índice de mortalidade materna que é dezenas de vezes maior do que a mortalidade nos países desenvolvidos.

Você é favorável ao aborto e afirma que a mulher é dona do próprio corpo.

Sim, ela é e concordamos.

Defendendo veemente a posição, você arremata: o feto é simples apêndice da mãe, não sendo pessoa humana não possui direitos!

No entanto, a partir do momento em que uma pessoa é gerada ela tem as mesmas características e direitos que qualquer outra.

O aborto é um tema que precisa ser amplamente discutido pela sociedade. Até mesmo a classe científica deixa a desejar. Relata Gollop que em 1976, quando levantou em plenário da Sociedade Brasileira de Genética, a necessidade de profunda discussão acerca da mudança na lei do aborto a resposta do plenário fê-lo chegar à indignação: “esse é um problema dos obstetras! Nós, geneticistas apenas faremos os diagnósticos.”

Outra evidência da necessidade de socializar esta discussão é o desconhecimento por parte das aflitas gestantes de que 94% dos exames é tranqüilizador e permite ao casal levar adiante uma gravidez livre de angústias. Os resultados obtidos com 348 entrevistas realizadas com gestantes que se dirigiam ao diagnóstico pré-natal, demonstraram que 86% delas optariam por interromper a gravidez, caso o diagnóstico revelasse um feto anômalo.(Gollop, T.R. & Pieri, P.C. “A reformulação do código penal versus Juiz autoriza aborto no Paraná”, Pediatria Moderna, 24(3): 382-383, 1994). Estes números parecem indicar a necessidade de um amplo trabalho de educação integral que pudesse aumentar o nível de informação e formação não apenas neste campo restrito.

O interesse pela Medicina Fetal não deveria ser movido apenas pelo fato de conferir maior “status” aos Departamentos de Obstetrícia e Ginecologia.

Concordamos com Gollop quando lembra a importância do respeito pela pluralidade de idëias e pelo livre arbítrio dos seres humanos e discordamos dos que acreditam deter o privilégio de toda a informação.

“O estado social valerá o que nós valemos.  
Se nós somos retos, justos, esclarecidos, o Estado será grande;
se somos pequenos, ignorantes e viciosos, o próprio Estado será frágil e miserável. Portanto, o progresso social só o é possível com o progresso de cada um de nós.”

Denis

Mas, o feto é apenas um apêndice da mãe!

Consultemos a Embriologia ( 13 ). Logo após a fusão da membrana celular do espermatozóide com a do ovócito acontece também a fusão dos seus dois pronúcleos. Nos pronúcleos estão os cromossomos masculino e feminino. Em seguida aparece um novo e único núcleo, o zigoto fertilizado. Este momento marca o ponto zero do desenvolvimento embrionário. A partir daí temos um novo potencial genético e o zigoto diferencia-se completamente do organismo da mãe.

É muito baixa a percentagem de óvulos fecundados que naturalmente são capazes de nidar no útero materno e evoluir a embrião. Desta forma, podem ocorrer concepções que não evoluem para o embrião e que são mascaradas pelo ciclo menstrual.

Admite-se que o espírito, com o seu “corpo espiritual”, modelo organizador da forma, perispírito, será atraído pela molécula do ácido desoxirribonecléico (DNA), por isso na clonagem se faz a célula regredir à forma blástica ( 14 ). Do ponto de vista físico-químico, o DNA não difere de qualquer molécula do organismo, mas no aspecto estrutural, diferencia-se por funcionar como uma lente atratora-redutora. A molécula do DNA atrai as energias perispirituais e materializa-as, permitindo a transdução dessa matéria quintessenciada para a matéria biologica.


“Semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual.
Se há corpo animal, há também corpo espiritual.”
I Coríntios, 15: 44

No caso do laboratório, para fazer um campo atrator para o espírito reencarnar é preciso uma molécula com a formação lenticular como a do DNA, sob as condições da fase embrionária ou de totipotência. O conjunto dessas forças leva à materialização do corpo, ao nascimento. Há uma malha eletromagnética extra-atômica, ligada por uma espécie de túnel com a malha de forças intra-atômicas, representada pela força nuclear fraca, a qual, por sua vez, tem ligação com a energia flutuante quântica do vácuo. Nesse vácuo atômico tem-se todo um campo de grávitons que vai fazer com que haja a agregação de matéria. Os genes têm capacidade de concentrar ectoplasma e transformá-lo em fótons, empacotando-os sob a forma de trifosfato de adenosina (ATP). Mas, não basta apenas a abertura dos genes da ontogênese para haver reencarnação. A estrutura genética é um agente predisponente, mas não determinante. Nesse caso, os fatores espirituais vão ser determinantes. Pode-se dizer que o útero é “uma câmara de materialização de espíritos”.

Impossível não lembrar as experiências de William Crookes, com a médium Florence Cook, que oferecia suporte ectoplamático para que esses fenômenos energéticos ocorressem e possibilitassem a materialização do espírito Katie King. Vale a pena procurar e ler um outro caso ( 9 ) descrito pelo professor N.G. Barros.

“Não digo que isso seja possível; afirmo que isso é uma verdade.”
William Crookes

No zigoto fertilizado para que haja agregação da matéria é necessária a atuação de uma força gravitacional, tendo-se então uma atração de massas para o corpo que vai sendo formado por células que vão se aglomerando.

Neste processo temos um espírito e também um corpo formando um ser único, específico e peculiar. Isto é, não repetível e capaz de comandar, por si só, todo o processo de diferenciação até a formação integral do novo ser.


“Compreendei agora quanto é necessário que cada um de nós se esclareça e se aperfeiçoe, quanto é necessário que o julgamento de todos se fortifique, porque, eu vos pergunto, que faríamos dos direitos e das liberdades se não soubéssemos empregá-los com sabedoria, com discernimento.”
Denis

A curiosidade pode ser muita, mas não devemos apressar o futuro, quando aprenderemos, na outra dimensão, a “chutar uma lata”ou fazer “flutuar uma moeda”. O suicídio é uma falta grave!

“M.J.-B.D. era um homem instruído, mas em extremo saturado de idéias materialistas, não acreditando em Deus nem na existência da alma. A pedido de um parente, foi evocado, na Sociedade Espírita de Paris, dois anos depois de desencarnado”.
( Kardec. A. 1865. “O Céu e o Inferno”, 25 edição, segunda parte, capítulo V, pág. 312. Suicidas, Um ateu. FEB)

“P. - Quando vos afogastes, que idéias tinheis das conseqüências? Que reflexões fizestes nesse momento?”

“R. - Nenhuma, pois tudo era o nada para mim. Depois é que vi que teria de sofrer mais ainda.”

Segundo Kardec, para os duros de coração que nasciam sem a intuição da prova da existência de Deus e da vida futura, era muito difícil esta aquisição durante a vida corporal e a custa do próprio raciocínio.

Hoje, com os avanços científicos e tecnológicos, a imortalidade e a vida futura regida por Leis Divinas, são mais fáceis de serem apreendidas. É por isso que até a Igreja Católica já se rendeu à comunicabilidade dos Espíritos dos “mortos” e experimentos utilizando a técnica de transcomunicação instrumental são realizados, com aval do Vaticano.

Na época em que ocorreu o suicídio acima não se dispunha de tanta facilidade. O comentário anterior explica, mas não justifica o ato cometido pelo homem instruído, que não acreditava nas provas da existência de uma Inteligência Suprema, nem na vida futura, que tinha, por assim dizer, incessantemente sob os olhos. Kardec esclarece que “muitas vezes, porém, a presunção de nada admitir, acima de si, os empolga e absorve." Assim, sofrem eles a pena até que, domado o orgulho, se rendem à evidência.

“Bem aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus”
Mateus, 5

 
“P. - Que motivo poderia ter-vos levado ao suicídio?”

“R. - O tédio de uma vida sem esperança.”

Kardec leciona: “grandemente culpados são os que se esforçam por acreditar, com sofismas científicos e a pretexto de uma falsa razão, nessa idéia desesperadora, fonte de tantos crimes e males. Esses serão responsáveis não só pelos próprios erros, como igualmente por todos os males a que os mesmos derem causa.” ( Kardec, A. 1865. O Céu e o Inferno. 25 edição. FEB. Segunda parte, capítulo V. Um Ateu. P. 312-314)

Felizes são os chegam à conversão antes do desencarne!

Outro “leproso convertido” nos ofereceu seu testemunho em “Flores de Outono”.

As páginas recebem o mesmo título “Falta”. (Monteiro, E.C. A Extraordinária Vida de Jésus Gonçalves. P. 78. Terceira edição, nov. 1983. Editora Espírita Correio Fraterno do ABC. S. B. Do Campo, SP; Xavier, F. C. & Gonçalves, J. Flores de Outono. Terceira edição, 1984. LAKE, pág. 63 e 71).

Em 1940, Jésus era muito triste, sem esperança e escreve:

“ Onde andará um “não sei quê”, um bem, em cuja busca sou judeu errante? Por onde eu passo, já passou também... e quando chego já partiu há instante...

Não sei se está na vida, ou mais adiante, dentro da morte, nas mansões do além... Se está no amor... se está na fé, perante os dois altares que esta vida tem.

Mas, se esta vida é um sonho, a morte o nada; o amor um pesadelo; a fé receio; por que manter-se em luta desvairada?...

No entanto, eu sigo... acovardado, triste... A procurar em tudo em que não creio, a coisa que me falta e não existe! “


“O Espiritismo, longe de temer as descobertas da Ciência e o seu positivismo, lhe vai ao encontro e os provoca, por possuir a certeza de que o princípio espiritual, que tem existência própria, em nada pode com elas sofrer.”
Kardec, A. 1868. A Gênese. Cap. X.Gênese Orgânica.
Pág. 203, ítem 30, FEB

 

Em 1943, Jésus já havia encontrado a Doutrina Espírita e foi muito feliz!

“Hosana! Eu já encontrei o grande Bem, em cuja busca fui judeu-errante."

É o facho luminoso que contém a luz que me ilumina a todo instante!

E ele está na vida e mais adiante, dentro da morte, nas mansões do além...

