Espiritualidade e Sociedade



Luiz Carlos Formiga; Lívia B. Formiga

>     Há sempre um amanhã

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Luiz Carlos Formiga; Lívia B. Formiga
>     Há sempre um amanhã

 

Em 1994 surgiu o “Programa de Prevenção de Suicídio Fita Amarela”. Entre os pacientes, 50,9 % eram portadores de transtorno mental e usuários de substâncias de abuso. Nessa época, a maior parte das comunidades terapêuticas era mantida por comunidades religiosas. Hoje há um maior número de pesquisas e discussões acadêmicas sobre a relação entre religião, espiritualidade e saúde mental.

As entidades religiosas são importante recurso comunitário de apoio ao tratamento da dependência química. Se a comunidade religiosa é importante para a esperança dos usuários de drogas, poderá sê-lo também nestes Setembros Amarelos. Devido ao papel de assistência social das religiões, a exploração deste tema pode ser de grande relevância para a saúde pública(1).

Comportamento suicida é uma expressão que abrange vários fenômenos ligados ao suicídio, de acordo com suas manifestações. Esse termo é utilizado para designar os pensamentos e os atos que assinalam a ideação suicida, o seu risco, sua planificação, a tentativa e o suicídio em si.

O suicídio é um problema de saúde pública, epidemiologicamente relevante e complexo, para o qual não existe uma única causa ou uma única razão. Resulta de uma intrincada interação de fatores biológicos, genéticos, psicológicos, sociais, culturais, ambientais e espirituais. Por isso, é difícil explicar por que algumas pessoas sofrendo dores extenuantes se suicidam e outras na mesma situação não o fazem.

Sabrina L. da Silva e Eglê R. Kohlrausch escreveram “Atendimento pré-hospitalar ao indivíduo com comportamento suicida: uma revisão integrativa”
(2).

Nele, objetivaram identificar as condutas realizadas pelos profissionais de enfermagem. Chegaram à conclusão de que é muito importante a equipe de enfermagem, os gestores e a própria sociedade voltarem o seu olhar para o tema, a fim de aprimorar o atendimento e o entendimento sobre o desejo de morte. A ideação suicida se expressa por pensamentos de morte que encaminham para o risco de vida, ainda que a ação fatal não seja executada.

 

O suicídio resulta de uma intrincada interação de fatores

Um estudo mostra que a concepção suicida foi mais frequente entre mulheres, em adultos de 30 a 44 anos, nos que vivem sozinhos, entre os espíritas e os de maior renda. O planejamento ocorre quando a pessoa organizou mentalmente estratégias sobre a forma com que irá tirar a própria vida.

Desconfortável, e em aparente contradição com a esperança que surge quando nos descobrimos Espírito imortal, é a citação dos espíritas na prevalência de ideação, plano e tentativa de suicídio (3).

No entanto, num país de extensão territorial continental, acreditamos que não devemos generalizar o resultado encontrado, uma vez que foi obtido num inquérito, de base populacional, na cidade de Campinas (SP).(4)

Apesar disso, o desconforto não se tornará menor mesmo que entre os pacientes rotulados como espíritas, adeptos de Allan Kardec, tenham sido incluídos outros espiritualistas. É de pleno conhecimento que o suicídio resulta de uma intrincada interação de fatores, onde os sociais e culturais são participantes, o que nos faz lembrar também dos adeptos das chamadas “torres gêmeas”, pressionados pelo preconceito, o que lhes traz dificuldades para se integrarem na sociedade geral.(5)

Conforme relatório da Organização Mundial de Saúde, 10 a 20 milhões de pessoas no mundo tentam se suicidar. O Brasil está entre os dez países com maior número absoluto de suicídios.

As causas identificadas para o suicídio envolvem fatores sociais, como a incapacidade para as pessoas se integrarem na sociedade, enquanto que a luta entre dois impulsos instintivos, pulsão de vida e pulsão de morte, resulta no comportamento suicida, representando o produto do conflito entre o desejo de viver ou morrer.

A palavra suicídio tem como significado o gesto que encaminha para a morte voluntária. O suicídio representa a tentativa de resolução de um problema que está causando intenso sofrimento, associado a necessidades não satisfeitas, sentimentos de desesperança e desamparo, conflitos entre sobrevivência e estresse insuportável, estreitamento das alternativas e busca pela fuga, apresentando sinais de angústia.


