Alexandre Fontes da Fonseca

>    Das Simetrias da Natureza às leis Morais

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Alexandre Fontes da Fonseca
>    Das Simetrias da Natureza às leis Morais

 

A idéia de Simetria presente na Natureza tem profunda ligação com as Leis Naturais.

Recentemente, na Revista Internacional de Espiritismo (RIE) do mês de agosto de 2003, foi publicada uma interessante matéria intitulada
“Das Simetrias da Vida à Supersimetria do Ser” [1]. Nessa matéria, o autor expõe algumas características da idéia de Simetria e tenta relacioná-las ao Espiritismo. Motivados pela questão, apresentaremos um outro enfoque usando uma importante correlação entre Simetria e Leis de Conservação que a Física nos apresenta e o que isso contribui no entendimento das Leis Morais.

Existem
três tipos de simetria extremamente básicos que estão relacionados com outras três importantes Leis de Conservação em Física. São elas: i) Simetria de Translação Espacial; ii) Simetria de Rotação Espacial e iii) Simetria de Translação Temporal. Cada uma delas está ligada a uma lei de conservação: i) de Momento Linear; ii) de Momento Angular e iii) Energia Total, respectivamente [2]. A seguir explicaremos cada uma delas.


Simetrias de Translação Espacial, Rotacional e Temporal


A homogeneidade e isotropia do espaço significam que cada ponto do espaço é indistinguível dos outros e que todas as direções são equivalentes. Isso faz com que as propriedades de qualquer objeto físico ou sistema fechado permaneçam as mesmas quando ele é transladado de uma posição para outra ou quando sofre uma rotação. Como conseqüência, as grandezas chamadas Momento Linear e Angular são conservadas, ou seja, elas são constantes. Os Momentos Linear e Angular são grandezas que representam uma medida da “quantidade de movimento” de um objeto. O leitor não deve se preocupar em entender profundamente esses conceitos técnicos. O ponto mais importante é o fato da simetria de translação estar associada à uma Lei de Conservação
[3].

Como o tempo é homogêneo, todos os instantes são equivalentes para um observador num mesmo referencial, e por isso se um evento ocorre num determinado intervalo de tempo, ele ocorrerá de forma idêntica num outro intervalo de tempo. Por exemplo, o cozimento de um ovo pode ser feito a qualquer hora do dia ou da noite, hoje ou amanhã ou, ainda, em qualquer dia do ano. A conseqüência desta simetria é a Lei de Conservação da Energia total do objeto ou sistema. A idéia de Energia é algo mais comum a todos nós
[3].

Outras simetrias existem, mas é suficiente para nós aqui ficarmos com essas três relações mais básicas entre simetrias e leis de conservação. Estamos agora em condições de analisar a nossa proposta a respeito de um tipo de simetria relacionada ao Espírito e a que Lei Moral ela corresponde.


Simetria de Sentimentos do Espírito

Sem pretender dar a última palavra sobre o assunto, propomos a idéia da simetria de sentimentos do Espírito. Estamos querendo falar a respeito das igualdades a que todos nós estamos sujeitos. Fazendo uma pesquisa no Prontuário da Obra de Allan Kadec [5] encontramos duas menções à palavra igualdade que nos interessa aqui.

A primeira menção é encontrada na questão 803 do Livro dos Espíritos [4]:

803. Perante Deus são iguais todos os homens?
“Sim, todos tendem para o mesmo fim e Deus fez Suas leis para todos. Dizeis freqüentemente: “O Sol luz para todos” e enunciais assim uma verdade maior e mais geral do que pensais.”
Comentário de Kardec: Todos os homens estão submetidos às mesmas leis da Natureza. Todos nascem igualmente fracos, acham-se sujeitos às mesmas dores e o corpo do rico se destrói como o do pobre. Deus a nenhum homem concedeu superioridade natural, nem pelo nascimento, nem pela morte: todos, aos Seus olhos, são iguais.

A segunda menção é encontrada no ítem 7 do capítulo XVII do Evangelho Segundo o Espiritismo [6]:

A igualdade em face da dor é uma sublime providência de Deus, que quer que todos os seus filhos, instruídos pela experiência comum, não pratiquem o mal, alegando ignorância de seus efeitos.”

Se todos os Espíritos foram criados da mesma forma, tendem para o mesmo fim, estão submetidos às mesmas leis da Natureza e sofrem pelas mesmas causas, então existe uma simetria de sentimentos do Espírito que diz que cada individualidade terá os mesmos sentimentos perante as mesmas causas e circunstâncias. Por exemplo, a felicidade devido à prática da caridade é um sentimento que todos podem ter. O sofrimento devido a um ato em desacordo com as Leis Morais é conseqüência natural para todos. O princípio de Causa e Efeito (Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. V [6]) age de forma igual para com todos.

A questão que surge é qual ou quais seriam as Leis Morais associadas a essa simetria de sentimentos do Espírito? A primeira resposta que se nos depara é: a Lei de Igualdade e a Lei de Justiça, de Amor e de Caridade (capítulos IX e XI da parte terceira do Livro dos Espíritos, respectivamente). Mas, analisando o conjunto das Leis Naturais, vemos que todas elas se ligam a idéia de simetria de sentimentos que propomos aqui já que todos os Espíritos estão sujeitos a elas.

