Alexandre Fontes da Fonseca

>    A atualidade do termo “fluido” no Espiritismo

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Alexandre Fontes da Fonseca
>    A atualidade do termo “fluido” no Espiritismo

 

Em O livro dos espíritos (LE), (1) após a Introdução, a palavra “fluido” aparece pela primeira vez na resposta dada pelos Espíritos à questão 27. Ao serem perguntados se matéria e espírito são os dois elementos gerais do universo, os Espíritos responderam:

Sim e acima de tudo Deus, o Criador, o Pai de todas as coisas. Deus, espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade universal. Mas ao elemento material se tem que juntar o fluido universal, que desempenha o papel de intermediário entre o espírito e a matéria propriamente dita, por demais grosseira para que o espírito possa exercer ação sobre ela. Embora, de certo ponto de vista, seja lícito classificá-lo como elemento material, ele se distingue deste por propriedades especiais. […] (Destaques do autor.)

Mas o que seria esse fluido? A questão 27a do LE fornece pistas:

a) Esse fluido será o que designamos pelo nome de eletricidade? Dissemos que ele é suscetível de inúmeras combinações. O que chamais fluido elétrico, fluido magnético, são modificações do fluido universal, que não é, propriamente falando, senão matéria mais perfeita, mais sutil e que se pode considerar independente. (Destaques do autor.)

Na época em que Kardec tomou contato com os fenômenos espíritas, ainda não existia a teoria clássica do eletromagnetismo, formulada por James Clerk Maxwell e publicada em 1861. Havia uma teoria fluídica (2) da eletricidade, proposta por Charles François de Cisternay du Fay e depois aprimorada por Benjamin Franklin, que dizia que os fenômenos elétricos resultavam do excesso ou falta de um determinado fluido. (2) Teorias similares existiam para explicar o magnetismo. (2) Não é de se estranhar, pois, que os Espíritos tivessem utilizado termos conhecidos à época para poder explicar os conceitos espíritas.

Um fluido é “uma substância que continuamente se deforma (flui) sob ação de forças de cisalhamento”. (3) Forças de cisalhamento são aquelas aplicadas em direções paralelas, mas em sentidos opostos, assim como a tesoura ao cortar um material. Os fluidos possuem duas propriedades: (3) i) não resistem à deformação, ou resistem de modo relativamente lento (apresenta viscosidade); e ii) possuem habilidade de fluir, assim como a habilidade de tomar a forma do recipiente que os contém.

Essas definições materiais sobre fluidos têm levado alguns companheiros a questionar sobre a validade do uso do termo “fluido” para tudo o que é formado a partir de modificações do Fluido Universal (FU), que são etéreos ou imponderáveis. Alega-se que o conceito de fluido no Espiritismo é algo mais sutil e dinâmico do que o conceito de fluido na Ciência. Sugeriu-se que o termo “campo”, como usado na definição de campos elétricos e magnéticos, seria mais apropriado, cientificamente, do que “fluido” para descrever as modificações do FU. Propôs-se até mesmo a abolição do uso do termo “fluido” das obras espíritas e do Movimento Espírita, alegando-se que esse termo seria impróprio pelas razões acima mencionadas. De outro lado, estudiosos do aspecto filosófico da ciência espírita enfatizam a importância de se manter a nomenclatura originalmente definida pela Doutrina Espírita sob pena de se desvirtuar o entendimento de seus principais conceitos com a inserção apressada de novos termos. (4) Diante disso, pretendemos analisar se realmente o termo “fluido” seria inadequado para descrever os fluidos espirituais. Verificaremos se o conceito de “campo”, no fundo, não nos remete de volta ao conceito de “fluido”, quando analisado segundo as teorias modernas da Física. Para isso, vamos rever o conceito de “campo”, segundo a Ciência e analisar a descrição do conceito de “campo elétrico”, segundo a teoria quântica. Por fim, essa descrição será comparada com o conceito de “fluido” para verificarmos se, no final das contas, ele permanece ou não atual e correto no Movimento Espírita.

