Renato Costa

>    Inteligência e Instinto: a tênue fronteira

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Renato Costa
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Ramos da Ciência Surgidos no Século XX permitem Novo Entendimento quanto à fronteira existente entre a Inteligência e o Instinto


O tema Inteligência e Instinto é desenvolvido na Codificação
da Questão 71 à Questão 75 de O Livro dos Espíritos e, com mais detalhe, do Item 11 ao Item 19 do Capítulo III de A Gênese. Por falta de espaço em um artigo desta natureza, não transcreveremos as questões, as respostas dos Espíritos e o raciocínio do Codificador, nem teceremos comentários a eles. Uma clara compreensão de nosso trabalho, no entanto, não prescinde de tal estudo, motivo pelo qual incentivamos nosso amável leitor que não as deixe de estudar antes de prosseguir.

Como dissemos em nosso outro artigo, publicado nesta revista (RIE), o quadro atual de conhecimento no estudo do comportamento animal é fruto da maturação de duas abordagens científicas que surgiram nas décadas de 20 e 30 do século XX, quais sejam, respectivamente, a Psicologia Associativa e a Etologia. A primeira teve início nos EUA, com a participação de psicólogos e com enfoque nos comportamentos de exemplares de animais testados em experimentos de laboratório, associando tais comportamentos a aprendizado. A segunda, na Europa, com a participação de zoólogos e com enfoque nos comportamentos espécie-específicos de exemplares observados em seu habitat natural, associando tais comportamentos a instintos inatos ou herdados geneticamente. Durante um certo tempo houve acirrado debate entre os estudiosos partidários das duas abordagens, debate esse que ficou conhecido em inglês como o “the nature x nurture controversy” (a controvérsia natureza x criação). Hoje em dia, no entanto, prevalece a noção de que o comportamento animal deva ser visto sempre segundo seus dois componentes, o instintivo e o aprendido, que aparecem, um e outro, em maior ou menor grau, conforme a circunstância que se apresenta.

Antes de prosseguirmos em nosso estudo, convém notarmos que nenhuma das duas abordagens ao estudo do comportamento animal que deram origem ao atual estágio de conhecimento científico havia ainda surgido por ocasião da Codificação. Em conseqüência desse fato, tudo o que vamos falar sobre comportamento animal daqui em diante são elementos de observação de que Allan Kardec não dispunha quando escreveu na Codificação sobre inteligência e instinto.

“Todo ato maquinal é instintivo ... Ao ato instintivo falta o caráter do ato inteligente ...”
(GE III, 12)


Os termos comportamento instintivo ou comportamento inato são usados para designar os comportamentos que os etologistas entendem como herdados e controlados geneticamente, o que nós, espíritas, entenderíamos como patrimônio da alma. É caracterizado um comportamento instintivo quando animais de uma mesma espécie seguem todos a mesma seqüência de ações quando sob as mesmas condições ambientais. Comportamentos instintivos podem ser de três tipos: taxias, que são movimentos automáticos de um organismo, aproximando-se de um estímulo ou se afastando dele, como ocorre com os cupins em relação à luz; reflexos, que são respostas involuntárias de um organismo frente a um estímulo, como o retrair da mão de um animal quando ela toca um objeto quente, e padrões fixos de ação (PFA) ou instintos propriamente ditos, que são padrões complexos de comportamento, porém, geralmente, inflexíveis e que envolvem todo o corpo do animal, podendo necessitar de um estímulo externo para serem disparados. Exemplos simples são casais de aves alimentando bocas abertas (não necessariamente filhotes), reação de medo a predadores e a resposta de fuga ou ataque de um animal frente à agressão. Um exemplo mais complexo são os milhares de movimentos que uma aranha repete quase sem alteração cada vez que tece suas teias de aparência sempre igual.

O termo comportamento aprendido é usado para designar alterações no comportamento como resultado de experiências vividas. As modalidades existentes são as seguintes: estampagem, que é um comportamento que possui componente inato e aprendido e é adquirido em um período específico e limitado de tempo na vida do organismo. Patinhos recém-nascidos, por exemplo, identificarão como sua “mãe” (protetora) e semelhante (outro indivíduo da espécie à qual pertencem) um objeto de razoável tamanho que se mova e emita sons, desde que este for a primeira coisa que vejam junto a si no momento em que nascem e por um breve período após. Daí em diante seguirão o objeto onde ele for. A estampagem persiste pela vida do indivíduo. Esse comportamento se chama de estampagem porque equivale a uma estampa gravada para sempre no indivíduo. Somente espécies menos evoluídas estão sujeitas à estampagem; habituação, que é uma redução em uma resposta anteriormente apresentada quando nenhuma recompensa ou punição se segue. Se um barulho estranho for ouvido por um cão de guarda ele entra em alerta. Se esse mesmo barulho voltar a ocorrer sistematicamente na mesma hora e nas mesmas circunstâncias, dentro de certo tempo o cão se habituará ao barulho e não mais entrará em alerta devido a ele; condicionamento clássico, que consiste em associar uma resposta já existente a um estímulo novo ou substituto. É uma forma importante para alterar um Padrão Fixo de Ação (Instinto) de modo ao animal poder se adequar com mais precisão a circunstâncias ambientais. Se o dono de um cão soar um sino antes de servir a ração ao animal, este se condicionará a salivar toda vez que ouvir tocar um sino, pois terá condicionado a oferta de ração ao estímulo de ouvir o sino que, a princípio, nada tem a ver com alimentação; condicionamento instrumental ou aprendizado por tentativa e erro, que consiste em se modificar uma resposta pré-existente a um estímulo ou criar novas respostas. Ocorre, por exemplo, quando o animal aprende quais comidas são saborosas e quais não são. Testes de laboratório comuns para avaliar a capacidade que um animal tem de aprender por tentativa e erro são labirintos que o animal deve percorrer para receber uma recompensa, usualmente uma comida de que gosta. Uma vez resolvido o labirinto o animal geralmente memoriza a solução e passa a ir direto até a meta, demonstrando que aprendeu uma seqüência lógica e visual, e aprendizado por “Insight” ou discriminação, que é um tipo de comportamento que, indubitavelmente, requer inteligência, pois o animal deve analisar a situação, examinar quais os elementos de que dispõe e criar uma solução inteiramente nova para atingir sua meta. Verifica-se quando, por exemplo, um chimpanzé faz uma pilha de engradados para usar como escada de modo a obter um prêmio em comida pendurado fora de seu alcance, sem nunca ter visto antes essa solução. Ou ainda, quando um corvo da Nova Caledônia dobra um pedaço de metal com seu bico para apanhar a comida no fundo de um tubo após ter observado um corvo maior ter se apossado do único pedaço curvado de metal que havia disponível e ter conseguido com o mesmo atender à mesma meta.