Está no amor... Está na fé... Perante os dois altares que esta vida tem!

Pois, nem a vida é sonho e a morte o nada. O amor é luz; a Fé o santo meio de tornar esta luta compensada!

Por isso eu sigo... nos caminhos meus, a procurar em tudo quanto creio, a coisa que faltava e ... que era Deus!”


O Espiritismo marcha ao lado do materialismo, no campo da matéria;
admite tudo o que o segundo admite;
mas, avança para além do ponto onde este último pára.
O Espiritismo e o materialismo são como dois viajantes que caminham juntos,
partindo de um mesmo ponto;
chegados a certa distância, diz um:
“Não posso ir mais longe.”
O outro prossegue e descobre um novo mundo.
Por que, então, há de o primeiro dizer que o segundo é louco,
somente porque, entrevendo novos horizontes,
se decide a transpor os limites onde ao outro convém deter-se?
Kardec, A. 1868. A Gênese. Cap. X.Gênese Orgânica.
Pág. 203, ítem 30. FEB

 

Respondendo a Allan Kardec, os espíritos disseram, em “O Livro dos Espíritos” (questão 344), que a ligação do espírito à matéria, com que irá formar seu corpo físico, se dá desde a concepção. A O.N.U. declara que a criança é um ser vivo desde a fecundação, durante o período uterino, após o nascimento, até os sete anos de idade.

Embora não seja uma união decisiva, o ser, mais evoluído e de posse de seu livre arbítrio, muitas vezes pode recuar. O espírito reencarnante já está ligado vibratoriamente ao zigoto, exercendo influências nas trocas genéticas e intimamente ligado ao psiquismo da mãe.

A ultra-sonografia, a amniocentese e a cirurgia fetal estão iniciando representações do feto e do embrião como individualizados e separados do corpo grávido materno de tal modo que, mesmo quando englobados por ele, esses seres já são medicamente percebidos como “segundos pacientes”para monitoração e eventualmente terapia(6).

O bebê não é um quisto no corpo da mãe, mas um ser que quer ter o primeiro de todos os direitos que é o direito à vida, como ensinaram os espíritos nas questões 344 e 880. Assim, no aborto estão em jogo duas vidas, duas liberdades, dois destinos diferentes. E a alma? Será que foi criada no momento da concepção? Deus é dependente de um casal para criar?


“Se eu quiser falar com Deus tenho que dizer adeus,
dar as costas, caminhar decidido pela estrada que ao findar vai dar em nada, nada, nada do que eu pensava em encontrar.”
Gil


E diante de anomalias fetais graves e incuráveis? Neste caso o aborto não seria válido?

Uma mulher tem o direito de levar a termo uma gestação com uma criança seriamente afetada, quando isso representa uma carga financeira e social imensa para toda a sociedade?

Desde novembro de 1993, a equipe do Instituto de Medicina Fetal e Genética Humana de São Paulo ( 11 ) vinha tratando a questão da interrupção de gestações, nas quais haviam sido diagnosticadas anomalias fetais graves e incuráveis, com uma estratégia muito bem estabelecida. Solicitavam alvarás judiciais para as interrupções com base no laudo dos exames realizados; relatórios de três médicos e laudo psicológico do casal. Pensavam que amealhando sentenças, envolvendo uma razoável quantidade de patologias, elaboradas por juizes de diferentes pontos do país chegariam na reformulação do nosso código penal. Desta forma teriam aliado o judiciário à própria luta, o que era de importância fundamental. Afinal, os juizes podem iniciar sua justificativa afirmando que “o pedido de interrupção seletiva da gravidez deve ser deferido, consoante inúmeras decisões proferidas em situações idênticas...”


“Apesar da tortura e da fogueira, apesar do patíbulo,
apesar dos massacres, pedaço por pedaço,
os direitos do pensamento e da consciência se revelam e se afirmam.
Cada geração traz seu tributo de dores, de trabalho, de esforços
e a herança comum aumenta sem cessar.”  
Denis


O leitor já ouviu falar de “carma futuro coletivo”como herança?

A estratégia era oriunda de uma sugestão dada pelo juiz dr. Miguél Kfoury Neto, autor da primeira sentença formulada em Londrina, em 1992, autorizando a interrupção de uma gravidez complicada por anencefalia. Isto aconteceu vários anos depois da primeira discussão no Congresso Brasileiro de Genética, julho de 1976, em Brasília. Nesse tempo evoluimos da fase do diagnóstico pré-natal dos anos 80 para a medicina fetal dos anos 90. Hoje pode-se tratar algumas patologias fetais e não há dúvidas de que se contam com sucessos indiscutíveis, como as transfusões intra-uterinas, em casos de alo-imunização Rh.


“Assim como o passado prepara o presente,
o presente, que somos nós, deve preparar o futuro:
eis aí a lei da imensa solidariedade que une todos os tempos e todas as raças.”
Denis


Mas, o que fazer quando são malformações múltiplas ou aberrações cromossômicas graves? Uma criança portadora de malformação merece viver como qualquer ser humano? Se eliminarmos uma criança por causa de sua malformação, poderemos também eliminar os que não têm a cor da pele ou sexo esperado?

Foram obtidas sentenças autorizando interrupções de gravidez em fetos portadores de aberração cromossômica incompatível com vida extra-uterina prolongada e, em dois casos, constava dos laudos médicos que a mãe absolutamente não corria risco de vida. Aliás, lembramos que justificar as interrupções de gestação, mesmo em casos de anencefalia, com base no risco de vida materno é discutível do ponto de vista médico ( 11 ). Este comentário parece aplicar-se à nossa questão inicial, você ainda lembra?

Voto eletrônico consciente. É mais difícil votar assim!

Quando estamos pressionados pelas emoções cometemos grandes enganos. Ouvindo a notícia, neste sábado que é véspera do dia dos pais, quase concordamos com a reivindicação daquele professor. Ele teve a filha como uma das vítimas do maníaco rotulado de “moto-boy”. Depois refletimos, a pena de morte não se apóia em nenhum direito e a experiência parece documentar que a sua prática não é capaz de deter a mente resolvida a praticar o mal. É difícil para a Psicologia explicar o comportamento desses indivíduos capazes de realizar atos tão cruéis.

O argumento da possibilidade de erro jurídico é suficiente para invalidar toda a retórica dos que lutam à favor da pena de morte. As Entidades Venerandas disseram a Kardec que “há outros meios da sociedade preservar-se de um membro perigoso, que não matando.” É difícil evoluir e deixar o “dente por dente, olho por olho”. Talvez se pudéssemos penetrar no sofrimento da consciência desperta e culpada, e verificássemos os estágios posteriores do arrependimento e do remorso, tivéssemos nosso ódio diminuído. Mas, diante da emoção, à guisa de nos proteger da violência, acabamos de levantar a bandeira da própria violência. Recordamos o “dente por dente” e nos esquecemos de outro momento “não matarás”.

Onde estará o erro genético desses seres que são capazes de produzir os crimes hediondos?

Um médico e professor estudioso do “Complexo Cérebro-Mente” nos diz que “parece muito claro que o cérebro, por si só, não é capaz de justificar toda capacidade da mente humana e o conhecimento científico é muito limitado para alcançar as razões filosóficas da natureza humana e do seu destino”.

Diz ainda o Professor Titular de Neurocirurgia da Unicamp e diretor do Instituto do Cérebro, que “bem antes do nascimento, as manifestações de vivências agradáveis ou não da mãe já imprimem na mente da criança, que vai nascer, reações que logo após o parto podem ser semiologicamente confirmadas.”

Nos congressos de Neuropediatria já estão incluídos em sua temática a apresentação de trabalhos sobre o Psiquismo Fetal.

Diz o dr. Nubor Orlando Facure que a confirmação de um “Psiquismo Fetal”, intimamente ligado ao “Psiquismo Materno”, implica em mais um motivo para nossa meditação quando falamos em aborto. (Folha Espírita, julho de 1994, transcrita em Reformador, pág. 338, novembro de 1994).

A pena de morte, o erro “genético” do maníaco do parque, nos faz , também, lembrar a criança portadora de malformação, que é “membro pleno da espécie humana e que merece também viver como qualquer ser humano.”

A pena de morte e o aborto de crianças portadoras de malformações se tratam de opções intelectuais e morais que não se podem justificar racionalmente até o fim!

Será que no futuro também serão eliminados os que não tenham o sexo esperado?

Para o nazismo o maior defeito genético era não nascer alemão.

Trabalhamos recentemente a questão do ensino, pesquisa e ética na Microbiologia Médica (10). No texto que elaboramos para os alunos do Curso de Pós-graduação discutimos a posição em que ficaria o docente-pesquisador, desta especialidade, na aula teórica, ao terminar a estatística da Sífilis congênita. Diversas questões que já nos foram feitas foram lembradas: - “professor, o senhor acha que devemos distinguir os campos da ética e da religião? Professor, a religião é sempre a expressão das convicções da fé de um grupo humano restrito, mas a ética é muito mais abrangente. O senhor não acha?”

Lembrei que na Universidade de Columbia há o crédito de Religiões Comparadas. Aqui, no Brasil, nos ajudaria a entender e respeitar o universo cultural de um país católico e reencarnacionista.

León Denis diz que “o homem tem necessidade de saber; precisa do esclarecimento, da esperança que consola, da certeza que guia e sustém. Também tem os meios de conhecer, a possibilidade de ver a verdade desprender-se das trevas e inundá-lo com sua luz benéfica. Para isso, deve afastar-se dos sistemas preconcebidos, perscrutar-se a si próprio, escutar essa voz interior que fala a todos e que os sofismas não podem deturpar: a voz da razão, a voz da consciência.”


“Se eu quiser falar com Deus tenho que ficar a sós,
tenho que apagar a luz, tenho que calar a voz,
tenho que encontrar a paz tenho que folgar os nós...”
Gil


- “Professor, a ética avalia o comportamento do ser humano enquanto ser humano, independente de qualquer convicção religiosa ou política?”

Mestre! O estupro não é uma grande injustiça por ser uma violação física e moral da dignidade da pessoa? E, pior, “a injúria agrava-se quando é seguida de gravidez imposta à força!”

