Espiritualidade e Sociedade



Luiz Carlos Formiga & Sonia B. Formiga

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Luiz Carlos Formiga & Sonia B. Formiga
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Jesus, Tomé e Nós



“O morte onde está tua vitória.” (Paulo)

 

O prefácio de um livro permite preparar o espírito do leitor. Não é tarefa das mais fáceis. Mas não chega a ser como um pedido de perdão a Deus para torturadores.

O primeiro prefácio do livro que estou lendo (1), foi elaborado por um médico e nele encontramos a afirmação de que "o sofrimento é o megafone de Deus”, evidentemente para acordar um mundo adormecido.

"Qual seria o tipo de médico que gostaríamos que cuidasse de nós na hora do adoecer?” O autor do livro “Sofrimento Como Síntese”, passou pela experiência da doença grave e traz à tona o tema do sofrimento, campo que revela a fragilidade do paciente, o insucesso do médico, e as frustrações profissionais e psicológicas. Ele sabe que na busca das causas biológicas da febre não encontraremos como abordar crises existenciais.

O prefácio pede para nos inspirarmos no capítulo seis – “Quando o médico adoece”. O segundo prefácio informa que num número cada vez maior de países, incluindo o Brasil, existe uma preocupação crescente em voltar a enfatizar a importância de uma formação do médico que resulte em um profissional com sólida formação técnica e científica, mas também ética, humanística, e com responsabilidade social. Explica que um dos aspectos fundamentais da Medicina Humanística é a ênfase na escuta, na conversa, no papel terapêutico do médico, no aconselhamento, e essa prática deve ser, sempre, individualizada. As angústias, preocupações, sofrimentos de cada paciente são diferentes dos outros, são únicos.

O livro fala sobre fé, espiritualidade, sofrimento, aconselhamento, papel terapêutico do médico e também sobre o quando o médico adoece. Na página 70 diz que a ignorância do leigo é uma benção, pois as etapas da doença podem se desenvolver sem que medos precoces atrapalhem ou até levem a um desespero inconsequente. Há casos de suicídios de médicos após um diagnóstico de doenças graves, como câncer e AIDS.

O autor passou por um câncer. Mas, tendo formação religiosa dirigiu-se aos Salmos de David. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte nada temerei, pois Você está comigo” Repetia inúmeras vezes essa frase,que se converteu em um verdadeiro mantra.

Seu médico o visitava, ou, pelo menos, telefonava, diariamente. “Eu era uma pessoa, alguém de quem ele gostava, eu não era, apenas, uma próstata removida.” Alguns anos depois recebeu um diagnóstico de câncer de tiroide. O capítulo é inspirador.

A morte é uma programação. O problema é que alguns já morreram e não sabem. Allan Kardec explica isso. Veja com ele porque religiosos temem o inferno e os espíritas o umbral.

No artigo "Defunto Fresco" há um depoimento que impactou a plateia, em profundo silêncio, seguido de um burburinho.

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, o sociólogo Herbert de Souza conta como se tornou portador do vírus da AIDS. Hemofílico, contaminado pelo sangue, antes de começar o relato, nos diz: Vocês estão me olhando pensando: -“ esse cara vai morrer”. Eu tenho uma péssima notícia. Vocês também vão morrer!. (2)

Há despreparo para a morte. Com medo e angustia procuramos nem pensar nela, pois é considerada uma punição, desastre ou desgraça. Na realidade, o grande problema é como nos deparamos com ela, surgindo o temor da maturidade e o horror à velhice.

No mundo da imaturidade emocional e falsa autopercepção, a morte não possui o menor prestígio. O valor surge quando pode aliviar o peso da desgraça.

A partir do século XX a morte deixa de ser doméstica, familiar, e se transforma em tabu. Na sociedade atual a existência individual está diluída e o homem na massa passa a medir sua existência por parâmetros quantitativos. Diminui-lhe o gosto cultural e ele passa a ter uma vida sem ideais. No entanto, é diante da morte que se defrontará com seu mundo interior, sua realidade mais profunda.

A experiência da morte pode conduzir a pessoa a se perceber único, impulsionando a própria transformação. Aconteceu com os apóstolos, angustiados na crucificação. A pessoa enquanto se angustia, se singulariza, uma vez que, diante da morte, só ela pode ser o que ela é.

Nas aulas de medicina legal me perguntei como essa disciplina descreveria o assassinato de Jesus.

