Alexandre Fontes da Fonseca

>    Opinião do espírita no movimento espírita

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Alexandre Fontes da Fonseca *
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"O que é que todo mundo tem e ao mesmo tempo todo mundo gosta de dar?
Resposta: Opinião!"



Como fazer para discernir conhecimento de opinião? Platão definiu conhecimento como "toda crença verdadeira e justificada." (1) Tudo que acreditamos ser verdade e que possui justificativas baseadas em métodos criteriosos de validação pode ser chamado de conhecimento. Embora essa definição contenha brechas para sofismas, ela permite entender a diferença entre uma mera opinião e um conhecimento. Por exemplo, ninguém diz que acha que a Terra gira em torno do Sol. Isso já é um conhecimento certo. Já opinião é uma crença pessoal que não foi validada por explicações ou justificativas conhecidas e respeitadas.

Isso nos faz lembrar que o espiritismo trouxe uma das maiores contribuições para a sociedade: tornou as crenças a respeito da existência e sobrevivência da alma, bem como dos processos de comunicação entre 'mortos' e 'vivos', em conhecimento plenamente justificado através do emprego de métodos de análise dos fenômenos espíritas. (2)

No meio espírita é comum ouvir dizer que "se fulano disse ou se saiu em tal livro ou revista, trata-se de uma verdade". Isso é chamado de "argumento de autoridade", ou seja, quando uma pessoa é reconhecida pela sociedade pela importância de suas obras, torna-se respeitada e suas palavras passam a formar opinião. Seus comentários são tidos como válidos e certos independentemente de se avaliar sua veracidade. E no movimento espírita, temos vários formadores de opinião. Pessoas que pela dedicação ao bem, à caridade e à divulgação do espiritismo, conquistaram o respeito público.

Mas, como reconhecer uma opinião no movimento espírita? Utilizemos a definição de conhecimento, dada por Platão acima mencionada. Quando uma novidade é divulgada nos meios espíritas, procuremos suas explicações. Se a novidade não possui explicações, será uma mera opinião. Se as possui, analisemo-las. Quais as bases apresentadas para justificá-las? Conheço o conteúdo e o seu valor? Sou capaz de compreender as justificativas apresentadas? Se a resposta for "não" a alguma das questões acima, se não temos conhecimento aprofundado das bases usadas para defender a novidade, de duas uma: ou as estudamos para avaliar melhor ou, simplesmente, consideramos a novidade uma opinião. Um exemplo típico de novidades em nosso meio que representam apenas a opinião de seus interlocutores são aquelas que frequentemente usam conceitos e fórmulas da física quântica para explicar as novidades.

Há quem justifique as novidades argumentando que o espiritismo é uma doutrina aberta ao conhecimento e ao progresso. Kardec, no item 55 do capítulo I de A Gênese (3) afirmou que "Caminhando de par com o progresso, o espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará." Portanto, realmente, o espiritismo é aberto ao progresso. Porém, ele não é aberto a qualquer coisa e de qualquer modo. É o próprio Kardec quem faz ressalva nesse mesmo item, quando diz que o epiritismo "assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam desde que hajam assumido o estado de verdades práticas e abandonado o domínio da utopia, sem o que ele se suicidaria."

Para uma novidade assumir "o estado de verdades práticas" e abandonar "o domínio da utopia", é preciso que deixe de ser uma crença (isto é, mera opinião) para ser tornar um conhecimento, através de trabalhos de estudo e pesquisa que a justifiquem plenamente. Então, não basta alegar que o espiritismo é aberto ao progresso: tem que demonstrar que a novidade é, de fato, um progresso!

E nesse aspecto, como ninguém é perfeito, é natural que, de vez em quando, os formadores de opinião no movimento espírita se equivoquem. Como proceder quando isso ocorre? Como fica, nesses casos, a "fé raciocinada" ensinada e estimulada pelo espiritismo? Devemos aceitar uma informação somente por ter sido trazida por um formador de opinião (médium ou não) respeitado (ou o mais respeitado) no movimento espírita? Como o espiritismo ensina a proceder diante de informações que distoam do conhecimento científico e/ou doutrinário? Felizmente, o espiritismo oferece orientações bem seguras. Uma delas é a conhecida afirmação de Erasto (item 230 do capítulo 20 de O livro dos médiuns 4): "Melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea." Outra, menos conhecida, é a orientação de Santo Agostinho: "Observai e estudai com cuidado as comunicações que recebeis; aceitai o que a vossa razão não rejeita; repeli o que a choca; pedi esclarecimentos sobre as que vos deixam na dúvida. Tendes aí a marcha a seguir para transmitir às gerações futuras, (...), as verdades que distinguireis sem dificuldade de seu cortejo inevitável de erros." (5) Erasto e Santo Agostinho deixam claro que aquilo que a razão não aprova, devemos rejeitar. Podemos, também, pedir esclarecimentos, mas enquanto isso não ocorre, a novidade não merece crédito.