Problemas éticos podem ser resolvidos pela estatística, como a questão da adesividade de bactérias às células do hospedeiro? ( 10, 12 ) Ou, será a ética de ordem qualitativa?

A base da legislação é a ética?

O Estado é o centro legislador para todos os cidadãos?

O aborto situa-se no campo ético, que é competência do Estado?

Um feto anencéfalo é apenas uma tentativa frustrada e deformada da natureza?

Uma realidade biológica irreparavelmente deformada não pode ser considerada pessoa em potencial?

Estas são questões, formuladas por um professor de ética na universidade, que merecem reflexões

(Pegoraro, O.A. “Anencefalia e aborto”. O Globo, sábado, 13 de setembro de 1997).

Se uma pessoa-em-potencial (feto) ainda não é uma pessoa, podemos, desta forma, recomendar o aborto? Uma pessoa-sem-potencial (paciente terminal) não é mais uma pessoa, então podemos pensar em eutanásia ?

E se os espíritas estiverem com a razão? Eles advogam que são inúmeras as evidências científicas sugestivas de imortalidade e reencarnação. Devemos estudá-las, no mínimo, para não sermos considerados indigentes culturais ( 10 ).

A Organização Mundial de Saúde orienta que, para a instalação de serviços de saúde em qualquer país, deve-se respeitar os aspectos culturais do povo.

Que argumentos são utilizados para conceder validez moral ao ato da interrupção de uma gravidez complicada por ausência dos hemiférios cerebrais?

A resposta é curta porque o cerne argumentativo repousa na ausência de vida, associado à imagem de subumanidade. Os “sub” são aqueles para quem a vida é fadada ao “fracasso”, ou para quem, no mínimo, o conceito de vida não é adequado.

Os anencéfalos não podem ser diferenciados dos animais, pois não possuem o órgão-sede, que por seu desenvolvimento evolutivo, permitiria essa diferenciação. Assim, admite-se estar no cérebro a localização da humanidade. A gestante foi estigmatizada, por alguns, como um “caixão ambulante”.

O vigário coadjutor da Comunicação da Arquidiocese de São Paulo, Fernando Altemeyer Junior, comenta no Jornal do Brasil, em 1 de abril de 1996, que a idéia de vida que nutre essa imagem não é apenas a que diz respeito à integridade biológica. Por trás desta ideologia, que esconde a verdadeira intenção, existe uma expectativa de vida muito mais ampla e é exatamente isto o que une, de forma relativamente clara, um feto anencefálico a um feto portador de trissomia do cromossoma 21 ( Síndrome de Down, Mongolismo).

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a fetos com ausências de membros distais que são alvos potenciais da “interrupção seletiva da gravidez”. No fundo, vamos encontrar uma idéia social de vida, respaldada é claro, pela plenitude biológica, o que justifica grande parte das solicitações de aborto seletivo.

Os juízes assentam a legitimidade do procedimento na ausência de vida dos fetos justificando que “o objeto jurídico do aborto consiste na preservação da vida humana que, na hipótese sob análise, não ficaria prejudicada pela interrupção da gravidez, ante o fato descrito...”. Parte-se de uma construção legal de positividade de vida (proíbe-se assim a eutanásia) para uma negatividade de vida em nome da sub-humanidade extrema do feto. O argumento tem o seu oposto que é uma positividade-limite, onde qualquer forma de aborto deve ser proibida.


“Não basta se dizer...,
é preciso que o sejamos pelos costumes e pelo caráter,
é necessário que cada um de nós trabalhe para se instruir,
para se moralizar e para se tornar melhor.”
Denis


Os dilemas éticos parecem ser mais facilmente solucionados quando a medicina e a vida social apontam para a total impossibilidade de vida biológica e moral. Mas, nas zonas sombrias, nos casos-fronteira, como o de um feto portador de trissomia do cromossoma 21, este mesmo argumento “vida humana” toma outra conotação. Aí os juizes concedem um domínio da concepção moral de vida sobre os argumentos exclusivamente técnicos de sobrevivência ou de qualidade de vida. Chegamos ao suporte juridico-moral, à decisão legal e ficamos diante, como disse Diniz (7), da moral medicalizada, a moral justificada por intermédio do discurso biológico.

Segundo estimativas extra-oficiais, existem hoje no Brasil cerca de 350 alvarás judiciais autorizando a prática da interrupção seletiva da gravidez em nome de anomalias fetais incompatíveis com a vida extra-uterina. A margem de erro de um exame fetal é de 1/1000.

Mesmo assim o problema ético continua a desafiar os que não se cansam de pensar.

Recentemente, uma lei passou a considerar todos os brasileiros como doadores potenciais de órgãos para transplante. Determinar a morte da pessoa passou a ser a grande discussão. Nesta fase do desenvolvimento da Fisiologia o conceito, antes associado ao coração, deslocou-se para o cérebro e a primeira definição de morte encefálica foi divulgada no final da década de 60. A legislação brasileira decidiu que o diagnóstico de morte encefálica deveria ser definido pelo Conselho Federal de Medicina, o que resultou na Resolução 11346/91. Estes critérios, que mais tarde foram aperfeiçoados pela Resolução 1480/97 do mesmo Conselho, estão atualmente em vigor ( 4 ).


“Para discernir o porquê da vida, para conhecer sua razão de ser,
para entrever a lei suprema que rege as almas e os mundos
é preciso saber libertar-se (...) das preocupações de ordem material,
de todas as coisas passageiras e volúveis (...)
dificultando nossos julgamentos.”
Denis


Rocha ( 14 ) diz que há condições bem definidas em que se pode avaliar a ocorrência de morte cerebral, como por meio da angiografia, a cintilografia, a ecoencefalografia, a eletronistagmografia, disponíveis em todos os centros especializados, em que se pressupõe eliminada a possibilidade de quadros potencialmente reversíveis. Mesmo assim, é de se esperar o espaço de tempo de 24 horas após a primeira verificação de óbito presumível para a verificação da morte.

Cardoso (4) lembra que além de estabelecer critérios clínicos precisos para o diagnóstico, a Resolução do CFM recomenda ainda, para pacientes acima de dois anos de idade, a realização de um exame complementar dentre os que analisam a atividade circulatória cerebral ou sua atividade metabólica. Para pacientes acima de uma semana de vida, até dois anos de idade, sugere a realização de um eletroencefalograma, com intervalos variáveis de acordo com a idade.

Analisando os critérios, o autor espírita e médico (4) diz que tal recomendação é oportuna e revela uma grande cautela, lembrando ainda que, na opinião da maioria dos neurologistas, o diagnóstico de morte cerebral não impede e nem dispensa a adoção de qualquer atitude terapêutica pertinente. Este diagnóstico significa apenas, para o momento dos nossos conhecimentos médicos, “a impossibilidade do retorno à vida.” ( o negrito é do autor).

Cardoso, que acompanha os progressos da medicina, pensa adiante e diz que no futuro é possível que os critérios de morte encefálica possam ser modificados, pois a Ciência avança a cada dia. Informa-nos que já há até quem defenda certas técnicas de hipotermia, que teriam a possibilidade de recuperar casos antes tachados de “irreversíveis”.


“Esta vida para ser eficaz, não pode ser isolada.
Fora de seus limites, além do nascimento e da morte,
vemos, numa espécie de penumbra, desenrolar-se uma multidão de existências
através das quais (...) conquistamos (...) o pouco de saber e de qualidades que possuimos e pelos quais também conquistaremos o que nos falta:
uma razão perfeita, uma ciência sem limites e um amor infinito por tudo quanto vive.”
Denis


Voltemos ao aborto!

Você lembra quantos alvarás judiciais existem autorizando a prática da interrupção seletiva da gravidez?

Se respondeu 350, você possui boa mémória. Mas, você sabe me dizer se essas autorizações foram para a utilização dos anencéfalos como doadores de órgãos?

Vamos recordar para melhor raciocinar. A anencefalia é uma anomalia congênita caracterizada por ausência da calota craniana e couro cabeludo, podendo apresentar cérebro residual amorfo, rudimentar e desorganizado na base do crânio. Resulta de defeito no fechamento do tubo neural, que normalmente se completa antes do final do primeiro semestre. O período da gênese da anencefalia ocorre entre o décimo quinto e vigésimo sexto dia do desenvolvimento embrionário. Hoje há decréscimo da incidência (anencéfalos/ano) e a causa principal é a interrupção da gestação após o diagnóstico precoce da patologia.

Sabe-se que há relação direta entre fetos anencéfalos e abortamento espontâneo. Cerca de 65% morrem no período intra-útero. Dos que sobrevivem, cerca de 2/3 falecem nas primeiras três horas. Alguns registros mostraram que, de 180 anencéfalos vivos, 58% não sobreviveram após as primeiras 24 horas.

Poder-se-ia utilizar os órgãos de um anencéfalo em outra criança? A causa é nobre, você não acha? Pense na criança que nasceu com uma hipoplasia de ventrícolo esquerdo e poderia viver com um novo coração transplantado.

Mas você também não acha, como lembrou Cardoso (4), que tal doação precisa respeitar, em primeiro lugar, a experiência que está findando, caso contrário não poderemos garantir que o ato ocorreu dentro de um sentido ético?

Importante lembrar que “o remorso é um grande caçador.” 

“A dor é a suprema purificação,
é a fornalha onde se fundem todas as escórias impuras que corrompem a alma:
o orgulho, o egoísmo e a indiferença.”
“É inútil procurar o inferno nas regiões desconhecidas e distantes.
O inferno está em torno de nós
e se oculta nas dobras ignoradas da alma culpada,
na qual só a expiação pode fazer cessar as dores.”
Denis


O primeiro transplante de órgãos, nestas condições, ocorreu em Los Angeles, em 1961. Os posteriores obtidos em 41 oportunidades ofereceram bons resultados “apenas” em 30% de transplantes renais e 33% de cardíacos (11).

Mas, quando realizar a retirada dos órgãos?

Há casos de transplantes (coração, como exemplo) em que o órgão precisa ser retirado do doador quando ainda em vitalidade.

Nos fetos, quando se aguardou a perda de todas as funções do tronco cerebral, que é o critério adotado de morte cerebral pela medicina, realizando-se posteriormente as medidas para manter a viabilidade dos órgãos, nenhum transplante obteve bons resultados.

