Alexandre Fontes da Fonseca

>    Chips em Cérebros: o que diz o Espiritismo

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Alexandre Fontes da Fonseca
>    Chips em Cérebros: o que diz o Espiritismo

 

O jornal O Estado de São Paulo, no dia 21 de Março de 2004, dedicou uma página inteira à uma reportagem sobre o professor titular de Neurobiologia da Duke University, Carolina do Norte, Prof. Miguel Nicolelis, brasileiro radicado nos EUA.

Em artigos científicos recentes [1,2], o Prof. Nicolelis apresentou alguns resultados de uma pesquisa extraordinária com a implantação de chips em cérebros de macacos. Esses chips permitem que o cérebro do animal controle dispositivos eletro-mecânicos a distância. Essas pesquisas certamente possuem implicações para o tratamento e, talvez, cura de pessoas que sofrem de algum tipo de paralisia. Veremos que essas pesquisas são de interesse espírita, analisando os seus limites diante do conhecimento da existência do espírito.

O Prof. Nicolelis e sua equipe desenvolveram um sistema que converte impulsos cerebrais em sinais elétricos que são interpretados e analisados por computador. Em artigo publicado em 2003 [2], o experimento com macacos foi realizado mostrando que é possível obter e registrar os pulsos cerebrais relacionados ao comportamento. Vários chips foram implantados em regiões específicas do cérebro registrando, ao mesmo tempo, os impulsos cerebrais e emitindo outros pulsos de acordo com o experimento. Em [1], Nicolelis afirma que não apenas é possível obter informação sobre como o conjunto de neurônios codificam os sinais para a execução de uma determinada tarefa, como mover as mãos, mas também é possível ao cérebro se adaptar ao novo “implante”. Se os chips estiverem ligados a um computador que “interpreta” e converte os sinais cerebrais em sinais elétricos apropriados ao movimento de um robô, o indivíduo pode aprender a mover e controlar esse robô como se ele fosse parte de seu corpo.


Figura 1: Esquema representativo do experimento realizado com macacos pelo Prof. Nicolelis. Um chip implantado no cérebro é conectado a um computador que interpreta os impulsos cerebrais e os converte em sinais de controle para um robô. Veja o texto para maiores detalhes.


O Prof. Nicolelis, na reportagem do jornal O Estado de São Paulo, explica como isso seria possível: “você compra um carro novinho e, por algum tempo, não se sente à vontade ao volante, mas após alguns dias a plasticidade cerebral faz com que ele pareça parte de você.” Isso significa que o cérebro, com o exercício, se adapta ao novo implante cerebral e, por conseguinte, ao robô que pode servir como braço, mãos ou pernas mecânicas auxiliares.

Apesar de que, à primeira vista, essas pesquisas parecerem reforçar teses materialistas sobre a vida, para nós espíritas, que temos a certeza da existência e sobrevivência da alma, essas pesquisas mostram a grande versatilidade do instrumento chamado cérebro além de nos oferecer uma grande analogia para a influência do espírito sobre o corpo físico.

O ponto principal é que essas pesquisas não dizem nada a respeito da origem, fonte ou causa inicial dos impulsos cerebrais. O primeiro impulso dentro do cérebro é conseqüência da influência do espírito que é, por isso, responsável por seus atos e pensamentos, conferindo ao indivíduo sua identidade particular, não determinada pelo corpo físico
[3].

Vejamos o que dizem Kardec e os Espíritos [4]:

369. O livre exercício das faculdades da alma está subordinado ao desenvolvimento dos órgãos?
“Os órgãos são os instrumentos da manifestação das faculdades da alma, manifestação que se acha subordinada ao desenvolvimento e ao grau de perfeição dos órgãos, como a excelência de um trabalho o está à da ferramenta própria à sua execução.”

370. Da influência dos órgãos se pode inferir a existência de uma relação entre o desenvolvimento dos do cérebro e o das faculdades morais e intelectuais?
“Não confundais o efeito com a causa. O Espírito dispõe sempre das faculdades que lhe são próprias. Ora, não são os órgãos que dão as faculdades, e sim estas que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos.”

a) - Dever-se-á deduzir daí que a diversidade das aptidões entre os homens deriva unicamente do estado do Espírito?
“O termo - unicamente - não exprime com toda a exatidão o que ocorre. O princípio dessa diversidade reside nas qualidades do Espírito, que pode ser mais ou menos adiantado. Cumpre, porém, se leve em conta a influência da matéria, que mais ou menos lhe cerceia o exercício de suas faculdades.” (Grifos nossos).
Comentário de Kardec: Encarnado, traz o Espírito certas predisposições e, se se admitir que a cada uma corresponda no cérebro um órgão, o desenvolvimento desses órgãos será efeito e não causa. Se nos órgãos estivesse o princípio das faculdades, o homem seria máquina sem livrearbítrio e sem a responsabilidade de seus atos. (...)