Compreensão, e não julgamento, gera segurança

Dessa forma, o comportamento suicida representa um momento de crise, caracterizado pela desestabilização, ruptura, perturbação, conflitos e desordem, sendo uma emergência psiquiátrica.

No trabalho de Silva & Kohlrausch, podem-se encontrar 32 intervenções de enfermagem realizadas no atendimento ao indivíduo com comportamento suicida. As ações de prevenção, a escuta, a orientação a familiares e as visitas domiciliares devem objetivar a atenção integral do usuário.

Pacientes atendidos em uma emergência devem receber cuidados clínicos, mas também atenção para o seu problema psiquiátrico, visando a uma ação de cuidado ao comportamento suicida. Nesse sentido, é necessário o encaminhamento efetivo para a equipe de saúde, o suporte familiar e social, tendo em vista que tentativas prévias de suicídio são indicadores de risco para a consumação.

Escutar é tão importante quanto a realização do exame físico no paciente; isso significa estar comprometido, interessado e vinculado à pessoa, com toda a sua complexidade e vicissitude. Assim, deve-se avançar no que diz respeito à escuta qualificada e comunicação. Portanto, é necessário não só escutá-lo, mas também ouvir a família, que precisa ser olhada, escutada, acolhida e também orientada, para que possa servir de suporte aos que tentaram cometer suicídio.

A postura de compreensão, e não julgamento, com aqueles que padecem de algum sofrimento psíquico gera uma relação de segurança e confiança entre enfermeiro – paciente – família, qualificando o atendimento, agregando valor ao cuidado.

Devemos repetir que o comportamento suicida abrange gradações da intenção de se matar, que transitam desde a ideação, planejamento, chegando ao suicídio propriamente dito. Existem sinais desse comportamento que podem ser observados, e a intervenção em momento adequado pode evitar a morte.

Na década de 1990, muitos estudos começaram a mostrar que o suicídio estava crescendo. Além disso, outros estudos começaram a mostrar uma associação frequente entre suicídio e doenças mentais, principalmente depressão, alcoolismo, transtorno bipolar, esquizofrenia e também traços impulsivos e agressivos de personalidade.



Importante a conscientização sobre o suicídio

A partir daí, houve uma mudança de postura da Organização Mundial da Saúde, que incentivou os países a elaborar medidas de prevenção. O último relatório da OMS, de 2014, constata que 83% dos países conseguiram reduzir os números. Existe uma minoria, de 17%, onde o suicídio continua a crescer. O Brasil está entre esses países, onde ele cresce, e os espíritas são encontrados entre os que fizeram a opção pelo suicídio.

As diferenças entre esses países são explicadas pelas medidas de prevenção que foram incentivadas, principalmente o treinamento de profissionais da saúde e de outros profissionais, que estão na linha de frente, como professores e ministros religiosos.

Uma regra básica é levar a sério sempre que uma pessoa fala sobre suicídio, sempre que um jovem começa a falar mais em morte, a frequentar sites sobre morte.

Nery José Botega, psiquiatra e professor da Unicamp, defende a importância da conscientização sobre o suicídio e afirma que todos podem ser agentes de prevenção. Adverte, no entanto, que não estamos propensos a olhar, observar, interpretar e agir em cima dos sinais de risco de suicídio.(6)

Com os bons resultados do tratamento, a pessoa descobrirá que há sempre um amanhã, que podemos resistir, esperar, pois um lindo dia pode chegar. Que há sempre um amanhã, para quem vive a sofrer, que não custa esperar. E quando ele chegar, a pessoa verá então que não foi em vão o que passou. Daí, ao relembrar que o mal se distanciou, poderá enfim exclamar: feliz eu sou! (7)

Quando estamos conscientizados, damos importância aos sinais de alerta, por isso a população tem de ser conscientizada. Se estiver mais consciente, passa a entender que o problema existe e que pode acontecer com uma pessoa que está próxima. Precisamos desenvolver nossa capacidade de perceber que uma pessoa está em risco e principalmente estar disposto a ouvi-la sem julgá-la. Despejar uma série de regras morais ou religiosas não ajuda. Na realidade, ela precisa sentir que está sendo ouvida e compreendida.