Antes que as funções do tronco cerebral fossem perdidas poder-se-ia instituir o suporte vital de modo a permitir a retirada dos órgãos, quando a esperada morte acontecesse. Esta opção mostrou-se impraticável. Apenas um, em seis, evoluiu com morte cerebral no período considerado adequado no protocolo.

A única alternativa que se mostrou viável foi a instalação, ao nascimento, de suporte vital, com retirada dos órgãos ainda em presença de funções do tronco cerebral. Nesta situação a ética e a moral são mais controversas. As principais propedêuticas utilizadas para documentar a morte cerebral não são aplicáveis, pois não há pontos para fixação dos eletrodos do eletroencefalograma e a carótida inexiste ou é muito hipoplásica.

Em termos de Doutrina Espírita (O Livro dos Espíritos, 155-56) sabemos que, rompidos os laços que retinham o espírito, ele se desprende, mas não dispomos de exames para precisar o momento em que isto aconteceu. O que podemos dizer é que o cérebro está impossibilitado de satisfazer as eventuais expressões do espírito. Por outro lado, algumas vezes, destaque de Cardoso (4), na agonia a alma já pode ter deixado o corpo, havendo apenas vida orgânica.

“Onde está, ó morte, o teu aguilhão?
Onde está, ó inferno, a tua vitória?”
I Coríntios, 15: 55


Rocha (15) pergunta: que é vida, que é morte? A própria ciência não é capaz de definí-las com precisão. Cresce o interesse no que diz respeito ao conceito mais exato de morte cerebral, a partir da distinção que se faça do que sejam vida intelectiva (ou vida inteligente) e vida orgânica. É que esta última prossegue muitas vezes por algum tempo, graças à presença do princípio vital, que de pronto não se extingue tão logo cesse a primeira. Em outras palavras, tanto o corpo pode ainda funcionar, tendo a desencarnação já se efetivado, quanto pode ocorrer a morte cerebral e o espírito não ter ainda efetivado sua liberação total da carne (4)

O médico espírita e a O.N.U. sabem que a ligação do espírito à matéria se dá desde o momento da concepção e é feita através do perispírito, corpo espiritual fluídico. Sabe que o corpo, deficiente ou não, é sempre valioso instrumento para a evolução do espírito e que aquele que induz ou obriga ao aborto, ou o executa, é responsável espiritualmente. Sabe ainda que o estuprador apenas contribuiu para a formação de seu corpo físico, sendo a criança inocente da ação agressora, não devendo ser responsabilizada por ela, nem vir a sofrer danos em conseqüência dela, muito menos perder seu direito a vida, qualquer que seja o tempo que ela dure.

Sob o ponto de vista espiritual, o médico espírita sabe, também, que um espírito, que sofreu abortamento ou eutanásia, pode ficar imantado à gestante em clima de mágoa. A gestante pode apresentar lesões perispirituais na região do centro reprodutor que foi usado incorretamente.

O leitor poderá ter uma idéia destas questões examinando “um caso clínico”, embora não de aborto. São inúmeros os descritos na literatura médico-espírita, fizemos a opção por um deles, porque os protagonistas são companheiros que trabalham em pesquisa nos chamados Centros de Ciências Biomédicas.

“Acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes.”
Corintios I, 12 . Paulo


O Professor da Faculdade de Medicina, Gilberto Perez Cardoso (5) , relata uma cefaléia muito estranha que lhe ocorreu, embora não seja dado a enxaquecas. Examinando desde uma inadequação das lentes de seus óculos, passando pela possibilidade de um tumor cerebral ou meningite, até chegar ao “piti”, diminutivo de “pitiatismo”, o médico resolveu consultar seus colegas, na época, mais experimentados da Santa Casa, no Rio de Janeiro. Ampliou as doses dos analgésicos, diminuiu os intervalos de tomada dos medicamentos, que na década de 80 não deveriam ser falsificados. Entretanto, envolvido pelo trabalho e pelos alunos, acabou adiando a intenção. No dia seguinte, Gilberto também iria participar de uma reunião espírita, onde são atendidas entidades que estão passando por sofrimentos diversos ( lembram do Marcondes, no C. E. Filhos de Deus?).

“A interdição de evocar os mortos,
que vemos estabelecida por Moisés, foi geral na antiguidade.
O poder teocrático e o poder civil estavam muito intimamente ligados
para que esta prescrição fosse severamente observada.
Não convinha que as almas dos mortos viessem contradizer o ensinamento oficial dos padres e lançar a perturbação entre os homens,
fazendo-os conhecer a verdade.”
Gabriel Dellane. “O Fenômeno Espírita”, FEB



Na reunião manifesta-se uma entidade sofredora que transformou o relato dos médiuns videntes num grande quebra-cabeça, somente solucionado por Cardoso. O médico possuía conhecimentos não disponíveis aos outros e que o ligavam ao espírito enfermo e também à sua “cefaléia muito estranha”. O caso é narrado com detalhes no livro (5) que escreveu em parceria com outro escritor e médium notável, Newton Boechat.


“Mas a manifestação do espírito é dada a cada um, para o que for útil.
Porque a um pelo espírito é dada a palavra da sabedoria;
e a outro a palavra da ciência,”
Paulo



Este caso é interessante por vários motivos: primeiro por ter ocorrido com um paciente-médico e por ser um dos médiuns videntes um outro professor de medicina; segundo, porque uma cefaléia que maltratava o paciente por 36 horas é substituída por sentimentos de paz e bem estar logo ao início da reunião; terceiro, porque a cefaléia se apresentou após um atendimento realizado pelo médico na emergência do Hospital Rocha Maia, em Botafogo, no Rio de Janeiro; quarto, porque o paciente apresentava na cabeça, na região temporal direita, extenso ferimento, de onde saiam sangue em abundância, massa encefálica e fragmentos ósseos; quinto, porque a entidade sofredora relatava o recente falecimento de seu pai e ídolo, em condições desastrosas, o que o levara a disparar o fuzil, à queima-roupa, de encontro à cabeça, atingindo exatamente a região temporal direita; sexto, porque os médiuns de nada sabiam, embora descrevessem a extremidade do tubo endotraqueal a sair-lhe do canto da boca.

O caso é muito rico e certamente o leitor vai enumerar outras coincidências entre o atendimento médico e o posterior atendimento espiritual. Como coincidentes são os relatos das pessoas que tiveram morte clínica, embora suas declarações não se vinculem a influências da religiões, seitas, ocupação, raça ou sexo.

O desavisado vai dizer que a dor de cabeça do médico foi apenas uma questão de influência por se ver envolvido num atendimento de emergência em que os hemisférios cerebrais foram dilacerados. O “acaso” tem sido muito solicitado para explicar a nossa ignorância. O próprio médico não se esqueceu de evocar esta questão, para o seu leitor, uma vez que sugeriu que se fizesse o cálculo das probabilidades da ocorrência de cada um dos eventos encontrados.


“E a outro, pelo mesmo espírito, a fé;
e a outro os dons de curar;
e a outro a profecia
e a outro, o dom de discernir os espíritos.”

Paulo


Na década de 70 com contribuição da eletrônica foi feito o mapeamento dos meridianos da Acupuntura. O mesmo mapeamento feito há mais de quatro mil anos pelos médiuns videntes era absolutamente idêntico. Lembrou de Nostradamus?

Cardoso pede que meditemos na infinidade de dores-de-cabeça, cansaços, depressões, astenias e achaques que podem se originar do Além. A extensa gama da patologia energética humana, desconhecida ainda da Ciência Oficial, está aí desafiando a argúcia de clínicos e psiquiatras atuais. Até que a informação possa chegar, por enquanto, muitos ainda vão esperar e continuar a classificar, no laboratório, o bacilo diftérico como difteróide ( 12 ) e outros, na precipitação, vão diagnosticar como “piti” as patologias “do outro mundo”, como disse Cardoso ( 5 ).

“Também Cristóvão Colombo não foi tachado de louco, porque acreditava na existência de um mundo, para lá do oceano? Quantos a História não conta desses loucos sublimes, que hão feito que a Humanidade avançasse e aos quais se tecem coroas, depois de se lhes haver atirado lama? Pois bem! o Espiritismo, a loucura do século dezenove, segundo os que se obstinam em permanecer na margem terrena, nos patenteia todo um mundo, mundo bem mais importante para o homem, do que a América, porquanto nem todos os homens vão à América, ao passo que todos, sem exceção de nenhum, vão ao dos Espíritos, fazendo incessantes travessias de um para o outro.

Galgado o ponto em que nos achamos com relação à Gênese, o materialismo se detém, enquanto o Espiritismo prossegue em suas pesquisas no domínio da Gênese espiritual.”
(Kardec, A. 1868. A Gênese. Cap. X.Gênese Orgânica. Pág. 203, ítem 30. FEB).

Deve ser doloroso, para o espírito, ser retirado do corpo nas condições narradas anteriormente por Cardoso (5)! Mas, não deve ser diferente verificar que vai ser expulso através de meios, métodos ou processos abortivos.

As nossas jovens estão usando um abortivo químico que se não mata o feto o deforma. E há coisa pior, porque se pessoas falsificam os medicamentos anticancerosos, elas são capazes de fazer o mesmo com qualquer outro. Já se tem conhecimento da venda de um abortivo químico similar falso que esta rodeado de perigos incomensuráveis para a usuária.


“Você não está sozinha!
Procuraremos juntos, a saída que você precisa.”
Ligue para nós: (021) 452-2266. CELD.



Valorizando o momento mais sublime da vida, podemos entrar em contacto com o Núcleo de Valorização da Gravidez do CELD, Centro Espírita León Denis. O Núcleo oferece apoio emocional com objetivo de ouvir com muito carinho, sem crítica ou condenação, qualquer pessoa envolvida com a gravidez que esteja se sentindo pressionada e só.

Ligue, todos os dias das 13 às 21 horas, ou vá conversar pessoalmente no mesmo horário, de segunda a sábado, na rua Abílio dos Santos, 137 - Bento Ribeiro - Rio de Janeiro, RJ.

