Renato Costa

>   Minerais: Nossos Irmãos?

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Renato Costa
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O poético, amoroso e sábio Francisco de Assis ficou conhecido como o “irmão da natureza” porque a tudo, fossem conceitos concretos ou abstratos, chamava de irmão ou irmã. Era “irmão sol”, “irmão fogo”, “irmã lua”, “irmã água”, assim como era “irmã pobreza”, “irmã caridade” e assim por diante. Longe de ser força de expressão, o que estava por trás desse falar de Francisco era uma profunda compreensão da Criação. Como tudo emanou de Deus, cada processo natural, coisa ou ser vivente é filho ou filha da “Inteligência Suprema, Causa Primária de Todas as Coisas”. Assim, somos todos irmãos ou irmãs.

Vem-nos à mente, ao iniciarmos este estudo sobre os minerais à luz do Espiritismo, o frenesi com que tantas pessoas em todo mundo se dedicam a estudar e a louvar as alegadas propriedades curativas dos cristais e a fé com que nós, espíritas, tomamos um copinho de água fluidificada. Haverá fundamento para tais crenças? Existirá alguma relação entre um copinho de água e um cristal em um processo de cura? Acreditamos que, antes de nos estendermos em ponderações sobre tais questionamentos, é mister que saibamos do que estamos falando.

O que é essa matéria inerte e inorgânica que se encontra em toda parte? O que são essas rochas majestosas que enfeitam o horizonte? O que é essa pulverizada areia que nos fornece o lazer gratuito da praia? O que são esses nomes estranhos associados à nossa saúde, uns que nos deixam doentes quando fazem falta em nosso corpo e outros que o fazem justo por nele se encontrarem presentes? O que significa, afinal, toda essa pluralidade que fornece os diminutos tijolos com os quais a natureza ergue o magnífico edifício da vida? Cremos ser conveniente falarmos um pouco de nossos esquecidos irmãos do reino mineral, que tanto nos auxiliam e dos quais dependemos tanto e que, a despeito disso, costumam ser ignorados em nossas conversas sobre a evolução.



Antes de continuarmos, é importante esclarecermos uma confusão que é comum ocorrer quando falamos do reino mineral, qual seja, achar que o mesmo é constituído de rochas ou pedras. Não, o reino mineral é constituído, como o nome diz, de minerais. Pedras e rochas nada mais são que o resultado dos milhões de diferentes maneiras com que dois ou mais minerais podem se combinar de acordo com as condições a que foram submetidos ao longo dos séculos. Logo, quando quebramos uma pedra ou explodimos uma rocha não estamos quebrando um mineral, nada se passando, portanto, com o princípio inteligente que porventura possa existir associado ao mesmo. “O que?”, poderá a essa altura nos perguntar, surpreso, de sobressalto, o amável leitor, “Que história é essa de princípio inteligente associado a um mineral?” A perspectiva de tal pergunta nos convida a aprofundarmos um pouco mais o entendimento do que são esses integrantes do reino mineral.

Os minerais encontrados na natureza terrestre são, normalmente, sólidos, duros e compactos, exibindo formas precisas, a que chamamos de cristais. Alguns sólidos e líquidos amorfos encontrados na natureza são, também, aceitos como minerais, por atenderem aos critérios físico-químicos pertinentes. Um caso particular destes últimos são os elementos ou substâncias que se encontram no estado líquido na natureza enquanto que somente exibem a forma cristalina no estado sólido. Um caso conhecido é o hidróxido de oxigênio. Em seu estado sólido, essa substância é um mineral cristalino encontrável nas nuvens, em geadas ou nos majestosos icebergs e à qual nosso vernáculo dá o nome de gelo. No entanto, ela se acha muito mais facilmente na natureza em sua forma líquida e amorfa, quando é conhecida como água.

