Alexandre Fontes da Fonseca

>  Curso Ciência & Espiritismo - 17

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Em comemoração aos 12 anos do GEAE

Aula 17 :

O Laboratório da Pesquisa Espírita

1. LABORATÓRIO DE PESQUISA ESPÍRITA

Nas últimas aulas falamos sobre as vantagens de se preparar um projeto de pesquisa espírita e do papel do orientador no trabalho de pesquisa. Enfatizamos a necessidade do estudo básico do Espiritismo e que o hábito regular na leitura de livros e artigos espíritas é condição necessária para quem deseja contribuir seus esforços na atividade de pesquisa espírita com seriedade. Nesta aula, vamos comentar sobre a questão do local onde realizar um trabalho de pesquisa espírita.

O ser humano sempre quis descobrir e revelar os segredos da Natureza. A Filosofia, nos primeiros tempos da cultura ocidental, significava a “busca pela verdade[1]. Para isso, aprendemos a observar a Natureza de modo especial obtendo e registrando informações. Com o desenvolvimento da Ciência, a forma pela qual o conhecimento é obtido passou a envolver dois ingredientes fundamentais: teoria e prática. Na primeira aula deste curso (Boletim 483), ao introduzirmos o conceito de ciência, comentamos que em todo trabalho de observação dos fatos é impossível fazê-lo “sem ter uma hipótese ou idéia pré-concebida[2]. Isso mostra o grau de ligação entre o conhecimento teórico e o fenômeno que se pretende estudar.

Hoje em dia, o volume de conhecimento é bastante elevado. Basta dizer que é impossível alguém se tornar especialista em várias áreas do conhecimento ao mesmo tempo. Mesmo dentro de uma mesma área, existem tantos tópicos de estudo que é muito difícil uma pessoa conhecer bem a todos eles. Isso é algo tão real que mesmo dentro de um mesmo tópico de uma mesma área de pesquisa existem pessoas que se tornam especialistas em uma das seguintes frentes de trabalho fundamentais: 1) teoria e 2) prática. Vamos rever alguns conceitos mais gerais sobre essas duas frentes:

Em teoria, os cientistas desenvolvem o formalismo e trabalham com os modelos que representam a realidade. No casos das ciências exatas, eles usam as regras e leis matemáticas para obter novos resultados e assim pesquisar as consequências dos conceitos e definições já conhecidas. Busca-se, por exemplo, a previsão de diversos fenômenos novos que serão objeto de interesse de outros cientistas que trabalham com a prática. Aqui, os cientistas buscam aprimorar os modelos criados por outros cientistas para que eles expliquem cada vez melhor o conjunto de fenômenos de cada disciplina científica. Na aula 1 (Boletim 483) comentamos a respeito das hipóteses auxiliares que tinham a função de “complementar e fazer o contacto ou a conexão entre os dados experimentais ou fatos observados e o núcleo teórico principal[2]. Boa parte do trabalho teórico se situa nessa parte das hipóteses auxiliares. Os cientistas se informam sobre os novos trabalhos experimentais e buscam maneiras de ligá-los aos conceitos básicos da teoria que compõe a disciplina científica em questão. Ou, imaginam novas aplicações e sugerem aos experimentalistas novas idéias práticas.