Não, Doutor! Matar? Nunca!

- Doutor, parece que estou com barriga d’água...

O médico olhou silenciosamente a pobre cliente e respondeu meio sério e meio sorridente:

- Dona Ana...

- Doutor, se não for barriga d’água, então é menino. Chico já disse hoje que é menino.

- Na sua idade, Dona Ana, como é que a senhora e “seu” Chico deixaram isso acontecer? Já tiveram uma filha com hidrocefalia, têm onze filhos, enfrentam uma trabalheira sem fim. E, com essa recessão enorme, nesse nosso país desses anos trinta, a pobreza fica ainda maior.. Já disse uma vez que filho de mãe velha nasce destrambelhado...

- Não, Doutor! Matar? Nunca! Chico está viajando aqui e ali. Nada vai faltar pra gente, se Deus quiser!

- Quem falou em matar, Dona Ana? Vá em paz esperar a sua hidropsia...

- Hidro o quê, Doutor?

- É barriga d’água, Dona Ana. A senhora ficará livre dela em nove meses.

Nove meses depois nascia, às cinco horas da manhã, do dia 5 de maio, um menino que recebeu o nome de Divaldo Pereira Franco.
(Espelho, R.R. A Revelação Da Chave. E. E. Mensagem de Esperança, Capivari, SP. Pág. 80.)

Como fica um “espírito abortado” ao se ver impedido de “vir à vida na matéria” nestas condições?

André Luiz narra um caso para que possamos compreender a extensão da tragédia. Era uma jovem “criada com mimos excessivos, que se desenvolveu na ignorância do trabalho e da responsabilidade, não obstante pertencer a nobilíssimo quadro social. Adquiriu os deveres da maternidade sem a custódia do casamento. Reconhecendo-se nesta situação, aos vinte e cinco anos, solteira, rica e prestigiada pelo nome da família, deplora tardiamente os compromissos assumidos e luta, com desespero, por desfazer-se do filhinho...

A jovem valeu-se de drogas e do auxílio de uma “enfermeira”.

O espírito, vendo a reencarnação frustrada, luta e se transforma em verdugo do psiquismo materno.

André Luiz descreve a “guerra” : “premindo o ninho de vasos do útero, precisamente na região onde se efetua a permuta dos sangues materno e fetal, provocou ele o processo hemorrágico, violento e abundante.”

A enfermeira desesperada corre a procura de socorro.  
(Francisco C. Xavier. No Mundo Maior. Capítulo 10 - A dolorosa perda. FEB.)

“Não será melhor a coroa de espinhos na fronte do que o monte de brasas na consciência?”

A medicina oficial não tem colocado à mostra as seqüelas físicas e psíquicas trazidas à mãe que pratica o aborto, mesmo nas sociedades em que ele é permitido, é o que diz o “Manifesto Contra O Aborto”, que foi enviado em 14/3/1994, ao Relator da Revisão Constitucional no Congresso Nacional. Ele é assinado pela Federação Espírita, União das Sociedades Espíritas e Associação Médico-Espírita todas de São Paulo.

A Doutrina Espírita ensina que a matéria é o instrumento de que o espírito se serve e sobre o qual exerce sua ação. O espírito encarna para cumprir desígnios divinos e, ao mesmo tempo, vai se desenvolvendo intelectual e moralmente, através de provas e expiações que a vida terrena lhe enseja. Viver é o primeiro de todos os direitos naturais do homem. “As Vozes do Céu” ensinaram, a Allan Kardec e ele registrou em “O Livro dos Espíritos”, que “ninguém tem o direito de atentar contra a vida do seu semelhante, nem de fazer o que lhe quer que possa comprometer a existência.

Kardec “OBRIGOU OS MAIS FAMOSOS CIENTÍSTAS DO SÉCULO XIX A COLOCAR DE LADO A SUAS PREOCUPAÇÕES COM A MATÉRIA PARA DESCOBRIR E PROVAR A EXISTÊNCIA DO ESPÍRITO, COMO ACONTECEU COM CROOKES, RICHET, AKSAKOF, OCHOROWICZ, ZOLLNER, E TANTOS OUTROS. EM NOSSO SÉCULO FORÇOU RHINE E McDOUGAL A DESENVOLVER NA PARAPSICOLOGIA AS SUAS PESQUISAS...
( URBANO DE ASSIS XAVIER, 1946 ).

Matar o feto com diagnóstico de anomalia é um delito contra o direito à vida e contra o caminho redencional do espírito.

“Se eu quiser falar com Deus tenho que me aventurar, 
tenho que subir aos céus sem cordas pra segurar...” (Gil)


O transplante só oferece bons resultados com a retirada dos órgãos ainda em presença de funções do tronco cerebral ( 11 ). Considerando a ética e a moral, o que fazer?

Aqui temos três alternativas: a) alterar a definição de óbito, b) criar uma categoria legal especial para anencéfalos ou c) exclusão dos anencéfalos do conceito de pessoa (ser humano).

Qual lhe parece mais perto da ética “espírita “?

Já pensou?

Podemos continuar?

A responsabilidade pelas qualidades humanas de consciência, personalidade e integração social não podem ser colocadas no tronco, uma vez que ele só controla as funções vegetativas. Assim poderíamos enquadrá-los em uma categoria legal equivalente à morte cerebral. Como há ausência da formação do cérebro superior e não havendo sofrimento, dor ou consciência, poderíamos excluir os anencéfalos do conceito de pessoa.

Que tal os raciocínios? São coerentes? Alguma dúvida? Sim! Então releia com calma.

A criação de uma categoria legal de exceção traz consigo o risco de que esse procedimento abra precedente para o surgimento de outras categorias de exceção. Poder-se-ia desvirtuar a idéia original e abranger também grupos para os quais essa medida seria eticamente menos aceitável. Não sendo considerados como pessoa esses anencéfalos perderiam todos os direitos, inclusive o de ser protegido contra a experimentação em seres humanos e poderiam eventualmente ser utilizados para outros propósitos, escusos ou não.

Já fizeram a denúncia de que num país desenvolvido, onde foi liberado o aborto, os fetos foram vendidos para experiências. As crianças não registradas como nascidas e que estavam oficialmente mortas eram mantidas vivas. A denúncia falou em testes de curas de doenças como leucemia, etc.

É claro que você não acredita que possam existir pessoas tão inteligentes e cruéis!

Parece que a solução é a alteração do conceito de morte.

Você vê algum problema nesta alteração?

Contra ela pesam dois argumentos principais: é possível que, com a mudança na definição de morte cerebral, haja desconfiança da população na capacidade médica de diagnosticar os casos de óbito e a imprecisão do critério poderia ser estendida a outros grupos de pacientes, como, por exemplo, os portadores de severo retardo mental ou comatosos.

O médico, no Brasil, não teve muito que se preocupar com esse tipo de problema, uma vez que não temos conhecimento de serviços de transplantes envolvidos nesta tentativa. Mas, este é um tema para discussões espíritas, pois é rico de questões médicas, morais, legais e sobretudo religiosas.

O Brasil é um país “paradoxal”, apresenta os avanços encontrados no primeiro mundo, mas convive com doenças do terceiro. Chegamos a ter a maior casuística do mundo em implantes de marcapasso cardíaco em doença infecciosa (12), da era colonial americana, que é prevenida por vacinação. Há problemas ou avanços encontrados nos países desenvolvidos que nos trazem questões de ética médica (3, 4, 7, 8, 10, 11, 14, 15,16).

Anteriormente quando discutimos a questão da eutanásia, em “Dores, Valores, Tabus e Preconceitos”, concluímos que era difícil conciliar uma medicina que cura com uma medicina que mata.

“a melhor maneira de se medir a licitude de uma ação
é imaginá-la como regra geral.
Caso se concluisse pela negativa,
a ilicitude seria manifesta.”
Kant


“Para que a liberdade seja fecunda, assevera León Denis, para que ofereça às boas obras humanas uma base segura e duradoura, deve ser aureolada pela luz, pela sabedoria, pela verdade. A liberdade, para homens ignorantes e viciosos, não será como arma poderosa entre as mãos de uma criança? A arma, nesse caso, volta-se muitas vezes contra aquele que a traz, e o fere.” Lembramos que o Ministério da Saúde adverte: “fumar faz mal à saúde.” A farmacodependência é um grande problema para a América Latina e o álcool é uma droga socialmente aceita, como o fumo.

Imagine o aborto legalizado e nas mãos de todos os interesses: político, eugênico, econômico e outros.

Aborto não pode ser votado sem uma profunda reflexão.

Justificando-se o aborto eugênico, a eutanásia passa a ser aceita naturalmente. Eugenia é o ramo da Ciência que se ocupa da procriação de filhos normais e estuda os meios para melhorar a raça. O aborto eugênico é aquele que não necessariamente implique impossibilidade de vida extra-uterina, significando apenas uma redução significativa do patamar da capacidade de adquirir e compartilhar humanidade. Entendeu porque a eutanásia passa a ser aceita naturalmente?

A Bioética está hoje pressionada por um conceito materialista a respeito do significado da vida.

Uma conseqüência grave da permissão do aborto por lei é a insensibilidade social.

O aborto eugênico, com enfoque sociológico, vem sendo aceito em diversos países com a justificativa do aprimoramento da raça, diminuição da problemática familiar e social. Fala-se nesse aborto dando-lhe conotação de “terapêutico”. Em favor de quem? Alguém já disse que “na criança honramos a humanidade e sobretudo a criança deficiente física ou mental é caso-teste de respeito para com todo o gênero humano”.

Neste particular há uma Instituição, no Rio de Janeiro, que honra a humanidade. Estamos falando da Ação Cristã Vicente Moretti, na rua Maravilha, 308. Bangu. Telefone 401-9533 e fax 401-9643. Vá visitá-la para ver o que significa o respeito pelo ser humano deficiente.