O cristal é um elemento de geometria constante e regular, geometria esta que é mantida, não importa quanto se quebre o mineral, nem mesmo se o reduzirmos a pó. Isto se dá por uma razão ao mesmo tempo simples e intrigante, qual seja, o fato de a estrutura exibida externamente pelo cristal, não importa o seu tamanho, ser exatamente a mesma com que se organizam os átomos dos elementos químicos que o compõem. Cada mineral possui propriedades físico-químicas bem definidas e únicas que o caracterizam. A composição química e a estrutura cristalina são as características que, juntas, definem um mineral específico. A grafite e o diamante, por exemplo, possuem propriedades físico-químicas distintas, a despeito de terem ambos a mesma composição química, qual seja, a de átomos de carbono. Isso se dá porque as respectivas estruturas cristalinas diferem, seguindo o carbono o sistema cristalino cúbico e o diamante, o hexagonal, fruto das condições diferentes sob as quais se formaram um e outro.

Agora que já falamos de minerais, voltemos à nossa questão mais acima, sobre “princípio inteligente”. Examinando a Codificação, constatamos que a Questão 540 de O Livro dos Espíritos nos dá uma pista para a respondermos, quando os Espíritos afirmam: “... É assim que tudo serve, que tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo, que também começou por ser átomo”. Já quando lemos Léon Denis, em O Problema do Ser, do Destino e da Dor, vemos que ele usa uma forma poética para passar a mesma idéia: “..O espírito dorme no mineral, sonha no vegetal, agita-se no animal e desperta no homem”. Sem maiores raciocínios, com base apenas nas duas citações acima, podemos aceitar que algo existe no mineral além do puramente físico.

O fato de seguirem os minerais um sistema tão ordenado em sua formação sugere a existência de uma inteligência que os organiza. Parece, ainda, sugerir que a matriz inteligente que define um mineral reside além de cada pedaço, além do bloco do qual se tenha cortado o pedaço, além mesmo do mineral enquanto espécie presente no planeta. Quando os diversos equipamentos de prospecção geológica a bordo da sonda Cassini-Huygens escrutinaram o planeta Saturno e sua lua Titã, eles procuraram lá sinais claros da existência dos mesmos minerais que existem aqui na Terra. Sabendo os cientistas, apesar de usando outro argumento e outros conceitos, que temos uma matriz inteligente única para todas as ocorrências de cada elemento mineral em nosso planeta, eles partem da premissa de que tal matriz seja única em todo o Universo ou, pelo menos, em nosso Sistema Solar.

Se tomarmos o conceito de alma-grupo-da-espécie, proposto por Jorge Andréa em Impulsos Criativos da Evolução para as espécies animais, e o estendermos para o reino mineral, a única diferença que saltará aos nossos olhos é que existe uma diversidade muitíssimo maior de espécies animais do que minerais. O que vemos, portanto, é que o processo que desencadeou a formação de vórtices com características próprias no interior das almas-grupo das diversas espécies animais com vistas à formação sucessiva de sub-espécies, raças e, finalmente, indivíduos, ainda não foi disparado no reino mineral. Entendendo dessa forma, a figura poética de Léon Denis fica clara quando ele informa que o “Espírito dorme no mineral” (o destaque é nosso).

Diz-nos Emmanuel, na resposta à Questão 79 de O Consolador, que “o mineral é atração”, idéia que Jorge Andréa desenvolve extensamente no Capítulo I da obra citada mais acima. Por falta de espaço em um artigo como este, sugerimos ao leitor que não deixe de ler obras tão importantes para, entre outros ensinamentos, receber aqueles que se referem ao reino mineral, objeto de nossa conversa.

