Renato Costa

>   A questão primeira

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Renato Costa
>   A questão primeira

 


Uma obra erudita geralmente é avaliada por um crítico sério após lê-la e relê-la por diversas vezes, tendo em vista que ele precisa se familiarizar, primeiramente, com o assunto abordado e com a forma como a abordagem é feita, para, depois, supridas as eventuais deficiências de conhecimento sobre o que vai analisar, ele possa fazê-lo da melhor forma possível.

Ora, todo estudioso espírita já leu e releu O Livro dos Espíritos uma infinidade de vezes, se não de ponta a ponta, pelo menos de forma livre, consultando freqüentemente esta ou aquela questão, as respostas a ela dada pelos Espíritos e o comentário pertinente colocado pelo Codificador antes de passar à questão seguinte.

Pois bem, apesar de esta obra basilar da Doutrina Espírita já ter sido objeto de incontáveis estudos pelos mais diversos estudiosos de várias partes do mundo, cremos que a sua Questão Primeira contém um significado que passou despercebido até hoje para a maioria dos espíritas.

Dizemos isso porque temos ouvido a toda hora oradores e escritores respeitáveis e cultos referindo-se a Deus como “o Criador” ou “o Pai Criador”, a despeito de não terem os Espíritos usado tal designação em sua resposta, fato este, a meu ver, de uma significância profunda que precisa ser mais bem entendida.

A pergunta de Kardec foi de imensa sabedoria. Intuído, como sempre, por Espíritos de grande adiantamento, o Codificador não criou restrições para a resposta, o que teria feito se tivesse perguntado “Quem é Deus?“ Em vez disso, para não condicionar a resposta, ele perguntou “Que é Deus?“.

Notável resultado obteve Kardec com a sua pergunta, pois, ao responderem os Espíritos que Deus é “a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas”, eles, também, deixaram claro que Deus não era localizável pelo homem em qualquer escala por ele conhecida hoje ou que venha a sê-lo no porvir.

O termo “criador”, por outro lado, está associado em nosso entendimento a uma criatura, um ser que cria alguma coisa. É assim que os agnósticos se divertem com os crentes perguntando a eles: “Já que vocês dizem que Deus criou o Universo, nos digam quem criou Deus”.

O homem primitivo, ainda habitante das cavernas ou de precários abrigos e vivendo da caça e da coleta, carecia de conhecimento sobre o porquê das coisas. Desse modo, para ele, em sua religiosidade simples, tudo o que ele desconhecia, ele julgava ser obra direta de um deus criador. Para ele, um deus havia criado tudo, fosse concreto ou abstrato.

Com o avanço da civilização, os homens foram, pouco a pouco, entendendo os mecanismos da natureza e verificando que as causas para tais mecanismos eram passíveis de verificação. As religiões que haviam sido congeladas nas interpretações primitivas do porquê das coisas resistiram o mais que puderam ao avanço do conhecimento humano mas este, no fim de contas, acabou-se libertando das amarras da religião, alçando o vôo próprio que até hoje teme o contato com aquela que um dia lhe tolhia os movimentos.

Alguns religiosos, no entanto, com a mente aberta diante do avanço da ciência, procuravam encontrar nela um nicho onde lhes fosse possível colocar Deus, como se Deus pudesse ser colocado em algum lugar restrito. Houve, pois, o tempo em que, diante da teoria da evolução de Darwin, eles não mais diziam que Deus tinha feito os animais e as plantas, mas que havia feito os mundos e a mecânica do universo. Depois, com os avanços da astronomia e as teorias de formação de estrelas e planetas, tiveram que restringir Deus a criador das leis que governam o universo. Mais tarde, veio a teoria do “big-bang”, colocando-o como o início do universo conhecido e de suas leis, e Deus foi colocado como o criador do “big-bang”. Quanto mais avançava a ciência, mais para trás colocavam o deus “criador”.

Quanta sabedoria, portanto, tiveram os Espíritos na sua resposta! Causa primeira, em um universo onde todo efeito possui causa, é um conceito claro. Antes do que é primeiro não há nada. A causa primeira é a única causa incausada. Não há necessidade de mudar essa definição à medida que a ciência evolui. Ela era válida no século XIX, é válida hoje, no século XXI e o será para todo sempre. Se nos perguntarem, portanto “que é Deus?” ou, mesmo, “quem é Deus?”, saibamos responder como os Espíritos o fizeram, dizendo apenas: “Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas”.

 


Artigo publicado originalmente em O Espírita Fluminense, Ano L, No 308 – Setembro/Outubro 2006

 

Fonte: http://www.ieja.org/portugues/p_index.htm



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