No dia 13 de maio foi lançado o Programa Nacional dos Direitos Humanos, que estabelece desafios concretos ao governo na área da expansão dos direitos da cidadania. Diz Souza, J. (JB, p.11, 29 de maio de 1996) que o fato da escolha da data do lançamento ter caído sobre o dia da Abolição da escravatura não lhe pareceu casual. A manutenção da situação enfrentada no país, de divisão entre supercidadãos com todos os direitos e subcidadãos sem nenhum direito, é fruto direto de persistências da “obra da escravidão”, e nos serve para lembrar que a luta pelos direitos humanos é obra comum. A injustiça não atinge apenas quem a sofre diretamente, mas a todos que compartilham do mesmo contexto.

“Helga e Rachel cresceram juntas (2). Eram muito amigas, embora a família de Helga fosse cristã e a de Rachel, judia. Por muitos anos essa diferença não teve muita relevância na Alemanha. Entretanto, depois que Hitler assumiu o poder a situação mudou. Ele exigiu que os judeus usassem braçadeiras com a estrela-de-Davi e passou a encorajar seus seguidores a destruirem as propriedades dos judeus e, até mesmo, a maltratá-los nas ruas. Finalmente, começou a prender judeus e a deportá-los. Havia rumores pela cidade de que muitos judeus estavam sendo mortos. Esconder judeus procurados pela Gestapo ( polícia secreta de Hitler) era um crime grave e constituía violação de uma lei do governo alemão. Uma noite, Helga ouviu baterem à porta. Quando a abriu, viu Rachel na escada, envolta num casaco escuro. Rapidamente Rachel entrou. Ela contou que fora a uma reunião, e, ao retornar, viu membros da Gestapo rondando a casa. Seus pais e seus irmãos haviam sido levados. Sabendo do seu destino caso a Gestapo a apanhasse, Rachel correu para casa de sua grande amiga.

Que deveria Helga fazer? Se mandasse Rachel embora, a Gestapo por certo a encontraria. Helga sabia que a maioria dos judeus estava sendo morta, e não queria que isso acontecesse com sua melhor amiga. Porém, abrigar os judeus era contra a lei. Helga estaria arriscando sua própria segurança e a de sua família se tentasse esconder Rachel. Mas, havia em casa de Helga um pequeno quarto atrás da chaminé, no terceiro andar, onde Rachel poderia ficar a salvo.

Deveria Helga esconder Rachel?”

“O homem constrói a primeira cidade (civitas), de onde nasceu a palavra civilização e, desde então, com a vida em sociedade, começa a vida moral.”
Denis


Quando desenvolvemos o intelecto somos capazes de saber se uma ação é boa ou má, mas a escolha do caminho a tomar depende do desenvolvimento do domínio afetivo. “Ciência e razão somente não serão capazes de enxugar lágrimas vertidas pelo coração”. As duas asas simbólicas da ética são representadas pela sabedoria e pelo amor. Sem uma delas sociedade alguma poderá voar a planos mais altos e ser considerada evoluída e nenhum planeta poderá chegar à condição de regenerado.

A professora Dyla T.S. Brito, doutora em Educação pela Universidade da Califórnia (UCLA), cita Kohlberg para descrever os seis estágios do desenvolvimento moral. Estes estágios, abaixo colocados, que podem corresponder a três níveis podem ser brevemente assim descritos:

Estágio1. As conseqüências físicas de uma ação determinam se ela é boa ou má. Os motivos morais são baseados no desejo de evitar punição.

Estágio 2. O argumento “certo” é aquele que satisfaz as próprias necessidades da pessoa e, às vezes, as necessidades de outros. Elementos de igualdade e reciprocidade podem estar presentes, mas sempre por motivos pragmáticos e não por uma questão de lealdade, gratidão ou justiça. Reciprocidade, neste nível, significa: “Se ele me bate, eu bato nele.”

Estágio 3. As pessoas demonstram necessidade de evitar a reprovação e o desagrado dos outros. Freqüentemente, elas se atêm a idéias estereotipadas sobre o comportamento da maioria em seu grupo e tendem a se comportar como uma pessoa “bem educada”. Segundo Kohlberg, é neste estágio que a intenção torna-se importante pela primeira vez.

Estágio 4. A pessoa mostra respeito pela autoridade, pelas regras fixas e pela manutenção da ordem social.

Estágio 5. Demonstra respeito pelos direitos individuais. A obrigação é baseada no livre acordo. Há valorização do ponto de vista legal, mas acredita-se que a lei pode ser mudada em função de considerações sobre sua utilidade social.

Estágio 6. As decisões da pessoa são guiadas por princípios éticos selecionados por ela própria, como justiça, reciprocidade, igualdade e respeito pela dignidade do ser humano (2 ).


“É na revelação das Leis Morais que reside a
verdadeira grandeza do Espiritismo.
Os fenômenos espíritas são um prólogo da lei moral.
Embora muito imperfeitamente, comparemo-los à casca revestindo o fruto:
inseparáveis em sua gestação, têm, entretanto, um valor muito diferente.”
León Denis. “Depois da Morte”, nona edição, pág.304. FEB


Em 1857, Allan Kardec publicou “O Livro dos Espíritos”. Ele apresentada didaticamente, mais de mil questões propostas pelo codificador e respondidas pelas “Vozes dos Céus”. Vamos examinar alguns trechos de algumas respostas oferecidas, entre os números 778 e 802. Sugiro ao leitor marcar os pontos que concordam ou discordam, do que foi descrito nos estágios acima.

Pode o homem retrogradar para o estado de natureza?

“Não, o homem tem que progredir incessantemente e não pode volver ao estado de infância. Mas, nem todos progridem simultaneamente e do mesmo modo. Dá-se então que os mais adiantados auxiliam o progresso dos outros, por meio do contacto social.”

O progresso moral acompanha sempre o progresso intelectual?

“Decorre deste, mas nem sempre o segue imediatamente. O progresso intelectual engendra o moral, fazendo compreensíveis o bem e o mal. O homem, desde então, pode escolher. O desenvolvimento do livre arbítrio acompanha o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos.”

Como é, nesse caso, que, muitas vezes, sucede serem os povos mais instruídos os mais pervertidos também?

“O progresso completo constitui o objetivo. Os povos, porém, como os indivíduos, só passo a passo o atingem. Enquanto não se lhes haja desenvolvido o senso moral, pode mesmo acontecer que se sirvam da inteligência para a prática do mal. O moral e a inteligência são duas forças que só com o tempo chegam a equilibrar-se.”

Tem o homem o poder de paralisar a marcha do progresso?

“Não, mas tem, às vezes, o de embaraçá-la.”

Bastante grande é a perversidade do homem. Não parece que, pelo menos do ponto de vista moral, ele, em vez de avançar, caminha aos recuos?

“Observa bem o conjunto e verás que o homem se adianta, pois que melhor compreende o que é mal, e vai dia a dia reprimindo os abusos.”

Qual o maior obstáculo ao progresso?

“O orgulho e o egoísmo. Refiro-me ao progresso moral, porquanto o intelectual se efetua sempre. A primeira vista, parece mesmo que o progresso intelectual reduplica a atividade daqueles vícios, desenvolvendo a ambição e o gosto das riquezas, que, a seu turno, incitam o homem a empreender pesquisas que lhe esclarecem o Espírito.”


“Bem aventurados os humildes de espírito,
porque deles é o reino dos céus.”
Mateus, 5


“Há duas espécies de progresso, o intelectual e o moral. Entre os povos civilizados, o primeiro tem recebido todos os incentivos. Muito falta para que o segundo se ache no mesmo nível. Entretanto, comparando-se os costumes sociais de hoje com os de alguns séculos atrás, só um cego negaria o progresso realizado. Ora, sendo assim, por que haveria essa marcha ascendente de parar, com relação, de preferência, ao moral, do que com relação ao intelectual?”

“O homem, fisicamente, materialmente,
é como uma planta que se desenvolve naturalmente,
em virtude das leis universais,
porém, intelectualmente e moralmente ele se cria por si mesmo.”
Denis


O progresso fará que todos os povos da Terra se achem um dia reunidos, formando uma só nação?

“Uma nação única, não; seria impossível, visto que da diversidade dos climas se originam costumes e necessidades diferentes, que constituem as nacionalidades, tornando indispensáveis sempre leis apropriadas a esses costumes e necessidades. A caridade, porém, desconhece latitudes e não distingue a cor dos homens. Quando, por toda parte, a lei de Deus servir de base à lei humana, os povos praticarão entre si a caridade, como os indivíduos. Então, viverão felizes e em paz, porque nenhum cuidará de causar dano ao seu vizinho, nem de viver a expensas dele.” A Humanidade progride, por meio dos indivíduos que pouco a pouco se melhoram e instruem. Quando estes preponderam pelo número, tomam a dianteira e arrastam os outros. De tempos a tempos, surgem no seio dela homens de gênio que lhe dão um impulso; vêm depois, como instrumentos de Deus, os que têm autoridade e, nalguns anos, fazem-na adiantar-se de muitos séculos.

O progresso dos povos também realça a justiça da reencarnação. Louváveis esforços empregam os homens de bem para conseguir que uma nação se adiante, moral e intelectualmente.


“Bem aventurados os mansos, porque herdarão a Terra.”
Mateus, 5


Por que indícios se pode reconhecer uma civilização completa?

“Reconhecê-la-eis pelo desenvolvimento moral. Até então, sereis apenas povos esclarecidos, que hão percorrido a primeira fase da civilização.

De duas nações que tenham chegado ao ápice da escala social, somente pode considerar-se a mais civilizada, na legítima acepção do termo, aquela onde exista menos egoísmo, menos cobiça e menos orgulho; onde os hábitos sejam mais intelectuais e morais do que materiais; onde a inteligência se puder desenvolver com maior liberdade; onde haja mais bondade, boa-fé, benevolência e generosidade recíprocas; onde menos enraizados se mostrem os preconceitos de casta e de nascimento, onde as leis nenhum privilégio consagrem ; onde com menos parcialidade se exerça a justiça; onde a vida do homem, suas crenças e opiniões sejam melhormente respeitadas; onde exista menor número de desgraçados; enfim, onde todo homem de boa-vontade esteja certo de lhe não faltar o necessário.”

Poderia a sociedade reger-se unicamente pelas leis naturais, sem o concurso das leis humanas?

“Poderia, se todos as compreendessem bem. Se os homens as quisessem praticar, elas bastariam. A sociedade, porém, tem suas exigências. São-lhe necessárias leis especiais.”

