Renato Costa

>    Rotina e Ritual

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Acreditamos ser boa prática iniciar qualquer estudo sobre termos ou expressões que utilizamos no dia a dia com uma consulta a um bom dicionário. Vejamos, pois, quais as fronteiras existentes entre o que se chama de rotina e o que é intitulado ritual.

Consultando, no Aurélio, os verbetes e as acepções que interessam a nosso estudo, obteremos:

Rotina: 2. Seqüência de atos e procedimentos que se observa pela força do hábito, ...

Ritual: 5. Conjunto de práticas consagradas pelo uso e/ou por normas e que se deve observar de forma invariável em ocasiões determinadas, ...

Pelo que observamos, a diferença entre rotina e ritual está em que a primeira é um procedimento seguido por hábito, onde quem o segue o faz por aceitar de bom grado que ele permite alcançar o objetivo pretendido, sem se dar ao trabalho de tentar outro modo de fazer, ao passo que o segundo é um procedimento seguido por obrigação, fazendo com que quem o segue se sinta forçado a fazê-lo, sabedor de que, se não o fizer, terá que se retirar do grupo que dele participa.

Ouvimos muito dizer que o Espiritismo não possui dogmas, princípios revelados que ninguém pode questionar. Isso é verdade. Tão verdade, aliás, quanto o fato, às vezes esquecido, de que, segundo a nossa Doutrina, nada é proibido ao homem senão o que lhe é impossível fazer, uma vez que ele é dotado de livre arbítrio. No entanto, ser ou não permitido e ser ou não ser possível fazer não é tudo que nos interessa, como espíritas e cristãos. Como disse, em lúcida reflexão, o Apóstolo Paulo: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém.” É necessário, também, que, antes de fazermos qualquer coisa, saibamos se aquilo que pretendemos fazer nos convém, à luz do entendimento que a Doutrina Espírita nos propicia.

Desse modo, se, por um lado, o Espiritismo não prescreve rituais, por outro, ele, tampouco, os proíbe. É o entendimento mais amplo e profundo da vida que o estudo da Doutrina nos traz que nos leva a concluir que os rituais são desnecessários e indesejáveis na casa espírita. Afinal, já que um ritual é algo a ser seguido sem questionamento, quer racional, quer intuitivo, segui-lo é algo que a Codificação diz claramente que não nos convém fazer.

A questão da rotina é um pouco diferente. De fato, muitas rotinas existem na vida social e todos as seguimos de modo a melhor aproveitar o tempo e a não esquecer as muitas etapas pelas quais devemos passar nas diversas atividades sociais das quais participamos. Existem rotinas domésticas, rotinas no trânsito, na escola, na empresa, nas atividades de lazer. Rotinas são necessárias ao funcionamento e à estabilidade social. Por que, então, deixariam de existir nos centros espíritas? É evidente que existem.

A ordem de eventos e os demais procedimentos vigentes em uma instituição espírita podem e devem ser estudados com critério, com o melhor uso possível da razão e do bom senso de que somos dotados, visando o melhor aproveitamento por todos, tanto pelos trabalhadores da casa, quanto pelos convidados e pelo público que a freqüenta. Além disso, uma vez estudados cuidadosamente os procedimentos a serem adotados em uma casa espírita, é conveniente e recomendável que eles sejam utilizados rotineiramente, por um determinado período, que pode ser mais ou menos longo.

Não convém, no entanto, que quaisquer rotinas sejam perpetuadas, quer na casa espírita, quer em qualquer outra instituição humana. Afinal, não nos ensina a Doutrina que a humanidade está em constante evolução? Já que evolui a humanidade, é mister que evoluam com ela os procedimentos sociais, de um modo geral, e, em particular, aqueles adotados na casa espírita. Que sejam feitas, portanto, avaliações periódicas de tais procedimentos, à luz dos resultados que eles estão possibilitando obter e com vistas a aprimorá-los cada vez mais.

Se, na casa que o leitor freqüenta ou da qual participa como trabalhador, usa-se, rotineiramente, algum procedimento cuja motivação desconheça, procure sabê-la. Não só os dirigentes devem saber a razão de cada procedimento utilizado na casa como o devem saber todos aqueles que nela trabalham e, tanto quanto possível, aqueles que a freqüentam. Repetir os passos de qualquer procedimento sem se saber o porquê de se o fazer é cair em uma rotina sem sentido, algo incompatível com a necessidade que todos temos de evoluir. Se os dirigentes, por outro lado, lhe disserem que é assim porque tem que ser assim, desconfie, pois tal postura só cabe quando se adotam rituais. E isso, já sabemos que não nos convém.

A despeito do que dissemos até agora, não devemos esquecer que, se um procedimento é imposto como indispensável e aceito como tal pelos seguidores de uma religião ou de um grupo cultural qualquer, é porque o estágio evolutivo em que se encontram seus membros e a bagagem cultural que possuem, enquanto Espíritos encarnados, favorece essa atitude. Eles não estão certos nem errados por agirem assim. Tal atitude não os faz, em princípio, nem mais, nem menos evoluídos do que nós, mas apenas diferentes. Tenhamos sempre em mente que cada um percorre um caminho que lhe é próprio e que, se hoje, aquele parece mais atrasado que o outro, em vista do obstáculo que há à sua frente, mais adiante as posições poderão se inverter. E mais, que se hoje, aquele nos parece mais atrasado do que o outro na senda do conhecimento, pode ser que esteja à frente dele na senda da bondade.

Cabe aqui, um comentário final. Achar um procedimento mecânico e sem sentido, chamando-o de ritual, é uma coisa, debochar dele ou menosprezá-lo para diminuir nossos irmãos e irmãs que o praticam, outra muito diferente. Se a primeira pode, eventualmente, ser fruto de um discernimento correto, a segunda será, sempre, manifestação inequívoca de desprezo, intolerância e falta de caridade cristã.



Fonte: Artigo publicado originalmente na Aurora - Revista de Cultura Espírita, Ano XXVII, no 101/2006




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