Pessoas isoladas não conseguem telefonar, marcar horário e procurar um serviço de saúde. Ainda será necessário conduzi-la e acompanhá-la até um profissional que possa ajudá-la.


Há ocasiões em que necessitamos de esperança

Jesus deixou marcas e sinais.

Na década de 1960, o psiquiatra Ian Stevenson pesquisou na Índia casos de crianças que se referiam com precisão a fatos, pessoas e locais vividos em uma suposta vida anterior. Trinta anos depois de numerosos estudos, na década de 1990, o professor da Universidade de Virgínia verificou que sinais são importantes para se cogitar da hipótese de reencarnação, pois 35% das crianças que diziam lembrar ter vivido antes apresentaram sinais, manchas ou defeitos congênitos no local onde haviam recebido ferimentos letais na vida passada. (Cf. Stevenson, i. Reincarnation and biology: a contribution to the etiology of birthmarks and birth defects. Vol. I - birthmarks, vol. Ii - birth defects and other anomalies. Westport: Praeger. 1997.) (8)

Há ocasiões em que necessitamos de esperança e acompanhamento, como ocorreu em Emaús, com seguidores do Cristo. Depois contaram como Jesus lhes apareceu, após a crucificação, como os acompanhou e como o reconheceram, ao partir o pão. (Lucas, 24:13.)

A poesia de Lívia e a canção Há sempre um amanhã, de Tito (7:9), nos falam dessa esperança que surgiu através do acompanhamento de Jesus.

O inverno...
Noites longas, frias,
sentimentos contidos.
Dentro de mim procuro respostas.

A quietude, o silêncio...
A intuição, a consciência,
a digestão das experiências.
Aprendi, me refiz.
Guardo em mim a força e a sabedoria do urso,
que hiberna para ressurgir na primavera.

A manhã chega e o sol brilha agora.
A luz vem após a escuridão.
O amor cresceu na quietude do coração,
o dia e a noite tornam-se iguais.

As folhas surgem em galhos vazios.
Do chão seco, surgem brotos multicoloridos.
Os perfumes inebriam o ar...
É tempo de recomeçar, ressurgir, crescer...

Reconhecer a natureza espiritual do ser...
Assim como o lobo, explorar novas rotas, novas ideias.
Eliminar fraquezas e pensamentos negativos...
Voltar à tribo e ensinar a luz da lua.
Ser generoso como a primavera.

Ser livre, encontrar a verdade da vida.
Buscar novos horizontes, novas atitudes,
novos interesses, nova vida
Ser feliz...

 

Referências:

(1) http://paespirita.blogspot.com.br/2015/09/espiritismo-suicidio-e-usuarios-de.html

http://orebate-jorgehessen.blogspot.com.br/2015/09/espiritismo-suicidio-e-usuarios-de.html

https://issuu.com/merchita/docs/espiritismo_suicidio_y_usuarios_de_?e=8707178/30380106

http://orebate-jorgehessen.blogspot.com.br/2016/07/foi-incrivel.html

http://paespirita.blogspot.com.br/2016/07/foi-incrivel.html

https://issuu.com/merchita/docs/fue_increible_dr_luiz_carlos_formig

(2) http://pepsic.bvsalud.org/pdf/smad/v12n2/pt_07.pdf
(3) http://pepsic.bvsalud.org/pdf/smad/v12n2/pt_07.pdf

(4) Botega NJ, Marín-Leon L, Oliveira HB, Barros MBA, Silva VF, Dagalarrondo P. Prevalências de ideação, plano e Tentativa de Suicídio: Um Inquérito de Base populacional em Campinas, São Paulo, Brasil. Cad. Saúde Pública. 2009;25(12):2632-8.

(5) http://www.aeradoespirito.net/ArtigosLCF/TOR_GEM_AFRO-BR_PREC-EST-MID_E_ORD_JUR_LCF.html

(6) goo.gl/AawifN

(7) https://www.youtube.com/watch?v=65hr6R2L4ZI

(8) goo.gl/8uuNyd

(9) https://www.youtube.com/watch?v=65hr6R2L4ZI

 

 

LUIZ CARLOS D. FORMIGA foi professor universitário da UFRJ e UERJ
Lívia B. Formiga é médica radicada no Rio de Janeiro (RJ).


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