“O direito de alguns tornou-se o direito de todos;
mas, para que o direito soberano seja conforme com a justiça
e produza seus frutos,
é necessário que o conhecimento das leis morais venha regular o seu exercício.”
Denis


Qual a causa da instabilidade das leis humanas?

“Nas épocas de barbaria, são os mais fortes que fazem as leis e eles as fizeram para si. A proporção que os homens foram compreendendo melhor a justiça, indispensável se tornou a modificação delas. Quanto mais se aproximam da vera justiça, tanto menos instáveis são as leis humanas.

A civilização criou necessidades novas para o homem, necessidades relativas à posição social que ele ocupe. Tem-se então que regular, por meio de leis humanas, os direitos e deveres dessa posição. Mas, influenciado pelas suas paixões, ele não raro há criado direitos e deveres imaginários, que a lei natural condena e que os povos riscam de seus códigos à medida que progridem. A lei natural é imutável e a mesma para todos; a lei humana é variável e progressiva. Na infância das sociedades, só esta pode consagrar o direito do mais forte.”

“Bem aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós.”
Mateus, 5


No estado atual da sociedade, a severidade das leis penais não constitui uma necessidade?

“Uma sociedade depravada certamente precisa de leis severas. Infelizmente, essas leis mais se destinam a punir o mal depois de feito, do que a lhe secar a fonte. Só a educação poderá reformar os homens, que, então, não precisarão mais de leis tão rigorosas.”

“Juiz manda Naya indenizar logo moradores do Palace II.”

O acordo de indenização de 11 moradores do edifício Palace II, que desabou em fevereiro matando oito pessoas, no Rio de Janeiro, terá que ser cumprido até 31 de agosto pelo ex-deputado Sérgio Naya, dono da Construtora Sersan. A decisão foi tomada ontem pelo juiz Rogério de Oliveira Souza, da vigésima Vara Cívil do Rio. Se Naya não pagar, poderá ser decretada intervenção judicial em suas impresas.
(O Globo, terça-feira, 4 de agosto de 1998, página 15).

A Filosofia Espírita de Educação passa pela valorização da busca incessante da verdadeira realidade do ser multidimencional, perseguindo as condições que favoreçam a perfectibilidade relativa possível em tempo menor. O exercício da razão, apoiada no sentimento, é o seu método e seus dois preceitos fundamentais prevê o desenvolvimento harmonioso entre os domínios cognitivos e afetivo (Amai-vos e Instrui-vos). No processo de educação dos espíritos, num planeta ainda de provas e expiações, há a coexistência de livre-arbítrio e determinismo. Na medida que avançamos conquistanto créditos, vamos verificando o aumento de um (livre-arbítrio) em detrimento do outro (determinismo). Espíritos primários construimos e reencarnamos numa sociedade egoísta, onde encontramos toda sorte de desigualdades sociais, injustiças, violências, etc., o que por sua vez favorece frustrações, sofrimentos e dores diversas.

A proposta da Educação é a produção de homens voltados para o bem, que transformarão as Instituições humanas. Daí ser fundamental o estudo do homem, levando ao autoconhecimento, desenvolvendo valores éticos-morais que irão libertando o espírito da influência da matéria e conduzindo-o à verdadeira felicidade. O espírito torna-se herdeiro de si mesmo, arquiteto do próprio destino, extraindo das suas conquistas e derrotas a experiência necessária a libertação espiritual.

De que maneira pode o Espiritismo contribuir para o progresso?

“Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, ele faz que os homens compreendam onde se encontram seus verdadeiros interesses. Deixando a vida futura de estar velada pela dúvida, o homem perceberá melhor que, por meio do presente, lhe é dado preparar o seu futuro. Abolindo os prejuízos de seitas, castas e cores, ensina aos homens a grande solidariedade que os há de unir como irmãos.”

Por que não ensinaram os Espíritos, em todos os tempos, o que ensinam hoje?

“Não ensinais às crianças o que ensinais aos adultos e não dais ao recém-nascido um alimento que ele não possa digerir. Cada coisa tem seu tempo. Eles ensinaram muitas coisas que os homens não compreenderam ou adulteraram, mas que podem compreender agora. Com seus ensinos, embora incompletos, prepararam o terreno para receber a semente que vai frutificar.”

“Irmãos, não sejais meninos no entendimento,
mas sede meninos na malícia e adultos no entendimento”
(I Coríntios, 14:20)

“Com leite vos criei, e não com manjar,
porque ainda não podíeis, nem tão pouco ainda agora podeis...”

I Coríntios, 3:2


Por que os espíritos não apressam esse progresso, por meio de manifestações tão generalizadas e patentes, que a convicção penetre até nos mais incrédulos?

“Desejaríeis milagres; mas, Deus os espalha a mancheias diante dos vossos passos e, no entanto, ainda há homens que o negam. Conseguiu, porventura, o próprio Cristo convencer os seus contemporâneos, mediante os prodígios que operou?

Em sua bondade, Deus lhes deixa o mérito de se convencerem pela razão.”

“O progresso é a aspiração pelo melhor, pelo belo;
é a prova da existência em nós de um princípio superior,
de alguma coisa grandiosa, quase divina,
que nos encaminha para destinos mais altos,
que nos lança sempre para frente,
nos domínios do pensamento e da consciência.”
Denis


Você ainda se lembra dos seis estágios do desenvolvimento moral?

Brito (1) informa que os estágios são universais, pois estudos transculturais efetuados por Kohlberg indicaram que a seqüência dos estágios se mantém sob diferentes condições culturais, embora os dois últimos estágios não se desenvolvam claramente em comunidades primitivas. Os estágios, ainda, são hierárquicos, isto é, não é possivel atingir-se um estágio mais alto sem haver passado pelos precedentes. A pessoa pode estacionar em qualquer estágio, mas, se retomar seu desenvolvimento, deverá fazê-lo degrau por degrau, sem saltos.

Acredito que a conclusão do educador não se afasta da resposta obtida por Kardec na questão 778. Kohlberg diz que “as mudanças no desenvolvimento moral são irreversíveis: se um indivíduo atinge um estágio mais elevado, nunca voltará a um estágio inferior.”

Este enfoque, denominado cognitivo-desenvolvimentista, que assume que o indivíduo é capaz de auto-aperfeiçoamento, parece entrar em choque com o pensamento comportamentista, onde o desenvolvimento moral compreende a internalização de normas e valores culturais através de reforço e imitação de modelos. No entanto, não parece ser útil considerá-los como mutuamente exclusivos.

Uma questão feita por Kardec (de número 625) foi respondida lembrando o reforço e a imitação de modelos. Mas na 624 ele indaga sobre o carácter do verdadeiro profeta. A resposta é pequena, mas significativa: “o verdadeiro profeta é um homem de bem inspirado por Deus. Pode-se reconhecê-lo por suas palavras e por suas ações. Deus não pode se servir da boca do mentiroso para ensinar a verdade.”

Qual é o tipo mais perfeito, que Deus ofereceu ao homem para lhe servir de guia e de modelo? A resposta fala de altos níveis no dominio cognitivo e afetivo, mas sobretudo no patamar mais alto, o da “Consciência Cósmica”. É a mais breve: “Jesus”.


“Ninguém pode negar a beleza dos seus ensinos.
E, mesmo que alguns desses ensinos tenham sido apresentados antes,
a verdade é que ninguém os expressou tão divinamente como Ele.”
Einstein


Os escribas e fariseus Lhe trouxeram uma mulher que havia sido apanhada em adultério e pediam sua opinião. Na realidade queriam apenas um pretexto para acusá-lo. Se Ele opinasse pelo apedrejamento, para dar cumprimento a Lei de Moisés, estaria indo contra seus próprios ensinamentos de amor, perdão, caridade. Se dissesse que a mulher não deveria receber castigo tão severo, estaria indo contra a lei mosaica. É aqui que entra a autoridade moral, a inteligência emocional, associada ao mais alto nível do domínio cognitivo.

Ele havia dito que não veio destruir a lei ou aos profetas e sim dar-lhe cumprimento. Lavaria as mãos? Mas, e a caridade? O que fêz? Ele argumentou e evitou o apedrejamento.

A reflexão fê-los perceber a magnitude da resposta. A viagem interior retrospectiva levou o grupo a dispersar-se. É o momento de transição entre a consciência de sono e a consciência desperta. É o salto para órbitas mais altas, para níveis mais elevados.

Para Kohlberg, citado por Brito (2) o desenvolvimento moral envolve seis estágios, correspondendo a três níveis: 1. Nível pré-convencional (estágios 1 e 2); 2. Nível convencional (estágios 3 e 4); 3. Nível pós-convencional, como descrito anteriormente.

Repetimos, os estágios são universais e hierárquicos: estudos transculturais indicaram que a seqüência dos estágios se mantêm sob diferentes condições culturais, embora os dois últimos estágios não se desenvolvam claramente em comunidades primitivas.

Por outro lado, não é possível atingir-se um estágio mais alto sem haver passado pelos precedentes. Outra observação, extremamente importante, é que as mudanças no desenvolvimento moral são irreversíveis, a pessoa nunca mais será a mesma, nunca voltará a um estágio inferior. Jesus sabia e por isso dialogou com a mulher, fazendo o reforço da ação pedagógica. E, ela nunca mais pode esquecê-lo.

Foi assim com Saulo de Tarso, que aproveitou o momento. Com Kardec foi assim também, veja o resultado que é “O Evangelho Segundo O Espiritismo”.

A autoridade da sentença está na razão da autoridade moral do juiz que a pronuncia.

“Quem atirou a primeira pedra?

Você foi contra ou a favor do aborto, quando perguntado na primeira vez?

Lembra-se da questão central e do Antonio M. Martins, ex-leproso do outro lado da fronteira, dizendo-me que “experiência vivida não podia ser transmitida”?

Pois bem, a vida nos coloca em situações onde temos que tomar decisões difíceis. O que é legal pode não ser moral.