Em prática, os cientistas trabalham com os fenômenos. Os fenômenos significam a mensagem da Natureza. Ao longo do tempo, os cientistas perceberam que os fenômenos naturais ocorrem de acordo com determinadas regras ou seguem determinados mecanismos. Para testar essas regras e mecanismos, os cientistas tentam reproduzir os fenômenos naturais em locais onde eles podem controlá-los e isolá-los da influência de outros fatores. Eles fazem isso para verificar as propriedades e características do fenômeno que está sendo estudado. Isso permite que o conhecimento a respeito do fenômeno se consolide e possa ser usado para desenvolver novas aplicações. A Ciência confere ao experimento uma importância bem grande. Em geral, é a prática que deve dar a última palavra sobre a validade de determinada teoria. Apesar da Ciência possuir regras de “proteção” às teorias básicas, a parte experimental é a única capaz de gerar a crise nas teorias proporcionando o surgimento de novos paradigmas [2]. Kardec reconhecia o valor da prática, o que pode ser verificado no ítem VII da Introdução do Livro dos Espíritos [3]: “Desde que a Ciência sai da observação material dos fatos, em se tratando de os apreciar e explicar, o campo está aberto às conjeturas. Cada um arquiteta o seu sistemazinho, disposto a sustentá-lo com fervor, para fazê-lo prevalecer. (...) Os fatos, eis o verdadeiro critério dos nossos juízos, o argumento sem réplica. Na ausência dos fatos, a dúvida se justifica no homem ponderado.” (grifos nossos)

O Prof. Aécio P. Chagas em sua obra Introdução à Ciência Espírita [4] diz que a palavra laboratório significa simplesmente “local de trabalho”. Entretanto, vamos usar a palavra laboratório no sentido em que é mais empregada: o local onde um fenômeno é isolado do resto do mundo para ser analisado e estudado de forma independente e por meio de diversos aparelhos. Enfim, o laboratório é o lugar da realização da pesquisa prática. Vamos diferenciar esse conceito da idéia comum de “local de trabalho” com fins didáticos sobre a diferença entre o trabalho teórico e prático.

O local de trabalho de um cientista ou pesquisador teórico consiste do seu gabinete ou escritório e de uma boa Biblioteca. Hoje em dia, com o avanço e o conforto proporcionado pela internet, a Biblioteca tem se tornado algo virtual e acessível do próprio escritório de trabalho. Não podemos deixar de lembrar da lanchonete onde o momento do cafézinho tem se tornado comum pelo enorme ensejo de troca de idéias entre os cientistas. Brincadeiras a parte, o local de trabalho de um pesquisador em teoria é algo tão simples que, em alguns casos, pode ser transferido para a casa do pesquisador.

O local de trabalho de um cientista ou pesquisador prático ou experimental consiste não somente do seu gabinete ou escritório, da Biblioteca e da lanchonete, mas também de um recinto comumente conhecido como laboratório. O laboratório consiste num local onde diversos aparelhos são utilizados para realizar-se testes controlados e organizados sobre determinado fenômeno natural. Em alguns casos, o laboratório pode ser algo não restrito a quatro paredes e tão extenso quanto uma reserva ecológica [4]. Um observatório astronômico não é bem um local onde se pode isolar os fenômenos que a Astronomia estuda, nem se pode isolá-los do resto do mundo, mas é considerado o laboratório onde o astrônomo observa e estuda o comportamento das estrelas. Para vermos a abrangência do assunto, podemos dizer que o conjunto de escolas estaduais de uma determinada cidade pode ser considerado um laboratório de pesquisas na área de Educação, enquanto que um bairro pode ser um laboratório de pesquisas na área de ciências humanas e sociais. O mais interessante em todos esses exemplos é que a idéia de laboratório está ligada à idéia de prática ou de observação da realidade, ou ainda, de observação dos fatos.

O local do trabalho de pesquisa espírita depende, logicamente, do gênero de pesquisa que está sendo feito. Se o trabalho de pesquisa for teórico, o pesquisador vai precisar de um lugar tranquilo para ler e estudar a literatura e um escritório para fazer anotações e escrever as idéias que surgirem. Um exemplo de trabalho de pesquisa teórico é a obra de Ney S. Pinheiro, Prontuário das obras de Allan Kardec [5].

Se o trabalho de pesquisa for prático o local de trabalho depende do tópico de pesquisa. Por exemplo, o trabalho de pesquisa realizado pelo Dr. Hernani G. Andrade, divulgado na obra Reencarnação no Brasil [6], exigiu a visita do pesquisador a diversas localizações para entrevistas e verificações das informações colhidas. Na obra Diálogo Com as Sombras, Teoria e Prática da Doutrinação [7], o local de trabalho de pesquisa foi a casa espírita e a sala de reunião mediúnica onde a reunião de desobsessão ocorria (deixamos para o leitor a leitura dos livros acima para se inteirar dos detalhes).