Não podemos fugir, mas podemos estabelecer com a morte uma coexistência pacífica. Ela não nos perseguirá nem nós fugiremos dela, tentando nos camuflar na massa.

Quando percebemos que vamos morrer nós nos tornamos mais humanos. A consciência de que somos mortais repercute na vida do espírito eterno, ainda no corpo. Sabemos que ela virá ao nosso encontro, nos estreitos corredores da vida na carne, com seu GPS perfeito.

Jesus ministrou aula prática sobre isso. Parece que Tomé foi o escolhido. Lamentamos ainda não sermos como Tomé. Por outro lado, como já fazemos reflexões com a “Boa Nova”, acreditamos que podemos nos sair bem na “prova final”. O passo inicial é não temer a morte e nunca pensar em suicídio. Nós ainda não temos condição de sermos perseguidos, martirizados e morrermos pelo Mestre, mas já podemos viver, demonstrando que Ele é nosso modelo e guia.

Ninguém acende a candeia e a coloca debaixo do módio, mas no velador, e assim alumia a todos os que estão na casa”, disse Jesus (Mateus, 5: 15). Emmanuel, no livro Fonte Viva, lição 81, comenta que “Ninguém deve amealhar as vantagens da experiência terrestre somente para si. Nossa existência é a candeia nova.”

Caso pudesse fazer opção que tipo morte escolheria? Um médico inglês (3) causou comoção geral, quando tipos de morte foram numerados e ele escolheu o câncer.

No “II Seminário Lítero-Musical”, realizado no C. E. Discípulos de Jesus, Rua Amaral Costa, 52, Campo Grande, RJ. Outubro de 2013, foi que Sonia B. Formiga desenvolveu o tema “A Pedagogia de Jesus Aplicada a Tomé.” (4, 5, 6, 7). Através dos seus slides reproduzimos a seguinte síntese.

Encontramos em Marcos 2:13, o processo de escolha. “Jesus foi à montanha para orar e passou a noite inteira em oração a Deus. Depois, ao amanhecer, chamou os discípulos e dentre eles escolheu doze, aos quais deu o nome de apóstolos.”(Lc. 6:12-13) E entre eles estava Tomé.

Por que Jesus o escolheu? Qual teria sido o critério adotado pelo Senhor?

“Não fostes vós que me escolheste, mas fui Eu que vos escolhi e vos constituí para irdes e produzirdes muito fruto e para que o vosso fruto permaneça, a fim de que tudo que pedirdes ao Pai em meu nome Ele vos conceda. Uma coisa vos ordeno: - Amai-vos uns aos outros.”(Jo. 15:16,17)

É possível compreender que Jesus tinha um conhecimento profundo do potencial de cada um dos seus apóstolos, além de uma visão alentadora do futuro e estava movido por infinito amor e paciência.

Ele respeitava o ser integral, no seu contexto bio-psico-sócio-espiritual, e, portanto, operava particularmente em cada um. Percebia em Tomé, além da racionalidade, um senso crítico importante no exercício da semeadura. Seu amor por Ele, sua generosidade com os companheiros eram créditos que Jesus contabilizava. Assim como o escultor enxerga na pedra bruta a futura obra prima, Jesus enxergava em Tomé o trabalhador dedicado e sincero do porvir.

Jesus jamais perdeu a esperança ao lidar com os homens. Como Mestre, Ele sabia que o melhor método para aumentar a fé e a confiança de alguém é acreditar nesse alguém. Por isso, fazia-se acompanhar pelos discípulos e não perdia uma única chance de ensinar. Ele considerava a pessoa humana como o mais elevado de todos os investimentos.

Jesus convivia, permutava, participava do cotidiano de cada um nas ruas, nas casas, no templo, no trabalho, na alegria e na dor. Em todas essas ocasiões encontrava situações a serem observadas e discutidas e Tomé crescia a cada dia, espiritualmente.

Por várias vezes Tomé estivera com o Senhor em casa de Lázaro e, quando a notícia de sua doença e morte chegou, certamente seu coração confrangeu-se. Muitos foram os argumentos para que Jesus não voltasse a Jerusalém, onde queriam matá-lo. Mas, o Senhor estava irredutível.