Num ponto de vista mais prático, observamos outro tipo de simetria importantíssimo para o movimento espírita: a concordância universal dos ensinos dos Espíritos (ítem II da Introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo [6]). Citando Kardec:

“Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares.”

Apenas os ensinos que forem apresentados em vários lugares, por espíritos diversos, é que podem ser considerados válidos. No caso, a Lei associada a esta simetria estaria ligada à Verdade, mesmo que relativa ao nosso grau de adiantamento. Numa época em que o movimento espírita clama por mudanças e que usa a palavra Paradigma como conceito básico para as necessidades de mudanças, todo o cuidado é pouco com relação a mensagens mediúnicas, mesmo aquelas que são assinadas por espíritos conhecidos e respeitados. Mudanças são sempre necessárias e fazem parte da Lei de Progresso. Mas isso não significa que as mudanças devam ser feitas sem critério. Kardec, na referência em destaque acima nos apresenta o melhor critério nestes casos.

Desejamos ainda, fazer um último comentário a respeito da conclusão apresentada pelo autor na matéria da RIE de agosto [1]. Ele menciona que, segundo teorias mais modernas da Física, uma partícula de um determinado tipo pode se transformar em outra se receber uma grande quantidade de energia. Em seguida ele expõe um pensamento na forma de pergunta que transcreveremos aqui: “(...) não seria a ação do princípio inteligente experimentada pela matéria como um excesso de energia?” Respeitamos a opinião do autor mas discordamos dela por duas razões: uma espírita e outra científica. A razão espírita se dá devido às seguintes questões do Livro dos Espíritos [4]:

60. É a mesma a força que une os elementos da matéria nos corpos orgânicos e nos inorgânicos?
“Sim, a lei de atração é a mesma para todos.”

61. Há diferença entre a matéria dos corpos orgânicos e a dos inorgânicos?
“A matéria é sempre a mesma, porém nos corpos orgânicos está animalizada.”

62. Qual a causa da animalização da matéria?
“Sua união com o princípio vital.”
Segundo os Espíritos as forças que agem sobre a matéria nos corpos orgânicos e inorgânicos são as mesmas, sendo que a matéria, essencialmente falando é a mesma. Em seguida eles afirmam que no caso dos corpos orgânicos a matéria está animalizada pela ação do princípio vital, que por sua vez, tem sua origem no Fluido Universal (questão 64 do Livro dos Espíritos [4]). Portanto, segundo os Espíritos, a matéria não recebe energia do princípio inteligente. O que torna a matéria passível de servir ao fenômeno da vida é o fato dela se juntar ao princípio vital. Quando os seres morrem, a matéria retorna à Natureza sem ter sido alterada em suas propriedades mais íntimas. Portanto, a matéria não sofre ação que a transforme em outra coisa. Seja ainda qual for a forma pela qual o Espírito comanda a matéria, isso deve ocorrer de forma muito sutil já que isso passa despercebido aos instrumentos materiais.

A razão científica é que a afirmativa do autor de que a matéria experimenta a ação do princípio inteligente como um excesso de energia viola a Lei de Conservação de Energia. Se isso fosse verdade, seria fácil testar em laboratório se cada ser vivo está recebendo energia de uma fonte não conhecida. Porém, até onde se sabe atualmente, os seres vivos só recebem energia de uma fonte externa (alimentação ou luz do sol). Se o autor quisesse dizer que o princípio inteligente, no seu processo evolutivo, sofre transformações que dependem de algo análogo à energia que as partículas necessitam para se transformarem, aí tudo bem porque, de fato, o progresso depende do esforço próprio e o esforço faria o papel análogo ao “excesso de energia”. Mas isso não significa que o princípio inteligente necessite de energia material para evoluir.

 

REVISTA INTERNACIONAL DE ESPIRITISMO, ANO LXXVIII, N. 11 (Dezembro), p. 582, (2003).


O autor - Alexandre Fontes da Fonseca - é Doutor em Física pela UNICAMP e “Post -Doc” no Intituto de Física da USP. Atualmente, o autor é “Post -Doc” no Departamento de Química de Rutgers, The State University of New Jersey, EUA.

 

Referências

[1] A. C. S. de Lima, Revista Internacional de Espiritismo, agosto, p. 364 (2003).

[2] A. S. de Castro, E. L. Marchesetti e A. Feldt, Revista Brasileira de Ensino de Física, Vol. 24, p. 278 (2002). Essa revista é acessível via internet através do site: http://www.sbf.if.usp.br/rbef

[3] O leitor que tiver mais interesse no assunto pode consultar o artigo da referência [2] que apresenta a dedução matemática das relações entre as três simetrias e suas respectivas Leis de Conservação.

[4] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76a. Edição, (1995).

[5] N. S. Pinheiro, Prontuário da Obra de Allan Kardec, Edicel, 2a. Edição, (1998).

[6] A. Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Editora FEB, 112a. Edição (1996)




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