“A inteligência se revela por atos voluntários, refletidos, premeditados, combinados, de acordo com a oportunidade das circunstâncias.”
(GE III, 12)

Agora que conhecemos os termos corretos para identificar os diversos tipos de comportamento animal é importante sabermos que o comportamento animal em cada circunstância pode ser um casamento de vários desses tipos, cada um deles participando em maior ou menor grau.

“Aliás, é freqüente o instinto e a inteligência se revelarem
simultaneamente no mesmo ato.”
(GE III, 13)

Quando um castor constrói uma barragem, por exemplo, assume-se que a solução de construir a barragem seja um padrão fixo de ação ou instinto. Está na memória genética de sua espécie, segundo os cientistas, ou na memória anímica da espécie, segundo uma visão espírita, que a construção de barragens é uma forma de garantir a formação de um lago da profundidade conveniente para que ele possa construir sua moradia ao abrigo dos predadores e possa ter uma reserva de alimentos acessível durante o inverno, quando a superfície do lago está congelada. Entretanto, a constatação de se o lago precisa ou não ser aprofundado e a forma como irá construir a barragem, se necessária, assim como a escolha do material de que se irá utilizar para tal, são todos comportamentos aprendidos, parte por tentativa e erro, quando já age sozinho na fase adulta, mas parte, certamente, sob orientação de sua mãe quando mais novo.

Um outro exemplo, além do do castor, é o das aves que constroem ninhos, sempre se adaptando aos materiais encontrados nos locais para onde se mudam e às características desses locais. A maioria das interações possíveis em determinado ambiente é por demais complexa para que instintos fixos delas se incumbam. A participação do comportamento aprendido, tanto na forma de tentativa e erro como na forma de aprendizado por “insight”, é, portanto, muito importante para animais que se deslocam de um para outro ambiente.

Ao contrário dos instintos, que são consolidados na espécie e passados entre as gerações, os comportamentos aprendidos requerem, para sua fixação, a manutenção por longos períodos das circunstâncias que os permitiram ou provocaram seu aparecimento. É desse modo que comunidades de determinada espécie que migraram há séculos de uma para outra região, vão, aos poucos constituindo uma nova espécie, com instintos modificados em função da adaptação às novas condições. A modificação de instintos a partir de comportamento aprendido, após a consolidação desse último, sugere, para os cientistas, que houve uma mudança genética na espécie e, para nós, espíritas, que mais um aprendizado foi adicionado ao seu patrimônio anímico.

Como vemos, a fronteira que separa a inteligência do instinto é bastante tênue. Não só porque vários comportamentos que eram tidos como instintivos hoje são ditos inteligentes como pelo fato, constatado pelos estudiosos, de que os comportamentos aprendidos por tentativa e erro e por “insight”, que requerem inteligência para ocorrer, podem, ao cabo de várias gerações, ser consolidados como instintos. O instinto, portanto, ou, pelo menos, a parte dele conquistada após a definição da individualidade, pode ser visto como uma espécie de inteligência fóssil enterrada nas profundas camadas da mente.

O autor é engenheiro e expositor espírita no Rio de Janeiro

 

Bibliografia

Cardoso, Sílvia Helena, PhD e Sabbatini, Renato M. E., PhD. Aprendendo quem é a sua Mãe – O comportamento de Imprinting. Obtido em março de 2003 de http://www.epub.org.br/cm/n14/experimento/lorenz/index-lorenz_p.html.

Animal Behavior, Chapter 20. Obtido em março de 2003, de http://clab.cecil.cc.md.us/faculty/biology1/behavior.htm.

Beaver. Canadian Wildlife Service Hinterland Who’s Who. Obtido em junho de 2003, de http://www.cws-scf.ec.gc.ca

Costa, Renato. Os Diversos Caminhos da Evolução Anímica. In Revista Internacional do Espiritismo, Maio de 2003.

Domestic Animal Behavior. Obtido, em março de 2003, de http://asci.uvm.edu/course/asci001/behavior.html.

Swanson David, Dr. Behavior. Obtido, em março de 2003, de http://www.usd.edu/bol/faculty/swanson/ornith/lec16.htm.

Innate Behavior. Obtido, em março de 2003, de http://users.rcn.com/jkimball.ma.ultranet/BilogyPages

Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. FEB, 76 ed, 1995.

______, _____. A Gênese. FEB, 36 ed, 1995.

Kohler’s Work on Insight Behavior. Animal Cognition Home Page. Obtido, em março de 2003, de http://www.piegon.psy.tufts.edu/psych26/hohler.htm.

Artigo Publicado na Edição de Dezembro de 2003 da Revista Internacional de Espiritismo

Fonte: http://www.ieja.org/portugues/p_index.htm



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