A objetividade de Tomé, aliada à fé, permite que ele faça uma análise profunda da situação. Entendendo que Jesus iria, de qualquer jeito, ele interrompe o tumulto e diz: “Vamos todos com Ele para morrermos também.” (Jo.11:16)

Nesse momento, Jesus constata sua liderança, porque todos se calam e resolvem seguir o Mestre. Além disso, Jesus emociona-se, ao constatar que, em seu coração, Tomé estava disposto a entregar a vida, por fidelidade e amor a Ele.

Logo a hora do Senhor se aproxima e Ele reúne os doze, se despede , consola e instrui: “Não se turbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim. Na casa do meu Pai há muitas moradas. Vou preparar-vos o lugar. E quando eu me for, e vos tiver preparado o lugar, voltarei a vós e vos levarei comigo para que onde eu estiver, vós também estejais. E para onde vou, sabeis o caminho.”

Todos silenciaram. Apenas Tomé, aflito, na sua sinceridade, disse em nome de todos: “Senhor, não sabemos para onde vais, como podemos conhecer o caminho?” Jesus oferece a Tomé o ensinamento básico, contido na Q. 625 de O Livro dos Espíritos: “Eu sou o caminho da Verdade e da Vida e ninguém vem ao Pai, senão por Mim.” (Jo. 14:1-6)

Jesus, modelo e guia.

Os apóstolos tiveram apenas um dia para metabolizar essas palavras, porque então tudo aconteceu: Jesus foi preso, açoitado, julgado, coroado de espinhos e, finalmente, crucificado.

Como resistir a isso? Como suportar tamanha dor? O desespero tomou conta de todos. Esconderam-se e, juntos, choravam. Mas, Jesus cumpriu a sua promessa e ressurgiu, aparecendo à Madalena.

Interessante é que todos foram incrédulos, pois ninguém acreditou quando ela , correndo, foi contar que vira o Senhor. No entanto, só Tomé ficou com a fama.

Provando o que dissera, Jesus surgiu no recinto fechado e sua voz ecoou: “A paz seja convosco!” Mostrou as chagas e os discípulos encheram-se de alegria e esperança. MasTomé não estava com eles! Pobre Tomé!

No dia seguinte quando chega, é recebido com gritos de alegria: Tomé, Tomé, Jesus voltou! Atordoado, recebe mais uma punhalada no coração: Perdera a oportunidade de ver Jesus de novo.

A reação foi imediata: Vocês estão loucos. Fechou-se em si mesmo. Seu senso de realismo cristalizou-se e ele, então, explode: “Se eu não vir em suas mãos o lugar dos cravos e se não puser meu dedo no lugar dos cravos e minha mão do seu lado, não crerei.

Permitam-me uma divagação. “Somente conhece os caminhos retos aquele que alguma vez se enganou e transitou pelos equivocados. A melhor intenção não é a do homem impecável, mas a do que tem na sua alma as cicatrizes de muitas retificações”. (1)

Jesus esperou vários dias, para que Tomé tivesse oportunidade de rememorar os três anos de ensinamentos. Sabia que ele precisava de um tempo, porque o seu problema era exatamente a pedra angular: a realidade espiritual.

Imaginemos o pobre Tomé a ouvir Jesus, na acústica da alma, dia e noite, por sete dias: “Vou, mas voltarei, nunca vos deixarei a sós!” E ele não acreditara...

Então, no oitavo dia, portas e janelas fechadas, Jesus novamente apareceu no meio deles e sua voz ecoou: “A paz seja convosco!

Tomé, coração acelerado, embargado de pranto, vê Jesus se aproximar e dizer: “Vem, Tomé, introduz aqui o teu dedo e vê as minhas mãos. Põe a mão do meu lado e não sejas incrédulo, mas crê”.

Completamente vencido pelo amor do Cristo, Tomé cai de joelhos e clama com todas as suas forças: “Meu Senhor!

Jesus o sustenta e, para finalizar o ensinamento, lhe diz:

Porque me viste, creste. Felizes os que não viram e creram.”

Somos todos Tomé, lutando com as nossas fraquezas, exigindo aulas extras que possam satisfazer os nossos desejos.

Mas o Mestre Incomparável, com sua paciência sem limites nos aguarda confiante.

Jesus teve razão em acreditar em Tomé, pois ele correspondeu plenamente à confiança do Senhor.

Evangelizou a Pérsia e a Índia, onde é reconhecido como santo, tendo um monte e uma catedral com seu nome.

