Espiritualidade e Sociedade



Humberto Schubert Coelho

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Humberto Schubert Coelho
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Queridos irmãos do movimento espírita, diante do acirramento das tensões por ocasião das manifestações de apoio ou contrariedade a um posicionamento do nosso respeitabilíssimo irmão Divaldo Franco, muitos de nós nos vimos envolvidos em discussões, reflexões, leituras e, talvez em menor frequência, mas afortunadamente, orações.

O escalonamento da celeuma seguiu ao ritmo frenético das redes sociais, às quais nossas consciências ainda não começaram a se adaptar, e a passionalidade aflorou de forma destrutiva e desagregadora, contrariando frontalmente tudo o que entendemos por Doutrina dos Espíritos. Através de mecanismos de reforço e recompensa muito primários, as plataformas de rede social estimulam as dicotomias e as bolhas ideológicas, onde os sujeitos com número suficiente de apoiadores têm a ilusão de que seu ponto de vista é triunfante, quiçá correto. Na polêmica em questão, apoiadores e contestadores de Divaldo acrescentaram à fala dele uma série de inferências, juízos ou condenações, muitas vezes em sintonia com a formatação fragmentária e opositiva estimulada pela rede social.

Não poucos confrades observaram a contradição entre as manifestações políticas e ideológicas, pró ou contra o comunicado do espírita baiano, e os postulados serenos e consoladores da filosofia espírita.

Mais do que apregoar o amor, a instrução e a união de forças para a transformação íntima e coletiva – pautas de todas as religiões e grande parte das correntes filosóficas –, o Espiritismo se tipifica pela abordagem e pelo ponto de vista espirituais de todas as questões. É inconcebível, pois, que sigamos a projetar nossas construções mundanas, horizontais, por sobre a luz meridiana da filosofia imortalista e perenialista das coletividades esclarecidas. Todos temos direito a preferências, opiniões e perspectivas a respeito dos assuntos em voga, mas tentar ler a filosofia dos espíritos sob sua chave é, mais que uma perversão de valores, uma perversão lógica.

O Espiritismo não foi, não é e jamais será de direita ou de esquerda, não importa quantos autores se esforcem por subsumi-lo nesta dicotomia inteiramente terrena. A falange consoladora reuniu propositalmente indivíduos com as mais díspares posições políticas e filosóficas na Terra, para mostrar, justamente, que a libertação da matéria eleva incomensuravelmente essas concepções rumo à fraternidade universal.

Seres falhos que somos, permitimos vez ou outra que o homem velho aflore e assuma a direção de nosso comportamento, obscureça a nossa consciência. Não podemos permitir, no entanto, que essas recalcitrâncias nos hábitos automáticos voltem a pautar o comportamento médio que com tanto sacrifício e amparo do Alto sustentamos. É preciso rejeitar insistentemente o convite ao desforço moral e intelectual representado pela leitura materialista, oportunista, mística, economicista, psicologizante, política, sociológica ou ideológica da Doutrina dos Espíritos.

Como sempre, as dissenções e as rusgas passarão, dando lugar a novos acontecimentos íntimos e coletivos, enquanto a sabedoria e o Bem restarão incólumes à passagem dos tempos e a toda a transitoriedade mundana. Restar-nos-á apenas o saldo consciencial do que dela tivermos extraído, do bem que fomos capazes de espalhar inspirados por ela, que não necessita de nós, de nossa agressividade, ponto de vista ou passionalidade para sua defesa.

 

 

Fonte: http://filosofiaespiritismo.blogspot.com.br/2018/02/o-ponto-de-vista.html

 

 


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