Conceito de “campo”

O Wikipedia apresenta a seguinte definição matemática de campo: “uma quantidade física que possui um valor em cada ponto do espaço e do tempo”. (5) Exemplos são os campos elétrico, magnético, de velocidades, gravitacional etc. Os campos podem ter natureza escalar, vetorial ou algo matematicamente mais complexo. Um escalar é uma grandeza representada apenas por um número. Um vetor é um objeto matemático que possui magnitude, direção e sentido bem definidos sendo, portanto, representado por três números. Os campos elétrico e magnético são representados por vetores.

Michael Faraday, em 1847, foi o primeiro a usar o termo “campo”. A ideia de campo está relacionada a algum tipo de alteração que o espaço sofre, tornando-o capaz de agir sobre uma partícula através de forças, de acordo com as propriedades físicas da partícula. Esse conceito surgiu para explicar como par- tículas distantes poderiam “sentir” a presença umas das outras, isto é, como uma partícula exerce força sobre as outras. Uma partícula sozinha no espaço, ou seja, na ausência de outras partículas, não sentirá nenhum tipo de força ou interação. Mas, na presença de outras partículas, ela poderá sentir forças de atração ou repulsão. Por exemplo, cargas elétricas interagem entre si através da chamada Lei de Coulomb que diz que cargas iguais se repelem e cargas opostas se atraem de modo proporcional ao produto da intensidade das cargas e ao inverso do quadrado da distância entre elas. Mas a questão que intrigou os cientistas foi: como uma carga “sabe” da existência e proximidade das outras cargas, ou como “sabe” se essa outra carga é de sinal igual ou oposto à sua própria carga?

Alguma informação a respeito de cada carga presente num ambiente se propaga pelo espaço e essa informação é, de alguma forma, percebida e interpretada pelas outras partículas.

O campo elétrico foi definido para tentar explicar isso. Ele representa a alteração no espaço devido à simples presença de partículas de carga elétrica. As outras partículas “percebem” a existência de outras cargas através da percepção da intensidade, sentido e direção do campo elétrico. A Ciência, então, definiu formas matemáticas precisas de se quantificar o campo elétrico, como uma grandeza vetorial, e realizou inúmeras experiências para determinar mapas ou diagramas espaciais que o representam diante de diversos tipos e distribuições de cargas.

Embora útil, o conceito de “campo” era considerado mais um artifício matemático do que um objeto físico. Porém, com o desenvolvimento da teoria eletromagnética de Maxwell, demonstrou-se que a luz e a radiação eletromagnética são campos elétricos e magnéticos que oscilam no tempo e no espaço. Como a radiação eletromagnética continha energia e momento linear, os campos eletromagnéticos passaram a ter um status de objetos físicos reais.

O conceito de campo é algo interessante porque é imponderável por natureza. Essa imponderabilidade pode ter sido a motivação para que alguns companheiros espíritas pensassem que ele é melhor do que o termo “fluido” para descrever aquilo que chamamos de fluidos espirituais. Afinal, no item 2, do cap. XIV de A gênese (GE), (6) Kardec expôe sua opinião sobre o fluido universal:

[…] Como princípio elementar do universo, ele assume dois estados distintos: o de eterização ou imponderabilidade, que se pode considerar o primitivo estado normal, e o de materialização ou de ponderabilidade, que é, de certa maneira, consecutivo àquele. […]

Ou seja, como o estado de imponderabilidade caracteriza os fluidos espirituais, alguns companheiros abrigaram a ideia de que o conceito de campo, que também é algo imponderável, poderia descrevê-los diretamente. Se a questão fosse apenas a ponderabilidade, razão não haveria para desprezar o termo “fluido”, pois que os gases são fluidos imponderáveis. Mas estudos modernos, com base na física moderna, mostram que o conceito clássico de campo, como algo estático e que transmite informação instantaneamente a todo o espaço, não pode existir. É aí que vamos perceber a atualidade do termo “fluidos” e a sabedoria dos Espíritos em não propor outra denominação para os mesmos.