Agora, mudemos o foco das questões para nós. Que valor damos ao que é revelado por médiuns ou pessoas reconhecidas no movimento espírita? Qual deve ser a nossa postura perante essas novidades? Há algum exemplo do próprio Kardec?

Isso é importante pelo caráter de dependência que se cria para com a opinião de certas pessoas em detrimento do exercício da fé raciocinada. Quando os nossos companheiros mais respeitados desencarnarem, como formaremos nossas opiniões a respeito das novidades? Quais serão nossos critérios de aceitação do que dizem encarnados ou desencarnados? E, mesmo que surjam companheiros cuja moral e esforços no bem e na divulgação do espiritismo mereçam o nosso mais profundo respeito e estima, vamos continuar a transferir para eles a responsabilidade de discernir no que devemos ou não crer? Não criticamos essa postura em outros meios religiosos?

Vejamos um exemplo significativo do próprio Kardec sobre uma opinião que ele acreditava estar correta (mas que hoje se sabe que não estava), e que, por prudência, ele evitou inseri-la no corpo da doutrina espírita por ser apenas uma opinião própria: (6) "A questão da geração espontânea está neste número. Para nós, pessoalmente, é uma convicção, e se a tivéssemos tratado numa obra comum, tê-la-íamos resolvido pela afirmativa; mas numa obra constitutiva da doutrina espírita, as opiniões individuais não podem fazer lei; não se baseando a doutrina em probabilidades, não podíamos decidir uma questão de tal gravidade, apenas despontada, e que ainda está em litígio entre os especialistas. Afirmando a coisa sem restrição, teria sido comprometer a doutrina prematuramente, o que jamais fazemos, mesmo para fazer prevalecerem as nossas simpatias." Como se vê, não se deve tomar opiniões individuais como verdades e serem propagadas em nome do espiritismo.

Há quem justifique que o formador de opinião é criatura tão bondosa, culta e dedicada ao bem e à divulgação do espiritismo que jamais divulgaria uma ideia equivocada. Mas, para isso, temos em Kardec outro exemplo significativo. Ele levava a compreensão das ideias tão a sério que foi capaz de questionar até mesmo algumas palavras de Jesus! Veja, por exemplo, o conteúdo do capítulo 33 de O evangelho segundo o espiritismo (7), intitulado "Estranha moral". Não foi porque Jesus disse que devemos "odiar" pai, mãe, esposa e filhos (S. Lucas, cap. 14, vv. 25 a 27) que de fato era para isso ser feito! Teria encarnado entre nós alguém mais bondoso, culto e dedicado ao bem que Jesus? Se isso fosse razão suficiente para aceitar certas palavras de Jesus, não teríamos o capítulo "Estranha moral" em O evangelho segundo o espiritismo. Como ninguém está acima do Cristo, ninguém pode clamar perfeição para suas opiniões.

Portanto, analisemos as novidades, sejam elas de quem for, e rejeitemos tudo o que não estiver de acordo com os conhecimentos da ciência e do espiritismo, ou que não puder ser verificado por ambos. Isso não significa desrespeitar a pessoa que apresenta a novidade, nem reprimir a chegada delas. Os cuidados mencionados aqui visam apenas destacar a postura prudente, ensinada pela doutrina espírita, de não aceitar uma ideia só porque pessoas em quem confiamos as veiculam. Isso seria agir com fé cega, além da propagação, em nome do espiritismo, de conteúdos que não sabemos estar certo ser falta de responsabilidade. A Doutrina tem nos ajudado a sair da "fase" onde aceitamos e fazemos o que nossos mestres dizem, para aceitarmos e fazermos o que a nossa consciência, iluminada pela razão, consente. Meditemos que, talvez, quando irmãos respeitados no movimento espírita propagam ideias controversas, a espiritualidade esteja justamente nos convidando a exercer a fé raciocinada para despertar em nós, cada vez mais, o sentimento da responsabilidade espírita.

 

Referências

[1] Conhecimento – Wikipedia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Conhecimento, acessado em 21 de março de 2015.
[2] A. F. da Fonseca, "Como o espiritismo contribui para a sociedade?", Jornal de Estudos Espíritas , artigo número 010203,2013.
[3] A. Kardec, A gênese, FEB, 36 ed.,1995.
[4] A. Kardec, O livro dos médiuns, FEB, 62 ed.,1996.
[5] A. Kardec, "Dissertações espíritas", Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos, julho p. 20,1863.
[6] A. Kardec, "A geração espontânea e a A gênese", Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos, julho, p. 285, 1868.
[7] A. Kardec, O evangelho segundo o espiritismo, FEB, 112 ed.,1996.




* Doutor e professor de Física do Instituto de Física da Unicamp, em Campinas, SP

 

Fonte: Publicado no jornal Correio Fraterno - edição 464 julho/agosto 2015
http://www.correiofraterno.com.br/nossas-secoes/103-especial/1721-opiniao-do-espirita-no-movimento-espirita

 




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