Está colocado na nona bem aventurança, pois foi perseguido e martirizado, morto a flechadas por amor a Jesus.

E, quanto a nós, passaremos na prova final?

Quase sempre nos lembramos do fiel discípulo através do seu momento de incredulidade, no entanto Tomé nos deixou inúmeros ensinamentos. Que ele possa nos presentear nas futuras páscoas com bombons recheados da certeza da imortalidade.

O Mestre ministrou aulas teóricas e práticas. Acredito que a mais difícil para a compreensão, análise e síntese de Tomé foi o Seu "retorno à vida". depois da tortura e morte.

Parece-nos não haver dúvidas de que Jesus sofreu uma brutal morte, por tortura e crucificação. O mecanismo específico da morte de Jesus é ainda motivo de controvérsias médicas.

Em 2012, um periódico técnico de Medicina Legal discutiu o assunto.

As hipóteses descritas por Bergeson foram: embolia pulmonar; ruptura cardíaca; trauma suspensão; asfixia; ferida da facada fatal e choque.
Quanto sofrimento!

Após revisar as hipóteses, o médico conclui que todos os acontecimentos da execução concorreram para o desenvolvimento do choque. Assim, o choque traumático, com coagulopatia, deve ser o principal mecanismo, da morte de Jesus. (8)

A tortura é sempre cruel, qualquer que seja a sua modalidade.

Lembramos a aula teórica e prática do bom ladrão, “que se deu bem.”

Com o olhar meigo e penetrante de Jesus, pode morrer e desencarnar sem estocar reservas emocionais negativas, apesar da tortura.

Outra tortura também nos emociona. Li sobre o apedrejamento de Estevão numa obra editada pela Federação Espírita Brasileira. O livro Paulo e Estevão, psicografado por Francisco Cândido Xavier, (7) também traz uma prece, proferida naquela hora, por sua irmã.

Abgail amava Jesus, como Tomé, e também aportou na certeza da imortalidade da alma. É a prece dos aflitos e agonizantes. (9, 10)

“Senhor Deus, pai dos que choram, dos tristes, dos oprimidos, fortaleza dos vencidos, consolo de toda a dor, embora a miséria amarga, dos prantos de nosso erro, deste mundo de desterro, clamamos por vosso amor!

Nas aflições do caminho, na noite mais tormentosa, vossa fonte generosa é o bem que não secará... Sois, em tudo, a luz eterna da alegria e da bonança nossa porta de esperança que nunca se fechará.

Quando tudo nos despreza no mundo da iniquidade, quando vem a tempestade sobre as flores da ilusão! O! Pai, sois a luz divina, o cântico da certeza, vencendo toda aspereza, vencendo toda aflição.

No dia de nossa morte, no abandono ou no tormento, trazei-nos o esquecimento da sombra, da dor, do mal!... Que nos últimos instantes, sintamos a luz da vida renovada e redimida na paz ditosa e imortal.”

 

Leitura adicional


1. Del Giglio, A. 2013. Sofrimento como Síntese. São Paulo. Editora Atheneu.

2. http://orebate-jorgehessen.blogspot.com.br/2014/09/defunto-fresco.html
http://www.aeradoespirito.net/ArtigosLCF/DEFUNTO_FRESCO_LCF.html

3. http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/tema-livre/roberto-pompeu-de-toledo-qual-morte-voce-vai-preferir/

4. Cury, A. 2003. Uma Carta de Amor: o final da história dos seus discípulos. In O Mestre Inesquecível, SP. Academia da Inteligência, pg. 11.

5. Pereira, Y. A. 1994. Cânticos do Coração. CELD Editora.

6. Pereira, S.M.B. 2012. O Natal de Jesus e a Pedagogia do Evangelho. In Revista do ICEB, dezembro.

7. Xavier, F.C. 2002. Paulo e Estevão. FEB. Edição Especial.

8. Bergeron, J.W. . 2012. The crucifixion of Jesus: review of hypothesized mechanisms of death and implications of shock and trauma-induced coagulopathy. J Forensic Leg Med., Apr,19(3):113-6.

9. http://www.ocantinhodalena.com.br/menespiritas/emanuel/mens07/mens07.htm

10. https://www.youtube.com/watch?v=937UBY9cRNk

 

Fonte: http://orebate-jorgehessen.blogspot.com.br/2015/04/jesus-tome-e-nos.html

 



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