Percebe-se pelas respostas dos espíritos às questões 369 e 370 que a causa dos impulsos cerebrais que levam o indivíduo a realizar um ato ou pensamento reside no espírito. O desenvolvimento e o grau de perfeição dos órgãos do corpo físico impõem um limite à completa manifestação das faculdades do espírito.

É interessante verificar que os resultados das pesquisas do Prof. Nicolelis confirmam as seguintes palavras de Kardec: “Se nos órgãos estivesse o princípio das faculdades, o homem seria máquina sem livre-arbítrio e sem a responsabilidade de seus atos”. O robô ligado ao cérebro do indivíduo, via um chip implantado no mesmo, não tem livre-arbítrio para se movimentar sozinho. Se uma pessoa desavisada chegar ao laboratório do Prof. Nicolelis e olhar o robô fazendo alguma atividade, ele vai achar que o robô está vivo. Mas sabemos que o comando vindo do indivíduo é que faz o robô se movimentar. É exatamente nesse sentido que se deve entender as palavras de Kardec com relação ao espírito. Os orgãos sozinhos não possuem livre-arbítrio e isso significa que eles obedecem a ordem que vém do espírito. O perispírito, em interação com o cérebro e o sistema nervoso, é responsável pela “ponte” entre o princípio inteligente do universo, essência da vida, e a sua manifestação no mundo material, o corpo físico. Ambos, o perispírito e o cérebro, são elementos oriundos do princípio material. Assim como o chip e o computador, no experimento do Prof. Nicolelis, são elementos intermediários imprescindíveis, o perispírito em contato com o cérebro é imprescindível para que o espírito controle seu corpo e atue no mundo material.


Figura 2: Esquema representando o papel intermediário do Perispírito entre o espírito e o corpo físico. Essa ligação é possível graças a existência do Perispírito e do desenvolvimento do cérebro e do sistema nervoso.

Essas pesquisas abrem campo para algumas conjecturas espíritas. Como a intensidade de energia necessária para a interação cérebro-chip é pequena, podemos imaginar que com a ajuda dos fluidos animalizados de um médium de efeitos físicos, seria possível a um espírito desencarnado controlar os movimentos de um robô utilizando os recursos tecnológicos análogos aos que o Prof. Nicolelis desenvolveu e utilizou em suas pesquisas.

Uma outra questão que só o futuro responderá é se a capacidade de adaptação do cérebro ao chip é uma característica do espírito ou puramente a versatilidade do cérebro. Arrisco dizer que a capacidade do espírito deve ter um papel fundamental para o processo. Mas em ciência, a opinião de um cientista é apenas o ponto de partida. Somente os trabalhos de pesquisa futuras irão responder com segurança essa questão. Abririam essas experiências do Prof. Nicolelis, uma “brecha” para demonstrarmos a existência de “algo” além da matéria? O passo inicial está dado. O mais difícil aguarda o esforço dos pesquisadores.

Concluimos com uma prece de agradecimento ao Criador por permitir que a inteligência humana possa ir vencendo barreiras para o desenvolvimento de novas formas de tratamento de doenças e limitações humanas.



O autor é “post-doc” no Instituto de Física da USP e membro do Conselho Editorial do Boletim do GEAE (http://www.geae.inf.br)


Referências


[1] M. A. L. Nicolelis, Brain-machine interfaces to restore motor function and probe neural circuits, 2003, Nature Reviews Neuroscience 4, pp. 417-422.

[2] M. A. L. Nicolelis, D. Dimitrov, J. M. Carmena, R. Crist, G. Lehew, J. D. Kralik and S. P. Wise, Chronic, multisite, multielectrode recordings in macaque monkeys, 2003, Proceedings of the Nationa Academy of Sciences of USA 100, pp. 11041-11046.

[3] A. F. da Fonseca, O Genoma Humano e a Identidade dos Espíritos, 2004, Revista Internacional de Espiritismo 12, Janeiro, p. 624.

[4] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, FEB, 76a. Edição (1995).


Fonte: Revista Internacional de Espiritismo - Fevereiro/2005





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