Do que pudemos aprender com os citados autores, parece lícito deduzir que o princípio inteligente se exercita no reino mineral experimentando exatamente as características que estudamos, quais sejam, a combinação química dos elementos básicos, a estrutura cristalina em que essa combinação é arranjada e as transformações que a natureza e o homem exercem sobre esse resultado. Estaria, dessa forma, se preparando para continuar sua jornada, não no reino vegetal terrestre, mas no próprio reino mineral, porém, em mundos mais e mais evoluídos, onde a diversidade de opções se lhe iria abrindo de forma crescente, dando ensejo às inúmeras gradações de sutileza que nossa Doutrina nos informa existir. Concluir que os minerais não evoluem pela observação daqueles existentes em nosso planeta é ignorar a constituição dos mundos nas diferentes etapas evolutivas. Concluir que eles não possuem vida, sendo incapazes, portanto, de evoluir por si mesmos, é razoável, sensato e em consonância com os ensinamentos doutrinários. No entanto, o fato de eles não possuírem vida não significa que não evoluam pois, se tal não ocorresse, não haveria como existirem minerais mais sutis nos mundos mais evoluídos.

Acreditando que já temos uma melhor idéia do que sejam os minerais, pensemos, um pouco, nas alegadas propriedades curativas dos cristais de que falamos no início deste estudo. Sabemos que todo objeto de uso pessoal fica impregnado, em maior ou menor grau, das energias emanadas de seu dono, conforme seja maior ou menor o apego do possuidor pelo objeto possuído. Tal realidade é estudada pela psicometria. Não é disso, no entanto, que estamos falando e, sim, da impregnação consciente e bem intencionada de vibrações puras e amorosas.

À luz dos ensinamentos espíritas, sabemos que bons Espíritos podem utilizar médiuns com boa capacidade de magnetização para transferir fluidos curadores para a água ou para quaisquer substâncias ou objetos adequados para tal. Tal certeza é o que justifica o uso generalizado nas casas espíritas daquilo que chamamos de água fluidificada. Do mesmo modo, devemos entender que um cristal que tenha sido impregnado por um Espírito, encarnado ou não, com os seus melhores sentimentos, pode, sim, ter efeitos benéficos sobre quem o possui. Não, porém, por seguir ele este ou aquele sistema de arranjo espacial em sua estrutura cristalina, nem por possuir tal ou qual composição química. Tirando os cristais de minerais radioativos, cancerígenos e venenosos, todos os demais poderão ser benéficos a nós, pelo menos, tão benéficos quanto puro for o amor de quem os houver impregnado de boas vibrações e grande forem a fé e o merecimento de quem os utilizar. A composição química e a estrutura cristalina do mineral irão, sim, determinar, a maior ou menor facilidade com que os fluidos curativos serão a ele transmitidos e a duração com que os mesmos ficarão presentes no cristal, do mesmo modo que faz com a energia luminosa que sobre ele incide.

Para finalizar, queremos deixar claro que não estamos sugerindo, nem apoiando, o uso de cristais em casas espíritas. Pelo contrário, o julgamos contra-indicado. Segundo o entendimento que nos propicia o estudo da Doutrina, não há nada, absolutamente nada, que possa ser obtido de um cristal, que não possa ser igualmente obtido de um copinho de água fluidificada, de um passe transmitido com amor e recebido com compenetração ou com o simples e dedicado trabalho no bem, em qualquer hora e lugar. Por que tornar dispendioso para a instituição um tratamento se o mesmo ou melhor efeito pode ser obtido com simplicidade e quase sem custo?

 

Bibliografia

ANDRÉA DOS SANTOS, Jorge. Impulsos Criativos da Evolução. 3. ed. Rio de Janeiro: Societo Lorenz, 1995.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 76. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995.
DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino e da Dor. 10. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1997.
PERONI, Rodrigo. Mineralogia – Estudo dos Minerais. Apostilha de Geologia da Engenharia I do Departamento de Engenharia de Minas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Obtido, em 09/07/2004 de http://www.lapes.ufrgs.br
XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 17. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995.

 

Fonte: http://www.ieja.org/portugues/p_index.htm

Artigo originalmente publicado na Tribuna Espírita - Setembro/Outubro de 2005 - João Pessoa, PB

 



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