Por isso no estágio 5 acredita-se que a lei pode ser mudada em função de considerações sobre a sua utilidade social. No entanto, quem está num estágio inferior pode querer uma lei que atenda a sua visão ainda nublada pela consciência que dorme. Nicodemos era doutor da lei, mas não entendeu quando Jesus falou das coisas de nascer de novo. O Doutor tinha nível baixo e pensou num homem velho e num velho útero. Ele não conseguiu perceber que o ser evolui em etapas na matéria , a persona, e fora da matéria, o espírito.

Ninguém voltou para nos contar como é a vida fora do plano físico, diz o desinformado. São inúmeros os depoimentos que passaram pelo crivo do bisturí da Ciência. O espírito volta e se reconhece a persona. Humberto de Campos escreveu um artigo a Agripino Griecco, na frente do próprio crítico, que não pode deixar de declarar: “Como, eu não sei, mas que era Humberto não há dúvida!”

Quando o homem subiu vários degráus do desenvolvimento moral ele é capaz de declarar: “Como, eu não sei, mas...”

Chico Xavier tem feito muitas mães, que choram de saudade, chorarem de alegria!

Lembro, agora, do apelo feito pelo Dr. Leyeune: “gostaria que as pessoas consideradas normais, cada vez que encontrassem um portador da Síndrome de Down, acreditassem nele. Não há gente mais sincera no mundo em que vivemos”.

O professor Jérome Leyeune foi convidado a participar de um Congresso de Medicina Fetal no Brasil. Os conferencistas ingleses e franceses organizaram um boicote e ele teve a palavra cassada. Sua crítica ao aborto é uma afronta à vertente materialista da ciência. Indagado sobre o problema ele disse que: “é uma profunda intolerância, que nega os pricípios de democracia e de liberdade, princípios que os próprios defensores do aborto utilizam como argumento para justificá-lo”.


“Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça,
porque deles é o reino dos céus.”

Mateus, 5


A presença do médico na televisão francesa é tacitamente proibida, porque ele afirma que “sugerir que se elimine este ou aquele ser humano, porque possui uma anomalia, é um comportamento racista”. “O aborto resolve o problema dos pais, não dos filhos”.

Já de posse da medicina do terceiro milênio ele afirma: “Um feto é sempre um feto. Se ele é doente, devemos estar a seu serviço, e não ajudá-lo a morrer”.

Leyeune “foi” despedido por Justa Causa, porque sabe que a Causa é Justa. Nesses momentos de decisão é que temos a dimensão da nossa estatura evolutiva.

As almas dos homens que já viveram na Terra voltam a nos alertar. Agora é Victor Hugo escreve “Do Abismo Às Estrelas” dizendo em seu prefácio (25/12/1974):

“No momento em que a eutanásia é justificada por eminentes sacerdotes da Medicina, ganhando manchetes sensacionalistas nos periódicos do mundo; durante a vigência de leis que legalizam o aborto em diversos países civilizados da Terra; quando a França encaminha ao Senado um projeto para a interrupção legal da gestação até dez semanas após a concepção sob aplauso da Câmara dos Deputados e o entusiasmo de homens e mulheres ilustres, revogando a Lei de 1920 que o condenava, e favorecendo o infanticídio; diante da audácia humana que pretende negar à posteridade o direito de nascer ou de renascer na escola terrena, é impossível silenciar as conseqüências que defluem de tais ignóbeis atitudes, desgraçando os seus autores antes como depois da desencarnação.

Amordaçar a verdade é compactuar com o crime e a mentira.

Aplaudir o erro somente porque este recebe o transitório aval dos homens significa conspurcar a dignidade individual e enxovalhar a inteligência e a cultura da Humanidade.

Por tais razões escrevemos este livro, pensando nos milhões de criaturas que derrapam na direção de graves, desditosos compromissos por falta de advertência oportuna e de segura diretriz a fim de que perseverem no áspero e reto cumprimento dos deveres em relação a si mesmos, à sociedade e à vida.

A quantos se encontram em tal encruzilhada de incertezas e indecisões dedicamos esta Obra.
(Salvador, Livraria Espírita Alvorada, 1975,.323 p.)

Na Alemanha em 1939, professores e psiquiatras decidiram que se devia matar pessoas defeituosas, justificando que eram vidas que não valeriam a pena serem vividas. Seis anos depois a insensibilidade era tanta e o valor da vida caíra tanto que pediatras, nos hospitais-escola, estavam matando crianças que urinavam na cama, que tinham orelhas mal formadas ou incapacidade de aprender. Estas e outras desvalorizações da vida, criando seres de segunda categoria, originaram os campos de concentração e os incineradores humanos.

“Não lembramos todas essas coisas com o objetivo de reavivar ódios extintos.
Não, ódio não temos mais.
Devemos alertar os homens que preconizam as instituições da Idade Média, que as elogiam e que, se pudessem, fariam renascê-las.
Com a mão sobre a História, devemos responder e dizer uma coisa: a verdade!.”
Denis

Gostaria de terminar voltando à questão inicial.

Deve-se aceitar o aborto para “salvar a vida” da gestante HIV-positiva, grávida pelo estupro?

Um profissional da área de saúde, bem informado e pertencente à vertente espiritualista da ciência, certamente responderia dizendo que esta é uma matéria sem resposta definitiva, no que diz respeito à influência da sorologia positiva no processo gestacional e da própria saúde do feto. Não existe nenhum argumento ético, jurídico ou técnico, capaz de fundamentar a interrupção de uma gravidez numa mulher soro-convertida ou mesmo já doente de Aids, a não ser que suas condições de saúde sejam agravadas pela gestação, que cessada a gravidez cesse o perigo e que não haja outro meio de salvar-lhe a vida.

No naufrágio você e a filha se separam. As ondas as afastam. De repente uma criança agarra-se a você... E, você decide!

 

Referências Bibliográficas

1. Anjos, L. dos. 1978. Deus É O Absurdo. 171 p. Editora Eco. RJ. RJ.

2. Brito, D.T.S. 1983. A educação moral na escola. Forum educacional, RJ, 7 (2): 45-55.

3. Camano, L.; Haraguchi, D.K.M.; & Takanohashi, S. 1995. Considerações sobre a utilização de anencéfalos como doadores de órgãos. Femina, 23(6): 557-560.

4. Cardoso, G. P. 1998. Morte Cerebral: Aspectos Médicos e Espirituais. Serviço Espírita de Informações (SEI), abril, 1569: 3; maio, 1570: 3.

5. Cardoso, G. P. & Boechat, N. 1987. Na Madureza Dos Tempos. Primeira edição. Composto e Impresso na Folha Carioca Editora LTDA. RJ. RJ.

6. Denis, L. 1880. O Progresso. Tradução (José Jorge). 72 p. Centro Espírita León Denis, RJ. RJ. 1995.

7. Diniz. D. 1997. O aborto seletivo no Brasil e os alvarás judiciais. Bioética, 5: 19-24.

8. Editorial. 1985. Do direito ao próprio corpo ao direito de matar o outro. Excerpta Femina III, 13(12): 1062-1063.

9. Formiga, L.C.D. 1998. Sexo: artigo de compra e venda. Fraternidade (Lisboa): 419: 149-154.

10.Formiga, L.C.D. 1998. Ensino, Pesquisa e Ética em Microbiologia Médica. Sociedade Brasileira de Microbiologia - Notícias, 21(julho): 3-4.

11. Gollop, T.R. 1995. Revisando a questão do aborto por anomalia fetal. Femina, 23(4): 382-383.

12. Formiga, L.C.D. 1985. New possibilities for Laboratory diagnosis of diphtheria. Brazilian J. Med. Biol. Res., 18:401402; Silva, A.C.P.; Formiga, L.C.D.; Silveira, M.H.; Suassuna, I. 1969. La accion de la gentamicina sobre bacilos diftéricos. Symposium Latino-Americano sobre infecciones y gentamicina." Estela " S.A. México, D.F. pag., 171-174; Formiga, L.C.D.; Silva, A.C.P.; Pinheiro, C.A.R.; Assumpção, R.L.; Silveira, M.H.; Serpa, C.E.V. & Suassuna, I. 1971. Estudo " in vitro " sobre a sensibilidade do Corynebacterium diphtheriae a treze antibióticos.Rev. Microbiol. (SP), 2: 117-127; Formiga, L.C.D. 1986. Diagnóstico Microbiológico da Difteria (1ª parte). Rev. Bras. Pat. Clin., 22(2): 52-58; Formiga, L.C.D. 1986. Diagnóstico Microbiológico da Difteria (2ª parte). Rev. Bras. Pat. Clin.,22(3): 90-93; Formiga, L.C.D. 1986. Diagnóstico Microbiológico da Difteria (3ª parte). Rev. Bras. Pat. Clin., 22(4): 122-130. Formiga,L.C.D. & Guaraldi,A.L.M. 1993. Diphtheria: current status and laboratory procedures for diagnosis.Rev. Bras. Pat. Clin., 29(3): 93-96; Formiga, L.B.; Formiga, L.C.D. & Gomes, R.O. 1994. Difteria. Iatrogenia da omissão. Pediatria Atual, 7(8): 27-31; Macambira, R.P.; Formiga, L.B. & Formiga, L.C.D. 1994. Difteria - o grave prognóstico brasileiro. Jornal Brasileiro de Medicina, 66(3): 69-81; Guaraldi, A.L.M. & Formiga, L.C.D. 1998. Bacteriological properties of a sucrose fermenting Corynebacterium diphtheriae strain isolated, from a case of endocarditis. Curr. Microbiol. Letters, 37: (in press).

13. Larsen, W.J. 1993. Human Embryology. Churchill Livingstone Inc., N.Y.

14, Nobre, M.S. & Oliveira, S.F. 1997. Na clonagem, a molécula de DNA atrai o espírito à reencarnação. Folha Espírita (abril), p.3.

15. Rocha, A. S. 1998. Morte Cerebral e Transplantes. Serviço Espírita de Informações (SEI), junho, 1575: 3.

16. Suplicy, M. 1984. Entrevista: “Abortar é um direito”. Veja, 13 de junho.

17. União Planetária SGAS Quadra, 603, Módulo 20, Asa Sul, Brasília - DF (E-mail uniãoplanetária@stb.org.br). 1998. Abaixo-assinado ao Procurador Geral da República.


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