O Prof. Aécio P. Chagas afirma que “o laboratório da ciência espírita é o centro espírita[4]. Segundo ele o centro espírita é o local onde as pessoas que conhecem a “teoria” (a Doutrina Espírita) realizam a “prática” que consiste nos fenômenos que ocorrem sob controle e orientação doutrinária. O centro espírita, além de possuir as pessoas que conhecem a “teoria”, conta com o apoio dos bons espíritos. Se um projeto de pesquisa tiver objetivos nobres, certamente os bons espíritos farão o que for possível do “lado” deles para que o projeto tenha sucesso. A referência [7] é um exemplo bem sucedido desse tipo de trabalho de pesquisa.

Seria a Universidade um local apropriado para a realização de trabalhos de pesquisa espírita? O Prof. Aécio acredita que dentro de uma ideologia positivista que caracteriza as universidades ainda não é possível a realização de um trabalho de pesquisa espírita [4]. Nós acreditamos que na medida que os espíritas ocuparem naturalmente mais espaços no meio acadêmico, é possível reduzir o preconceito iniciando a introduzir assuntos de interesse espírita dentro das universidades. Na verdade isso já vem ocorrendo como mencionamos na aula 13 (ver Boletim 495) onde algumas teses de mestrado e doutorado envolvendo temática espírita foram concluídas com o mesmo êxito das teses envolvendo assunto não-espírita. Isso nos traz um sentimento de esperança no futuro.

Independente do Espiritismo ocupar um maior espaço dentro da Universidade, é preciso que o Movimento Espírita se organize para oferecer cada vez mais melhores condições de realização e divulgação dos trabalhos de pesquisa espírita. Individualmente, todos os que desejam contribuir para o progresso do conhecimento espírita devem se conscientizar da importância do estudo constante tanto da base do conhecimento espírita (a Doutrina Espírita) quanto das obras complementares. Não devem se esquecer do esforço pela reforma íntima que caracteriza o verdadeiro espírita. Além disso, é preciso estar constantemente lendo os periódicos espíritas para estar ciente dos trabalhos de pesquisa atuais que vém sendo realizado por outros pesquisadores, bem como ter conhecimento de quem está trabalhando em determinados assuntos.

Aos poucos as casas espíritas compreenderão que além de tudo de bom que já fazem pela divulgação do Espiritismo e pelas pessoas em geral, elas poderão contribuir com um tijolinho no processo de desenvolvimento dos conhecimentos espíritas. Tudo o que temos de bom, hoje, na Humanidade, decorreu de uma série de estudos e pesquisas pequenos, muitas vezes, realizadas em diversos lugares e que juntos permitiram os bens do progresso. Acreditamos que podemos aproveitar o melhor desse esquema para progredirmos em nossos objetivos maiores de progresso moral da Humanidade.


Referências

[1] S. S. Chibeni, O Espiritismo em seu tríplice aspecto Parte I 2003, Reformador Agosto, pp. 39-41.

[2] A. F. da Fonseca, Curso de Ciência & Espiritismo, aula 1: Introdução e conceito de ciência, Boletim GEAE 483, (2005).

[3] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76a Edição (1995).

[4] A. P. Chagas, Introdução à Ciência Espírita, Publicações Lachâtre (2004).

[5] N. S. Pinheiro, Prontuário das obras de Allan Kardec, Editora Edicel, 2a. Edição (1998).

[6] H. G. Andrade, Reencarnação no Brasil, Casa Editora O Clarim, 2ª Edição (1998).

[7] H. C. Miranda, Diálogo Com as Sombras, Teoria e Prática da Doutrinação, Editora FEB, 8a Edição, (1994).

http://www.geae.inf.br/pt/boletins/geae499.html#Curso

Fonte: Artigo extraído do GEAE - Boletim 483

- http://www.geae.inf.br


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