Com a descoberta da quantização da energia do campo eletromagnético, chamado fóton, e o surgimento posterior da teoria quântica da matéria, a forma como os cientistas entendem o conceito de campo mudou. A teoria que trata do campo eletromagnético de modo quântico é chamada eletrodinâmica quântica (ou QED da sigla em inglês) (7). A QED descreve a interação ou forças entre partículas carregadas reciprocamente através da troca de fótons. Esses fótons são chamados de virtuais ou mensageiros, porque só existem com o propósito de trocar informações eletromagnéticas entre as cargas elétricas.(8) O campo elétrico seria, então, representado pelo conjunto de fótons virtuais ou mensageiros trocados entre as partículas de carga que participam da interação entre elas. O campo elétrico, assim, não é mais uma entidade absolutamente imponderável e abstrata, mas sim um conjunto de partículas de luz – os fótons –, que fluem incessantemente de uma carga para outra a fim de efetuar a interação entre elas.

Retornemos, agora, às propriedades dos fluidos. Além de não resistir à deformação, a propriedade de ter habilidade de fluir é o ponto que liga o conceito moderno de campo ao conceito de fluidos. Como visto acima, o conceito quântico de campo elétrico envolve partículas de luz virtuais que, possuindo a habilidade de fluir de uma partícula material de carga à outra, permite a troca de informações eletromagnéticas entre elas. Por ser formado de objetos físicos que têm a habilidade de fluir, “campo” pode ser chamado de “fluido”. Portanto, o termo “fluidos” no Espiritismo não está ultrapassado, como alguns pensam, e é perfeitamente adequado para descrever os fluidos espirituais.

Em conclusão, mostramos como o termo “fluido” permanece atual mesmo com os avanços da física moderna. Destacamos a sabedoria dos Espíritos quando usaram a expressão “o que chamais” antes de “fluido” na resposta dada à questão 27a):

[…] O que chamais fluido elétrico, fluido magnético, são modificações do fluido universal, que não é, propriamente falando, senão matéria mais perfeita, mais sutil e que se pode considerar independente. Ao usar a expressão “o que chamais fluido elétrico…”, os Espíritos não se comprometeram em confirmar que a eletricidade e o magnetismo seriam fluidos, como se pensava na época, e, ao mesmo tempo, não deixaram de usar o termo que permanece atual. A Doutrina Espírita demonstra, mais uma vez, estar à frente de seu tempo.

 

 

REFERÊNCIAS:

1 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos . Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. 1. imp. (Edição Histórica.) Brasília: FEB, 2013.

2 “Fluid theory of electricity”. Disponível em: <https://goo.gl/n3KMg9>. Acesso em: 8 nov. 2015. 3 “Fluid”. Disponível em: <https://goo. gl/5I9Giq>. Acesso em: 8 nov. 2015.

4 CHIBENI, Sílvio S. Boletim GEAE 300 (1998). Disponível em: <http:// www.espirito.org.br/portal/artigos/ geae/entrevista-silvio-chibeni.html>. Acesso em: 23 nov. 2015.

5 “Field (physics)”. Disponível em: <https://goo.gl/umfqDO>. Acesso em: 8 nov. 2015.

6 KARDEC, Allan. A gênese . Trad. Guillon Ribeiro. 53. ed. 1. imp. (Edição Histórica.) Brasília: FEB, 2013.

7 “Quantum electrodynamics”. Disponível em: <https://goo.gl/t6ebjg>. Acesso em: 8 nov. 2015.

8 “String Theory and Quantum Electrodynamics for Dummies”. Disponível em: <http://goo.gl/tQAc3n>. Acesso em: 8 nov. 2015.

 


Fonte: http://www.souleitorespirita.com.br/reformador/noticias/a-atualidade-do-termo-fluido-no-espiritismo/

 




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